Cinthia Mendonça: seguir o bem comum e a empatia, saber que somos vulneráveis

[texto publicado originalmente no site do Itaú Cultural]

Com que base ética pensamos nosso modo de vida, o local onde moramos, nossas relações com os outros, nosso trabalho? Na atuação da artista e pesquisadora Cinthia Mendonça, as palavras essenciais parecem ser: bem comum, responsabilidade, empatia, vulnerabilidade. É a partir de conceitos assim que se desdobra a organização dirigida por ela, a Silo – Arte e Latitude Rural, voltada para a criatividade em arte, ciência e tecnologia em áreas rurais e de conversação ambiental.

Cinthia – que é mestra em artes visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora em práticas artísticas contemporâneas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) – conversou com o Itaú Cultural (IC) sobre como opera a Silo, as diferentes metodologias usadas para estimular os projetos e as trocas, e os princípios que guiam a criação conjunta – alguns deles, citamos aqui em cima. Além disso, propõe ressignificar o campo, capaz de produzir referências estéticas, não em oposição, mas em “diálogo fluido” com a cidade, decisivo para o equilíbrio do planeta.

“Queremos narrar, contar histórias, memorar, documentar, criar relatos, queremos reapropriar-nos de um modo de vida e colaborar para reativar a capacidade de narrar.” Assim Cinthia define o propósito da Silo. Para saber mais sobre a entrevistada, acesse seu perfil no Academia.edu, em que está disponível parte da sua produção acadêmica. Conheça também o livro Resiliência: Residência Artística, registro de um processo colaborativo como os tratados na fala abaixo.

Em um de seus artigos, “Laboratórios empáticos”, você fala das características e dos potenciais dessa forma de criação coletiva. Gostaria que comentasse como as ideias trazidas nesse texto se relacionam com a atividade da Silo, na qual essa construção conjunta parece ter um papel preponderante em todas as frentes.

A Silo – Arte e Latitude Rural é um espaço de arte, ciência e tecnologia que tenta, como qualquer espaço comprometido com a atualidade, responder às perguntas de nosso tempo como momento histórico marcado pelas tecnologias e pela insistência das diferenças sociais e da falta de equidade racial e de gênero. A tecnologia e a ciência têm um papel crucial na manutenção dessas diferenças; elas não são neutras, sabemos.

A empatia nasce da necessidade de aproximar os princípios humanitários do desenvolvimento tecnológico e científico. Um dos preceitos dessa aproximação é o acesso ao conhecimento de maneira horizontal. Nossas atividades de aprendizagem são colaborativas e práticas, focadas na resolução de questões e/ou problemas. Com isso, cuidamos por incluir mulheres e populações racial e socialmente vulneráveis nos espaços de criação e tomada de decisões, para que nesse contexto todas possam ter a oportunidade de qualificar-se, realizar troca de conhecimento e ser ouvidas a partir do desenvolvimento de suas ideias. O trabalho colaborativo que se pode encontrar nesses espaços faz referência ao “commons”, isto é, por intermédio dele podemos encontrar compartilhamentos em diferentes níveis, sobretudo mediante a criação de laços sociais, políticos, científicos e, ainda, a gestão de recursos comuns.

Esse contexto laboratorial é marcado pela importância da alteridade, o vínculo é moeda e as relações construídas nesse contexto se dão em diferentes níveis de conexão, desdobrando-se em redes e mais redes. Dessa forma, aquela ideia já ultrapassada de laboratórios de tecnologia habitados por hackers dá lugar a uma nova forma de pensar: os laboratórios podem ser espaços empáticos, de escuta e de troca de saberes, de transformação coletiva e individual, na medida em que se garanta o trânsito de informações de maneira criativa, livre, não opressora e que se respeitem os diferentes modos de existência.

Cada frente de ação da Silo me parece trazer “coletivos” próprios – cursos e mutirões em Mínimo Impacto Ambiental; residências em Arte; laboratórios de projetos em Tecnologia e Autonomia; troca de saberes em Feminismo. Quanto as possibilidades particulares de cada uma dessas formas de se reunir determinam a relação entre as pessoas e os resultados finais dos projetos? (Penso assim: um curso permite o que um laboratório não permite e vice-versa etc.)

Cada frente tem um tipo de metodologia desenhada para diferentes públicos e objetivos. Essa diversidade de perspectivas e de áreas do conhecimento é importante para manter a diversidade de nossas ações. Resumidamente, as diferentes metodologias são determinadas pelo tempo de duração dos encontros, pelo tipo de mediação e de interação e pelas comunidades. Há sempre a necessidade da criação de ambientes que possam dar conta de mediar a colaboração e o diálogo entre as participantes, estimulando a troca de saberes e o avanço das ideias. Um exemplo: nossos encontros feministas estão focados em atividades práticas, ou seja, é nos cursos, nas oficinas e nos mutirões (que oferecem temas como uso de ervas medicinais, marcenaria, programação de software, mecânica automotiva, sistema agroflorestal) que as questões do feminismo serão conversadas, abordadas, debatidas. Além disso, é um espaço exclusivo para mulheres e pessoas trans. Dessa maneira, os costumeiros espaços de fala (e de poder), como é o caso de palestras e seminários, são substituídos pela convivência e pela dinâmica de fazer/aprender algo juntas.

A multiplicidade de áreas do conhecimento e de maneiras de pensar e ser é fundamental para a criação de ambientes para nossas atividades. Essas frentes são determinadas – de forma pragmática – para comunicar alguns caminhos essenciais para nossa organização e comunicar nosso público de interesse. No entanto, cada uma delas funciona, por um lado, como um núcleo de pesquisa para alimentar as atividades da Silo como organização e, por outro, como detonadores de perguntas que vão contaminar o restante das frentes. Um exemplo que sempre menciono é a importância dos encontros feministas para criar diretrizes para os laboratórios de experimentação e inovação ou para a frente de Mínimo Impacto Ambiental, que trata, sobretudo, das atividades relacionadas a agroecologia e sistemas agroalimentares.

No mesmo sentido: pensando em alguém que tenha uma proposta em mente, como essa pessoa poderia decidir por uma ou outra forma de ação coletiva? Quais critérios deve-se ter em mente, o que ela ou ele deveria se perguntar?

Penso que o propósito de um projeto pode determinar a forma coletiva de desenvolvê-lo. Se for um projeto voltado para o bem comum, isto é, para o uso comunitário, deverá preocupar-se com a replicação e a adaptação em outros contextos. Nesse caso, a proposta poderá unir forças e mover diferentes recursos, colaboradores de diversas áreas e, ainda, apoio na difusão e na documentação que será essencial para o sucesso de sua replicabilidade. Esse é o caso do Interativos, nosso laboratório de experimentação e inovação.

Outro formato colaborativo seria a união por uma causa comum. A solidariedade em prol de uma comunidade ou da resolução de um problema que aflige muitas outras pessoas pode mobilizar colaboradores. Em nosso Lab de Emergência é possível encontrar vários exemplos como esse.

Nas residências artísticas a colaboração se dá na relação da comunidade com a produção artística, os artistas ou, ainda, entre artistas, cientistas e profissionais de diferentes áreas. Sempre deixamos espaço para que a criação de uma obra ou o processo de desenvolvimento e pesquisa artística sejam povoados pela multidisciplinaridade de saberes. Nesse caso, o fazer artístico é mobilizador da colaboração.

De maneira geral, há sempre o interesse pelo aprendizado. Um projeto pode ter muitos colaboradores quando a perspectiva de aprender e realizar intercâmbio de conhecimento está clara. Além disso, é sempre bom saber o que se quer e deixar abertura para que quem colabora possa ajudar na tomada de decisões de diferentes níveis. Nos processos colaborativos é importante que o outro se sinta parte do projeto, isto é, em um processo de desenvolvimento de projetos em colaboração, colaboradores também são protagonistas.

Voltando ao artigo, você fala que os laboratórios são um espaço de trânsito livre de saberes e de criação de um horizonte comum. O que eu vejo sobressair nisso é um debate sobre valores, isto é, o que guia não só os laboratórios, mas os vários espaços de encontro e trabalho. Podemos dizer isso? Como você vê?

Sim, posso dizer que, por fim, estamos o tempo todo nos referindo à importância da vida comunal, da criação e da manutenção do bem comum, da responsabilidade que todos nós temos sobre os recursos, a criação de equidade racial ou de gênero e as enormes diferenças que sustentam o abismo socioeconômico do mundo em que vivemos. A Silo quer chamar a atenção, sobretudo, para a possibilidade de um modo de vida mais integrado com o espaço onde se vive, por exemplo com o território rural ou com a floresta, mas sem romantizar essa relação. Uma vida que se constrói com a responsabilidade em manter o bem comum não é uma vida sem desafios e dificuldades a ser superados. No entanto, esse modo de vida pode vir a criar modelos mais sustentáveis e produzir alternativas viáveis para a crise climática na qual nos metemos. Em Assentamentos, livro que resulta de meu doutorado em artes, escrevo e reflito sobre isso.

Um último tema importante que quero extrair desse texto é a vulnerabilidade: sendo vulneráveis, seríamos abertos ao outro e à mudança. Gostaria que você comentasse mais isso, tendo em vista que, em geral, se nega a “fraqueza”. E como a vulnerabilidade atua em seu trabalho, na Silo ou em sua prática artística?

Essa maneira de pensar vem de uma resposta prática a certo modelo que me parece estar finalmente em declínio, algo sustentado pelo pensamento patriarcal que nos foi ensinado como sociedade. Junto com a negação da vulnerabilidade está a construção de um projeto de poder. Somos vulneráveis diante da força dos episódios climáticos, da expansão da contaminação de um vírus, por que não partimos desse princípio? E é justamente o reconhecimento de nossa vulnerabilidade como humanos que nos dá abertura e permeabilidade para nos transformar e reagir de maneira resiliente às mudanças. Um exemplo: como seria se partíssemos do princípio de que é preciso abrir mão de certos privilégios porque não há avanço social, político, econômico ou ambiental sem concessão?

Em minha produção artística trato dessa questão quando exploro a relação entre humanos e objetos técnicos. Isso pode ser visto nas performances COM e Funeral das Máquinas.

A Silo é uma organização que age no ambiente rural. Esse espaço, oposto ao urbano, é tema de alguns de seus artigos. No Brasil e, creio, no mundo, a parcela da população urbana ao longo das últimas décadas se tornou cada vez mais hegemônica. Por que é importante voltar-se para os saberes do campo?

Não acredito nessa oposição; no entanto, acho importante evidenciá-la porque muitos dos discursos que escuto e das práticas que vejo em relação à arte, à ciência e à tecnologia são apenas a partir da perspectiva da cidade. Quero dizer que supostamente existe um discurso universalizante que exclui as extremas periferias e o campo das questões que mobilizam nosso tempo. Mas de fato não creio que haja oposição, porque cidade e campo são complementares, um vive em função da existência do outro.

No mundo inteiro houve movimentos de êxodo que fizeram com que o campo se esvaziasse – no Brasil isso se intensificou a partir de 1960 –, e acredito que esse foi o passo mais importante para chegarmos à crise climática que vivemos hoje. Criou-se um modo de vida alienado e caro em recursos, que ignora a origem de sua manutenção. Houve um projeto para tirar as pessoas do campo e levá-las a viver na cidade como operários das fábricas que supostamente tirariam o país da miséria e o elencariam ao status de desenvolvido e modernizado. Para tanto, foi construída uma narrativa que desqualificava um modo de existência em detrimento de outro. De um lado o culto, o moderno, e de outro o inculto, o arcaico.

Mas é necessário dar-se conta de que, primeiro, é preciso respeitar os modos de vida que compõem um conjunto de diversidades. E de que, segundo, o esvaziamento do campo significa também o esvaziamento do sentido de várias práticas essenciais à sobrevivência humana, como é o caso da agricultura e da manutenção de recursos naturais.

As populações integradas a seu território (camponeses, ribeirinhos, indígenas, quilombolas, pescadores, extrativistas etc.) são reconhecidas por fazer a manutenção dos recursos naturais importantes para a vida comunal que é parte de sua estratégia de sobrevivência. Temos muito a perder com o esvaziamento do campo justamente porque perdemos essas práticas de zelo territoriais para dar espaço à industrialização em grande escala, que traz consigo a monocultura, o latifúndio, a escassez do solo e dos demais recursos. Quando a Silo propõe um diálogo fluido entre campo e cidade e quando em meus artigos ou em minha tese de doutorado abordo a evidente oposição criada entre rural e urbano, queremos mostrar que a imposição de um único modelo de vida (geralmente baseado nas cidades) é insustentável e que, como camponeses, não estamos dispostos a negociar a perda de nossos saberes.

Por isso sugerimos que, por sua vez, o campo possa criar modelos sustentáveis baseados em seus princípios de integração e de manutenção do bem comum. O campo pode também produzir referência estética, pensar soluções e inovar no que diz respeito a artes, ciências e tecnologias. Além disso, é importante dizer que ficar no campo deveria ser uma escolha, e não uma falta de opção. Mas para isso precisamos descentralizar os espaços culturais e educativos que hoje estão nas grandes cidades.

Gostaria de partir dessa questão sobre o rural e encerrar trazendo este debate à questão da memória. Walter Benjamin fala que a sociedade industrial, a mudança nas comunicações, as cidades causaram a perda da capacidade de narrar, de ter essa forma de liame coletivo. Essa experiência perdida ainda tem possibilidade no campo? Seria possível reencontrar, no rural, formas potentes de fazer memória?

Isso é o que estamos tentando fazer. Muitas vezes uso a expressão “criar narrativas sobre um mundo que não existe mais”, porque considero o esvaziamento do campo uma catástrofe. E, por meio dessa expressão, estou justamente fazendo referência a uma ação de resgate, de reconstrução. Seguindo o pensamento do [filósofo] Peter Sloterdijk – que afirma que “todo trabalho cultural é um trabalho pós-catastrófico. […] Todo o processo civilizatório é uma elaboração de cesuras catastróficas” –, acredito que é por meio da produção de narrativas e da memória que vamos conseguir reconstruir esse território que é importante para a manutenção do equilíbrio ambiental e social do planeta. Queremos narrar, contar histórias, memorar, documentar, criar relatos, queremos reapropriar-nos de um modo de vida e colaborar para reativar a capacidade de narrar e, com isso, a memória coletiva, que é também um bem comum.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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