As emoções da cidade: Marcia Alves sobre casa, urbanismo e arte na pandemia

Doutora em geografia pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pela Universidade de Évora, em Portugal, Marcia Alves é professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde leciona uma disciplina com ênfase nos aspectos culturais e humanistas do estudo geográfico. A pesquisadora conversou com o Itaú Cultural sobre as experiências que temos de nossas casas e de nossas cidades na atual crise causada pela Covid-19, ressaltando a importância das emoções e da cultura na construção do mundo em que vivemos – o que se pode ignorar no dia a dia.

Além da sua visão de especialista, Marcia baseia sua fala particularmente em duas pesquisas: a primeira, sobre como o estar em casa é vivenciado nesta crise (foram compiladas cerca de 600 respostas de todo o país e de fora); e, a segunda, sobre a cidade pós-pandemia, em estágio de embasamento teórico. Ainda mais, ela analisa essas questões a partir da obra de Ernst Cassirer (1874-1945), filósofo alemão que pensava os modos como damos sentido à nossa existência, as nossas relações com as outras pessoas e a cultura e a arte como formas de conhecimento.

Por fim, indica filmes, livros e músicas que podem nos ajudar a pensar a atualidade, sugestões com o objetivo de – como diz que procurou fazer durante toda a entrevista – trazer “não só provocações, a crítica pela crítica, mas lançar ideias, possibilidades”.

“Pensar nas cidades depois da pandemia é pensá-las para as pessoas, como local da condição da existência humana em todos os seus aspectos – materiais, existenciais, simbólicos, culturais”

Cassirer e a construção simbólica e emocional da realidade

A proposta de Cassirer foi construir uma teoria da cultura humana. Ele segue a via do simbólico para entender o que é ser humano. Diz que somos seres que produzem cultura e que essa produção é simbólica, uma vez que damos sentido e significado para as coisas.

Temos, então, o que ele chama de formas simbólicas, elementos produzidos pelo ser humano que dão forma, que dão significado para a realidade. A arte, o mito, a linguagem, a religião, a ciência, a história são formas simbólicas e, a partir delas, estruturamos a nossa existência. O mundo da cultura possui obras de caráter material, mas as pessoas que creem nesse mundo têm uma existência e uma vida psíquica, e são elas que vão dar sentido para isso.

Pensar a filosofia de Cassirer – que define o ser humano como livre, autônomo, criativo, imaginativo – é também questionar um pouco a própria objetividade da vida. Por exemplo, no discurso de que a economia é mais importante do que a vida, coloca-se que certa racionalidade, objetividade e materialidade são muito mais importantes do que a nossa condição existencial. Será que olhar a vida somente pela via da racionalidade realmente explica todas as coisas?

Cassirer diz que toda a objetividade da vida é precedida por uma subjetividade. A ciência pensou em fazer uma cisão entre razão e emoção, em que a racionalidade pertence à ciência e a emoção não deve ser considerada na construção do pensamento científico. Cassirer vai problematizar exatamente isso. Se nós, seres humanos, somos dotados de uma capacidade simbólica, temos de considerar nossas emoções e subjetividades, porque elas vão estruturar a realidade também.

O mundo não é somente de coisas, mas também de pessoas. Segundo Cassirer, devemos sempre pensar nessa relação do eu e do outro, na relação da alteridade, porque, quando pensamos o outro, estamos pensando sobre nós mesmos.

A arte potencializa a nossa relação conosco e com os outros

Partindo da perspectiva de Cassirer, nenhuma dessas formas simbólicas – novamente, a arte, o mito, a linguagem, a religião, a ciência, a história – é superior ou mais importante que as outras. Cada uma tem sua singularidade e função. Nem a ciência seria mais importante do que a religião, nem o pensamento mítico menos importante do que a ciência. Segundo o filósofo, cada uma dessas formas simbólicas tem uma lógica própria.

Por essa via, pensamos a arte como uma produção de cultura, não apenas de cultura de consumo, sua experiência mais material, mas do ponto de vista filosófico, da cultura como forma de conhecimento humano. E isso abrange diferentes formas de produzir arte e cultura. A arte é parte dessa rede simbólica da experiência humana. De acordo com Cassirer, é a partir da arte que descobrimos a realidade. A arte nos dá um prazer que está ligado ao poder construtivo de nossa existência, de nosso universo, de nossa condição humana.

“Não sabemos lidar com nossos afetos, nossas emoções, nossos sentimentos. Como podemos pensar em uma tecnologia se não pensamos em nosso interior?”

A relação do eu e do outro, como dito, é uma preocupação de Cassirer. A alteridade é muito evidente na arte, porque, à medida que consigo identificar que a outra pessoa é um ser humano como eu, com as mesmas condições de entender a realidade, consigo construir noções de identificação. Por exemplo, quando assistimos a um filme, conseguimos nos identificar com os personagens, com o que está acontecendo, com os lugares, conseguimos sentir a dor, o prazer e a alegria do personagem, e isso faz parte da relação intersubjetiva dos seres humanos.

A partir da arte, conseguimos evidenciar as subjetividades, as emoções e tudo mais. A arte é uma direção, diz Cassirer, uma orientação para nossos pensamentos e nossos sentimentos; abre nosso espírito do conhecimento. As grandes criações de arte têm essa virtude de nos fazer sentir e conhecer o objetivo do indivíduo. Também colocam diante de nós pinceladas concretas individuais sob todas as suas formas objetivas e, assim, dão uma sensação poderosa de realidade.

Como sentimos nossas casas hoje?

Refletir sobre como estamos sentindo nossa casa neste momento é uma relação filosófica, no sentido de repensarmos nossas condições existenciais, de repensarmos o que significam a nossa casa, o habitar e as relações intersubjetivas dentro desse espaço.

Realizei uma pesquisa com uma aluna de arquitetura sobre como pensar a relação das pessoas com os espaços da residência neste momento da pandemia. Relacionar as emoções e os espaços das residências. Discutir seguindo a linha da neuroarquitetura.

Criamos uma pesquisa on-line, da qual qualquer pessoa podia participar, e obtivemos respostas de mais de 600 pessoas de diferentes lugares do Brasil e do mundo. Vimos a contradição de que há um entendimento, por exemplo, da casa como local de proteção, cuidado e acolhimento – o que poderia despertar emoções positivas –, porém, em função do contexto – ou seja, de uma experiência do exterior –, por mais que estejam em seus lares, por mais que estejam nessas condições, as pessoas têm se sentido ansiosas, angustiadas, com medo das incertezas.

Neste momento devemos repensar nossa saúde mental, e acredito que a sociedade, de maneira geral, é muito negligente com isso. Devemos seguir esse caminho, pensar em nossa relação com a sociedade e, talvez, repensar nossa própria vida na cidade, isto é, a lógica do que é viver em cidades.

Vinte e quatro horas na casa-dormitório

Quando decidimos morar em um lugar, nunca cogitamos ficar 24 horas dentro dele. Temos uma lógica de casa-dormitório, ficamos a maior parte do tempo fora. Uma questão que tem impactado neste momento é ficar o dia todo em casa e ter de pensar sobre ela.

Fizemos essa pesquisa sobre neuroarquitetura tendo como foco condições materiais, como luminosidade, ventilação e conforto térmico e acústico – no que normalmente não se pensa. Eu, por exemplo, moro em Cuiabá, onde é muito quente praticamente o ano todo, e, agora, ficando 24 horas em casa, consigo perceber todo o movimento do sol em torno dela e quais lugares são ou não mais agradáveis para se trabalhar.

É importante dizer que parto do meu lugar de fala, de uma pessoa que tem a vantagem de trabalhar em casa, que faz parte de uma camada da sociedade que tem seus privilégios – obviamente, esta é uma análise do momento, existem outras.

Vivências da pandemia distintas

[Marcia é questionada sobre a matéria da revista inglesa The Economist que pergunta: “A covid-19 matou a globalização?”.] Acho muito interessante quando as pessoas colocam essa ideia de globalização como se ela fosse universal e totalizante, pois sabemos que não é. A globalização é para alguns e para muito poucos, na verdade. Alguns recebem os louros da globalização e outros recebem, literalmente, o lixo dela.

Matou a globalização, mas para quem? Talvez para alguns poucos que, de fato, estão sentindo, do ponto de vista econômico, esse problema. Para algumas pessoas, a questão da pandemia é apenas mais um problema, que agrava tantos outros.

Tomando como exemplo uma favela, podemos apontar que lá a pandemia se agrava muito mais do que em bairros mais nobres. As condições de mobilidade, a estrutura das casas e as condições sanitárias são diferentes. São locais em que, várias vezes ao dia, há falta de água.

Será que o Brasil está sentindo a pandemia da mesma forma que os Estados Unidos, a China, a Espanha, a Itália? Sabemos que não, pois existem condições preexistentes que maximizam esse problema no país. Aqui, a questão é mais difícil, pois temos nossas particularidades e uma gestão política que não as considera, que não considera essa singularidade.

“A internet não substitui o tête-à-tête, o contato, o afeto, o abraço, o cheiro. E isso é significativamente desconsiderado na vida nas cidades.”

Não estamos conectados da mesma forma

Existe um discurso que se coloca como se todos nós estivéssemos conectados da mesma forma, como se tivéssemos os mesmos acessos, e sabemos que isso não é uma realidade na condição estrutural de desigualdade no Brasil. As pessoas não têm infraestrutura – por exemplo, em uma casa, talvez a internet não suporte todos usando a mesma rede – ou, quando têm, podem não ter o conhecimento para lidar com a tecnologia. Na pesquisa que fizemos em espaços de residência-emoção, isso se escancara. As pessoas estão muito incomodadas com essa necessidade de se readaptar, de dividir os lugares com os outros moradores da casa, de dividir o computador e outras coisas.

Na geografia discute-se isso, não é novidade. O ciberespaço é espaço também; às vezes, achamos que é apenas virtual, meio abstrato, mas não, é concreto, existe uma infraestrutura para que ele aconteça.

Em vez da cidade, a internet?

Hoje há uma cultura, sobretudo dos mais jovens, de marcar para sair e, no último minuto, desmarcar para ficar em casa e assistir a uma série. Isso vira meme na internet, é engraçado, mas e na prática? Foi isso que perguntei para alunos e alunas, se conseguiriam viver neste contexto de não poder sair de casa apenas assistindo séries, navegando na internet.

São todos muito jovens e alguns responderam que sim, conseguiriam. Eu disse que duvidava. Até certo momento, quando se tem escolha, está tudo bem, fica-se em casa; mas, quando isso é obrigatório, eu duvido.

Isso me incomoda – não como pesquisadora, mas como pessoa. Não se faz o esforço do encontro, e agora percebemos que precisamos encontrar momentos para o encontro, tempo para as pessoas, tempo para ocupar os espaços públicos, para estar na rua.

Os espaços virtuais, apesar de inevitáveis e importantes, não são suficientes para a condição humana. A internet não substitui o tête-à-tête, o contato, o afeto, o abraço, o cheiro. E isso é significativamente desconsiderado na vida nas cidades.

Existe um discurso dessa ideia de cidades tecnológicas quando não sabemos lidar com nossos afetos, nossas emoções, nossos sentimentos. Nem colocamos isso em debate, nem valorizamos. Como podemos pensar em uma tecnologia se não pensamos em nosso interior?

“A arte tem sido uma forma de nos sentir abraçados, de nos transportar para o universo da imaginação, da criatividade, da fruição, do prazer, do encontro”

Este momento escancara exatamente isso. Não adianta pensar em cidades tecnológicas quando não conseguimos possibilitar espaços de encontros de forma saudável, segura e democrática. Devemos pensar em cidades enquanto gestão pública, planejamento urbano e urbanismo.

Por outro lado, o encontro na arte e na cultura

Tenho visto pessoas que fazem slam, que originalmente ocupa espaços públicos, voltando-se às redes sociais para continuar a fazer o negócio acontecer. Os artistas estão se reinventando dentro dessa nova dinâmica, muitos deles – não os mais famosos na arte do espetáculo, mas os independentes – fazendo lives e pedindo contribuições voluntárias às pessoas, que estão se movimentando para isso, abraçando o momento.

Quando Cassirer fala da condição simbólica, também é de uma condição de se reinventar, de se transformar. Ele aponta que a vida não é moldada por determinismos, pois temos condição de alterar e transformar as coisas. E essa transformação se dá por aquilo que tem significado e importância para nós.

Como alguns artistas falaram, neste momento, as pessoas têm pensado a arte de forma muito mais reflexiva, pensado a importância da arte e da produção artística para as suas vidas, [uma das coisas que], como eu disse, nós desconsideramos na correria do cotidiano.

A arte tem sido – as diferentes formas de arte, desde uma série até uma poesia, um livro, um slam, batalhas de rap – uma forma de nos sentir abraçados, de nos transportar para o universo da imaginação, da criatividade, da fruição, do prazer, do encontro.

Qual é a cidade do pós-quarentena?

Essas dinâmicas vão se transformando em momentos nos quais precisamos prestar mais atenção ao cotidiano, o que normalmente não fazemos. Existe certa normalidade em acreditar que a vida é esse movimento constante, essa rapidez, essa efemeridade na qual não pensamos sobre essas coisas. E, quando somos obrigados, tem esse momento de pausa, de diminuir a velocidade. E ele nos faz repensar.

Os espaços, obviamente, hoje ganham outra dinâmica. E, com relação à cidade, isso escancara os problemas preexistentes – como o planejamento urbano –, que agora se agravam. Se a gestão pública ouvisse pesquisadores, cientistas sociais, geógrafos e geógrafas, arquitetos e arquitetas – enfim, as pessoas que pensam a cidade –, talvez muitos desses problemas poderiam ser minimizados em condições extremas como a que estamos vivendo.

É fundamental pensar qual é a participação efetiva das cidadãs e dos cidadãos na construção das cidades. Sabemos que, na história da formação das cidades brasileiras, há um processo de importação de modelos de cidades, principalmente das europeias, e que a aplicação de uma lógica europeia ao Brasil não funciona, obviamente.

Parte de nossos problemas de vida nas cidades está relacionada à não participação das pessoas. De uma forma um pouco negligente, podemos culpá-las por não participarem das decisões da cidade, mas, para mim, o grande problema é a gestão pública, que não constrói espaços para o diálogo, espaços horizontais que permitam que as pessoas participem efetivamente dessa construção. Não há uma pedagogia da participação, não há um processo, de fato, democrático de se pensar a cidade.

Como geógrafa, não consigo imaginar que, depois disto que estamos vivendo, pensaremos a cidade da mesma maneira. Do ponto de vista filosófico – fazendo uma relação entre filosofia e cidade –, pensar as cidades depois da pandemia é pensá-las, de fato, para as pessoas, para a existência humana, não para a existência do capital, a existência econômica, pura e simplesmente material. A cidade como o local efetivo da condição da existência humana em todos os seus aspectos, existenciais, simbólicos e culturais, não só materiais.

Seis indicações para ler, assistir e ouvir

Filmes

– ParasitaO Poço

Dois filmes que estão já meio batidos, mas que têm muito a ver com o que estamos falando. O Parasita especialmente porque, em sua narrativa, tem uma questão da arquitetura muito significativa, mostra um pouco de como os espaços concretos evidenciam ou possibilitam emoções.

O Poço escancara algumas questões relacionadas à desigualdade e nos faz exercitar nossa imaginação crítica e reflexiva. Voltando ao tema da arte, ela tem essa capacidade de lançar metáforas e inquietações que permitem que imaginemos, que não nos dão respostas, mas elementos para imaginar. Este filme traz exatamente isso.

Livros

Em nossa conversa, tentei não só trazer provocações, mas lançar ideias, possibilidades – acho que a crítica pela crítica de nada vale. Estes livros vão nesse sentido, trazem alternativas.

– Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Ailton Krenak – um líder indígena traz suas experiências e o conhecimento dos povos originários.

– Decrescimento (Vocabulário para um Novo Mundo) [baixe] – artigos de diferentes teóricos que trabalham “alternativas sistêmicas”, como o bem viver, os ecofeminismos e as moedas sociais.

– Habitar, Juhani Pallasmaa – um compilado de cinco artigos em que o autor faz uma abordagem fenomenológica* do habitar, da cidade, da casa e do que chama de “espaços de intimidade”.

Playlist

– Bússola Suleada, por Thiara Breda – seleção de músicas, feita por uma colega geógrafa e professora do sul do Pará, com várias temáticas geográficas e que busca, a partir da arte, nos trazer conforto, respostas e inquietações.

* O termo fenomenologia, na história da filosofia, define de forma geral abordagens que buscam apreender os acontecimentos, as coisas, as relações com o outro e os pensamentos da maneira em que são percebidos e/ou vivenciados pelos indivíduos ou grupos. Investiga passo a passo os componentes e as condições da experiência, analisando fenômenos – objetos do conhecimento assim como podemos conhecê-los num dado momento; situações da vida assim como podemos vivenciá-las num dado momento – e os modos como nos constroem e são construídos por nós.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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