O Que Podemos Desejar; ou: ‘Hope’

[texto originalmente publicado no Digestivo Cultural]

Assisto à Hope (2013), filme do sul-coreano Joon-ik Lee, já sob o peso de um crime recente que ecoa o conflito central do filme: no dia 13 deste janeiro de 2017, foi noticiado o caso da menina de 11 anos estuprada por um homem de 20 anos e quatro adolescentes no Distrito Federal; o episódio se adiciona, sabe-se, a inúmeros outros, como o de meninas negras a partir dos 8 anos feitas escravas domésticas e sexuais em Goiás, denunciado em 2015. Inspirada ela própria em uma ocorrência real — o caso Nayoung, de 2008 — a narrativa de Lee fala de uma nódoa perene, disseminada, atual (e enraizada?). Igualmente, o modo como o diretor desenvolve os impactos do abuso sobre a vítima e a sua família aproxima do que vivenciaram e vivenciam tantas outras. Sendo assim, trata-se de algo rico que em Hope o estupro não seja o determinante fundamental. Conquanto não seja reduzida à mero acidente, a violência não é um final, não define; sobrepõe-se a ela um tipo particular de esperança que precisa de trabalho para subsistir.

Este tema, como se vê, está dado no título e no nome da protagonista, So-won, traduzido como Hope na versão legendada. Filha de um casal desestabilizado e com dificuldades financeiras, ela tem 8 anos, é impetuosa e esperta, dedicada aos estudos. Sua mãe, dona de uma loja de doces, se desdobre em duas ou três para cuidar dela, enquanto o seu pai, trabalhador de fábrica, se alheia da sua criação. Progenitor indolente de um lado, progenitora exausta do outro, So-won, acaba tendo de se fazer autônoma e forte. Em um dia chuvoso, a alguns metros da escola, ela é abordada por um homem encharcado que lhe pede carona no guarda-chuva. Ela hesita, mas decide ajudá-lo. Terá seu corpo contundido, ensanguentado, abatido. Com o rosto inchado, com o ânus e o intestino parcialmente destruídos, é ela mesma quem chama a polícia.

Marcante, penso, que ela não ligue para a mãe (como a montagem dá a entender): So-won tenta resolver por si só o assunto, vai à autoridade que crê mais eficiente? Sua pertinácia se evidencia outra vez quando acorda e, ao ver o pai, lhe descreve uns aspectos do “homem malvado”; insiste em falar naquele momento, mesmo combalida, porque pode ser que esqueça, e é urgente que o prendam. Ainda acamada, ela aceitará identificá-lo em fotografias.

O pai e a mãe são devastados pelo incidente. Ela, Mi-hee, que escondia uma gravidez, desmaia e é forçada a revelá-la. Desejará que “todas as crianças passassem pelo mesmo”, assim sua filha não seria diferentedestacada. Perguntará por que ela, dentre todas as crianças, mereceu sofrer esse destino. Ele, Dong-hoon, deixa de lado o trabalho e passa a dedicar todo o tempo à menina. Em um instante crítico, quando se verá obrigado a conter So-Won, que se debate na cama com a bolsa de resíduos vazando, perceberá que o que a assusta é também a sua masculinidade — a sua posição, sua força sobre a vulnerabilidade dela, é análoga a do criminoso. Depois disso, ela não conseguirá falar com ele ou olhá-lo — e ele descobrirá engenhosidades do afeto.

O Núcleo da Vida: Han
A palavra sowon pode ser mais literalmente traduzida por “desejo”, embora “esperança” seja aplicável. Segundo etimologia disponível online, deriva de dois ideogramas que compõem “aquilo pelo que desejar”. So-won e seus pais, o que lhes resta esperar?

O futuro parece ter sido fixado, o presente parece algo que não vale a pena seguir. Essa sensação transparece na história que a menina conta à sua terapeuta: sua avó vivia dizendo, por causa da artrite, “eu vou morrer”, “eu vou morrer”, e So-won afirma que finalmente entendeu o que ela queria dizer. Significava, diz a garota: “Por que nasci?” — do que eu extraio: seria melhor nunca ter vivido. A vida só prometia que a mesma dor teria de continuar sendo arrastada adiante. Não garantia qualquer bem-estar, como pode ter parecido (o que, de outra forma, Mi-hee também lamentava, procurando alguma justiça na crueldade uniforme). A esperança, aqui, não é simples.

A circunstância em que está essa família pode ser lida por meio do conceito han, dito próprio do povo coreano. Possui um sentido cultural específico, contudo pode ser traduzido por despeito, rancor, ressentimento e dor; trata-se de “uma tristeza marcada por sofrimento intenso, injustiça ou perseguição (…) cheia de resignação, aceitação amarga e soturna determinação de aguardar pela hora da vingança”, ou, pelo contrário, um impulso “passivo”, que “grita por vingança, mas não busca”, “paciente, não agressivo”, “reprovação lamentosa quanto ao destino que levou à miséria”. Para além da vivência dos indivíduos, certa versão o vê como um sentimento nacional, produzido historicamente pelas invasões estrangeiras do país. Teria evoluído a partir do chinês hen, o ódio e angústia que impulsionam a se vingar.

O escritor Park Kyong-ni, por sua vez, tem uma visão mais luminosa. Ele nega o enfoque dado à vingança, que atribui a uma perspectiva japonesa do termo. Segundo o autor, han é a um tempo “tristeza” e “esperança”, e delineia “o núcleo da vida, o percurso do nascimento à morte”. Nesse sentido, “a tristeza vem do esforço pelo qual temos de aceitar a contradição que confronta tudo o que é vivo, e a esperança surge da vontade de superar a contradição”. Qual contradição? Essa que está na convivência entre vida e morte, entre visível e invisível, entre cômico e trágico.

Sobreposição dos Contrários
A narrativa de Hope se enquadra nesse campo semântico; o filme, com efeito, retrabalha essas temáticas, dá corpo a um ponto de vista sobre esse sentimento propriamente coreano (“especialmente dos pobres”, diz Kyong-ni, como a família de So-Won).

De um lado, aceitar e superar: a esperança nesta obra de Joon-ik Lee significa acima de tudo as capacidades de conformar-se e de despojar-se, de resistir e de reconstruir. Assim é que a família se mobiliza para tentar trazer alegria de volta à menina. Vestem-se de personagens de desenho animado e dançam no seu quarto (o uso das fantasias gera uma série de cenas divertidas, o que provê ao filme leveza — e marca a sua estética com o cômico/trágico do han). O pai descobre aí um jeito de entrar em contato com a filha sem constrangê-la: passa a interagir com ela somente como Cocomong. Cuidar um do outro, vai se descobrindo não só pela família, mas pelos amigos, pode significar suprimir-se, deixar-se de lado para procurar ajudar.

So-won mesma conforma-se (disfarça com uma bolsinha de balas os ruídos e o volume da bolsa coletora), despoja-se (tornando-se livre da vergonha e da culpa que pensou ter de sentir), resiste e reconstrói (em um processo bonito, quando ainda não conversava com ninguém, a terapeuta lhe dá um caderno com uma folha negra, ao qual colam adesivos de borboleta: “Quando a noite se encher de borboletas, So-Won vai falar novamente, dormir bem e comer direito”, ela pede e a garota consente — a esperança aqui se assemelha a que vi em True Detective). Obrigada outra vez a identificar o estuprador, agora no tribunal, ela o faz, sempre tenaz. Na medida do que diz sobre o han Kyong-ni: “Hoje, nós aceitamos isso; no futuro, vamos sobrepujá-lo”.

Ainda um último elemento do han marca a narrativa: a tensão que vimos entre vingança e não-vingança. O contra-ataque é mandatório ou temos de nos conter? Repugnados por um meliante cínico e mentiroso, que nega o crime, que procura — e consegue — atenuar sua punição com a alegação de que estava bêbado; estarrecidos por um judiciário que lhe impõe uma pena de apenas 12 anos, o hen chinês tinge o horizonte de Dong-hoon. Tem a chance. Dará o bote?

Dialética do Voo
Quatro anos depois do caso Nayoung, na mesma Coreia do Sul, um fato aberrante análogo: uma menina de 7 anos foi sequestrada, estuprada e largada às margens de um rio por um homem de 23 anos. “Ele está em pânico, não quer falar, seu corpo doi excruciantemente. Quase nem acena com a cabeça, apesar de eu ter tentado falar com ela persistentemente. Ela me lembra a minha filha logo depois de ser abusada”, disse o pai da garota de Nayoung, que foi visitar a nova vítima. Ele aconselhou os pais da chamada Menina A que “contivessem suas emoções”, para proteger a criança; além de psicoterapia e cuidado com a dieta. A narrativa de Hope retorna à vida. Ainda mais: no filme, lemos a citação “a pessoa mais solitária é a mais terna. A pessoa mais triste sorri com mais brilho. Porque elas não querem que outros sintam a mesma dor”. Fora dele, sabemos que a garota de Nayoung enviou seu coelhinho de pelúcia favorito à Menina AHan.

Com Hope, entendemos que será necessário preencher a noite com borboletas mais uma vez. A metáfora do voo, notemos por fim, atravessa a obra de uma ponta a outra. Somos introduzidos à história por uma pipa que percorre o céu. O estuprador de So-won aparece depois agarrado a uma pipa (a mesma?). Ele é, assim, quem interrompe, quem ancora o voo. Fere a potência, mas não de morte: na cena final, a menina diverte o seu irmão recém-nascido, chamado Happy — a felicidade recém-renascida para a família, portanto? —, balançando no ar um aviãozinho de brinquedo.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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