‘Hysteria’ Revisitada

[texto publicado originalmente no Digestivo Cultural]

Primeiramente encenado em 2001, o espetáculo Hysteria, do Grupo XIX de Teatro, teve uma nova temporada neste 2016, em comemoração aos 15 anos da companhia. Montada em um casarão da Vila Maria Zélia, em São Paulo – primeira vila operária do Brasil, região tombada – a peça traz histórias de um asilo para mulheres diagnosticadas com histeria, na virada do século XIX ao XX. Conforme se conta as vidas fraturadas das personagens, elabora-se um pensamento sobre identidade e se constrói relações entre protagonistas, coadjuvantes e espectadores (essa distinção ficará clara). Hysteria é, sobretudo, uma obra em primeira pessoa: recupera raízes tendo em vista estabelecer uma sororidade nova e um passado reconhecível como comum.

O espetáculo é dirigido por Luiz Fernando Marques e conta com as atrizes Evelyn Klein, Mara Helleno, Janaina Leite, Juliana Sanches e Tatiana Caltabiano. Tendo sido a criação de estreia do XIX de Teatro, anunciou desde lá a sua preocupação perene com a pesquisa da história do país, o trabalho em relações a vozes suprimidas e a recuperação da memória dos espaços físicos. Na Maria Zélia, estão desde 2004. Ocupam lá o Armazém 19, onde estão em cartaz com Teorema 21, além de oferecer residências e projetos de formação (com editais 2017 abertos).

O primeiro recurso importante de Hysteria é a divisão do público. Os homens entram primeiro. Passam pelas internas e sentam em uma arquibancada nos fundos. O que pareceria prioridade é a colocação do público masculino em uma posição secundária. Logo, a governanta do hospício chama as mulheres — elas entram na peça como novas histéricas, e sentam-se nos bancos que formam o cenário. Serão interpeladas pelas veteranas, a gestora lhes percorrerá os cabelos em busca de piolhos, dançarão com as outras, em roda, rebeldes.

Dessa forma, como esbocei, são as mulheres pelo menos coadjuvantes e por vezes protagonistas, ao passo em que os homens permanecem na situação de espectadores. Assistem aos fatos, sem ação ou expressão, imobilizados atrás da quarta parede. Tal estrutura ecoa os debates em torno de “lugar de fala” — as circunstâncias pessoais, políticas e culturais que dão forma às atitudes e opiniões de alguém (mais sobre esse conceito, neste texto, do qual extraio minha metáfora). A escolha é por trazer à tona a experiência feminina; nesse sentido, a inversão é clara: essa conjuntura de inação e mudez é, com efeito, análoga a que marcou com mais violência as personagens da peça e que, com outras manifestações, pode marcar o público feminino presente.

A dramaturgia, por essa via, abre duas possibilidades de vivência. A primeira, às mulheres, que estarão sempre sublinhadas como sujeitos. A segunda, a nós, homens. Penso que o que se põe como tarefa para nós é notar que a nossa ausência, enquanto público, em relação à história, é a ausência do doutor que gere o asilo, dos maridos e pais que trancaram as meninas. Isentos, o que somos é da mesma matéria do poder que as cerca e oprime, mas se mantém só horizonte. Por isso, é preciso perceber que a a passividade em que nos colocam não é do mesmo gênero da de outros espetáculos. É preciso ver-se sem agir, ver-se sem falar, e compreender-se nisso.

Os Pontos de Vista são Únicos
Para construir ou potencializar a condição de sujeito quanto ao público feminino, Hysteria faz obliquidades, pontos cegos. É apenas uma mulher que ouve um segredo dito ao pé do ouvido. É apenas uma mulher a quem se pergunta vários dados da sua vida, dos quais se comporá um poema dedicado a ela. São apenas algumas mulheres a quem se pedirá que leiam os bilhetes dos abandonados à roda dos enjeitados. A peça se multiplica em vivências particulares. Nem todos veem as mesmas coisas, nem todos experimentam as mesmas coisas. É dessa maneira, é claro, a vida. O que nos permite expandir as perspectivas é o encontro, a congruência.

Hysteria me confirma nessa última tese? Creio que sim. A encenação procede por monólogos, quase sempre, a cada vez uma personagem expõe a sua dor intransferível. “Eu estou boa, meu marido João vem me buscar hoje”, repete e repete uma delas, sem que João chegue. Chegará? Sabemos (?) desde o início que não. Outra, marcada por uma timidez, por uma calma nervosa, esconde um crime, causado pelo não cumprimento do mínimo do contrato matrimonial. Ainda outra, envia cartas à Jesus e o sente adentrá-la como luz. A governanta, por fim, resíduo de um percurso de sonhos frustrados. Nós as escutamos uma a uma, todavia não se diminui isso a um solipsismo: através da fala individual se entrevê a comunidade.

A Memória Comum Perdura
“Você é como nós”, acusa uma interna à governanta quando esta teve o seu diário devassado. Você é uma de nós, o espetáculo declara a cada coadjuvante. Isto, desde as suas primeiras cenas, quando algumas se tornam cúmplices das veteranas, escondendo o citado caderno da gestora. Também quando, após uma rodada de declamação poética entre as personagens, uma pessoa do público é chamada a subir na mesa e ser poeta por sua vez. No dia em que eu estive lá, isso se deu de maneira maravilhosa: a mulher, antes um pouco constrangida pela interação com as atrizes, disse os versos com clareza, vividez e espontaneidade, provendo esta apresentação da montagem com algo de irredutível.

As identidades parciais vão, por esses diálogos, compondo uma identidade do grupo, que pode agora abranger de uma forma íntima o público, pelas interações criadas. Essa união ganha uma força maior que o poder masculino que as mantinha no armazém fechado. Era a disciplina dos doutores, dos maridos, dos pais, da religião, que trancavam de fato as portas, e isso se rompe. A chuva lá fora indica o instante de quebra: as internas abrem as saídas, conclamam: “Vem pra chuva! Vem sentir a chuva escorrer”. O símbolo é potente: estar em contato com o mundo, tê-lo no corpo, prescindir de proteção. Ouvimos o seu riso lá fora. De repente é tão claustrofóbico o espaço em que estamos. A liberdade tem sua simplicidade.

Destaca-se nessa cena o momento em que a personagem feminista, cabelos curtos, versos na ponta da língua, antagonista do pai e denunciadora da hipocrisia do esposo, retorna e, contra a luz do dia, anuncia: “Nós seremos lembradas”. Assim, a peça nos leva à conclusão com a mão de quem nos aponta uma estrada. Em Hysteria, o ponto final são portas abertas.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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