Destaques

Como fica a literatura na pandemia?

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Com falas de Vitor Tavares, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL); Mauro Munhoz, diretor artístico da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip); Beatriz Azevedo, diretora do projeto p-o-e-s-i-a.org; e André Sant’Anna, escritor, filho do também escritor Sérgio Sant’Anna, publiquei no site do Itaú Cultural uma reportagem sobre os efeitos da pandemia sobre a literatura e quais perspectivas temos para a criação literária nesse momento. A matéria aborda mercado literário, eventos do setor, migração para o digital e projetos de apoio à área, além do depoimento de André sobre o pai, que morreu de covid-19. A certa altura, Beatriz dá o tom do panorama:

A pandemia revolucionou as comunicações e outros comportamentos do cotidiano. Qualquer cenário será influenciado pelas atitudes que vamos tomar hoje. Mesmo quando houver uma vacina, sempre haverá o risco de outro vírus de proporções semelhantes ocorrer, ou ainda outros acontecimentos inesperados. Por essa razão é tão importante perceber que a pós-pandemia é agora, ou seja, este momento ‘pós’ está sendo construído. Muitas vezes esquecemos disso e deixamos a esperança ou o pessimismo em relação ao futuro vencerem a racionalidade. Mais do que nunca é preciso estar com os pés no presente.

Entre os diagnósticos trazidos no texto, destaco uma passagem de Vitor, em que ele define uma tarefa para quem se interessa pela democratização e o incentivo à literatura no Brasil. Ele

reafirma a tarefa de fortalecer o mercado literário. “Temos de continuar fazendo ações – tanto o governo como nós, profissionais do setor – para desenvolver o hábito e o prazer da leitura. Se você desenvolve isso, principalmente nos jovens e nas crianças, você vai formando leitores”. Formar leitores, insiste ele, é a condição da solidez e ampliação da área: “Se em um espaço de cinco, seis, dez anos, a gente conseguisse dobrar esse índice [de dois livros por pessoa ao ano], a gente teria de dobrar a produção literária, a gente iria precisar de mais autores, mais editoras, mais gráficas, mais plataformas para disponibilizar as obras”.

No site do Itaú Cultural, essa reportagem pode ser posta junto a outras, como “Como construir um Brasil mais leitor?” e “Quinta edição da Retratos da Leitura conclui fase de entrevistas“, que, apesar de ter envelhecido (a Retratos sairá em breve), ainda tem interesse, pois qualifica de rostos o que seriam só números: acompanhei a pesquisa casa a casa e falei com os personagens.

Contos

CloroquinaMan

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Uma HQ chamada CloroquinaMan™:

Pelo seu histórico de atleta, o CloroquinaMan™ possui força, rapidez e resistência só calculáveis por Paulo Guedes.

E ao erguer uma caixa de hidroxicloroquina ao alto com as duas mãos e gritar “Olavo!”, o CloroquinaMan™ se torna quase invencível.

Nas noites de Brasília, o CloroquinaMan™ enfrenta criminosos (das classes mais pobres e que não sejam amigos da família). Sua vigilância é mais onipresente que a do Centrão sobre os cargos do governo!

Os bandidos vêm no soco POW POW o herói barra as porradas com a caixa de cloroquina e contra-ataca cuspindo covid.

Os bandidos vêm de pistola PZIU PZIU o herói move as mãos na velocidade em que volta atrás e bloqueia todas as balas.

Estão ao lado do CloroquinaMan™ guerreiros como o Queiroz Invisível™, o Capitão Antiplaneta™ e o WhatsApp Humano™.

Mas grandes vilões também o ameaçam: SquidMan™! Punho de Imprensa™! Dois-Moros™! Átila Macabro™! Senhor Impicha™!

E, claro, COMEMA®, a Incrível Ema Comunista, monstruosidade criada nas universidades federais com dinheiro da Lei Rouanet, alimentada apenas com maconha e com Pepsi feita de fetos!

Nesse momento mesmo o CloroquinaMan™ encara COMEMA® nas proximidades do Palácio da Alvorada. A tensão se eleva.

COMEMA® cisca: esse tá no bico, até porque já esteve. O CloroquinaMan™ levanta em desafio a caixa de hidroxicloroquina.

Quem vencerá dessa vez? Não perca a PRÓXIMA EDIÇÃO

Contos

Você sabia?

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Você sabia que as calamidades registradas na Bíblia também tiveram seus negacionistas?

O governo da Anatolia mesmo com os pedidos insistentes de Noé não lhe concedeu recursos para compra de madeira, tendo direcionado o orçamento de emergências para a aquisição de boias feitas com rins de égua, apelidadas com a contração de boia + equina: boiaquina.

Quando a chuva começou a cair, uma multidão se reuniu ao pé do monte Judi, ao lado da arca (da qual Noé olhava com satisfação má). Foi a dilúviofest. O duduk, o saz, o tar, o oud tocaram a noite toda, o pessoal tomou banho de toró, se despiram, morreram pelados de manhãzinha.

No Egito, a devastação dos gafanhotos foi dita ser uma “oportunidade para ter uma dieta mais proteica”. Depois da água virar sangue, o faraó ironizou: “Nunca lambeu um sanguinho depois de cortar o dedo?”. O aviso para dispor marcas vermelhas na porta foi considerado um ataque à liberdade: “Que? Vou estragar minha porta?”

Após a morte dos primogênitos, os sábios do governo aconselharam a resignação: afinal, a maldição só atingia crianças, apenas uma por família e sempre se podia ter mais. Mas, como se sabe, morreu o filho do faraó e se os ricos têm uma tragédia isso tem efeitos muito fortes na criatividade da teoria e prática políticas.

Enfim, quando no céu do mundo surgir a besta com sete cabeças e dez chifres, com aspectos de leopardo, urso e leão, trocando ideias com as amigas bestas dela lá em cima, isso será chamado de “apocalipse da China”, que “esse pessoal sempre fez esses filmes de monstro”.

Talvez a mais impressionante prova de que os convictos da inteligência estúpida estiveram sempre por aí é a história de Jó. Quando Deus disse a ele: “Onde você estava quando lancei os alicerces da Terra? Quando fixei os limites do mar? Quando dei ordens à alvorada, comida aos corvos e leoas?” Jó só desqualificou:

— Fake news.

Notas

Morre o radialista José Paulo de Andrade

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Morreu nesta sexta o jornalista José Paulo de Andrade, que atuou na rádio Bandeirantes durante 57 anos, tendo sido apresentador do O Pulo do Gato. É por conta desse programa que relembro José Paulo aqui no blog. A vinheta de O Pulo do Gato é para mim uma madeleine jornalística, faz voltar o período antes de ir à escola. É por tudo isso que descrevo em certa parte do As Esferas do Dragão o seguinte:

A manhã era uma conversa com os passarinhos: comiam alpiste das mãos dela como se encarnasse um verso de Manoel de Barros. Céu nublado cor-de-chifre e a voz de José Paulo de Andrade no rádio.

E depois:

Acorda, São Paulo, do seu sono justo: é hora do Pulo do Gato.” O rádio badalava as seis horas da manhã. O sol não havia ainda nascido e o céu era um azul minguante.

Conversando com amigos, essa mesma experiência foi evocada; crianças nessa época, José Paulo era uma espécie de pano de fundo, interesses de adulto. Sobretudo, O Pulo do Gato marcava o tempo — com a institucionalidade, com a precisão dos sinos — inscritos nessa descrição do fim da madrugada.

Entrevistas

Da Pesquisa Brasileira: Matheus Arcaro, Nietzsche e o ponto de encontro entre filosofia e arte, a vida

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Este artigo compõe Da Pesquisa Brasileira, série sobre quem cria conhecimento no Brasil, publicada neste blog e na revista Úrsula.

Com a dissertação de mestrado Nietzsche: Verdade como Metáfora e Linguagem como Dissimulação, defendida no fim de junho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Matheus Arcaro realizou, ele conta, não só um projeto acadêmico, mas seguiu as linhas de uma “questão existencial”: “Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões”. Assim — como talvez não possa deixar de ser para um pesquisador que se dedica ao trabalho de Friedrich Nietzsche (1844-1900) —, sua pesquisa se efetiva como realização de si. Diz ele, “há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Em seu trabalho, Matheus estuda como, em Nietzsche, não há espaço para a separação entre verdade e mentira, na medida em que a ideia de conhecer algo como verdadeiro ou falso dependeria de termos uma relação direta com esse algo, com o objeto a que queremos atribuir esses valores. Pelo contrário, para o filósofo alemão, o que acessamos de fato é algo de nossa própria lavra: a metáfora — talvez se possa dizer, essa produção do corpo e da mente sobre aquilo que nos entregam os sentidos. Disso, toda uma problemática emerge: “Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas? Que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das suas consequências úteis e agradáveis? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo?”.

O pesquisador fala também sobre dificuldades e aprendizados na feitura do mestrado, tratando de controle de tempo e necessidade de ter consciência sobre o próprio processo. Comenta também da série de problemas pessoais que foram superados por meio da citada paixão pelo estudo e pela criação: “Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir”. Além disso, indica caminhos de pesquisa.

Veja também:
>> Onde o Coringa encontra um serial killer brasileiro, entrevista com Matheus Arcaro na Úrsula

De que modo sua pesquisa é importante para a área principal em que se inclui? A que outras áreas, mais ou menos distantes, interessa?

É uma pesquisa em filosofia contemporânea, não serve para nada (risos).

O cerne da minha dissertação é a relação entre verdade e linguagem na perspectiva do jovem Nietzsche, em seus textos entre 1869 e 1874. Nietzsche perscruta os meandros da linguagem para dizer que sua formação repousa no inconsciente e em processos fisiológicos. A percepção do sujeito em relação às coisas do mundo nunca é plena e total, ao contrário: só acontece por um processo estético. A este processo, Nietzsche chamou de metáfora. Ora, se o processo cognitivo é metafórico, não há qualquer cabimento falar em verdade e mentira. Se a raiz de todo conhecimento é um processo metafórico, a única possibilidade de conhecimento é estética.

Uma passagem do próprio Nietzsche, para ficar mais claro:

“O que é uma palavra? Um estímulo nervoso, primeiramente transporto em uma imagem! Primeira metáfora. A imagem, por sua vez, modelada em som! Segunda metáfora.”

A noção correspondentista de verdade define que verdadeiro é a adequação do intelecto (ou do discurso) ao objeto no mundo. Acontece que não há possibilidade dessas duas esferas tão distintas (sujeito e objeto) se interseccionarem plenamente. O que faz essa “ponte” é o que Nietzsche chamou de metáfora. Ou seja, o que se chama de conhecimento é, na verdade, o reconhecimento de algo que o próprio humano cunhou na natureza. Em última instância conhecer é antropomorfizar o mundo, e a dicotomia verdade/mentira se sustenta numa necessidade moral e não epistemológica.

Neste sentido minha pesquisa estabelece um diálogo direto com a arte. Aliás, Nietzsche afirma literalmente que, tanto a filosofia quanto a arte têm a mesma raiz artística. A diferença é que a primeira se esquece que é criadora e petrifica as metáforas originárias com os conceitos. O papel do filósofo-artista, de acordo com Nietzsche, então, é resgatar essa raiz artística de todo conceito, usando unicamente a vida como critério. A vida que só se justifica como fenômeno estético.

A partir da estética, faço o diálogo entre obras publicadas e inéditas. Creio que esse âmbito pode ainda ser muito explorado, sobretudo porque concentrei minha pesquisa nos anos da primeira produção nietzscheana. Na conclusão, joguei as sementes para futuras pesquisas, a partir da presença dessa questão nas obras maduras do autor. Está aí um campo vasto a ser cultivado.

No que ela poderia ser atraente para o público em geral – seja pelo todo, seja por partes, seja pelo impacto em um assunto?

É sempre interessante, sobretudo para quem não tem familiaridade com termos filosóficos, desconstruir alguns dogmas. Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas alicerçadas pelo uso de expressões aceitas socialmente? Quem descobrisse que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das consequências úteis e agradáveis que ela proporciona? Que o mentiroso nada mais é do que a pessoa pouco apta em repetir o que foi canonizado linguisticamente? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo? Que o intelecto e a racionalidade não têm uma finalidade elevada perante o todo da natureza? Como ficaria o homem se chegasse à conclusão de que a verdade nada mais é do que uma metáfora cristalizada? Todas essas perguntas, a meu ver, são muito instigantes para qualquer pessoa e, em certa medida, são respondidas ao longo da minha pesquisa.

Para você, em particular, por que importa? Como ela se envolve com os seus interesses profissionais, pessoais, políticos?

Minha vontade de potência, para usar uma expressão do Nietzsche, se multiplica justamente no encontro entre filosofia e arte, mais especificamente literatura. Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões. Essa intersecção não é apenas um projeto acadêmico, mas uma questão existencial para mim. Lembrei de uma frase que cunhei tempos atrás: “Há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Como foi o processo de desenvolvimento da pesquisa? Quais os entraves e quais as descobertas ao longo dele?

Foi doloroso, como todo processo criativo. Foram três anos de muitos acontecimentos: mudança de cidade, perda de emprego e dificuldades financeiras (estava sem bolsa de incentivo), divórcio, publicação de dois livros (um de contos e um de poesia) e o maior e mais maravilhoso deles, o nascimento da minha filha. Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir. E eu consegui, sobremaneira, movido pela paixão que explicitei na resposta anterior.

Você consegue extrair desse processo dicas para outros pesquisadores? Práticas a levar adiante, problemas que se pode prever.

O processo de produção textual não é fácil. Então, é preciso disciplina, algo que não tenho muito. Tive que me cobrar muito quanto a horários, por exemplo. Um segundo ponto é o silencio, tanto real quanto virtual. Minha atenção se dissipa facilmente. Eu vi como uma espécie de mandamento desligar celular e internet enquanto escrevia. Em relação propriamente ao método, cada pesquisador/escritor tem um que percebe mais produtivo. Eu prefiro escrever um esqueleto, um esboço e “preencher” aos poucos. É um processo lento. Depois, deixo o texto descansar uns dias e releio tudo. Reescrever, às vezes, é muito mais importante do que propriamente escrever.

O que você pretende fazer agora? Quais seus próximos passos como pesquisador?

Me fiz um autoconvite para o doutorado, ao vivo, que foi prontamente aceito pelo meu orientador Oswaldo Giacoia. Gostaria de deixar registrada aqui minha gratidão a ele, por sua generosidade ao longo de todo o processo. Giacoia está entre os maiores pesquisadores de Nietzsche no mundo e, mesmo assim, prestou-me uma atenção lapidar. Pretendo, em breve, retomar minhas aulas de alemão para, agora, pesquisar Nietzsche em sua língua materna. Talvez, eu desenhe minha tese sobre um possível diálogo entre Nietzsche e Marx.

Trecho da pesquisa

Nietzsche defende que o homem, a partir de suas disposições fisiológicas, é genuinamente um criador de metáforas. Os conceitos e a ideia de verdade nascem porque os homens se esquecem desse caráter criador da linguagem e tal esquecimento ocorre, por um lado, pela necessidade de sobrevivência e, por outro, por questões morais.

(…)

Quanto tempo o universo não passou sem a inteligência humana, sem o que hoje se nomeia de racionalidade? Se o homem é um animal racional, como afirmara Aristóteles, esse atributo não o destaca, não o eleva diante dos demais animais, pois, para o intelecto, não há “nenhuma missão ulterior que conduz para além da vida humana”. A audácia deste animal chamado homem está em medir o universo com a própria régua sem, no entanto, o discernimento de que possui uma régua. Ou, para usarmos outra metáfora, o homem olha para o espelho crendo que está olhando para o mundo.

Nietzsche afirma o caráter fugaz do conhecimento do homem: o intelecto não faz do homem um ser especial, muito menos um ser com participação na divindade. O intelecto, ao contrário do que, de modo geral, legou-nos a tradição, cumpre uma função semelhante às demais partes do corpo e está circunscrito aos limites da vida humana. Se tomarmos a natureza ou mesmo a “história universal” como parâmetro, o intelecto humano mostra-se frágil e sem finalidade. Neste sentido, novamente Nietzsche discorda de Aristóteles, para quem o anseio de conhecer é inerente ao ser humano, como se fosse um diferencial destacável do homem em relação aos demais animais. Diz o estagirita* em sua Metafísica: “Todos os homens, por natureza, desejam conhecer”. Escreve o jovem professor alemão no fragmento 19 [178]: “Sob o ponto de vista da natureza, o homem não existe para o conhecer”. O conhecimento, de acordo com Nietzsche, tem sua raiz fincada nas necessidades de sobrevivência do homem e a origem da linguagem não está relacionada ao pensamento, mas a questões inconscientes.

* Estagirita se refere à cidade onde nasceu Aristóteles, Estagira.

Contos

Bolsonaro 0x1 Gafanhotos

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É julho de 2020. Bolsonaro está em reunião com os filhos e uns ministros no Palácio da Alvorada. Ouve uma batida na janela. Lá fora é uma manhã nublada e de mormaço, um desses dias que soam mais silenciosos que os outros — e TUMBF. Batida no vidro. Bolsonaro olha: uma gosma marrom-esverdeada no vidro e um corpo de inseto escorre. Antes que consiga pensar em qualquer coisa — TUMBF — mais um. E logo vem outro, mais outro, os gafanhotos chocam-se com violência, na vidraça os trincos pipocam aqui e ali. Ninguém parece ter percebido nada, Bolsonaro já está de pé. Quando o primeiro estoura a barreira, ele já está na porta. A nuvem força, a janela se despedaça, os fragmentos de vidro voam sobre mesa, político, carpete, aos gritos Damares reage, é do Diabo!, é do Diabo!, até perceber que se é gafanhoto não pode ser, não pode ser, será que eu… Salles está tremendo que nem vara verde, não consegue se situar, só vê manchas vibrantes e velozes, só ouve o zumbido cada vez mais intenso, ele se esconde debaixo da mesa, em pouco tempo aquilo entra na sua mente, ele alucina, no fundo do zum zum zum, vamos passar a boiada, sai daí e vem ver a boiada passar, Ricardinho… enquanto isso Eduardo faz cosplay de Al Pacino em Scarface, uma arma em cada mão, atirando nos bichos e berrando, de repente um lhe entra na boca, mais outro, mais outro, a boca de Eduardo é um funil, a nuvem vira um pequeno tornado, Eduardo incha, Eduardo explode, seus restos mortais mancham a sala toda, atingem especialmente Paulo Guedes, o Posto Ipiranga todo encharcado de sangue, coberto de tripas, a economia decolando!, ele reclama, e aí acontece isso!, os gafanhotos estão comendo o Chicago Boy bocadinho por bocadinho, os fluídos vitais vazam, ele pensa, bem, agora só pulmões e coração podem ter recursos, não tem pra todo mundo, não tem, racional até o último minuto, que no caso foi esse mesmo, porque não sei se os gafanhotos sabem de economia mas não fizeram desperdício nenhum… nisso o líder da República já está, puta que pariu, puta que pariu, pelo gramado tropeçando, vê uns apoiadores seus lá na frente, corre em direção deles, grita, o STF, porra!, o que foi, meu presidente?, a Globo, a OMS, vêm vindo, como assim, meu presidente?, querem a nossa hemorróida, porra!, vamos te defender, meu presidente, isso mesmo!, eles vão, ele fica; sentado no chão, suado como um porco, ele os vê andando marchandinhos dizendo mito, mito, mito, até que entram no palácio e só resta o silêncio. Bolsonaro acredita que escapou, que mais uma vez funcionou — aliás, funcionou uma vez, não tem porque não funcionar outra, tinha usado partido e aliado e ministro e o país de boi de piranha e tinha dado certo, agora deu também. Bolsonaro tão inexplicavelmente vivo como foi inexplicavelmente eleito presidente. O mormaço está forte e o céu é branco. Ele se deixa descansar um momento. Então, cai a noite. A noite? Mas são onze da manhã.

Entrevistas

Da Crítica Literária: Maya Falks

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Em 1943, Antonio Candido, um dos mais importantes críticos literários da história do país, iniciou a publicação de colunas na Folha de S.Paulo. O primeiro artigo, chamado “Ouverture“, fazia uma reflexão sobre o trabalho da crítica, e estabelecia os critérios para a futura atuação do autor naquele espaço. A partir desse texto — extraindo dele algumas perguntas —, desenvolvi uma série de entrevistas aqui no blog com críticos literários brasileiros.

Neste post, a fala é de Maya Falks, jornalista e escritora, responsável pelo blog Bibliofilia Cotidiana e autora do romance Histórias de minha morte e da coleção de poesias Poemas para ler no front, entre outros.

Acesse todos os textos publicados na série Da Crítica Literária.

O que é a crítica para você?

É observar os detalhes da obra, interpretar as mensagens para então poder retirar do conteúdo o que ele tem de melhor. De forma geral, a crítica é vista como apontamento de defeitos, mas eu trabalho com as qualidades.

No campo da crítica, qual a sua ética?

Não misturar jamais o pessoal e o profissional. Como pessoa, me sinto no direito de não simpatizar com todos autores ou me ressentir de alguma editora que tenha, porventura, reprovado algum original meu, mas, na hora da resenha, nada disso existe, meu foco é a obra e sua qualidade.

Quais imposições que se faz?

Imposição, por si só, é algo que conceitualmente já não me agrada. Gosto de ser flexível, tenho tato ao lidar com obras, autores e editores, por isso a única coisa que acaba sendo inevitável é pedir aos que me enviam livros que tenham paciência, todos os livros que atendem a linha editorial do blog serão eventualmente resenhados.

Quais os princípios de trabalho com os quais não transige?

Creio que meu maior princípio, na crítica, é não dar voz à opressão. Não trabalho com livros técnicos, porque o foco é literatura; não trabalho com livros religiosos para não abrir precedentes; não trabalho com livros eróticos, porque é um gênero que, pessoalmente, não me sinto confortável lendo; e não trabalho com infantil, porque não me sinto apta a analisar obras que mexem com a formação de leitores. Essa é a base da minha linha editorial, mas dentro da literatura com a qual trabalho, não aceito, não resenho e não divulgo obras que contenham qualquer tipo de discriminação que não seja em forma de denúncia. Livros com conteúdo racista, machista, LGBTfóbicos, entre outros, não têm espaço no meu trabalho. E nunca terão.

Qual a qualidade básica no trabalho do crítico?

Não permitir que seu gosto pessoal interfira no seu trabalho. Não gostar de um determinado gênero não me impede de analisar um livro com cuidado e apuro. Claro, aqui pode parecer um contrassenso já que disse acima que não trabalho com erótico por questão pessoal, mas uma resenha erótica obrigaria até a mudança de faixa etária do blog, então acaba sendo mesmo a exceção. Um bom exemplo que posso dar é que, pessoalmente, não sou leitora de fantasia, mas aceito obras de fantasia para resenha, porque me sinto capaz de dar esse olhar analítico que a resenha exige. Não é a leitora que resenha, é a jornalista.

Quando o crítico sabe que sua missão está cumprida?

Costumo me dar por satisfeita quando consegui abordar pelo menos os aspectos mais centrais da obra. Tem livros que exigiriam resenhas gigantescas se todos os aspectos fossem abordados, então as vezes preciso escolher o que apontar. Da mesma forma, algumas resenhas são publicadas com trechos da obra, outras sem, e isso se deve aos aspectos da obra que pretendo destacar. A satisfação acontece quando percebo que fui fundo o bastante naqueles aspectos sem, no entanto, “entregar o ouro”, afinal, a ideia é que o leitor tenha vontade de ler a obra, e não que sinta que já sabe o suficiente através da resenha. Se nos comentários surge gente dizendo que teve vontade ler o livro depois de ler a resenha, aí temos o suprassumo da missão cumprida.

O que seria um crítico sem doutrina?

Depende da doutrina. Conhecimento é fundamental, mas o “feeling” do crítico lendo a obra é mais ainda. Na minha jornada, percebo que meu histórico de leitora voraz contribuiu muito mais com as minhas análises do que o conhecimento teórico. É importante a doutrina? É. É impossível fazer crítica ou resenha sem ela? Não.

Literatura

“Modos de Dizer”, Mário Bachelet

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“Modos de Dizer”, de Mario Bachelet — autor português de quem não consigo encontrar nada na internet — é um conto relevante no interior do As Esferas do Dragão. Quando escrevi o livro, me lembrava de cabeça da história, a partir de um livro de escola, lido há muito tempo, possivelmente no mesmo porão onde reencontrei o conto do rei que ouve duas vezes a mesma profecia, e prefere sua tradução doce à amarga.

Abaixo, o trecho do meu romance em que a historinha é citada. Depois, o texto de Mario Bachelet.

(Criança, li um conto em que um rei ouvia duas profecias iguais. Ambas lhe garantiam uma vida extremamente longa, mas o primeiro profeta sublinhou o que havia de sombrio nisso: ele assistiria à morte de todos os seus. O segundo disse que estaria presente para alegrar-se com suas alegrias e para apoiá-los na tristeza. O primeiro foi enforcado; o segundo, festejado.)

***

Uma vez um rei sonhou que todos os seus dentes lhe foram caindo da boca, um após outro, até não ficar nenhum. Era no tempo em que havia magos e adivinhos. O rei mandou chamar um deles, referiu-lhe o sonho e pediu-lhe que o decifrasse. O adivinho levou a mão à testa, pensou, pensou, consultou a sua ciência e disse:

– Saiba Vossa Majestade que a significação do seu sonho é a seguinte: está para lhe suceder uma grande infelicidade. Todos os seus parentes, a rainha, os seus filhos, netos, irmãos, todos vão morrer sem ficar um só ante os olhos de Vossa Majestade.

O rei entrou em cólera, ficou muito irritado e, chamando os guardas do palácio, mandou decepar a cabeça do adivinho que lhe profetizara coisas tão tristes.

Estava o rei muito acabrunhado com o vaticínio, quando se aproximou um cortesão e lhe aconselhou que consultasse outro adivinho, porque a interpretação do primeiro podia estar errada e não devia Sua Majestade se afligir em vão.

O rei adotou o conselho, mandou chamar outro mago e lhe narrou o mesmo sonho, pedindo que o decifrasse.

O adivinho levou a mão à testa, pensou, pensou, consultou a sua ciência e disse:

– Saiba Vossa Majestade que o seu sonho significa o seguinte: Vossa Majestade terá muitos anos de vida. Nenhum dos seus parentes lhe sobreviverá. Nem mesmo o mais moço e mais forte deles terá o desgosto de chorar a perda de Vossa Majestade.

O rei, muito satisfeito, mandou encher o adivinho de presentes, deu-lhe muitas moedas de ouro, muitos diamantes, roupas de seda bordadas e um palácio para morar, nomeando-o adivinho oficial do reino.

No entanto, o segundo mago, que recebeu tais prêmios, disse a mesma coisa que o primeiro, que foi degolado. A única diferença foi a linguagem que ele empregou. Esta fez que ele recebesse prêmio em vez de castigo.

Crônicas

Não se fazem mais nomes de doença como antigamente

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Além das quarentenas, do pânico, da queda das bolsas, tem outro problema nessas doenças novas: perdeu-se uma poética da doença, um lirismo. Antes, o batismo da patologia roçava o contágio, a linguagem era potente de sinestesia. Hoje, nada.

Você veja: Covid-19. Isso não funciona. Isso parece letreiro de ônibus: “Peguei o Covid-19, desci na pracinha”; “O Covid-19 é foda, sempre lotado”. Vai me dizer que isso tem a força, por exemplo, de: caxumba?

Olha a sonoridade. Um narrador de Nabokov diz que, quando se enuncia “Lo-li-ta”, vem “a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes”. Agora repara:

ca
xum
ba

Dá pra ouvir soarem bumbos. Mais uns metais graves vira uma sinfonia. Beethoven podia ter escrito, além da Pastoral e da Heróica, a Caxumba.

Covid-19 ou H1N1 não conseguem transmitir o terror de um cancro mole, que você nem sabe onde que isso pega mas já está com medo. Nem de uma gonorreia, que a gente diz a palavra e já se sente meio mal.

Cadê a visualidade de uma barriga d’água? Cadê o fantástico de um bicho-geográfico, que tipo tem um mestrado ou tipo parasita a própria ciência? E o mistério policial de uma moléstia causada por um barbeiro?

Arnaldo Antunes não teria conseguido fazer uma letra com esses nomes de cabeça de planilha de hoje. Imagine:

“SARS, MERS, H5N1, Covid 19
O pulso ainda pulsa”

Não dá, não dá. Pelo menos ainda temos uma dengue, cuja assonância com “dengo” carrega um sarcasmo ferino. Pelo menos ainda temos a chikungunya — estrangeira, gutural, metálica.

E pelo menos ainda temos a zika, palavra que merecia uma arqueologia — denota estar azarado ou meio amaldiçoado (aos velhos) ou algo classudo, alguém estiloso (aos jovens), e ainda por cima define febre, dores nas juntas, manchas vermelhas. Insidiosa, polissêmica.

A zika é zika. Cheguei com isso a um poema concreto ou a um trocadilho de tiozão? Essa é a beleza da coisa.

Destaques

Da Pesquisa Brasileira: Michel Amary, os tempos da arte e a alegoria contra o totalitário

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Este artigo compõe Da Pesquisa Brasileira, série sobre quem cria conhecimento no Brasil, publicada neste blog e na revista Úrsula.

“Gostaria que minha pesquisa fosse uma das portas de entrada para esse modo privilegiado do discurso e do pensar que é a filosofia”, afirma Michel Amary, mestre e bacharel em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), também graduado em publicidade e propaganda pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Conversei com o pesquisador sobre a sua dissertação de mestrado, defendida no fim de 2019: “A formação e a crítica de arte do drama barroco alemão“. Nela, Michel trabalha a obra do filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940): aplica o seu “método crítico-filosófico” de estudo de obras de arte — que, grosso modo, procurava captar o objeto artístico na história da sua formação e em como persiste vivo na atualidade — para estudar concepções do barroco alemão. Além de importante para discutir a tradição filosófica, retornar a essa parcela do pensamento benjaminiano pode trazer, segundo Michel, recursos para pensar a estética, a política, a literatura, a linguagem e a psicologia.

Michel também foi provocado a sugerir práticas a outros que estejam no caminho da pesquisa. Nesse sentido, ele falou das dificuldades do mercado de trabalho em filosofia e na academia em geral — “se preparem para a fila do desemprego, planejem-se para o que fazer depois da pesquisa, ter outras experiências na área ou em outros campos pode ser uma porta para o futuro” —, da solidão, da ansiedade e da depressão que podem afetar os pesquisadores — “cuidem da saúde mental, cultivem as amizades apesar da competição desenfreada do ambiente acadêmico” — e da necessidade de manter, apesar da exigência de “superespecialização”, uma vida cultural mais variada — “façam como um jogador de futebol que em suas férias joga bola e leiam literatura quando tiverem um tempo livre”.

A entrevista segue abaixo — os links nela foram acrescentados pela edição. Nos próximos dias, publicaremos um trecho selecionado da dissertação.

Fale sobre a sua pesquisa.

Procurei entender o método crítico-filosófico aplicado à arte que Walter Benjamin desenvolveu em sua tese de habilitação sobre o drama barroco alemão. Esse método não foi nem um pouco intuitivo e é pouco convencional para uma historiografia da arte puramente formalista, com pretensão cientificista, que em sua apreensão do fenômeno artístico acreditava representar em dados factuais a essência do objeto artístico e da sua história, catalogada em períodos específicos e classificados em supostos padrões de qualidade. O método benjaminiano pode ser considerado um pouco mais subjetivista porque, considerando a impossibilidade de experimentar o tempo histórico em que tais objetos foram produzidos, o que lhe interessava era como eles sobrevivem à atualidade.

A sua crítica consistia basicamente em dois movimentos, um de quebra e um de salvação. O primeiro passo era romper com a aparência de conhecimento sobre determinado objeto, passando da análise puramente formal para uma história cultural que percorresse as diversas camadas de constituição da obra — isto é, seu teor material —, todas aquelas fontes que dão um panorama geral da episteme de quando ela foi produzida; no caso do barroco alemão, os manuais de poética, os tratados de política, os ensaios de astrologia, teologia e filosofia do século XVII que se apresentavam como fragmentos desconexos. Já a salvação consistia em um processo de montagem desses fragmentos em relação à interpretação da obra que, também, não estava desconectada do fluxo contínuo do tempo, uma vez que se dava anacronicamente. O teor de verdade da obra aparecia como aquilo que resistiu ao tempo e ao escrutínio dos fenômenos. Nesse processo Benjamin estava profundamente interessado em observar como um fenômeno artístico descolado de seu contexto adquire sobrevida com novas significações no tempo e espaço presente. Nesse sentido o crítico filósofo é mais que um comentador da obra, é também um criador, seu alegorista.

Gosto de pensar que pesquisadores e historiadores da filosofia são guardiões do conhecimento, cuidam para que esse saber não se perca e possa nos iluminar quando requisitado por um tempo que se fecha

O interesse [de Benjamin] no barroco alemão surge da crítica à historiografia positiva e formalista que predominava na Alemanha e, ao mesmo tempo, do resgate do gênero em estudos acadêmicos e manifestações artísticas a partir da Primeira Guerra Mundial, aparecendo, ora como expressão da desolação e sofrimento da guerra, ora pela sua instrumentalização ideológica na formação de um orgulho nacional alemão. O debate que Benjamin propõe não é apenas para fazer justiça a um gênero artístico esquecido e pouco falado, mas sobretudo para compreender seu próprio tempo e, por isso, a parte mais comentada e estudada de seu texto, nesse contexto, é o debate que abriu com o jurista Carl Schmitt sobre a teoria da soberania e o estado de exceção. Na minha pesquisa, busco aplicar o método de Benjamin, buscando comparar as fontes que formaram a concepção a que ele se contrapõe do barroco alemão com a sua própria leitura sobre essa dramaturgia. Nesse sentido busquei entender como os autores da tradição germanista compreenderam o barroco alemão, apresentando as críticas, mas também as apropriações que Benjamin faz desses autores, para constituição de um método próprio e uma interpretação original sobre essa manifestação artístico cultural.

De que modo a sua pesquisa é importante para a área principal em que se inclui? A que outras áreas, mais ou menos distantes, interessa?

Apesar do estudo de Benjamin sobre o barroco alemão ter sido reprovado pelos seus pares em sua época, frustrando os planos do autor de seguir carreira acadêmica, este texto específico marcou um limiar de seu pensamento filosófico para maturidade e posteridade.

Esse método crítico desenvolvido por Benjamin é importante para seus trabalhos futuros sobre a modernidade, muito mais estudados em nosso meio, e também guia uma parte importante da estética contemporânea, aparecendo em autores como Didi-Hubermann, Peter Bürguer, Hal Foster e outros. Ele também é influente no debate político atual trazido por Hannah Arendt, Jacques Derrida, Giorgio Agamben e Judith Butler em torno da violência e da teoria da história e da soberania. No campo da literatura e da linguagem, a teoria da alegoria que se desenvolve [no texto benjaminiano] traz considerações importantes sobre a representação artística e linguística. Para a psicologia há também uma teoria da melancolia que não deixa de ser interessante em sua compreensão histórica. A questão da memória pode ser reivindicada por psicólogos e historiadores, que contam também com uma gama de definições do conceito de história nesse processo de descrição do barroco. Na filosofia os interesses são diversos e acreditam que têm fim em si mesmo, mas para além da massa crítica que deixou tanto no campo da estética como na política, podemos tirar muitas outras lições do estudo do livro do barroco alemão como uma crítica epistemológica ao método científico e a filosofia representativa de Descartes até Kant, como noções de lógica na própria questão da linguagem, na qual vai dialogar com Bertrand Russell e até teológicas-metafísicas que aparecem pela influência de seu amigo Gersom Scholem.

Talvez Benjamin já tivesse previsto no capitalismo uma regressão totalitária. Nessa nova teologia, o que importa é a impressão de neutralidade passada pela frieza com que se interpreta os números e não mais as vidas afetadas e sacrificadas

Tento ressoar todos esses ecos que o texto de Benjamin traz para a história da filosofia, abrindo-o também para realização de estudos futuros, mas acredito que a maior importância que tem a minha pesquisa em particular e em filosofia em geral, seja o resgate cultural da história do pensamento, daquilo que nos formou e nos trouxe até aqui. Gosto de pensar que pesquisadores e historiadores da filosofia são guardiões do conhecimento, cuidam para que esse saber não se perca e possa nos iluminar quando requisitado por um tempo que se fecha. Gostaria que minha pesquisa fosse uma das portas de entrada para esse modo privilegiado do discurso e do pensar que é a filosofia, que ela seja um convite para as pessoas conhecerem o filósofo que eu estudo ou para que, em sua companhia, circulem pela história da filosofia alemã ou despertem para a filosofia em geral e sua valorosa história de pensamentos e contribuições.

No que ela poderia ser atraente para o público em geral – seja pelo todo, seja por partes, seja pelo impacto em um assunto.

Não podemos fugir da urgência de nossos dias para responder essa pergunta. De fato, o barroco alemão parece um tema superespecializado sem pouco contato com nossa realidade. Já na época de Benjamin era assim, [a atriz] Asja Lasci, quando o conheceu, o criticou por isso, reconhecendo depois que não havia compreendido o que estava em jogo para além das preocupações literárias em sua pesquisa. A resposta tanto naquele período como agora é a questão política.

Já foram feitas muitas comparações entre o período weimariano em que a tese foi escrita e a atual ascensão conservadora no mundo, sobretudo, no Brasil. É bom que guardemos as proporções e dimensões do que aconteceu na Alemanha para o que acontece agora, há sinais de preocupação, pastiches e proximidades, mas ainda estamos longe daquela “solução final”. Contudo, se a história funciona como eterno retorno, como Benjamin mostra a partir de Nietzsche, não podemos subestimar esse momento histórico. Em uma de suas teses sobre a história, Benjamin formulou a ideia de um estado de exceção permanente do ponto de vista dos oprimidos, e nos parece que mesmo as experiências democráticas liberais do século XX não puderam encontrar um novo conceito de história que desse conta disso. Não é por menos que as próprias constituições republicanas preservam essa possibilidade legal, cada vez mais requisitada por governos “democráticos” da direita a esquerda. Como um crítico da ideologia técnico-racional e da história em progressão evolutiva, talvez Benjamin já tivesse previsto no próprio desenvolvimento do capitalismo uma regressão totalitária. Para ele, na sociedade de consumo, fetichista, o capitalismo aparece como nova teologia, se naturalizando em rituais cotidianos que nos estranha primeiro enquanto coletividade e segundo de nós mesmos em nossa individualidade. Nessa nova teologia, a racionalidade técnica desenvolveria um papel importante destituindo as decisões de dignidade política, as escolhas não aparecem mais sendo uma questão em disputa, ainda que esteja implicada no olhar sobre as tabelas, o que importa é a impressão de neutralidade passada pela frieza com que se interpreta os números e não mais as vidas afetadas e sacrificadas. O marco civilizatório da modernidade que laicizou o Estado e nos livrava do temperamento tirânico de governantes nos submetendo ao império da Lei, é agora despolitizado pela figura do especialista competente e suas decisões técnicas abertas aos lobbys e ao culto à mercadoria compartilhado por consciências meritocráticas que individualizam o fracasso como culpa. A despolitização do político aponta certamente para o esfacelamento da arena pública da democracia e desconfiança para com a república. Surgida como forma de controle da humanidade sobre o mundo natural, a técnica trai a humanidade. Essa racionalidade técnica-fetichista não aparece apenas como um controle da natureza pelo homem, mas também como instrumentalização do homem pelo homem, que em sua condição natural é passível de ser eliminado. Nesta rua de mão única é que passamos da razão esclarecida para a barbárie.

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Observando a experiência social de sua época, Benjamin vê a impossibilidade de transcendência histórica; a falência das utopias e o declínio da esperança; o silêncio da natureza frente à sua destruição pela técnica e pelo desencantamento do homem que a abandonou enquanto se alienava na espera da próxima guerra; o lawfare em funcionamento que contrapõe o direito à justiça na produção de culpa e de destinos; e a própria ascendência do pensamento capitalista, que hoje se apresenta em sua fase neoliberal, não mais como ideológico, mas como episteme estruturante e organizadora da mentalidade e da vida em sociedade. Acho que tudo isso mantém atualidade no mundo em que vivemos e de certa maneira aparece na minha pesquisa quando falamos sobre a condição política e melancólica do herói barroco. Com a crise de representação democrática que abriu espaço para a emergência dos novos fascismos, torna-se natural que o interesse maior para um público geral seja a interpretação sobre a teoria da soberania e o estado de exceção, que põe em contato o barroco alemão com a República de Weimar. Acredito também que a manipulação da filosofia e da história cultural do ponto de vista ideológico na constituição de um ideário nacional que forjou uma mitologia para o nazismo possa ser de algum interesse para nossa época.

Para você, em particular, por que importa? Como ela se envolve com os seus interesses profissionais, pessoais, políticos? 

Da perspectiva interna à própria pesquisa, o ponto de partida pelo qual me interessei por esse tema foi a questão ética e política dimensionada na teoria da soberania e do estado de exceção. Mas também me detive em questões estéticas, que sempre me foram caras e que ganharam prioridade nessa etapa da pesquisa. A conversa entre estética e política é muito importante para Benjamin e acredito que continua a ser em nossa época, caso contrário não veríamos a centralidade de uma guerra de narrativas em torno do imaginário cultural. O meu maior interesse parte dessa relação, procurando em uma categoria prioritariamente estética, como a alegoria, uma conotação ética. É o que quero desenvolver no doutoramento.

Grosso modo, para Benjamin a alegoria se contrapõe ao símbolo em sua forma de representação pela identificação e constituição temporal: enquanto o símbolo apresenta a perfeita identificação entre significante e significado, a alegoria se constitui historicamente, ressaltando sempre uma quebra na linguagem e um significado escondido. Enquanto o símbolo aponta para aquilo que é, a alegoria aponta para a pluralidade de sentidos de uma mesma representação. No campo político da representação, o símbolo estaria próximo ao totalitarismo, seja permitindo apenas um discurso, seja na imagem simbiótica de identificação de um líder com a massa, com um povo, com uma nação. Já a alegoria sempre ressalta a alteridade, seja no estranhamento e na relação com o diferente e com o outro na representação, que revela não poder ser em si mesma, seja na pluralidade de visões nos mais variados sentidos acumulados pela descontextualização de seu elemento em uma relação espaço-temporal.

Apesar da situação péssima da pesquisa brasileira acredito no nosso trabalho e tenho certeza de que a filosofia tem muito a contribuir para a sociedade por vir. Desde que Sócrates tomou a cicuta tentam cercear e encerrar a filosofia sem sucesso, faz 2000 mil anos que ela sobrevive às investidas totalitárias das mais diversas

De tal modo, a alegoria se posicionaria mais ao lado do imaginário democrático, em sua construção social e expressão institucional. Não é por menos que a alegoria, marginalizada do ponto de vista estético, deu, em um gênero menosprezado pela tradição como o barroco alemão, vazão a vozes esquecidas como minorias religiosas e protagonistas femininos ([o drama] Catharina von Georgia, de Andreas Gryphius, é exemplar nesse sentido), além de ter deixado sua marca nos diversos personagens e grupos de excluídos que povoam também as passagens parisienses de Benjamin. Essas formulações ainda estão imaturas, mas pessoalmente e politicamente acredito que possam dar alguma contribuição para pensarmos a atualidade. Já profissionalmente não sei se o doutorado tem valido grande coisa no Brasil.

Como foi o processo de desenvolvimento da pesquisa? Quais os entraves e quais as descobertas ao longo dele? 

No geral não se precisa de muitas coisas para fazer pesquisa em filosofia, o que não significa que elas não sejam valiosas para o filósofo e para o mundo todo. É necessário bons livros e, principalmente, tempo. [O filósofo] Gerard Lebrun ressaltava a importância da paciência para se atingir um conceito, uma paciência que nem sempre o ritmo produtivista dos rankings e das agências de financiamento tem; o tempo do pensamento não acompanha a ansiedade por resultados. Na filosofia ainda temos alguma sorte porque há um prazo um pouco maior para entregar a dissertação, o que foi fundamental para o amadurecimento da tese. Contudo esse período a mais não é remunerado, ou seja, aí é preciso também de uma boa condição financeira ou se planejar para se fazer uma boa dissertação. Acredito que o financiamento e baixo valor das bolsas de pesquisa se impõe imperativamente como entrave para a pesquisa de qualidade, que exige dedicação exclusiva. As pessoas precisam sobreviver. Já em relação aos livros, nossa biblioteca tem um bom acervo e o acesso se democratizou com plataformas livres de compartilhamento de conteúdo editorial como Library Genesis e de artigos científicos como o Sci-Hub. Muito do material pesquisado só foi possível ser consultado por esses meios.

Já no processo de escrita, acredito que a maior dificuldade que enfrentei foi em relação a disciplina. Escrever exige muita concentração e como nosso trabalho não tem hora e nem lugar definidos, muitas vezes nossa rotina se torna não convencional e por isso é necessário organização e adaptabilidade para escrita. Como, particularmente, eu gosto de escrever, a produção textual não foi efetivamente um problema, mas a necessidade de ter que escrever todos os dias, independente do estado de ânimo, é um pouco desgastante. Há dias que se escreve mais e outros que as palavras não aparecem, o importante é não deixar de escrever, um parágrafo que seja. O exame de qualificação também foi uma etapa importante da pesquisa, porque, por mais que ela estivesse estruturada, os apontamentos da banca deram um novo norte para que ela ganhasse profundidade necessária como fundamento do que quero desenvolver em sequência. No mais, a grande fortuna que tive foi encontrar muitos interlocutores que acrescentaram, no diálogo aberto, em contraposição e complemento, elementos para mudança de rotas e de interesses, como [a professora] Olgária Matos, que, compreensiva e companheira, me ajudou muito a organizar as minhas ideias para que eu pudesse dar-lhes forma, tornando-se mais que orientadora, uma verdadeira amiga.

Você consegue extrair desse processo dicas para outros pesquisadores? Práticas a levar adiante, problemas que se pode prever.

O trabalho de pesquisa em filosofia é fundamentalmente intelectual, muito solitário e na maioria das vezes pouco reconhecido socialmente. A pressão dos prazos que se apertam e se acumulam e as incertezas profissionais assola a todos os pesquisadores. Não é incomum que a combinação desses fatores leve a diagnósticos psicológicos complicados como ansiedade e depressão. Há diversas pesquisas que apontam esses altos índices de doenças psicológicas em pesquisadores de pós-graduação em relação a outras carreiras e grupos sociais, e, mesmo não tendo os números, acredito que a filosofia tenda a contribuir na manutenção desse quadro. Se eu pudesse dar algum conselho, seria para que cuidassem da saúde mental, que cultivassem as amizades apesar da competição desenfreada do ambiente acadêmico; os prazos apertam, mas não precisamos ficar enclausurados reforçando o estereótipo do filósofo excêntrico e isolado na montanha — se permitam viver. As trocas são fundamentais para o desenvolvimento de nossas ideias, estar em sociedade é crucial para não perdemos o chão da realidade, e ócio e momentos de lazer e descontração são importantíssimos para que a cabeça descanse e os pensamentos fluam.

Outra sugestão que daria é participação na vida cultural, o que pode parecer um oxímoro para pesquisadores de filosofia. Contudo, nosso curso tende à especialização extrema e se deixar experimentar por outras visões de mundo é um ótimo remédio para doença do filósofo, aquela que o prende em seu tema de estudo e o faz enxergar o mundo ao seu redor apenas com essa lente. Essa vivência cultural é importante não apenas pela bagagem que amplia nosso campo de visão, mas, sobretudo, porque nos permite encarar de maneira diferente e criar novas relações para nossa própria pesquisa. Nessa mesma chave, reforço: leiam literatura. Como já temos que ler muitos livros e comentários especializados sobre o que estudamos, pode acontecer de a deixarmos de lado. Ao contrário do texto filosófico que, em sua leitura técnica e estrutural, muitas vezes parece não sair do lugar, a literatura traz uma outra relação com o texto, de prazer e movimento e, além de todos os benefícios do que chamei de vivência cultural, ela com certeza te fará escrever melhor. Então, façam como um jogador de futebol que em suas férias joga bola e leiam literatura quando tiverem um tempo livre.

Já no âmbito profissional, se preparem para a fila do desemprego. Quando a pessoa escolhe seguir a carreira acadêmica ela já conhece as pedras no caminho, mas a situação de alguns anos para cá piorou muito com a política anti-iluminista de Estado. Não falo apenas dos cortes orçamentários que preocupam todas as áreas, mas da afronta à liberdade de cátedra e de expressão e à pluralidade de ideias nas universidades, da condenação de fatos científicos que desagradem oficiais do governo e, também, da perseguição ideológica a temas considerados proibidos por uma visão fundamentalista religiosa. Na filosofia vemos o desmonte da carreira de baixo para cima, nas escolas que passam pela censura de projetos como Escola Sem Partido e pelo fim da obrigatoriedade dessa e outras disciplinas de humanidades no ensino médio, assim como pela contratação por “notório saber”, que desincentiva a formação na área e coloca o ensino de filosofia sob a tutela de astrólogos, coachings, religiosos e outros tipos charlatões que se autoproclamem filósofos; na pesquisa temos cada vez menos financiamento e suspeita sobre nossos trabalhos, ao mesmo tempo; temos que publicar em produção industrial, muitas vezes sem ter algo relevante para dizer, para pontuar nos concursos de professor praticamente escassos em universidades públicas. A competitividade se torna insana. No campo privado a situação não é melhor, não só porque as escolas estão fortemente pressionadas pelo clientelismo e pela vigilante censura de movimentos civis conservadores, como também porque as universidades privadas têm preferido mestres a doutores como política de redução de custos. Falam em meritocracia, mas a qualificação está sendo punida. Outras áreas que poderiam nos abraçar, como a cultura e o mercado editorial, também têm sido muito maltratadas nos últimos anos no Brasil seja pela política, seja pela economia. É uma terra arrasada. Além disso, a gente acaba nossa formação com um capital cultural muito grande, mas em uma idade mais avançada e sem muitas experiências profissionais mercadológicas o que dificulta também nossa inserção no mundo do trabalho. O que eu diria para quem está começando agora nessa caso é para se planejarem e prepararem para o que fazer depois, as bolsas são fundamentais e a pesquisa exige muito de nosso tempo, mas se puderem ter outras experiências na área ou em outros campos de trabalho é recomendado que aproveitem, porque pode ser uma porta para o futuro.

O que você pretende fazer agora? Quais seus próximos passos como pesquisador?

O caminho natural seria dar continuidade à pesquisa no doutorado. Apesar da situação péssima da pesquisa brasileira acredito no nosso trabalho e tenho certeza de que a filosofia tem muito a contribuir para a sociedade por vir. Desde que Sócrates tomou a cicuta tentam cercear e encerrar a filosofia sem sucesso, faz 2000 mil anos que ela sobrevive às investidas totalitárias das mais diversas. Nem mesmo a ditadura militar conseguiu matá-la e não vai ser essa onagrocracia que tomou o poder que vai conseguir. Não sei que resposta podemos dar a essas ofensivas, mas devemos continuar, não só porque alguma hora o pêndulo da história muda e essa tortura anti-humanista passa, mas também porque qualquer manifestação de pensamento os ofende.

Em palestra recente, [o filósofo] Paulo Arantes nos lembrou que a resposta da Faculdade de Filosofia durante os anos de chumbo foi exatamente essa, engrossar o caldo cultural e continuar a fazer filosofia com voz ativa, fazer com que as ideias circulem, o que, de certa forma, acabou formando a geração que acabou por assinar a democratização. Ao mesmo tempo nos parece muito difícil ficar indiferentes, apenas pesquisando. O filósofo Günther Anders nos conta, falando sobre a emigração de Benjamin em Paris, que se engana quem pensa que eles tinham tempo de conversar sobre filosofia, porque naquele momento de luta por autopreservação e sobrevivência, acima de tudo era preciso ser antifascista. Acredito que podemos encontrar um meio termo dessas duas experiências da filosofia em tempos sombrios. Não devemos romantizar nosso trabalho como se nada mais importasse enquanto somos testemunhas de perseguições políticas e graves retrocessos civilizacionais: nessa situação ele nos parece menor, contudo, não devemos também abandoná-lo de todo. Talvez para além de transformar o mundo, como inferia Marx, seja também o momento de filósofos darem um passo para trás e voltarem a interpretá-lo, como sugeriu Adorno de frente ao abismo. Entender “isso que tá aí, tá ok?” Devemos continuar a pesquisar, invariavelmente, carregando bandeiras antifascistas.