De quantos modos um menino queima?

[texto publicado originalmente no Digestivo Cultural]

Você diz: é o mesmo sol no mesmo céu, as mesmas estrelas na mesma noite, o mesmo planeta no mesmo espaço sideral, os mesmos tempos nos mesmos dias, a mesma casa, o mesmo quarto, o mesmo sangue, o mesmo ardor, o mesmo gosto, o mesmo você.

O devir patina, se irrealiza. Não é o que você diz? Então diga.

Diga que é o mesmo sol no mesmo céu, as mesmas estrelas na mesma noite, o mesmo planeta no mesmo espaço, os mesmos tempos se alternando nos mesmos dias, a mesma casa, o mesmo quarto, o mesmo sangue, o mesmo ardor, o mesmo gosto – diga que é sempre o mesmo você, e que sempre será.

***

Labyrinth”, do Cure, é uma música que se move. Primeiro, do cosmos ao close-up: vem dos giros e brilhos dos astros ao comum na Terra; chega a uma casa, a um quarto; adentra uma subjetividade (diga que é o mesmo menino a arder na mesma cama!):

say it’s the same sun
spinning in the same sky
say it’s the same stars
streaming in the same night
tell me it’s the same world
whirling through the same space
tell me it’s the same time
tripping through the same day

so say it’s the same house
and nothing in the house has changed
yeah, say it’s the same room
and nothing in the room is strange
oh tell me it’s the same boy
burning in the same bed
tell me it’s the same blood
breaking in the same head
say it’s the same taste
taking down the same kiss

E, segundo, move-se desses exemplos abstratos e dessa descrição em terceira pessoa a uma fala direta, o imperativo gradua – o que se evidencia pelas ênfases na voz e nos instrumentos – de uma demanda a um desafio:

say it’s the same you
say it’s the same you
and it’s always been like this
say it’s the same you
say it’s the same you
and it always and forever is

Me parece cada vez mais um “você disse, terá coragem de repetir?”.

***

Esse alguém a quem o poeta se dirige – em certo sentido, poderíamos dizer que se trata dele mesmo. Pois o Cure é a mesma banda de “Killing an Arab”, música inspirada no livro O Estrangeiro, do filósofo e escritor Albert Camus, em que ouvimos:

whichever I chose
it amounts to the same:
absolutely nothing

Como no romance de Camus, sem poder encontrar uma base transcendente que valore e guie a existência, o eu lírico é tomado de niilismo. Aqui, o mesmo é inescapável, assim como àquele a quem o eu lírico de “Labyrinth” fala.

Desse modo, podemos refrasear a questão: “Eu disse isso! Terei coragem de repetir?”.

***

yeah, tell me it’s all the same
this is how it’s always been
but if nothing has changed…
then it must mean…

Se é tudo de fato o mesmo, então o sol é frio e as estrelas são pretas (repare: a luz que nos chega, ela elude a sua dinâmica, faz esquecer que queima continuamente para ser). Então não há movimento – e tempo e espaço, dia e noite perdem sentido. Chegamos ao “absolutamente nada” de “Killing the Arab”, mas dessa vez isso não alcança o status de conclusão.

but the sun is cold: the sky is wrong
the stars are black: the night is gone
the world is still: the space is stopped
the time is out: the day is dropped

No interior do mundo feito nada um menino arde (queima) estático (continuamente):

the house is dark: the room is scarred
the boy is stiff: the bed is hard
the blood is thick: the head is burst
the taste is dry: the kiss is thirst

Independente de como se classifiquem as experiências, percebe-se o quarto escuro, as histórias que ferem esse espaço, a rigidez do corpo, a dureza do colchão, a viscosidade do sangue, o peso na cabeça, a língua seca, o beijo que não satisfaz. Essas vivências são agora. Podem ter ocorrido fatos semelhantes antes; esses, agora, aparecem com a sua singularidade irredutível.

É o mesmo menino na mesma cama? Não,

and it’s not the same you
it’s not the same you
no, it never was like this

***

O terceiro caminho pelo qual “Labyrinth” se move é, assim, esse da argumentação: leva das proposições iniciais a esse veredicto final, através de uma redução ao absurdo. Uma intensidade ainda maior toma a música, pela reincidência dos versos e pela emoção que a voz passa a transmitir, além do instrumental, mais carregado:

it’s not the same you
it’s not the same you
and it never really is

it’s not the same you
it’s not the same you
no, it never was like this

it’s not the same you
it’s not the same you
and it never really is

it’s not the same you
it’s not the same you

O mais significativo: todas essas transições ocorrem com mudanças pequenas em uma letra cuja forma é constante. A figura de linguagem das primeiras estrofes é a anáfora – essa repetição nos inícios. Da afirmação à negação passamos simplesmente do “it’s the same you” para o “it’s not the same you”. Na espessura narrativa coloca-se apesar da insistência, por muito pouco, a novidade. E nas trocas simples de palavras — “say” por “tell me”, “diga” por “me diz” — modulações qualitativas cirúrgicas, ressoantes.

E em relação à filosofia do absurdo que justificava “Killing an Arab”, é como se ela fosse derrotada no seu próprio jogo: é levando ao absurdo, à impossibilidade lógica, que essa ideia que todas as escolhas dão no mesmo (embora, se formos discutir o que se diz em O Estrangeiro, leremos lá não que as escolhas são idênticas, mas que “todas são ruins”). Sobretudo, a transformação do ponto de vista de uma canção à outra prova o vir-a-ser no próprio poeta.

oh it’s not the same
this isn’t how it’s always been
everything has to have changed
or it’s me…

O mundo não pode seguir o mesmo, senão por seus processos próprios, porque eu não posso recebê-lo igualmente. O dilema é similar ao do verso dos Smiths: “Has the world changed or have I changed?”. De todo modo, nada segue estável. O devir se realiza.

Não é o mesmo sol no mesmo céu. Não são as mesmas estrelas na mesma noite. Não é o mesmo planeta no mesmo espaço sideral. Nem os mesmos tempos nos mesmos dias. Jamais a mesma casa, o mesmo quarto, o mesmo sangue. O gosto dos beijos variará ao sabor dos acasos. De quantas formas esse menino ainda pode queimar?

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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