Serei eu trivial?

No revés das altas expectativas que tem de si, o sujeito se choca com a possibilidade de ser como todos.


  • No Caminho de Swann, Marcel Proust
p. 220-221 (trad. Mario Quintana)

Mas outras vezes (...) [minha vida atual] afigurava-se-me ao contrário inclusa em uma realidade que não era feita para mim, contra a qual não havia recursos, em cujo seio eu não tinha aliados e que nada ocultava além de si mesma. Parecia-me então que eu existia da mesma forma que os outros homens, envelheceria e morreria como eles e que, no meio deles, apenas pertencia ao número dos que não têm pendor para escrever. E assim, desanimado, renunciava para sempre à literatura (...). Esse sentimento íntimo, imediato, que eu tinha do nada do meu pensamento, prevalecia contra todas as palavras lisonjeiras que pudessem prodigalizar-me, da mesma forma que os remorsos na consciência de um mau cujas boas ações todos louvam.

 

O personagem chega a esse sentimento após considerar o que seria a sua falta de talento para a literatura, sugerida pelo fato de que, ao procurar um tema para sua narrativa, algo consistente e de peso, não encontra nada dentro de si. O não-dito vale por uma definição de literatura: se fosse realmente escritor, não existiria como os outros homens, não envelheceria e morreria como eles, teria outra maneira de existência, seus envelhecimento e morte — podemos supor — seriam, no fim das contas, insubstanciais. A vida comum é aqui um defeito; a escapatória é a arte, mas ela não concede suas graças a todos, e nosso protagonista sente que não as concedeu a si… Interessante também esse final do parágrafo: elogios não lhe faziam qualquer bem, como a boa fama de um canalha não poderiam lhe livrar da culpa. Isso indica que o júri é interno; a aprovação dos outros não podem dar dar o veredicto: és, sim, escritor — e, pois, único.

[estrofe]
I fear that I'm ordinary,
just like everyone
to lie here and die
among the sorrows
adrift among the days

 

A expressão é forte: eu tenho medo de ser ordinário como todo mundo. Segue-se a isso uma descrição do que isso implica: só ir ficando por aqui e morrer entre tristezas, à deriva no tempo. A vida comum é esse estar em por quê, como uma coisa, é esse perecimento sem intensidade, é esse ser lançado de um lado a outro. É, em suma, falta de algo que determine o sujeito, de um sujeito que se autodetermine. O restante da música demonstra que o temor era retórico; quem canta passa a manifestar o que Nietzsche chamaria de amor fati: ama o seu destino, aceita, não de forma resignada, mas decidida a sua condição. Voa, como Ícaro, próximo ao sol, alguns anunciam que cairá. Mas ele sabe bem quem é, e não só… (veja a letra completa).

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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