Notas

Gogol Petroleiro

Publicado em

[Almas Mortas, Nikolai Gogol, páginas 402-408, Nova Cultural, 2003] A Folha noticiou: “A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, anunciou que a empresa está estudando criar uma nova diretoria, para assegurar o ‘cumprimento de leis e regulamentos internos e externos’”.

A medida me lembrou um trecho de Almas Mortas, de Nikolai Gogol. O protagonista, Tchítchicov, encontra um fazendeiro, Kochkariov, que pretende uma “organização correta e racional da economia rural” e para isso elabora uma estrutura burocrática que acredita infalível. Porém, Tchítchicov descobre, “o Escritório de Recepção de Relatórios e Petições existia só no letreiro, e a porta estava fechada. O seu diretor, Khruliov, tinha sido transferido para a recém-criada Comissão de Construções Rurais. No seu lugar ficara o mordomo Berezóvski; mas também ele tinha sido despachado pela Comissão de Construções. Encaminharam-se então para o Departamento de Assunto Rurais, que encontraram em reforma: acordaram um bêbado que lá se encontrava, mas não conseguiram dele nenhuma informação”. Quer dizer: as coisas tinham degringolado. Kochkariov, então, antecipa Maria das Graças: “Era necessário repreender e sacudir a todos, pois do contrário tudo era capaz de adormecer e as molas da administração podiam enferrujar e enfraquecer; que, em consequência do acontecido, viera-lhe à cabeça uma ideia feliz: criar uma nova comissão, que se chamaria Comissão de Controle da Comissão de Construções, de maneira que dali para diante ninguém mais se atreveria a roubar”.

Notas

Nieztsche Amazônico

Publicado em

[O Império da Amazônia, Pedro Cavalcanti, página 54, Cia. das Letras, 1995] Uma descrição do anoitecer amazônico que lá pelo terceiro parágrafo encontra Nietzsche:

“Para quem não está acostumado, o cair da tarde no meio da mata fechada, com rio passando perto, é mesmo de arrepiar. As sombras vêm avançando e vai dando aquele aperto no coração que ninguém explica.

Papagaios e araras cruzam os céus numa última berraria de despedida, somem na distância engolidos pelo silêncio das árvores. De longe em longe os últimos cantos de pássaros soam em despedida. Cada vez mais raros… Cada vez mais tristes…

A gente pára o que está fazendo, olha para o escuro da mata e parece que o escuro da mata é que está olhando pra gente.”

Ou quase. De todo modo, a frase do filósofo está aqui.

Crítica Cultural

Gogol Acumulador

Publicado em

[Almas Mortas, Nikolai Gogol, páginas 146-150, Nova Cultural, 2003] Encontrei um acumulador no Gogol (fica a dica para a Discovery):

“Tchítchicov entrou no vestíbulo amplo e escuro, do qual soprava um bafo frio, como dum porão. Do vestíbulo, passou para um aposento, também escuro, parcamente iluminado por uma luz que se filtrava através duma larga fresta embaixo da porta. Abrindo essa porta, ele encontrou-se finalmente na claridade, e ficou estarrecido diante da desordem que se descortinou aos seus olhos. A impressão era de que estavam raspando os soalhos da casa inteira, e tinham amontoado ali, provisoriamente, toda a mobília. Sobre uma das mesas havia até uma cadeira quebrada, e, ao lado dela, um relógio de pêndulo parado, no qual uma aranha já havia tecido sua teia. Ali mesmo, encostado do lado contra a parede, havia um armário cheio de prataria velha, frascos de cristal e porcelana chinesa. Sobre o bureau marchetado de mosaico de madrepérola, que em parte já se desprendera e deixara atrás de si apenas uns pequenos regos amarelos, cheios de cola, havia um porção de coisas de toda espécie, um monte de papeluchos cobertos de escrita miúda, seguros por um peso de mármore em forma de ovo, um livro muito antigo encadernado em couro vermelho, um limão todo seco, do tamanho de uma avelã, um braço de poltrona quebrado, um cálice com um líquido não identificado e três moscas coberto por uma carta, um pedacinho de lacre, um farrapo de pano apanhado não se sabe onde, duas penas sujas de tinta, secas como se fossem tísicas, um palito de marfim totalmente amarelecido, com o qual o dono da casa decerto já escaranfuchara os dentes antes da invasão de Moscou pelos franceses.

(…) No canto do aposento amontoava-se tudo o que era mais grosseiro e indigno de ficar em cima das mesas. O que, exatamente, se encontrava naquele monte era difícil de definir, porque a poeira em cima dele era tanta, que as mãos de quem ousasse tocá-lo transformar-se-iam logo em luvas. O que se percebia melhor era um pedaço de pá quebrada e uma sola de bota velha, que apareciam mais à superfície. Jamais se poderia dizer que neste aposento pudesse morar um ser vivo, se a sua presença não fosse denunciada por uma carapuça velha e surrada que estava em cima da mesa.

(…) Nunca satisfeito com o que tinha, ele saía todos os dias para andar pelas ruas da sua aldeia, espiando embaixo das pontes e das passarelas, e tudo o que lhe caía nas mãos, fosse um sola velha, um trapo de mulher, um prego de ferro, um caco de barro, tudo ele carregava para a sua casa e punha naquele monte que Tchítchicov vira no canto do aposento. ‘Lá vai o pescado para a pesca!’, diziam os campônios quando o viam sair para as suas caçadas. E, com efeito, depois da sua passagem não era mais preciso varrer as ruas: se acontecia a um oficial em trânsito perder uma espora, num ápice essa espora ia parar no já conhecido monte; se um camponesa distraída esquecia seu balde junto do poço, ele carregava também o balde. (…) No seu quarto, apanhava do chão tudo o que via: um pedacinho de lacre, um papelucho, uma peninha, e colocava tudo na escrivaninha ou no beiral da janela.”

Crítica Cultural

O Título Deste Post É

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[O Nome Deste Livro é Segredo, Pseudonymous Bosch] O estúdio Laboratório Secreto fez uma das melhores, senão a melhor, capa para este livro. A transparência em “segredo” faz a palavra desaparecer quando há pouca luz, dificulta a leitura de acordo com o ângulo e distância. A edição brasileira incorpora o mistério; os recuos do narrador quanto ao que contar e ao que esconder estão representados de cara.

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Compare com outras versões:

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O pontilhado tem o mesmo espírito, mas não o mesmo efeito.

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Inspiração bem convencional e que lembra a série O Segredo (se intencional, pior).

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Explora a iconografia do enredo (os elementos de circo) e traduz “mistério” pela interrogação e pelo truque da cartola do mágico — também convencional.

Crítica Cultural

Escritores, Esses Mussolinis

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[O Nome Desse Livro é Segredo, Pseudonymous Bosch, pg.119] “Um fato pouco conhecido sobre Mussolini é que ele também era um romancista. Para mim, isso faz todo sentido. O escritor de um romance é como o ditador do romance; ele faz com que todas as personagens façam exatamente o que ele quer que façam, e digam exatamente o que ele quer que digam. Mas, por favor, não tirem conclusões a respeito dos tipos de pessoas que escrevem romances. Afinal de contas, nem todos os romancistas são homens loucos com sede de poder — alguns são mulheres loucas com sede de poder.”

Crítica Cultural

Uma Corrente Estranha

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[Almas Mortas, Nikolai Gogol, página 76, Nova Cultural, 2003] “Mas por que será que, no meio dos momentos mais leves, alegres e despreocupados, ás vezes surge por si mesma uma corrente estranha? O riso ainda nem teve tempo de se apagar do nosso semblante, e já nos transformamos em outro, entre as mesmas pessoas, e já é outra a luz que ilumina o nosso rosto…”