Notas

Véio é Teimoso!

Como eu saio pouco ou nada agora eu não pego mais umas crônicas de mão beijada do pessoal na rua. Mas hoje fui ao banco e, enquanto esperava na fila e a chuva caía na Avenida Guilherme Cotching, lá veio ela, sim, a crônica, na pessoa de uma senhora negra e obesa que, andando com dificuldade, vinha saindo da agência, a princípio comentando algo sobre os velhos. Ela parou então diante das escadas e falou alto, certamente inspirada pela chuva: “E a minha laje tá tudo vazando!”. Estávamos eu no fim, um casal de bolivianos no meio e uma mulher no começo da fila, ninguém disse nada. A senhora prosseguiu: “Minha laje tá tudo vazando, o pedreiro queria me cobrar dois mil reais! Eu falei: não, vai ficar vazando mesmo. Dois mil reais e ainda trinta e duas lajes mais pedra, areia e cimento. Dois mil reais queria cobrar! Eu não sou rica não. Eu sou favelada. Eu moro na favela”. A mulher da frente disse, pra ser simpática: “É só por um balde, né?”. Nisso, a senhora abaixou o tom, falou meio triste, com os olhos adiante, contemplativos: “Menina, mas não dá… chove bem em cima da minha cama…”. Acontecido tudo isso ela decidiu ir embora. Procurou com a vista e anunciou: “Ó lá o véio!”. Presumo que é seu marido: um senhor negro com a máscara no queixo e bengala. “Ele não quis entrar”, comentou ela, “olha, sou véia, mas não gosto de véio, porque véio é teimoso!”

Bill Gates, apagar o sol e achar o diabo

Senti até uma nostalgia com a teoria da conspiração divulgada esses dias por Ailton Benedito, secretário de Direitos Humanos (!) da Procuradoria-Geral da República. É um exemplo de alta criatividade do que hoje comanda o Brasil:

Bill Gates quer impedir que raios solares cheguem à Terra, baixando a imunidade dos seres humanos, o que propiciaria o surgimento e o agravamento de n doenças para as quais a Fundação Bill & Melinda Gates forneceria novas vacinas por módicas centenas de bilhões dólares?

O que é isso, minha gente? É fase 4 do universo Marvel, fanfic do Wattpad?

Bill Gates quer bloquear o sol! Mas não contava com Ailton Benedito, sempre a postos!

Todavia, quando eu li essa fake news, veio uma sensação boa. Sim, depois de desaparecerem as imagens quadrinescas na minha mente — o dono da Microsoft, em uma base espacial, observando o astro solar com ambição, metade do seu rosto coberto pela sombra, outra pela luz que odeia… — eu pensei: olha só, voltamos aos boatos com o nome do Bill Gates.

Foi como encontrar um velho amigo. Bill Gates com planos de dominação mundial é uma coisa que está por aí desde meus 12 anos, provavelmente antes. Quando eu cheguei na internet era tudo mato e o mouse e a tela eram as marcas da Besta. Tudo provado com os versículos bíblicos pertinentes.

Em um tempo pré-hegemonia do Google, AOL ainda mandava CDs para a sua casa, “blogosfera” estava para se tornar uma palavra importante, o Estadão publicava livro com listas de links e a internet tinha tutoriais de como desvendar as raízes satânicas da Microsoft, com meios contraditoriamente deixados por ela mesma como easter egg em um aplicativo do Windows.

Se você tiver um Windows 97 e quiser encontrar os sinais de Lúcifer, tem de fazer assim: um dos protetores de tela (eram animações que rodavam com o computador inativo, não são mais comuns) desse sistema operacional é um labirinto que percorremos em primeira pessoa (tipo o jogo Doom). Com isso na tela, segure tais teclas por x tempo. Pronto.

Vamos para uma sala modelada em 3D da década de 1990, em que na parede corpos ensanguentados amontoados sofrem sua tortura eterna — o tutorial alertava: “É exatamente como no Advogado do Diabo“. Havia ficado impressionadíssimo com o filme. Tentei achar o capeta. Não achei.

Até hoje não sei se foi porque fiz algo de errado, apertei tab por um segundo a menos, sei lá, e o demônio hoje sorri ao lado de Bill Gates na base espacial, aliviado pelo dia em que escapou de ser pego em flagrante por um menino de 12 anos. Ou, mais provável, naquela época também os ailton beneditos do mundo estavam atentos: denunciaram, a Microsoft recuou.

Me livraram, por pouco, do inferno. Obrigado, ailton beneditos do mundo. Perseverem. Salvem mesmo o sol. Precisamos dele.

Morre o radialista José Paulo de Andrade

Morreu nesta sexta o jornalista José Paulo de Andrade, que atuou na rádio Bandeirantes durante 57 anos, tendo sido apresentador do O Pulo do Gato. É por conta desse programa que relembro José Paulo aqui no blog. A vinheta de O Pulo do Gato é para mim uma madeleine jornalística, faz voltar o período antes de ir à escola. É por tudo isso que descrevo em certa parte do As Esferas do Dragão o seguinte:

A manhã era uma conversa com os passarinhos: comiam alpiste das mãos dela como se encarnasse um verso de Manoel de Barros. Céu nublado cor-de-chifre e a voz de José Paulo de Andrade no rádio.

E depois:

Acorda, São Paulo, do seu sono justo: é hora do Pulo do Gato.” O rádio badalava as seis horas da manhã. O sol não havia ainda nascido e o céu era um azul minguante.

Conversando com amigos, essa mesma experiência foi evocada; crianças nessa época, José Paulo era uma espécie de pano de fundo, interesses de adulto. Sobretudo, O Pulo do Gato marcava o tempo — com a institucionalidade, com a precisão dos sinos — inscritos nessa descrição do fim da madrugada.

Não se fazem mais nomes de doença como antigamente

Além das quarentenas, do pânico, da queda das bolsas, tem outro problema nessas doenças novas: perdeu-se uma poética da doença, um lirismo. Antes, o batismo da patologia roçava o contágio, a linguagem era potente de sinestesia. Hoje, nada.

Você veja: Covid-19. Isso não funciona. Isso parece letreiro de ônibus: “Peguei o Covid-19, desci na pracinha”; “O Covid-19 é foda, sempre lotado”. Vai me dizer que isso tem a força, por exemplo, de: caxumba?

Olha a sonoridade. Um narrador de Nabokov diz que, quando se enuncia “Lo-li-ta”, vem “a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes”. Agora repara:

ca
xum
ba

Dá pra ouvir soarem bumbos. Mais uns metais graves vira uma sinfonia. Beethoven podia ter escrito, além da Pastoral e da Heróica, a Caxumba.

Covid-19 ou H1N1 não conseguem transmitir o terror de um cancro mole, que você nem sabe onde que isso pega mas já está com medo. Nem de uma gonorreia, que a gente diz a palavra e já se sente meio mal.

Cadê a visualidade de uma barriga d’água? Cadê o fantástico de um bicho-geográfico, que tipo tem um mestrado ou tipo parasita a própria ciência? E o mistério policial de uma moléstia causada por um barbeiro?

Arnaldo Antunes não teria conseguido fazer uma letra com esses nomes de cabeça de planilha de hoje. Imagine:

“SARS, MERS, H5N1, Covid 19
O pulso ainda pulsa”

Não dá, não dá. Pelo menos ainda temos uma dengue, cuja assonância com “dengo” carrega um sarcasmo ferino. Pelo menos ainda temos a chikungunya — estrangeira, gutural, metálica.

E pelo menos ainda temos a zika, palavra que merecia uma arqueologia — denota estar azarado ou meio amaldiçoado (aos velhos) ou algo classudo, alguém estiloso (aos jovens), e ainda por cima define febre, dores nas juntas, manchas vermelhas. Insidiosa, polissêmica.

A zika é zika. Cheguei com isso a um poema concreto ou a um trocadilho de tiozão? Essa é a beleza da coisa.

O Brasileiro Não Tem Uma Cultura

“Minha fruta favorita é morango, mas eu estou comendo muita manga e eu AMO lichia”. Logo que o assunto muda, ela usa a mesma técnica de gradação para comentar a política do país: “Eu não gosto do Bolsonaro e não sou muito adepta do PT”. Essas posições, anuncia, exibem o seguinte: “Eu tenho um pensamento totalmente diferente sobre política”. E isso “porque eu estudei política. Um ano”. O gosto sofisticado dela quanto à dicotomia política de predileção dos brasileiros atualmente não é sua única análise social. Ela também acha que “as pessoas falam dos políticos, mas tem problemas que começam com as próprias pessoas. As pessoas não têm a cultura…”. Ela suspende a frase, pensando. O colega que está com ela tenta completar: “De empatia?”. “É…”, começa ela, “cultura empática…”, contudo não está segura, “empatia não é bem a palavra. O brasileiro não tem uma cultura… sabe?”.

 

Pagode Estraga Tudo

Menina canta na fila do ônibus. Tem o olhar perdido enquanto entoa o verso (só um verbo, algo como “espera… espera…”). Talvez por se perceber observada, diz às amigas em torno:

— Tô sofrendo.

Como quem apenas se surpreende com um acaso, sem dor nenhuma. As colegas riem. Talvez para deixar claro que não há fraqueza envolvida, ela acrescenta logo depois:

— Sofrendo por ninguém.

Uma amiga comenta:

— É o pior tipo de sofrência, sofrer por ninguém.

A outra também:

— Pagode estraga tudo.

 

Jesus te AMA!

Eu já o tinha visto em frente às catracas; ele emitia a um segurança um discurso exaltado, com onomatopeias e gesticulações, a que o guarda, postura rígida, atenção formal, só assentia com a cabeça às vezes. Como o segurança, era um homem negro. Tinha o cabelo cacheado, não era muito alto, tinha braços fortes até. Quando entrou no metrô, se dirigiu a um passageiro que tinha fones no ouvido, um homem grande, meio gordo, negro também: “Posso falar uma coisa para você?”. O sentado apontou para as orelhas. O de pé insistiu e foi rebatido por um “tô estudando!”, seguido de um gesto de quem fecha questão. O primeiro então resolveu passar pelo menos uma mensagem: “Olha, Jesus te ama, tá!”, ostensivamente, “Jesus te AMA”, agressivo, agitando o indicador, mas não violento.

Sentou um pouco, olhando para a janela, depois parou na nossa frente: “Posso falar uma coisa pra vocês? Desculpa incomodar”. Disse: “Eu não sou nada. Sou morador de rua – vivo aí, nas calçadas – mas acho que Deus me colocou aqui hoje pra falar uma coisa pra vocês: Jesus te ama”. Se eu falasse que sou ateu ele ficaria muito irritado? “Jesus disse para amar o próximo. O próximo”, explicou, mostrando as pessoas no trem com a mão, “é esse aqui do lado, é ele ali. Amar o próximo como você mesmo. Você não se ama? Não ama ela? Então”. Eu fico um tanto triste por quanto a religião o está iludindo, justificando a sua situação talvez. Por outro lado, dá uma anestesia necessária, não dá? E a potência de reclamar de qualquer um irmandade.

“Não tô falando de dar dinheiro”, prossegue, fazendo que não com o dedo em riste, balançando bastante a mão nessa negativa, por um momento olhou para ela como se ela o fizesse sozinha, “mas uma pessoa que tá com fome você não vai dar um prato de comida? Eu dou. Não tô falando de dar dinheiro pra malandro aí. Se uma pessoa tá passando mal, você não ajuda?”. Tinha de dizer algo assim: há certo protocolo da caridade que impõe só dar dinheiro a quem demonstrar não querer dinheiro ou a quem peça irrelevâncias (não é porque cinco centavos servem pra alguma coisa que os pedintes dizem que o aceitam; é para exibir essa disponibilidade sem desejo). Creio que ele queria me induzir a dar alguma moeda. Não ando com dinheiro. Ele não pediu.

Só reforçou sua teologia: “Dízimo não é dar dinheiro. Me diz onde tá na Bíblia que dízimo é dar dinheiro! Fala, pastor!”, intensificando o tom conforme questionava, cabeça baixa, o punho no ar como quem bate um martelo, escandindo a frase seguinte: “Onde que tá na Bíblia que dízimo é dar dinheiro?”. Então ficou em silêncio, inquieto. Dali a pouco, voltou a me chamar (já tinha ido para outro canto): “Ei, irmão. Irmão!”. Olhei. “Eu já dormi em cemitério. Você não sabe o que eu já passei”.

Desceu na estação Tiradentes. Em frente à plataforma vazia do lado oposto, ele me viu observando e se despediu com um joinha e com a mão espalmada. Retribui.

 

Por Causa de R$4,30?

“Por causa de quatro e trinta deram um mata-leão na mulher, humilharam a mulher?”, era retórica a pergunta, o homem só enfatizava a revolta. Tinha uns cinquenta anos, branco, a pele do rosto bem esburacada. Estava junto do filho e ambos estavam vestidos no estilo hip hop. “Eu falei: vai pegar a mulher, pega eu, eu quebro vocês três”. Desde a República antes de vir o trem ele já contava essa história; repetiu várias vezes dali até o Belém, onde desceu, para uns quatro sujeitos diferentes. Ele tinha gravado tudo. “O governo rouba pra caralho e ninguém é preso. Agora, por causa de quatro e trinta…”. O filho teve uma hora que quis se enturmar, fez também o desafio aos seguranças imaginários: “Vem pra cima de mim, quebrada”. O pai riu, talvez só com um pouco de descrença que o rapaz desse conta mesmo: “É o meu filhote: tô treinando ele”, explicou, divertido. Não muito depois voltava ao seu leitmotiv: “A amiga dela pagou, aí ela pulou. Os caras foram em cima dela direto. Dois homens numa mulher. Falei: vou pra delegacia, mas dois de vocês eu levo pro hospital”. Em alguma festa de igreja, ele teria derrubado três sozinho; agora seria igual. Demonstrou na sequência que além do mais eram dois pesos e duas medidas: “E quando é a torcida do Palmeiras, do Corinthians, que os caras pulam catraca e eles não fazem nada?”. Um sujeito do meu lado comenta: “É verdade, vêm cem caras na muvuca e pulam a catraca”, ainda mais, “cantam de pé na cadeira, os caras são louco”. O outro continuava: “Os skatistas pulam catraca, ninguém faz nada. Podia ir pra delegacia, mas dois eu levava pro hospital”. E com algum cansaço: “Por isso que eu preferia morar nos Estados Unidos”, meu amigo, que diferença faria isso? Ele dá o veredicto: “O Brasil é um lixo. A gente fica indignado”.

Fusca Verde

No shopping Boulevard Tatuapé, um homem magro, cabelos grisalhos aos lados, calvo no topo da cabeça, uns cinquenta anos, pára ao lado do banco entre duas lojas, põe sobre a lixeira uma bolsa preta donde vazam latas de Coca-Cola amassadas, tira lá de dentro uma garrafa e passa a oferecer a tipo todo mundo: “Quer uísque?”. E vira um gole. Fala alto, aponta para funcionários nos quiosques e dentro dos estabelecimentos: “Quer uísque?”. Um rapaz uniformizado vê que é com ele e faz que não. “Você bebe uísque?”, o homem pergunta. “Se eu bebo uísque?”, diz, com uma cara de ‘como não?’, e aí responde, “bebo”, aquele toque de orgulho no olhar. “Já entendi”, o homem fala bem alto mesmo, “não bebe no trabalho”, e repreende, “isso aqui não é igreja evangélica não. Isso aqui é MUNDÃO. Nós tamo no MUNDO. Eu tô no MUNDO”. Mas pra além de uísque outra coisa que ele estava informando toda gente era: “Comprei um Fusca verde! Todo personalizado”. A história é meio paradoxal nesse ponto. “Sabe onde eu tava?”, questiona ele ao mesmo rapaz que não tá no mundão, “no shopping Anália Franco. Ganhei um BMW. Branco! E vou comprar um Fusca verde. Personalizado!”. E surpreendentemente: “Vou morar no Anália Franco! Muita treta, muita confusão”. Tenta guardar as coisas dele no quiosque de perfume, as meninas não deixam porque tem o uísque. Então ele vai embora. Sai agitando um hangloose no ar, despedindo-se das massas, a mão bem no alto, ninguém nem olhando. Pára num quiosque lá na frente, faz uma cara de cumplicidade e interpela um menino: “Comprar um Fusca verde pá nois?”.

O Grande Desafio para o Jornalismo nas Eleições 2018

Em sua coluna “Como Resistir em Tempos Brutos“, Eliane Brum apresentou alguns problemas com que o jornalismo terá de lidar no futuro breve:

Como se comportará a parcela da imprensa que apostou numa saída de centro (e não levou) deverá ser observado de muito perto neste segundo turno. Este também será o grande desafio para o jornalismo ou se fortalecer, mostrando o quanto é insubstituível numa democracia, ou então descer pelo ralo da irrelevância como nunca antes. Se a pauta jornalística servir para rearranjar os projetos de poder das empresas de mídia, acabou. Ainda falta uma autocrítica profunda de parte da imprensa sobre o seu papel no impeachment e já vem outro desafio muito mais intrincado. Vamos torcer para que a maior parte da imprensa se mostre à altura, porque o Brasil precisa muito de jornalismo sério.

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