Entrevistas

Da Pesquisa Brasileira: Matheus Arcaro, Nietzsche e o ponto de encontro entre filosofia e arte, a vida

Publicado em

Este artigo compõe Da Pesquisa Brasileira, série sobre quem cria conhecimento no Brasil, publicada neste blog e na revista Úrsula.

Com a dissertação de mestrado Nietzsche: Verdade como Metáfora e Linguagem como Dissimulação, defendida no fim de junho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Matheus Arcaro realizou, ele conta, não só um projeto acadêmico, mas seguiu as linhas de uma “questão existencial”: “Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões”. Assim — como talvez não possa deixar de ser para um pesquisador que se dedica ao trabalho de Friedrich Nietzsche (1844-1900) —, sua pesquisa se efetiva como realização de si. Diz ele, “há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Em seu trabalho, Matheus estuda como, em Nietzsche, não há espaço para a separação entre verdade e mentira, na medida em que a ideia de conhecer algo como verdadeiro ou falso dependeria de termos uma relação direta com esse algo, com o objeto a que queremos atribuir esses valores. Pelo contrário, para o filósofo alemão, o que acessamos de fato é algo de nossa própria lavra: a metáfora — talvez se possa dizer, essa produção do corpo e da mente sobre aquilo que nos entregam os sentidos. Disso, toda uma problemática emerge: “Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas? Que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das suas consequências úteis e agradáveis? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo?”.

O pesquisador fala também sobre dificuldades e aprendizados na feitura do mestrado, tratando de controle de tempo e necessidade de ter consciência sobre o próprio processo. Comenta também da série de problemas pessoais que foram superados por meio da citada paixão pelo estudo e pela criação: “Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir”. Além disso, indica caminhos de pesquisa.

Veja também:
>> Onde o Coringa encontra um serial killer brasileiro, entrevista com Matheus Arcaro na Úrsula

De que modo sua pesquisa é importante para a área principal em que se inclui? A que outras áreas, mais ou menos distantes, interessa?

É uma pesquisa em filosofia contemporânea, não serve para nada (risos).

O cerne da minha dissertação é a relação entre verdade e linguagem na perspectiva do jovem Nietzsche, em seus textos entre 1869 e 1874. Nietzsche perscruta os meandros da linguagem para dizer que sua formação repousa no inconsciente e em processos fisiológicos. A percepção do sujeito em relação às coisas do mundo nunca é plena e total, ao contrário: só acontece por um processo estético. A este processo, Nietzsche chamou de metáfora. Ora, se o processo cognitivo é metafórico, não há qualquer cabimento falar em verdade e mentira. Se a raiz de todo conhecimento é um processo metafórico, a única possibilidade de conhecimento é estética.

Uma passagem do próprio Nietzsche, para ficar mais claro:

“O que é uma palavra? Um estímulo nervoso, primeiramente transporto em uma imagem! Primeira metáfora. A imagem, por sua vez, modelada em som! Segunda metáfora.”

A noção correspondentista de verdade define que verdadeiro é a adequação do intelecto (ou do discurso) ao objeto no mundo. Acontece que não há possibilidade dessas duas esferas tão distintas (sujeito e objeto) se interseccionarem plenamente. O que faz essa “ponte” é o que Nietzsche chamou de metáfora. Ou seja, o que se chama de conhecimento é, na verdade, o reconhecimento de algo que o próprio humano cunhou na natureza. Em última instância conhecer é antropomorfizar o mundo, e a dicotomia verdade/mentira se sustenta numa necessidade moral e não epistemológica.

Neste sentido minha pesquisa estabelece um diálogo direto com a arte. Aliás, Nietzsche afirma literalmente que, tanto a filosofia quanto a arte têm a mesma raiz artística. A diferença é que a primeira se esquece que é criadora e petrifica as metáforas originárias com os conceitos. O papel do filósofo-artista, de acordo com Nietzsche, então, é resgatar essa raiz artística de todo conceito, usando unicamente a vida como critério. A vida que só se justifica como fenômeno estético.

A partir da estética, faço o diálogo entre obras publicadas e inéditas. Creio que esse âmbito pode ainda ser muito explorado, sobretudo porque concentrei minha pesquisa nos anos da primeira produção nietzscheana. Na conclusão, joguei as sementes para futuras pesquisas, a partir da presença dessa questão nas obras maduras do autor. Está aí um campo vasto a ser cultivado.

No que ela poderia ser atraente para o público em geral – seja pelo todo, seja por partes, seja pelo impacto em um assunto?

É sempre interessante, sobretudo para quem não tem familiaridade com termos filosóficos, desconstruir alguns dogmas. Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas alicerçadas pelo uso de expressões aceitas socialmente? Quem descobrisse que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das consequências úteis e agradáveis que ela proporciona? Que o mentiroso nada mais é do que a pessoa pouco apta em repetir o que foi canonizado linguisticamente? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo? Que o intelecto e a racionalidade não têm uma finalidade elevada perante o todo da natureza? Como ficaria o homem se chegasse à conclusão de que a verdade nada mais é do que uma metáfora cristalizada? Todas essas perguntas, a meu ver, são muito instigantes para qualquer pessoa e, em certa medida, são respondidas ao longo da minha pesquisa.

Para você, em particular, por que importa? Como ela se envolve com os seus interesses profissionais, pessoais, políticos?

Minha vontade de potência, para usar uma expressão do Nietzsche, se multiplica justamente no encontro entre filosofia e arte, mais especificamente literatura. Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões. Essa intersecção não é apenas um projeto acadêmico, mas uma questão existencial para mim. Lembrei de uma frase que cunhei tempos atrás: “Há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Como foi o processo de desenvolvimento da pesquisa? Quais os entraves e quais as descobertas ao longo dele?

Foi doloroso, como todo processo criativo. Foram três anos de muitos acontecimentos: mudança de cidade, perda de emprego e dificuldades financeiras (estava sem bolsa de incentivo), divórcio, publicação de dois livros (um de contos e um de poesia) e o maior e mais maravilhoso deles, o nascimento da minha filha. Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir. E eu consegui, sobremaneira, movido pela paixão que explicitei na resposta anterior.

Você consegue extrair desse processo dicas para outros pesquisadores? Práticas a levar adiante, problemas que se pode prever.

O processo de produção textual não é fácil. Então, é preciso disciplina, algo que não tenho muito. Tive que me cobrar muito quanto a horários, por exemplo. Um segundo ponto é o silencio, tanto real quanto virtual. Minha atenção se dissipa facilmente. Eu vi como uma espécie de mandamento desligar celular e internet enquanto escrevia. Em relação propriamente ao método, cada pesquisador/escritor tem um que percebe mais produtivo. Eu prefiro escrever um esqueleto, um esboço e “preencher” aos poucos. É um processo lento. Depois, deixo o texto descansar uns dias e releio tudo. Reescrever, às vezes, é muito mais importante do que propriamente escrever.

O que você pretende fazer agora? Quais seus próximos passos como pesquisador?

Me fiz um autoconvite para o doutorado, ao vivo, que foi prontamente aceito pelo meu orientador Oswaldo Giacoia. Gostaria de deixar registrada aqui minha gratidão a ele, por sua generosidade ao longo de todo o processo. Giacoia está entre os maiores pesquisadores de Nietzsche no mundo e, mesmo assim, prestou-me uma atenção lapidar. Pretendo, em breve, retomar minhas aulas de alemão para, agora, pesquisar Nietzsche em sua língua materna. Talvez, eu desenhe minha tese sobre um possível diálogo entre Nietzsche e Marx.

Trecho da pesquisa

Nietzsche defende que o homem, a partir de suas disposições fisiológicas, é genuinamente um criador de metáforas. Os conceitos e a ideia de verdade nascem porque os homens se esquecem desse caráter criador da linguagem e tal esquecimento ocorre, por um lado, pela necessidade de sobrevivência e, por outro, por questões morais.

(…)

Quanto tempo o universo não passou sem a inteligência humana, sem o que hoje se nomeia de racionalidade? Se o homem é um animal racional, como afirmara Aristóteles, esse atributo não o destaca, não o eleva diante dos demais animais, pois, para o intelecto, não há “nenhuma missão ulterior que conduz para além da vida humana”. A audácia deste animal chamado homem está em medir o universo com a própria régua sem, no entanto, o discernimento de que possui uma régua. Ou, para usarmos outra metáfora, o homem olha para o espelho crendo que está olhando para o mundo.

Nietzsche afirma o caráter fugaz do conhecimento do homem: o intelecto não faz do homem um ser especial, muito menos um ser com participação na divindade. O intelecto, ao contrário do que, de modo geral, legou-nos a tradição, cumpre uma função semelhante às demais partes do corpo e está circunscrito aos limites da vida humana. Se tomarmos a natureza ou mesmo a “história universal” como parâmetro, o intelecto humano mostra-se frágil e sem finalidade. Neste sentido, novamente Nietzsche discorda de Aristóteles, para quem o anseio de conhecer é inerente ao ser humano, como se fosse um diferencial destacável do homem em relação aos demais animais. Diz o estagirita* em sua Metafísica: “Todos os homens, por natureza, desejam conhecer”. Escreve o jovem professor alemão no fragmento 19 [178]: “Sob o ponto de vista da natureza, o homem não existe para o conhecer”. O conhecimento, de acordo com Nietzsche, tem sua raiz fincada nas necessidades de sobrevivência do homem e a origem da linguagem não está relacionada ao pensamento, mas a questões inconscientes.

* Estagirita se refere à cidade onde nasceu Aristóteles, Estagira.