Crítica Cultural

A carroça de nada pela estrada de tudo: sobre o “Hinário Ateu”, de Lucas Grosso

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[publicado como prefácio do livro, que está à venda no site da editora Urutau]

O filósofo francês Jean-Paul Sartre afirma que uma das coisas que nos definem é sermos seres em situação: seja o que for a nossa liberdade, ela se efetiva inscrita nos limites de um campo de possibilidades formado pela sociedade, pela história, pelo corpo. O jogo entre a total ausência de determinações — “somos condenados a ser livres” — e todas as coisas que nos cabe avaliar, interpretar, recusar, admitir forma a experiência do sujeito. Creio que essa pode ser uma chave interessante para pensar os poemas deste Hinário Ateu, de Lucas Grosso.

Como ao próprio Lucas agrada fazer — quando ensaísta, o autor gosta de entreter problemáticas e a meio caminho deixar o leitor por sua conta e risco — vou explorar essa linha de leitura apenas para lhe devolver, sem fechar caso, o livro. Ande comigo por ora por esses cenários paulistanos, por esses pesadelos brasileiros; atentarei a três situações que circunscrevem a poética de Lucas e depois do fim você dirá se concorda consigo. São elas: a cidade, o imaginário, a política.

A cidade: espaço do trabalho, do estreitamento da vida, da submissão a rotinas e coações (veja, nesse sentido, “O homem simulacro” e “A máquina está ligada”, entre outras) — o poeta, ainda e talvez apesar de sua incompreensão livre, não consente a essa cidade-via-crúcis: opõe-se a ela com violência (“Nobody cares”) e cansaço (“Vista fechada”), ou, mais fino, descobre aí algo que, em surto de luz, implode a sua lógica (o belo “A pomba executiva”).

O imaginário: persistência das poéticas alheias, versos, personagens, cenas que lhe soterrariam sob a “angústia da influência”, mas são reelaborados em ato: as irrealidades criadas por outros escritores, por músicos e cineastas, penetram o real (“Você”, no qual, como em uma canção de Alex Turner, Lucas se vê struggling with the notion that it’s life, not film), funcionam de modo a matizar os seus sentidos (“Releituras”), atuam como interlocutores privilegiados (“Meditação da Galeria do Rock”). Há aqui, como acima, desalento (ferino em “A mesma roupa cor-de-sangue”), contudo, também livramentos, de surpresa fáceis e lúdicos (“Carmen”). Basta ser leve?

A política: as repulsas que os donos do poder geram (“Manhã de um feriado nacional”) e as lutas sociais que demandam do poeta que se posicione. Lucas não decepcionaria Sartre nesse quesito: realiza, muita vez, como que alinhado ao filósofo, poesia engajada, contrapondo-se ao racismo (“Questão para o Enem”), ao machismo (“A mulher re-des-construída”), à barbárie normalizada (“Fragmentos de uma bala perdida”). Lucas se distancia daqueles que não compartilham dessas pautas (a quase crônica “Cabeças falantes”) e admira quem se coloca nesse combate e é capaz de gerar transformação (“Patricia”). Em meio a isso, deseja, igualmente, sossego (“Hoje”).

Outras séries poderiam ser formadas. Essas que compus evidenciam para mim o quanto o autor escreve na medida em que se vivencia envolto em sistemas, símbolos, opressões; o quanto está em situação. E, no interior dessa circunscrição, reage, lança-se em projeto (eis Sartre outra vez), recua, descansa sob a sombra de si mesmo. Lucas anota “sou um homem doente”, mas no fundo poderia ter dito “sou um homem comum” — e essa é nossa tragédia e nossa glória.

Não estaria tudo evidente desde o título? Hinário Ateu — a expectância do hino religioso, de um lado; a falta de um fundamento transcendente, o indivíduo nada além de si mesmo, do outro. É possível somar essas parcelas? Penso que sim, assim: aí está uma busca por transcendência que não a localiza em algum além, sem embargo a mapeia na imanência destas ruas, deste copo de uísque, deste computador. Alcançaremos esse paraíso que já está aqui, um dia — e dançaremos até perceber que “só existia o agora” (“Sequência dos fátuos”), e nessa ocasião “as violetas serão a preocupação maior do mundo”. Até lá, escreveremos prefácios.

As Esferas do Dragão

Episódio 1 – Útero

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O deus veio babuíno e astronauta.

Veio anunciar que a tristeza engendra a urgência da aventura. A epopeia deu-se à luz — como ervas daninhas nas frestas do asfalto — nos silêncios do meu choro. A morte do meu avô impunha partir em viagem: era mandatório encontrar as esferas do Dragão e ressuscitá-lo. Sete globos cristalinos e alaranjados, aldebarãs de oito centímetros de diâmetro esconsos em locais aleatórios nas lonjuras, identificados por cifras infantis — uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete estrelas — manifestações fragmentárias da joia Cintamani, provedora de desejos, apanágio de budas e leviatãs, força mística originária. Reunidas, invocarão o deus-réptil gigantesco, a singularidade da qual surgirá vigoroso — oitenta e uma escamas brancas de carpa, olhos vermelhos de coelho, chifres de veado cobertos de veludo, patas alvas de tigre armadas de quatro garras de águia, cabeça de camelo, pescoço de cobra, ventre de vôngole e orelhas de touro moucas. Defronte à sua pujança, minha fé ofidiófila estupefata, demandarei. Horrível e bom, concederá. Na noite estrelada haverá um abraço.

Mas, antes, babuíno e astronauta, veio, negocioso.

Crônicas

Bill Gates, apagar o sol e achar o diabo

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Senti até uma nostalgia com a teoria da conspiração divulgada esses dias por Ailton Benedito, secretário de Direitos Humanos (!) da Procuradoria-Geral da República. É um exemplo de alta criatividade do que hoje comanda o Brasil:

Bill Gates quer impedir que raios solares cheguem à Terra, baixando a imunidade dos seres humanos, o que propiciaria o surgimento e o agravamento de n doenças para as quais a Fundação Bill & Melinda Gates forneceria novas vacinas por módicas centenas de bilhões dólares?

O que é isso, minha gente? É fase 4 do universo Marvel, fanfic do Wattpad?

Bill Gates quer bloquear o sol! Mas não contava com Ailton Benedito, sempre a postos!

Todavia, quando eu li essa fake news, veio uma sensação boa. Sim, depois de desaparecerem as imagens quadrinescas na minha mente — o dono da Microsoft, em uma base espacial, observando o astro solar com ambição, metade do seu rosto coberto pela sombra, outra pela luz que odeia… — eu pensei: olha só, voltamos aos boatos com o nome do Bill Gates.

Foi como encontrar um velho amigo. Bill Gates com planos de dominação mundial é uma coisa que está por aí desde meus 12 anos, provavelmente antes. Quando eu cheguei na internet era tudo mato e o mouse e a tela eram as marcas da Besta. Tudo provado com os versículos bíblicos pertinentes.

Em um tempo pré-hegemonia do Google, AOL ainda mandava CDs para a sua casa, “blogosfera” estava para se tornar uma palavra importante, o Estadão publicava livro com listas de links e a internet tinha tutoriais de como desvendar as raízes satânicas da Microsoft, com meios contraditoriamente deixados por ela mesma como easter egg em um aplicativo do Windows.

Se você tiver um Windows 97 e quiser encontrar os sinais de Lúcifer, tem de fazer assim: um dos protetores de tela (eram animações que rodavam com o computador inativo, não são mais comuns) desse sistema operacional é um labirinto que percorremos em primeira pessoa (tipo o jogo Doom). Com isso na tela, segure tais teclas por x tempo. Pronto.

Vamos para uma sala modelada em 3D da década de 1990, em que na parede corpos ensanguentados amontoados sofrem sua tortura eterna — o tutorial alertava: “É exatamente como no Advogado do Diabo“. Havia ficado impressionadíssimo com o filme. Tentei achar o capeta. Não achei.

Até hoje não sei se foi porque fiz algo de errado, apertei tab por um segundo a menos, sei lá, e o demônio hoje sorri ao lado de Bill Gates na base espacial, aliviado pelo dia em que escapou de ser pego em flagrante por um menino de 12 anos. Ou, mais provável, naquela época também os ailton beneditos do mundo estavam atentos: denunciaram, a Microsoft recuou.

Me livraram, por pouco, do inferno. Obrigado, ailton beneditos do mundo. Perseverem. Salvem mesmo o sol. Precisamos dele.

Contos

Normatizar, Representar, Aceitar

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Escrevi esses textos para o trabalho de conclusão de curso do meu irmão Murilo Ribeiro, que se formou no Istituto Europeo di Design (IED/São Paulo). Trabalhando a homossexualidade na infância, ele criou um livro infantil ilustrado — pesquisa, projeto gráfico, ilustrações — e eu colaborei com essas historinhas.

Elas foram pensadas para um diálogo com as imagens, mas acredito que funcionam assim também, ficam com uma cara de poesia narrativa. Exagerando um pouco, diria que são poeminhas de formação: em cada um deles o protagonista se descobre um pouco mais, atravessando as relações com a família, tensões com a sociedade, reconhecendo os seus afetos, achando espaços de paz.

Normatizar

Escolher um brinquedo não devia ser tão difícil.
Devia ser assim uma coisa que a gente quer e pronto.
Brincar é ser livre! Não é?
Parece que não é…
Levo meu brinquedo para a escola,
parece que estou levando uma bomba.
Que explosão, que escândalo!
Ser livre é mesmo coisa muita séria, já dizia o poeta.
E brincar, digo eu mesmo, é muito potente.
A gente inventa uma história.
Vira cavaleiro que salva a princesa.
Vira princesa que salva o cavaleiro.
Escolher um brinquedo
também é um jeito da gente virar o que quiser.
A gente se lança num sonho e se descobre.
O brinquedo é um pedacinho de liberdade.
Que tal?
Vem brincar de liberdade comigo?

Representar

Até que eu podia me identificar com o futebol.
Esse pessoal trancado em um retângulo.
Com regra de que mesmo tendo mão só pode usar o pé.
Posição definida no campo. Manter-se atento.
Monitorado pelo juiz, pelo técnico, pelos companheiros.
Julgado pela torcida.
E por você mesmo.
Até que temos muito em comum, eu e o futebol.
Mas sabe?
Eu preferia mesmo era outro jogo.
Não quem marcou mais gols.
Mas quem experimentou mais beleza.
Em vez dos ataques e contra-ataques,
um desfile.

Aceitar

A raiva é uma mágica que sempre dá errado.
A minha raiva por exemplo criou um monstro.
Veio com meu pai.
Ele era uma pessoa. Fechei os olhos pra isso. Fiz um monstro.
E detestei meu pai por ter trazido o monstro.
Mas aí aconteceu uma mágica mais forte.
A alegria do meu pai começou a desmentir a minha raiva.
Ele estava bem, e eu com quatro pedras na mão.
A raiva era uma roupa apertada demais.
Deixei-a de lado e a fantasia do monstro ruiu.
Rasgou aqui, rasgou ali, afrouxou, acabou caindo.
E o que eu descobri debaixo dela?
Uma pessoa! Inteirinha!
Única, tão complicada quanto eu.
Muito maior que qualquer monstro.

Jornalismo

Como fica a literatura na pandemia?

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Com falas de Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL); Mauro Munhoz, diretor artístico da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip); Beatriz Azevedo, diretora do projeto p-o-e-s-i-a.org; e André Sant’Anna, escritor, filho do também escritor Sérgio Sant’Anna, publiquei no site do Itaú Cultural uma reportagem sobre os efeitos da pandemia sobre a literatura e quais perspectivas temos para a criação literária nesse momento. A matéria aborda mercado literário, eventos do setor, migração para o digital e projetos de apoio à área, além do depoimento de André sobre o pai, que morreu de covid-19. A certa altura, Beatriz dá o tom do panorama:

A pandemia revolucionou as comunicações e outros comportamentos do cotidiano. Qualquer cenário será influenciado pelas atitudes que vamos tomar hoje. Mesmo quando houver uma vacina, sempre haverá o risco de outro vírus de proporções semelhantes ocorrer, ou ainda outros acontecimentos inesperados. Por essa razão é tão importante perceber que a pós-pandemia é agora, ou seja, este momento ‘pós’ está sendo construído. Muitas vezes esquecemos disso e deixamos a esperança ou o pessimismo em relação ao futuro vencerem a racionalidade. Mais do que nunca é preciso estar com os pés no presente.

Entre os diagnósticos trazidos no texto, destaco uma passagem de Vitor, em que ele define uma tarefa para quem se interessa pela democratização e o incentivo à literatura no Brasil. Ele

reafirma a tarefa de fortalecer o mercado literário. “Temos de continuar fazendo ações – tanto o governo como nós, profissionais do setor – para desenvolver o hábito e o prazer da leitura. Se você desenvolve isso, principalmente nos jovens e nas crianças, você vai formando leitores”. Formar leitores, insiste ele, é a condição da solidez e ampliação da área: “Se em um espaço de cinco, seis, dez anos, a gente conseguisse dobrar esse índice [de dois livros por pessoa ao ano], a gente teria de dobrar a produção literária, a gente iria precisar de mais autores, mais editoras, mais gráficas, mais plataformas para disponibilizar as obras”.

No site do Itaú Cultural, essa reportagem pode ser posta junto a outras, como “Como construir um Brasil mais leitor?” e “Quinta edição da Retratos da Leitura conclui fase de entrevistas“, que, apesar de ter envelhecido (a Retratos sairá em breve), ainda tem interesse, pois qualifica de rostos o que seriam só números: acompanhei a pesquisa casa a casa e falei com os personagens.

Contos

CloroquinaMan

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Uma HQ chamada CloroquinaMan™:

Pelo seu histórico de atleta, o CloroquinaMan™ possui força, rapidez e resistência só calculáveis por Paulo Guedes.

E ao erguer uma caixa de hidroxicloroquina ao alto com as duas mãos e gritar “Olavo!”, o CloroquinaMan™ se torna quase invencível.

Nas noites de Brasília, o CloroquinaMan™ enfrenta criminosos (das classes mais pobres e que não sejam amigos da família). Sua vigilância é mais onipresente que a do Centrão sobre os cargos do governo!

Os bandidos vêm no soco POW POW o herói barra as porradas com a caixa de cloroquina e contra-ataca cuspindo covid.

Os bandidos vêm de pistola PZIU PZIU o herói move as mãos na velocidade em que volta atrás e bloqueia todas as balas.

Estão ao lado do CloroquinaMan™ guerreiros como o Queiroz Invisível™, o Capitão Antiplaneta™ e o WhatsApp Humano™.

Mas grandes vilões também o ameaçam: SquidMan™! Punho de Imprensa™! Dois-Moros™! Átila Macabro™! Senhor Impicha™!

E, claro, COMEMA®, a Incrível Ema Comunista, monstruosidade criada nas universidades federais com dinheiro da Lei Rouanet, alimentada apenas com maconha e com Pepsi feita de fetos!

Nesse momento mesmo o CloroquinaMan™ encara COMEMA® nas proximidades do Palácio da Alvorada. A tensão se eleva.

COMEMA® cisca: esse tá no bico, até porque já esteve. O CloroquinaMan™ levanta em desafio a caixa de hidroxicloroquina.

Quem vencerá dessa vez? Não perca a PRÓXIMA EDIÇÃO

Contos

Você sabia?

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Você sabia que as calamidades registradas na Bíblia também tiveram seus negacionistas?

O governo da Anatolia mesmo com os pedidos insistentes de Noé não lhe concedeu recursos para compra de madeira, tendo direcionado o orçamento de emergências para a aquisição de boias feitas com rins de égua, apelidadas com a contração de boia + equina: boiaquina.

Quando a chuva começou a cair, uma multidão se reuniu ao pé do monte Judi, ao lado da arca (da qual Noé olhava com satisfação má). Foi a dilúviofest. O duduk, o saz, o tar, o oud tocaram a noite toda, o pessoal tomou banho de toró, se despiram, morreram pelados de manhãzinha.

No Egito, a devastação dos gafanhotos foi dita ser uma “oportunidade para ter uma dieta mais proteica”. Depois da água virar sangue, o faraó ironizou: “Nunca lambeu um sanguinho depois de cortar o dedo?”. O aviso para dispor marcas vermelhas na porta foi considerado um ataque à liberdade: “Que? Vou estragar minha porta?”

Após a morte dos primogênitos, os sábios do governo aconselharam a resignação: afinal, a maldição só atingia crianças, apenas uma por família e sempre se podia ter mais. Mas, como se sabe, morreu o filho do faraó e se os ricos têm uma tragédia isso tem efeitos muito fortes na criatividade da teoria e prática políticas.

Enfim, quando no céu do mundo surgir a besta com sete cabeças e dez chifres, com aspectos de leopardo, urso e leão, trocando ideias com as amigas bestas dela lá em cima, isso será chamado de “apocalipse da China”, que “esse pessoal sempre fez esses filmes de monstro”.

Talvez a mais impressionante prova de que os convictos da inteligência estúpida estiveram sempre por aí é a história de Jó. Quando Deus disse a ele: “Onde você estava quando lancei os alicerces da Terra? Quando fixei os limites do mar? Quando dei ordens à alvorada, comida aos corvos e leoas?” Jó só desqualificou:

— Fake news.

Notas

Morre o radialista José Paulo de Andrade

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Morreu nesta sexta o jornalista José Paulo de Andrade, que atuou na rádio Bandeirantes durante 57 anos, tendo sido apresentador do O Pulo do Gato. É por conta desse programa que relembro José Paulo aqui no blog. A vinheta de O Pulo do Gato é para mim uma madeleine jornalística, faz voltar o período antes de ir à escola. É por tudo isso que descrevo em certa parte do As Esferas do Dragão o seguinte:

A manhã era uma conversa com os passarinhos: comiam alpiste das mãos dela como se encarnasse um verso de Manoel de Barros. Céu nublado cor-de-chifre e a voz de José Paulo de Andrade no rádio.

E depois:

Acorda, São Paulo, do seu sono justo: é hora do Pulo do Gato.” O rádio badalava as seis horas da manhã. O sol não havia ainda nascido e o céu era um azul minguante.

Conversando com amigos, essa mesma experiência foi evocada; crianças nessa época, José Paulo era uma espécie de pano de fundo, interesses de adulto. Sobretudo, O Pulo do Gato marcava o tempo — com a institucionalidade, com a precisão dos sinos — inscritos nessa descrição do fim da madrugada.

Entrevistas

Da Pesquisa Brasileira: Matheus Arcaro, Nietzsche e o ponto de encontro entre filosofia e arte, a vida

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Este artigo compõe Da Pesquisa Brasileira, série sobre quem cria conhecimento no Brasil, publicada neste blog e na revista Úrsula.

Com a dissertação de mestrado Nietzsche: Verdade como Metáfora e Linguagem como Dissimulação, defendida no fim de junho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Matheus Arcaro realizou, ele conta, não só um projeto acadêmico, mas seguiu as linhas de uma “questão existencial”: “Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões”. Assim — como talvez não possa deixar de ser para um pesquisador que se dedica ao trabalho de Friedrich Nietzsche (1844-1900) —, sua pesquisa se efetiva como realização de si. Diz ele, “há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Em seu trabalho, Matheus estuda como, em Nietzsche, não há espaço para a separação entre verdade e mentira, na medida em que a ideia de conhecer algo como verdadeiro ou falso dependeria de termos uma relação direta com esse algo, com o objeto a que queremos atribuir esses valores. Pelo contrário, para o filósofo alemão, o que acessamos de fato é algo de nossa própria lavra: a metáfora — talvez se possa dizer, essa produção do corpo e da mente sobre aquilo que nos entregam os sentidos. Disso, toda uma problemática emerge: “Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas? Que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das suas consequências úteis e agradáveis? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo?”.

O pesquisador fala também sobre dificuldades e aprendizados na feitura do mestrado, tratando de controle de tempo e necessidade de ter consciência sobre o próprio processo. Comenta também da série de problemas pessoais que foram superados por meio da citada paixão pelo estudo e pela criação: “Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir”. Além disso, indica caminhos de pesquisa.

Veja também:
>> Onde o Coringa encontra um serial killer brasileiro, entrevista com Matheus Arcaro na Úrsula

De que modo sua pesquisa é importante para a área principal em que se inclui? A que outras áreas, mais ou menos distantes, interessa?

É uma pesquisa em filosofia contemporânea, não serve para nada (risos).

O cerne da minha dissertação é a relação entre verdade e linguagem na perspectiva do jovem Nietzsche, em seus textos entre 1869 e 1874. Nietzsche perscruta os meandros da linguagem para dizer que sua formação repousa no inconsciente e em processos fisiológicos. A percepção do sujeito em relação às coisas do mundo nunca é plena e total, ao contrário: só acontece por um processo estético. A este processo, Nietzsche chamou de metáfora. Ora, se o processo cognitivo é metafórico, não há qualquer cabimento falar em verdade e mentira. Se a raiz de todo conhecimento é um processo metafórico, a única possibilidade de conhecimento é estética.

Uma passagem do próprio Nietzsche, para ficar mais claro:

“O que é uma palavra? Um estímulo nervoso, primeiramente transporto em uma imagem! Primeira metáfora. A imagem, por sua vez, modelada em som! Segunda metáfora.”

A noção correspondentista de verdade define que verdadeiro é a adequação do intelecto (ou do discurso) ao objeto no mundo. Acontece que não há possibilidade dessas duas esferas tão distintas (sujeito e objeto) se interseccionarem plenamente. O que faz essa “ponte” é o que Nietzsche chamou de metáfora. Ou seja, o que se chama de conhecimento é, na verdade, o reconhecimento de algo que o próprio humano cunhou na natureza. Em última instância conhecer é antropomorfizar o mundo, e a dicotomia verdade/mentira se sustenta numa necessidade moral e não epistemológica.

Neste sentido minha pesquisa estabelece um diálogo direto com a arte. Aliás, Nietzsche afirma literalmente que, tanto a filosofia quanto a arte têm a mesma raiz artística. A diferença é que a primeira se esquece que é criadora e petrifica as metáforas originárias com os conceitos. O papel do filósofo-artista, de acordo com Nietzsche, então, é resgatar essa raiz artística de todo conceito, usando unicamente a vida como critério. A vida que só se justifica como fenômeno estético.

A partir da estética, faço o diálogo entre obras publicadas e inéditas. Creio que esse âmbito pode ainda ser muito explorado, sobretudo porque concentrei minha pesquisa nos anos da primeira produção nietzscheana. Na conclusão, joguei as sementes para futuras pesquisas, a partir da presença dessa questão nas obras maduras do autor. Está aí um campo vasto a ser cultivado.

No que ela poderia ser atraente para o público em geral – seja pelo todo, seja por partes, seja pelo impacto em um assunto?

É sempre interessante, sobretudo para quem não tem familiaridade com termos filosóficos, desconstruir alguns dogmas. Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas alicerçadas pelo uso de expressões aceitas socialmente? Quem descobrisse que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das consequências úteis e agradáveis que ela proporciona? Que o mentiroso nada mais é do que a pessoa pouco apta em repetir o que foi canonizado linguisticamente? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo? Que o intelecto e a racionalidade não têm uma finalidade elevada perante o todo da natureza? Como ficaria o homem se chegasse à conclusão de que a verdade nada mais é do que uma metáfora cristalizada? Todas essas perguntas, a meu ver, são muito instigantes para qualquer pessoa e, em certa medida, são respondidas ao longo da minha pesquisa.

Para você, em particular, por que importa? Como ela se envolve com os seus interesses profissionais, pessoais, políticos?

Minha vontade de potência, para usar uma expressão do Nietzsche, se multiplica justamente no encontro entre filosofia e arte, mais especificamente literatura. Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões. Essa intersecção não é apenas um projeto acadêmico, mas uma questão existencial para mim. Lembrei de uma frase que cunhei tempos atrás: “Há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Como foi o processo de desenvolvimento da pesquisa? Quais os entraves e quais as descobertas ao longo dele?

Foi doloroso, como todo processo criativo. Foram três anos de muitos acontecimentos: mudança de cidade, perda de emprego e dificuldades financeiras (estava sem bolsa de incentivo), divórcio, publicação de dois livros (um de contos e um de poesia) e o maior e mais maravilhoso deles, o nascimento da minha filha. Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir. E eu consegui, sobremaneira, movido pela paixão que explicitei na resposta anterior.

Você consegue extrair desse processo dicas para outros pesquisadores? Práticas a levar adiante, problemas que se pode prever.

O processo de produção textual não é fácil. Então, é preciso disciplina, algo que não tenho muito. Tive que me cobrar muito quanto a horários, por exemplo. Um segundo ponto é o silencio, tanto real quanto virtual. Minha atenção se dissipa facilmente. Eu vi como uma espécie de mandamento desligar celular e internet enquanto escrevia. Em relação propriamente ao método, cada pesquisador/escritor tem um que percebe mais produtivo. Eu prefiro escrever um esqueleto, um esboço e “preencher” aos poucos. É um processo lento. Depois, deixo o texto descansar uns dias e releio tudo. Reescrever, às vezes, é muito mais importante do que propriamente escrever.

O que você pretende fazer agora? Quais seus próximos passos como pesquisador?

Me fiz um autoconvite para o doutorado, ao vivo, que foi prontamente aceito pelo meu orientador Oswaldo Giacoia. Gostaria de deixar registrada aqui minha gratidão a ele, por sua generosidade ao longo de todo o processo. Giacoia está entre os maiores pesquisadores de Nietzsche no mundo e, mesmo assim, prestou-me uma atenção lapidar. Pretendo, em breve, retomar minhas aulas de alemão para, agora, pesquisar Nietzsche em sua língua materna. Talvez, eu desenhe minha tese sobre um possível diálogo entre Nietzsche e Marx.

Trecho da pesquisa

Nietzsche defende que o homem, a partir de suas disposições fisiológicas, é genuinamente um criador de metáforas. Os conceitos e a ideia de verdade nascem porque os homens se esquecem desse caráter criador da linguagem e tal esquecimento ocorre, por um lado, pela necessidade de sobrevivência e, por outro, por questões morais.

(…)

Quanto tempo o universo não passou sem a inteligência humana, sem o que hoje se nomeia de racionalidade? Se o homem é um animal racional, como afirmara Aristóteles, esse atributo não o destaca, não o eleva diante dos demais animais, pois, para o intelecto, não há “nenhuma missão ulterior que conduz para além da vida humana”. A audácia deste animal chamado homem está em medir o universo com a própria régua sem, no entanto, o discernimento de que possui uma régua. Ou, para usarmos outra metáfora, o homem olha para o espelho crendo que está olhando para o mundo.

Nietzsche afirma o caráter fugaz do conhecimento do homem: o intelecto não faz do homem um ser especial, muito menos um ser com participação na divindade. O intelecto, ao contrário do que, de modo geral, legou-nos a tradição, cumpre uma função semelhante às demais partes do corpo e está circunscrito aos limites da vida humana. Se tomarmos a natureza ou mesmo a “história universal” como parâmetro, o intelecto humano mostra-se frágil e sem finalidade. Neste sentido, novamente Nietzsche discorda de Aristóteles, para quem o anseio de conhecer é inerente ao ser humano, como se fosse um diferencial destacável do homem em relação aos demais animais. Diz o estagirita* em sua Metafísica: “Todos os homens, por natureza, desejam conhecer”. Escreve o jovem professor alemão no fragmento 19 [178]: “Sob o ponto de vista da natureza, o homem não existe para o conhecer”. O conhecimento, de acordo com Nietzsche, tem sua raiz fincada nas necessidades de sobrevivência do homem e a origem da linguagem não está relacionada ao pensamento, mas a questões inconscientes.

* Estagirita se refere à cidade onde nasceu Aristóteles, Estagira.

Contos

Bolsonaro 0x1 Gafanhotos

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É julho de 2020. Bolsonaro está em reunião com os filhos e uns ministros no Palácio da Alvorada. Ouve uma batida na janela. Lá fora é uma manhã nublada e de mormaço, um desses dias que soam mais silenciosos que os outros — e TUMBF. Batida no vidro. Bolsonaro olha: uma gosma marrom-esverdeada no vidro e um corpo de inseto escorre. Antes que consiga pensar em qualquer coisa — TUMBF — mais um. E logo vem outro, mais outro, os gafanhotos chocam-se com violência, na vidraça os trincos pipocam aqui e ali. Ninguém parece ter percebido nada, Bolsonaro já está de pé. Quando o primeiro estoura a barreira, ele já está na porta. A nuvem força, a janela se despedaça, os fragmentos de vidro voam sobre mesa, político, carpete, aos gritos Damares reage, é do Diabo!, é do Diabo!, até perceber que se é gafanhoto não pode ser, não pode ser, será que eu… Salles está tremendo que nem vara verde, não consegue se situar, só vê manchas vibrantes e velozes, só ouve o zumbido cada vez mais intenso, ele se esconde debaixo da mesa, em pouco tempo aquilo entra na sua mente, ele alucina, no fundo do zum zum zum, vamos passar a boiada, sai daí e vem ver a boiada passar, Ricardinho… enquanto isso Eduardo faz cosplay de Al Pacino em Scarface, uma arma em cada mão, atirando nos bichos e berrando, de repente um lhe entra na boca, mais outro, mais outro, a boca de Eduardo é um funil, a nuvem vira um pequeno tornado, Eduardo incha, Eduardo explode, seus restos mortais mancham a sala toda, atingem especialmente Paulo Guedes, o Posto Ipiranga todo encharcado de sangue, coberto de tripas, a economia decolando!, ele reclama, e aí acontece isso!, os gafanhotos estão comendo o Chicago Boy bocadinho por bocadinho, os fluídos vitais vazam, ele pensa, bem, agora só pulmões e coração podem ter recursos, não tem pra todo mundo, não tem, racional até o último minuto, que no caso foi esse mesmo, porque não sei se os gafanhotos sabem de economia mas não fizeram desperdício nenhum… nisso o líder da República já está, puta que pariu, puta que pariu, pelo gramado tropeçando, vê uns apoiadores seus lá na frente, corre em direção deles, grita, o STF, porra!, o que foi, meu presidente?, a Globo, a OMS, vêm vindo, como assim, meu presidente?, querem a nossa hemorróida, porra!, vamos te defender, meu presidente, isso mesmo!, eles vão, ele fica; sentado no chão, suado como um porco, ele os vê andando marchandinhos dizendo mito, mito, mito, até que entram no palácio e só resta o silêncio. Bolsonaro acredita que escapou, que mais uma vez funcionou — aliás, funcionou uma vez, não tem porque não funcionar outra, tinha usado partido e aliado e ministro e o país de boi de piranha e tinha dado certo, agora deu também. Bolsonaro tão inexplicavelmente vivo como foi inexplicavelmente eleito presidente. O mormaço está forte e o céu é branco. Ele se deixa descansar um momento. Então, cai a noite. A noite? Mas são onze da manhã.