Rastros

O Caos é uma Escada

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[Game of Thrones, 3ª temporada, episódio 6, “The Climb”, a partir de 48’] “Chaos isn’t a pit. Chaos is a ladder. Many who try to climb it fail and never get to try again. The fall breaks them. And some are given a chance to climb, but they refuse. They cling to the realm or the gods or love. Illusions. Only the ladder is real. The climb is all there is.”

Reportagem

Brutalidade Técnica

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AHS

Publiquei no Digestivo Cultural a crítica American Horror Story: Asylum, sobre a série televisiva com esse título. Eu escrevi:

A segunda temporada de American Horror Story (subintitulada Asylum), série competente de terror exibida pelo canal a cabo FX, traz duas ideias interessantes, ou melhor, seu roteiro é fundamentado em duas noções. Primeira, a de que o saber é uma forma de poder: o conhecimento sobre como as coisas “são” ou “devem ser” permite dispor veredictos sobre as pessoas, incluir, excluir, destruir, isolar. O ambiente da história é um manicômio na primeira metade do século XX – exemplo sempre mais do que intenso de como palavras que ostentam técnica e trabalho podem esconder cegueiras: medicinapsiquiatriasegurança pública. Segunda, a de que o “mal” é constituído também por uma fragilidade, isto é, atrás da brutalidade, há carência, frustração, descompasso. De certa ótica, ambas são a mesma: a força esconde a fraqueza, a fraqueza gera a força.

Comunicação

“Rumo à Liderança” / A Informação como Pretexto

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Ontem, estreou o Legendários, na Record. O programa segue duas tendências da programação da emissora nos últimos tempos: as contratações vultosas e a reprodução de modelos de outras tvs. O programa, de um só lance, desfalcou a MTV de Marcos Mion, João Gordo e a equipe de Hermes e Renato, entre outros. Na estrutura, faz uma mescla de Pânico na TV (com mulheres seminuas e os repórteres/comediantes dividindo o palco com o apresentador, sem que necessariamente façam nada de importante, a não ser serem focados pela câmera quando a matéria a seguir é deles) e CQC (com ‘reportagens’ de denúncia e crítica social). Dos dois, tem esse caráter de perfomance nas matérias que faz e acrescenta ainda um elemento: uma postura (pseudo)social e a ideia de estarem construindo uma televisão mais, digamos, sofisticada — o que se inscreve no slogan da Record: “rumo à liderança”…
Considere o programa como o que ele é, um ponto em que convergem diferentes influências, e você terá mais razões para enxergá-lo além do seu valor de face. Há pelo menos três coisas a analisar: a estratégia que, à primeira vista, a Record parece estar usando para confrontar a concorrência e oferecer um produto igual, mas diferente; o abandono gradual da imagem sem ruídos, limpa, tradicional — pelo vídeo com comentários gráficos, com interferência e intertextualidade, e, neste contexto, de vanguarda; e a proximidade cada vez maior entre jornalismo e entretenimento. Esse último tema sozinho vale um post, então não vou comentá-lo agora; ficamos só com os exemplos do parágrafo acima: a afirmação da cidadania, o humor político, etc — e só mais uma ideia a respeito, lá pelo final.
Não assisto televisão o bastante para saber se esse é um jeito de agir constante da Record, mas, ontem, não só no Legendários, enxerguei duas estratégias que me parecem o modo como se pretende desbancar a concorrência. Em primeiro lugar, a caricatura, a paródia: os outros humorísticos, os funcionários de outras tvs, seus bordões, seus costumes, foram simulados dentro da Record. É como se a emissora mantivesse o essencial desses programas alheios, e estivesse, de alguma forma, acima deles, porque pode fazer graça deles. Há uma visão de perspectiva, supostamente mais inteligente, que se espera crítica em algum nível. Em segundo lugar, a autoreferencialidade. Quando os programas de uma televisão fazem humor consigo mesmos, quando, por exemplo, o Vídeo Show mostram os erros dos atores, o almoço da Ana Maria Braga, a vida pregressa do Louro José, etc, o que ele faz é uma propaganda implícita de todos os outros programas, ao mesmo tempo criando uma intimidade com o espectador em relação a eles. A Record, pelo menos ontem, no Legendários, fez o mesmo.
Por outro lado, vi televisão o bastante para saber com um nível de certeza metafísica que, no Jornal Nacional, os apresentadores sempre estarão de terno, nunca serão debochados, sempre se mostrarão objetivos e provavelmente não comentarão as matérias de nenhuma maneira. O cabelo da repórter no vídeo estará indefectível, sua roupa não chamará atenção, etc. De modo geral, é uma tendência a despersonalizar (ou atribuir uma personalidade neutra) na medida do possível a apresentação do jornal, para que exista, também na televisão, a mesma objetividade que existiria no impresso. Mas, agora, observe os três programas de que estamos falando. Em todos eles, com frequência, grafismos na tela comentam o assunto, fazem piadas sobre o entrevistado ou apenas surgem por motivo nenhum. Toda reportagem é, em certa medida, intertextual: há referências a outras matérias feitas pelo programa, personagens da cultura pop aparecem, cenas de outros tipos de vídeo são intercaladas em meio a outras (filmes antigos, etc).
Há também outro fator: a serialização interna: o o que vai acontecer depois? das séries, em toda reportagem. E também uma espécie de reality show do jornalismo: como isso é feito e também olha só como ele fez isso!. Não é difícil entender como isso chegou a se tornar uma influência. Já a interferência no vídeo e a aceitação da imagem mais pobre, elas já existiam em outros canais e em produções artísticas como o videoclipe, mas agora chega ao mainstream. A empresa produtora do CQC, Cuatro Cabezas, reinvindica a paternidade do estilo. Seu trabalho é tão bem sucedido no Brasil que terão ainda outro programa, o A Liga, que estreia em maio — esse provavelmente terá a criatividade gráfica da produtora e se parecerá com o Profissão Repórter, com reportagens de personagem, mais “aprofundadas”.
Como entender esses dois movimentos?
A estratégia comunicacional da Record me parece funcional, cria mesmo essa familiaridade com os outros programas que é o que de fato parece fazer as pessoas assistirem uma determinada emissora (e não a qualidade a priori das atrações). Mas, por outro lado, nos encaminhamos a um futuro em que “programações”, do modo como as entendemos hoje, não farão sentido — as tendências indicam que vamos escolher que programa assistir e quando assistir. Então, pode ser um gesto perfeito em um contexto que fenece. É provável que não seja o bastante.

Já os grafismos, a intertextualidade, o reality show, o making-of, etc, dentro do jornalismo, são, é evidente, uma depreciação da informação concreta. Não é o que, quando, onde, por quê, nem é o como da notícia em si, mas sim o “como” da própria reportagem. O Legendários faz uma matéria sobre meio ambiente, praticamente uma perfomance artística: coloca flores nos escapamentos dos carros. Ou vai às ruas destacar que boa parte do orçamento de São Paulo vem de multas de trânsito. Não é pelo assunto ou pela revolta que qualquer pessoa vê isso; se fosse pelo assunto ou pela revolta, elas já teriam feito alguma coisa, antes do programa: a informação é só um pretexto para o entretenimento. Nesta medida, ao mesmo tempo em que a diversão “salva” o jornalismo, ela destrói o seu objeto e seu motivo de existir.

Ou estou exagerando?