Crônicas

Pagode Estraga Tudo

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Menina canta na fila do ônibus. Tem o olhar perdido enquanto entoa o verso (só um verbo, algo como “espera… espera…”). Talvez por se perceber observada, diz às amigas em torno:

— Tô sofrendo.

Como quem apenas se surpreende com um acaso, sem dor nenhuma. As colegas riem. Talvez para deixar claro que não há fraqueza envolvida, ela acrescenta logo depois:

— Sofrendo por ninguém.

Uma amiga comenta:

— É o pior tipo de sofrência, sofrer por ninguém.

A outra também:

— Pagode estraga tudo.

 

Literatura

Heloísa Iaconis resenha “As Esferas do Dragão”

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Por mais voltas que possamos dar, por mais que nenhum caminho seja idêntico ao outro, por mais do mais, no começo-fim de tudo e todos, a questão é sempre a mesma: como lidar com a morte? Como saber que a pessoa amada pode, amanhã, não estar mais presa ao chão? E, ainda assim, arriscar-se a amar o outro? Por quê? E você? Você também acaba. Eu. Ele. Ela. Até mesmo aquele que te mostrou o mundo, meu Deus!, ele também se vai – e é esse o cerne de As Esferas do Dragão, livro de estreia de Duanne Ribeiro. Em um três de julho que é sempre ontem, o avô de Duanne falece e, entre procedimentos burocráticos e um rebuliço de tristeza, o autor-personagem vê-se diante da perda de quem o ensinou a andar. Ele me ensinou a andar. A frase parece pouca. A frase, na verdade, carrega muito. Para lutar contra o implacável, porém, o neto transmuta-se em herói e recorre a um universo fantástico (com inspirações no desenho Dragon Ball) para, nessa dimensão outra, ressuscitar o ente querido. Por meio de batalhas, poderes e encontros com figuras de espécies várias (robôs humanos, humanos robôs), ele vira um ser capaz de receber socos, rasgos na carne, chutes aos montes e continuar de pé. Dois mundos, a realidade e a invenção (a segunda relacionada, no caso desta obra, ao imaginário da infância do escritor), que se entremeiam em uma só narrativa. Com trechos de força poética notável (os meus favoritos, vale dizer) e inúmeras referências explícitas à filosofia, à música e à literatura consagrada (para o meu deleite, há muita Clarice por ali!), o maior feito deste volume é mostrar que nós, pessoas falhas e tão pequenas, temos apenas uma forma de vencer o invencível: a criação. E não é essa, afinal, a grande potência da arte? Para além de esferas e dragões, o livro testemunha como a criatividade, burilada com a escrita, é o jeito de ultrapassarmos o ramerrão da triste tríade “nascer, crescer e morrer”. Acho eu que escrever é o mais próximo que chegamos da eternidade: quem escreve sobre alguém o coloca no para sempre. O poder da palavra, o poder que o exército Jade não é capaz de aniquilar, o poder que traz, no âmbito das páginas (que também são vida), o avô de volta.

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Heloísa Iaconis é jornalista. Acesse outros textos no seu perfil do Instagram.

Crônicas

Jesus te AMA!

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Eu já o tinha visto em frente às catracas; ele emitia a um segurança um discurso exaltado, com onomatopeias e gesticulações, a que o guarda, postura rígida, atenção formal, só assentia com a cabeça às vezes. Como o segurança, era um homem negro. Tinha o cabelo cacheado, não era muito alto, tinha braços fortes até. Quando entrou no metrô, se dirigiu a um passageiro que tinha fones no ouvido, um homem grande, meio gordo, negro também: “Posso falar uma coisa para você?”. O sentado apontou para as orelhas. O de pé insistiu e foi rebatido por um “tô estudando!”, seguido de um gesto de quem fecha questão. O primeiro então resolveu passar pelo menos uma mensagem: “Olha, Jesus te ama, tá!”, ostensivamente, “Jesus te AMA”, agressivo, agitando o indicador, mas não violento.

Sentou um pouco, olhando para a janela, depois parou na nossa frente: “Posso falar uma coisa pra vocês? Desculpa incomodar”. Disse: “Eu não sou nada. Sou morador de rua – vivo aí, nas calçadas – mas acho que Deus me colocou aqui hoje pra falar uma coisa pra vocês: Jesus te ama”. Se eu falasse que sou ateu ele ficaria muito irritado? “Jesus disse para amar o próximo. O próximo”, explicou, mostrando as pessoas no trem com a mão, “é esse aqui do lado, é ele ali. Amar o próximo como você mesmo. Você não se ama? Não ama ela? Então”. Eu fico um tanto triste por quanto a religião o está iludindo, justificando a sua situação talvez. Por outro lado, dá uma anestesia necessária, não dá? E a potência de reclamar de qualquer um irmandade.

“Não tô falando de dar dinheiro”, prossegue, fazendo que não com o dedo em riste, balançando bastante a mão nessa negativa, por um momento olhou para ela como se ela o fizesse sozinha, “mas uma pessoa que tá com fome você não vai dar um prato de comida? Eu dou. Não tô falando de dar dinheiro pra malandro aí. Se uma pessoa tá passando mal, você não ajuda?”. Tinha de dizer algo assim: há certo protocolo da caridade que impõe só dar dinheiro a quem demonstrar não querer dinheiro ou a quem peça irrelevâncias (não é porque cinco centavos servem pra alguma coisa que os pedintes dizem que o aceitam; é para exibir essa disponibilidade sem desejo). Creio que ele queria me induzir a dar alguma moeda. Não ando com dinheiro. Ele não pediu.

Só reforçou sua teologia: “Dízimo não é dar dinheiro. Me diz onde tá na Bíblia que dízimo é dar dinheiro! Fala, pastor!”, intensificando o tom conforme questionava, cabeça baixa, o punho no ar como quem bate um martelo, escandindo a frase seguinte: “Onde que tá na Bíblia que dízimo é dar dinheiro?”. Então ficou em silêncio, inquieto. Dali a pouco, voltou a me chamar (já tinha ido para outro canto): “Ei, irmão. Irmão!”. Olhei. “Eu já dormi em cemitério. Você não sabe o que eu já passei”.

Desceu na estação Tiradentes. Em frente à plataforma vazia do lado oposto, ele me viu observando e se despediu com um joinha e com a mão espalmada. Retribui.

 

Contos

Aplicativos de Idade

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Primeiro todo mundo usou o aplicativo para gerar o seu eu rejuvenescido. Tinha só que furar o dedo e pingar uma gota de sangue no sensor de digitais: em até quarenta minutos chegava o motoqueiro com a criança na caixa.

Não parecia tanto assim com a gente, se fosse lá olhar nas fotos de época dava pra notar marcantes discrepâncias; mas a semelhança era suficiente. Nas primeiras versões do aplicativo, podia-se configurar o clone com idade de poucos meses a quatro anos. Pedi um eu de três. Uma fofura que só. Fiquei comigo no colo um bom tempo, meio bobo, como se eu fosse um filho meu.

Mesmo consciente de que os clones lúdicos têm vida curta, me peguei pensando se eu me tornaria o que me tornei. Se o rapazinho que brincava com as peças de montar não fosse se desfazer em um nuvem de carne gaseificada e nanorrobôs higienizantes em poucas semanas, ele cresceria para ser o que sou? Não, né? São muitos fatores que condicionam essas coisas.

Montei vários desses, maiorzinhos também, quando o aplicativo ganhou mais recursos. Eu de seis, eu de nove, eu de doze. Jogamos bola e videogame. Até os levei pra “escola”: umas encenações de colégio que grupos de usuários do programa organizam para poder observar seus eus estudandinhos. Eu parecia aplicado; não lembro de ser assim. Estava pensando ali caladão em tudo o que eu pensava na época? Ou esse eu é vazio? Por mais que a tecnologia avance, sentir dentro é diferente de por fora.

Mandei fotos dos meninos para a minha mãe, ela ficou enternecida no começo: “Olha, você, que gracinha!”. Mas ela não gosta mais nem de saber que faço isso, fica muito triste quando eles se desfazem. A vida na época dos mais velhos era algo muito excepcional, então eles não conseguem se adaptar às coisas de hoje.

***

Com a mais recente atualização, a moda virou produzir os velhos que seríamos. Não vinham na caixa nem de moto; a empresa emitia o espécime e o punha para “trabalhar” em alguma locação. A gente ia lá e podia olhar, conversar com eles. Se fossem fabricados bem idosos, podíamos levá-los para morar conosco, tipo parentes de que eles se esqueceram ou algo assim. A questão é que diferente das crianças os mais crescidos funcionam com alguma ilusão.

Encomendei um eu de sessenta e três anos. Supostamente o algoritmo escolhe a locação com base nos seus dados: vasculha as suas atividades, faz prognósticos e decide. De algum modo, então, devo chegar a essa idade como vendedor em uma banca de frutas no centro da cidade. Empreendimento que seguia aberto à noite, até tarde, por algum motivo. Foi lá que eu fui me encontrar, a rua iluminada por um amarelo-âmbar. Eu trabalhava. Aplicado.

“Boa noite, senhor. Tem fruta boa aí?”, disse, sorrindo. O rosto dele parecia uma profecia realizada. Eu avaliava cada traço me dizendo “mas como?” e concluindo “sim, sim, é claro”. As minhas olheiras, os vincos na testa, eram como sementes: nele, era como se as linhas tivessem enfim sido preenchidas de escrita. “A goiaba tá madurinha”, eu respondi. Estava satisfeito com o ponto onde tinha chegado? Mudaria alguma coisa? Ele me instigava.

Fui todos os dias à barraca, aproveitando ao máximo a validade do clone. Eu me dizia: “Lá vem o rapaz saudável! Que vai levar hoje?”. Eu me tornei um bom conhecido, quem sabe até um bom amigo de mim mesmo. Comecei até a lamentar que tivesse de desaparecer. Eu teria tanta afinidade com outros eus envelhecidos que ordenasse à loja? Um eu de oitenta e sete me diria tanto? Naquele que — ele não sabia, é óbvio — seria seu último dia, combinei de irmos a um bar próximo, beber algumas.

Lá ficamos até a madrugada. Eu estava dando a mim uma boa dose de juventude, eu disse. Eu virei um outro gole e retruquei que estava era recebendo lições de maturidade. Eu sorri com falsa modéstia: “Que maturidade o que… os jovens é que sabem de tudo. Se não sabem, de qualquer jeito tem a faca e o queijo na mão”. E, rindo alto na avenida desabitada, “os velhos não tem queijo nenhum e a faca que têm está no seu pescoço!”. “O senhor tem muito tempo ainda”, menti. “Que nada. Queria ter o montão que você tem”, rebati, formando desse modo, inadvertidamente, uma cena da pior autoajuda. Senti uma calma raiva de mim.

“Sabe o que eu queria?”, abri, retórico, “queria usar um desses aplicativos de idade e fazer um eu novo. Trinta e dois anos, por exemplo. Só pra olhar, lembrar como era”. “Aconselhar?”, questionei. “Ah, isso não. Pra que? Somem tão rápido”. Concordei, calado. Então me ouvi dizer: “A única coisa que eu podia falar de todo jeito era que eu teria feito tudo diferente”. “Como assim?”. “Ah. Diferente.” Convenientemente, melodramaticamente, foi aí que desligou.

De repente, parou de piscar. O olhar estralado lhe dava uma expressão assustada. A pele descorou grau a grau, até a transparência, e se desagregou em milhares de partículas baças, um enxame que foi por sua vez implodindo, criaturazinha por criaturazinha, sem som. No ar, evanesceu como o vilão definitivo de um videogame. Fiquei só comigo e com meu copo.

Ensaio & Crítica

Nelida Piñon: Ser Abissal e Ser Todos

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No GloboNews Literatura, a escritora Nelida Piñon discorreu sobre certa universalidade do ato de escrever:

Eu tenho a pretensão, a boa pretensão e a humilde pretensão, de falar com a voz coletiva. O escritor não é um ser solitário. O escritor não tem uma voz única. Ele tem as vozes do mundo. E quantas mais vozes ele representa e encarna, mais ele é capaz de assumir até uma voz legítima, fidedigna. Portanto, é um dever do escritor ser o outro. O escritor deve ser homem, mulher, criança, vegetal, mineral, animal, tudo. Ou seja, quanto mais formas humanas, formas viventes, você acumula, você, enfim, representa, mais você será capaz de se aproximar do abismo humano. Nós somos seres abissais, não é? Só com esse atrevimento de ser todos nós podemos talvez respirar de uma forma coletiva.

A pretensão, o dever, o atrevimento — reparemos nas modalidades diferentes de cada palavra. A primeira pode ter o significado pejorativo de “querer mais do que se pode”, o que Nelida amaina com alguns adjetivos — trata-se essa da boa, da humilde pretensão. A segunda não é o sujeito ansiando, quase inadequadamente, por mais. Impõe uma obrigação. A terceira inverte os sinais do pretensioso — é também um sair do pré-definido, mas com audácia. Todos os valores citados parecem ser necessários para a tarefa de alcançar a alteridade: modéstia, compromisso, coragem.

Outro comentário que se pode fazer quanto à fala da Nelida é que ela se opõe às correntes que destacam a relevância do lugar de fala — isto é, dos condicionantes sociais que influem nas perspectivas dos indivíduos — na arte. Por um lado, um escritor homem, por exemplo, teria altas limitações ao representar uma personagem feminina; por outro, mais importante do que homens escrevendo mulheres seria ter mulheres escrevendo. Creio que essas duas posições têm contribuições significativas; temos apenas de pensar melhor sobre como conciliá-las.

Essa questão, claro, não se refere aos outros âmbitos pelos quais o escritor pode se espraiar: os reinos vegetal, animal, mineral. A propósito, na sequência desse GloboNews Literatura há uma matéria sobre Walmir Ayala, escritor que, em À Beira do Corpo, meio que respondendo Machado, narra pela boca de um verme.

 

Crônicas

Por Causa de R$4,30?

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“Por causa de quatro e trinta deram um mata-leão na mulher, humilharam a mulher?”, era retórica a pergunta, o homem só enfatizava a revolta. Tinha uns cinquenta anos, branco, a pele do rosto bem esburacada. Estava junto do filho e ambos estavam vestidos no estilo hip hop. “Eu falei: vai pegar a mulher, pega eu, eu quebro vocês três”. Desde a República antes de vir o trem ele já contava essa história; repetiu várias vezes dali até o Belém, onde desceu, para uns quatro sujeitos diferentes. Ele tinha gravado tudo. “O governo rouba pra caralho e ninguém é preso. Agora, por causa de quatro e trinta…”. O filho teve uma hora que quis se enturmar, fez também o desafio aos seguranças imaginários: “Vem pra cima de mim, quebrada”. O pai riu, talvez só com um pouco de descrença que o rapaz desse conta mesmo: “É o meu filhote: tô treinando ele”, explicou, divertido. Não muito depois voltava ao seu leitmotiv: “A amiga dela pagou, aí ela pulou. Os caras foram em cima dela direto. Dois homens numa mulher. Falei: vou pra delegacia, mas dois de vocês eu levo pro hospital”. Em alguma festa de igreja, ele teria derrubado três sozinho; agora seria igual. Demonstrou na sequência que além do mais eram dois pesos e duas medidas: “E quando é a torcida do Palmeiras, do Corinthians, que os caras pulam catraca e eles não fazem nada?”. Um sujeito do meu lado comenta: “É verdade, vêm cem caras na muvuca e pulam a catraca”, ainda mais, “cantam de pé na cadeira, os caras são louco”. O outro continuava: “Os skatistas pulam catraca, ninguém faz nada. Podia ir pra delegacia, mas dois eu levava pro hospital”. E com algum cansaço: “Por isso que eu preferia morar nos Estados Unidos”, meu amigo, que diferença faria isso? Ele dá o veredicto: “O Brasil é um lixo. A gente fica indignado”.

Crônicas

Fusca Verde

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No shopping Boulevard Tatuapé, um homem magro, cabelos grisalhos aos lados, calvo no topo da cabeça, uns cinquenta anos, pára ao lado do banco entre duas lojas, põe sobre a lixeira uma bolsa preta donde vazam latas de Coca-Cola amassadas, tira lá de dentro uma garrafa e passa a oferecer a tipo todo mundo: “Quer uísque?”. E vira um gole. Fala alto, aponta para funcionários nos quiosques e dentro dos estabelecimentos: “Quer uísque?”. Um rapaz uniformizado vê que é com ele e faz que não. “Você bebe uísque?”, o homem pergunta. “Se eu bebo uísque?”, diz, com uma cara de ‘como não?’, e aí responde, “bebo”, aquele toque de orgulho no olhar. “Já entendi”, o homem fala bem alto mesmo, “não bebe no trabalho”, e repreende, “isso aqui não é igreja evangélica não. Isso aqui é MUNDÃO. Nós tamo no MUNDO. Eu tô no MUNDO”. Mas pra além de uísque outra coisa que ele estava informando toda gente era: “Comprei um Fusca verde! Todo personalizado”. A história é meio paradoxal nesse ponto. “Sabe onde eu tava?”, questiona ele ao mesmo rapaz que não tá no mundão, “no shopping Anália Franco. Ganhei um BMW. Branco! E vou comprar um Fusca verde. Personalizado!”. E surpreendentemente: “Vou morar no Anália Franco! Muita treta, muita confusão”. Tenta guardar as coisas dele no quiosque de perfume, as meninas não deixam porque tem o uísque. Então ele vai embora. Sai agitando um hangloose no ar, despedindo-se das massas, a mão bem no alto, ninguém nem olhando. Pára num quiosque lá na frente, faz uma cara de cumplicidade e interpela um menino: “Comprar um Fusca verde pá nois?”.

Contos

Um Mundo Velho Todo Novo

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Presente retroalimentar: ideia esquisita que meu pai botava em prática a cada ano. Consistia em inverter o tradicional “receber presentes no aniversário” para atingir um alvo mais difícil — ele dava coisas pelas quais era apaixonado, na aposta de que essas coisas apaixonariam os demais também. Lançava seus gostos às subjetividades alheias como conquistadores dóceis. Se cumprissem a missão, sorria, satisfeito, completo, justificado. Se não cumprissem, resignava-se a tentar de novo em outra oportunidade. Ou, como ele dizia, “na rotação seguinte”. “Planeta pra frente, segue o jogo!”

O maior número de presentes retroalimentares pela culatra aconteceu comigo. Eu nunca tive pudores nem sutilezas quando, ano a ano, meu pai me dava um presente no seu aniversário e eu lhe dizia que não havia gostado. Eu não era uma criança malvada ou birrenta, é que não gostava de ler e — talvez tenha sido esse um erro de estratégia de meu pai — ele insistira em me presentear com histórias em quadrinhos. Fanzaço das HQs, acordava cedo, ia à sua biblioteca (tão emagrecida depois que nasci e demandei, só por estar presente, mais espaço) e escolhia algum queridinho.

Quando eu completei seis anos, foi um livro do dinossaurinho Gon. Perguntei: “Não tem desenho?”, ou seja, versão animada? Procurei no Youtube sozinha, achei, gostei bem mais e deixei de lado para sempre a HQ. Aos sete, foi uma série de livros infantis com ilustrações do Glauco. Achei sem graça. Aos oito, foi um daqueles almanaques da Turma da Mônica, acompanhado da história de que ele, criança, passava horas e horas fazendo os passatempos do volume. Dei uma olhada, preferi o meu videogame. Aos nove, porém, tudo fez uma curva inesperada: meu pai me revelou os quadrões.

No dia em que me contou o segredo dos quadrões, meu pai assumia ares conspiratórios desde o café . Era um domingo de sol e ele comia um pão de manteiga. Mastigava sem perder o sorriso no canto da boca. Pela janela os passarinhos cantavam e, quando um deles pousou no peitoril, meu pai fez a sua piada tradicional — “É o Super-Homem? Ah, não, é um pássaro” — uma tirada a que ele também recorria em outras ocasiões (“É o Super-Homem? Ah, não, é um avião”). Minha mãe e eu já estávamos mais que acostumadas com a verve dele. Meu pai era a vanguarda da piada de tiozão.

Mas mesmo essa piada tradicional soou diferente, como se dessa vez ele tivesse se perguntado “é o Super-Homem?” e “ah, sim, é o Super-Homem”. Ele esperou minha mãe sair para a sala e me disse, sussurrante: “Você quer saber qual vai ser o presente que eu vou me dar via você?”. “Pai, eu não aguento mais quadrinhos.” “Ah, mas dessa vez é diferente: são uns quadrões. Dá até para passar no meio deles. Na verdade a coisa toda consiste em passar no meio deles.”

Com todo o esnobismo que nove anos podem conter, eu desci ao porão com meu pai para ver o que afinal ele queria dizer com isso. Lá embaixo, parou à frente de algo que estava coberto com uma lona. “Lembre-se: grandes quadros implicam grandes responsabilidades.” Ri com os ha has bem espaçados para expressar minha avaliação do que eu achava que era outra piada. Ele não pareceu se perturbar. Puxou a lona e atrás dela estava uma moldura de madeira, dois de altura por cinco de largura, segura de pé por uns suportes, envelhecida mas gritando durabilidade.

“Aqui está um belo portal”, exclamou meu pai, ao que eu só pude contra-argumentar: “Portal? Que portal?”. “Esse negócio de madeira.” “Tô vendo. E daí?” “E daí que a gente agora é Alice indo pro outro lado do… quadrão. Mas primeiro você tem que contar uma coisa pra ele.” Eu estava cheia de vergonha alheia. “Ai, pai, tá bom, vou jogar videogame, tchau.” Ele deu uma risada e segurou na minha mão. “Tá, dessa vez eu dou alguma coisa por você, mas depois você vai ter que fazer isso sozinha, tá? Os quadrões só entregam algo de volta se a gente dá alguma coisa pra eles.”

Ele olhou concentrado para a moldura vazia, soltou um “ok” decidido e me levou a passos vigorosos, como uma marcha. Através das quatro linhas via-se, distante um ou dois metros, a parede caiada do porão. “Olha o degrau!”, avisou ele quanto à parte debaixo da moldura. Fechei os olhos. Coloquei o pé do outro lado, o sentimento de chão foi o mesmo, então antes de abrir as pálpebras eu já comecei a dizer um “Viu? Nada aconteceu, eu não sou mais criança pra acreditar em…”, e aí meus olhos começaram a ver e eu vi.

Estávamos no topo de um prédio e o horizonte era uma variedade de mundos. Os campos, cidades, praias e montanhas daquele panorama existiam como se produzidos por mil artistas — o traço, as texturas, as cores, as resoluções, os graus de realismo ou de caricatura, tudo se sobrepunha e se sucedia lado a lado como se a criatividade, para o deus daquele mundo, fosse um ato de vontade. Meu queixo estava no chão. Virei o pescoço para trás em um gesto brusco: meu porão continuava lá. Idêntico, cinza, monótono, atulhado de silêncio. Voltei-me. Era um deslumbre.

“Ah! Essa sua cara de boba é um belo presente retroalimentar. Dessa vez, eu ganhei!”. Depois dessas palavras, meu pai me levou até a cidade lá embaixo. Carros de tecnicolor congestionavam a avenida, entoando uma sinfonia modernista de buzinas, roncos e impropérios. Dei um grito agudo: “Ali! Ali é o Pateta? O Pateta!” Era mesmo, enfurecido, dirigindo o seu carro ao trabalho. Algumas fileiras atrás, uma dragoa rosa e vermelha esperava sua vez no trânsito e cuspia fogo para cima de vez em quando. Seu marido, um burro, repetidamente questionava: “A gente já chegou?”

Meu pai ia andando e eu era arrastada embasbacada com o rosto virado. “Ê, Piadista Mortífero! Finalmente voltou!”, várias vozes gritaram em uníssono, e eu me virei na direção do som. Era uma pastelaria na esquina. Nela, um garoto louro de roupas verdes e colete marrom, um homem peludo com roupa amarela colada — e, meu Deus — o Super-Homem! Meu pai se aproximou: “É um pássaro?” É um avião?”, e o Super-Homem deu um risinho protocolar. “Trouxe sua filha, hein?”, ele perguntou, “depois me deixa dar uma volta com ela lá em cima”. Gelei dos pés à cabeça.

(Foi maravilhoso voar nas costas do Super-Homem nas outras vezes que eu atravessei o quadrão. Os quarteirões-maquetes lá embaixo, as pessoinhas, o vento no rosto, a barriga das nuvens…)

Para o fortão de amarelo, meu pai chegou cantando “chove lá fora, faz tanto frio”, o sorrisão aberto. “Não me vem com esse porra desse reaça”, o outro respondeu. “Que isso, vocês são da mesma espécie, pô!”, retrucou meu pai, e só recebeu um rosnado de volta. Meu pai nem ligou. Passou ao menino de verde: “E aí, passando muito calor?”. Esse riu. “He heh, é, o inferno tá daquele jeito, mas melhora depois que você não fica tentando sair de lá e faz alguma coisa pelo lugar.” Meu pai pediu pasteis e caldo de cana para mim e para ele, e então me deixou com os colegas e foi ao banheiro.

Os amigos dele passaram a tomar conta de mim por default, entre sorridentes, indiferentes e complacentes. Eu estava atordoada. Arranjei algo o que perguntar: “Por que vocês chamaram meu pai de Piadista Mortífero?”. Foi o Super-Homem que respondeu, tonitruante: “Porque as piadas dele são mortais”. O Super-Homem, você descobriria logo, é assim mesmo, certinho e meio tapado, pensa que explica coisas atestando o óbvio. O cara de amarelo completou: “Quando o Thanos tava dando um cacete em todo mundo, seu pai contou uma piada e acabou com o assunto”.

Dei uma risadinha. Não era uma piada. “O Thanos tinha juntado as cinco joias do poder infinito. Todo mundo levando um pau. Enfiei as garras no peito dele e o filho da puta não morreu. Seu pai contou uma piada e ele está lá até hoje ‘otorrinoceronte! otorrinoceronte! HAHAHA’. A vitória mais imbecil, mas vitória do mesmo jeito.” Eu não tive o que responder. O Super-Homem comentou baixinho: “Onde já se viu essa quantidade de palavrão na frente da menina?”. O rapaz de verde virou pra mim: “Seu pai é foda. Sabia que ele que me apresentou o Dante? O escritor?”

Quando atravessamos o quadrão de volta, eu estava tão em choque que nem comi direito e não pude dormir. Sonhei de novo com as coisas que tinha visto, já com saudade, como se nunca as pudesse ter de novo. Mas eu e meu pai viajamos àquele lugar fantástico, reunião de todos os lugares fantásticos, muitas e muitas vezes depois. Hobbits e Jedis, cavaleiros da Távola Redonda e do Zodíaco, mechas e transformers. Vimos Speedy Racer correr a Corrida Maluca (e perder, depois de uma trapaça). Vimos Jonas dissertar sobre qual barriga era melhor para viver, a da Moby Dick ou a da Free Willy. Vimos Crash Bandicoot e Taz apostarem quem girava no lugar por mais tempo.

Era como se nada pudesse se esgotar. Tão exuberante que, na adolescência, principiei a me entediar. Fui me afastando, até que, então na universidade, morando em outra cidade, não mais retornei. Meu pai de vez em quando me convidava, eu lhe dizia: “Quem sabe outro dia…” Durante o mestrado e o doutorado morei noutro país. Por dez anos só vinha à casa eventualmente. Mesmo assim não me decidi a pular para o outro lado da realidade. Meu pai já não me falava mais disso. Estava, aliás, bem mais velho, bem mais cansado. Eu tinha dito “quem sabe outro dia”. Outro dia nunca chega.

Tive, porém, a mesma sensação de atravessar um portal para outro mundo quando passei pela soleira do quarto de hospital e, três anos sem ver a casa, reencontrei meu pai à beira da morte. Um outro mundo, sombrio, definitivo e desesperador. Ele ainda falava um pouco, mas os médicos não lhe davam esperança. Minha mãe estava desolada. Alojei-me no meu antigo quarto, ainda bastante parecido com o que era (apesar de alguns primos e netos terem passado por lá), decidida a esperar que o momento final viesse. Ou a encontrar um milagre. Pois não tinha eu milagres à disposição?

Pensava eu, pelo menos. Descendo ao porão, foi-me jogado na cara que não. Pulei entre as hastes da moldura repetidas vezes, sem que nada de fantástico ocorresse. Confusa, atribui à alucinação infantil tudo o que eu estava convicta de ter vivido. Chorei a tarde toda.

Semanas se passaram, chegou meu aniversário, eu lhe fazia uma visita. Meu pai pediu para que eu me aproximasse e, com todo ar conspiratório que os seus noventa anos combalidos podiam ter, me segredou: “Hoje é o dia”. Eu soube exatamente do que ele estava falando. O momento final…”E eu sei que é seu aniversário e quero que você me dê um presente.” Tentou rir, acabou tossindo dolorosamente. Conseguiu enfim me orientar a trazer ao hospital o quadrão. Precisava tê-lo consigo antes de que tudo acabasse.

Fiz o diabo para colocar aquele quadrão ali dentro. Me escondi nos corredores esperando enfermeiros e médicos passarem, menti para zeladores dizendo que eu estava de mudança e não tinha para onde levar, todo tipo de coisa. Contra todas as probabilidades eu estava no quarto fechado, segurando em pé a moldura de madeira, dois de altura, cinco de largura. Meu pai sorriu. “Encosta ela na parede”, disse ele, “e me ajuda a andar até aí.” Eu fui até a cama, coloquei um braço direito abaixo da sua axila e o levei, devagarzinho. À frente do quadrão, chorei de novo.

“Pai, eu iria com você, mas não funciona mais comigo, não funciona!”, as lágrimas escorriam. Ele me olhou com carinho. “Mas você deu alguma coisa? Você tem que entregar alguma coisa para que ele te entregue alguma coisa.” Suspirou. “Dessa vez só tenho força pra me levar. Você vai ter de achar um jeito de se entregar sozinha.” Eu consenti, rindo, nervosa: “Grandes quadros, grandes responsabilidades, né?” Fiquei feliz por tê-lo feito rir. Ele pôs um pé pela moldura e a carne se fez invisível. Dissemos um ao outro que nos amávamos. “Pai, o que mais eu faço aqui sem você?”

“Tudo, ué”, disse ele, já avançando, sumindo aos poucos como o gato da Alice. Quando restou apenas a cabeça, flutuando contra o vazio, meu pai completou: “É um mundo velho todo novo, Haroldo. Explore!” E me deixou: idêntica, cinza, monótona, atulhada de silêncio — mas, no fundo do peito triste, com uma raizinha de cor e estrondo.

***

Esse conto foi um presente para o jornalista Ricardo Tayra e foi publicado no livrinho Me Dá uma História: 42.

Contos

Plot Twist

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“Plot twist” me parece nome de refrigerante. Provavelmente ou obviamente porque me lembra Pepsi Twist. Este último, uma Coca-Cola com outra marca e além disso um pouco de suco de limão. Já aquela expressão denota um momento de virada em uma narrativa. Um cavalo de pau. A hora e a vez de Macabéa e a hora da estrela de Augusto Matraga. Oportunidade em que, por exemplo, um sujeito qualquer bebe um refrigerante de cola com limão; acabando o seu almoço, se apercebe com o mesmo desalento diário e curto que é preciso em poucos minutos retornar ao trabalho, e à simples menção da palavra “trabalho” lhe é evocada no cérebro a agenda imediata de tarefas; com um gesto mental ele sacode as atividades futuras, se recusa a trabalhar antecipadamente, se apega a esses momentos breves dedicados à digestão e a uma contemplação com a graça de deus bovina; ele retoma o copo com um suspiro, bebe enfim mais um gole do seu Plot Twist, e nesse instante começa a perceber que desde há muito um burburinho tenso se avoluma às suas costas, nota vozes enraivecidas que se intensificam e – exatamente quando desce o gole ebuliente do refrigerante na faringe – se joga para o lado, no susto, pois que um corpo fora atirado contra o balcão. No chão, sacode a cabeça, vê o homem atacado, sua boca sangra, ouve os berros do homem que o atacou, na ponta do seu braço estendido há um revólver, “você vai me entregar meu dinheiro, seu filho da puta, já teve bastante tempo”, o nosso protagonista observa a arma com terror, o som do copo caindo e se estilhaçando – a quebra do vidro sempre aguda e trágica –, ainda vibra no seu ouvido. “Bento, eu não tenho como te pagar, não tenho”, se desculpa o outro, se escora no balcão, avança com as mãos suplicantes na direção daquele que o cobra. “Ninguém vai sair dessa merda agora, fecha a porta do restaurante, caralho!”, alguém obedece, alguém pede “calma, gente, por favor, calma”, o nosso protagonista não pode esconder de si uma excitação, lá no fundo está animado de verdade, algo aconteceu, conjetura tão compenetrado que até se distancia da situação de crise, fica de pé, pega a lata e dá mais um gole no seu Plot Twist, apenas um pouco antes da nave alienígena estacionar violentamente na avenida lá fora, as ondas de impacto rompendo num átimo vitrines, vitrais, portas transparentes, janelas – ruídos cristalinos e multifocais fazendo contraponto ao longo urro de baleia branca do veículo invasor fazendo a baliza. Ah, meu Deus do céu, ah, meu Deus do céu, a população do restaurante se divide entre quem tenta se proteger nos fundos ou se esconder na cozinha e quem se aproxima da saída para testemunhar o evento; o nosso protagonista preserva consigo por osmose a lata, dá passos relutantes até a rua e olha: exércitos ocupam o asfalto; de um lado, soldados de pele verde, tentáculos pequeninos brotando dos pescoços, antenas peludas saindo dos narizes; do outro, compatriotas humanos (engraçado, pondera, que tenha lhe vindo esse termo, “compatriotas”). O frenesi das metralhadoras no solo se soma aos disparos de lança-foguetes a partir dos helicópteros. A nave anuncia em som altíssimo, cheio de graves, em inúmeras línguas terrenas: “Este planeta pertence agora à Valconas, herdeiro de Velonis, devorador de éticas, patrono do fulcro”. Parece tanto com um filme que o herói desta história sente falta de uma pipoca, pelo menos tenho um refrizinho, dá outro gole no seu Plot Twist, o refresco e o açúcar lambem a língua conforme as nuvens se abrem num buraco negro de luz e o próprio Cristo surge, a mão direita com o indicador e o médio tesos, sabe? Em volta o séquito de músicos e guerreiros angélicos. Os recém-chegados assistem ao conflito e parecem tão surpresos quanto nós – a reedição da Bíblia no futuro registrará que não podia ter sido eleito dia pior para realizar a escatologia, o ato de salvação e de condenação final da humanidade. Perante tal, Cristo conclui que a humanidade não pode ser salva ou condenada por ninguém que não fosse Ele, pelo menos não sem que tivesse algum papel, afinal Ele não tinha vindo até aqui por nada. Cristo ordena portanto que a sua tropa forneça apoio. Os anjos musicistas fazem dançar suas espadas de vidro, emitindo o atrito com o ar sons como os daqueles conjuntos de garrafas desigualmente preenchidas de água, os militares alados batem com as harpas na cuca dos alienígenas, os enforcam com as cordas extraídas dos instrumentos. “Pode ter o furdúncio que for que a gente vai até o banco e você vai sacar o caralho que estiver lá”, Bento prende a mão do devedor nas costas, conserva a pistola na sua nuca, só falta um pouquinho, eu devia ter comprado uma garrafa de 600, o nosso protagonista leva o alumínio até a boca e, sim, sim! Bebe mais um gole do seu Plot Twist, “este planeta pertence agora à Valconas, herdeiro de Velonis, o corruptor dos símbolos, o aliciador dos arquétipos”, o último gole do seu Plot Twist, “é agora e é você, homem, que deve escolher, que deve escolher o destino do mundo”, quem é que fala dentro da sua cabeça essas palavras potentes o suficiente para liquidificar no espaço mafiosos e alienígenas e anjos, a realidade à frente dos seus olhos torna-se um caldeirão de imagens, borbulham hitleres e variados aristóteles e souvenires feitos em massa para serem vendidos como vivências únicas de cidades turísticas e medalhas olímpicas e fatos há tanto esquecidos mas por sorte anotados em materiais infelizmente muito perecíveis, “escolhe, homem, deve o mundo persistir ou deve ele perecer?”, o nosso protagonista flutua na escuridão. Iluminado por fora sem foco iluminador visível? Iluminado por dentro? Boia no bojo do bruxuleio: deve selecionar uma dentre todas essas possibilidades? Deve acoplar o ferro preto, batido e antigo à boca e entornar a torrente grossa do tudo? “O que você escolhe, homem? Você deve escolher…”.

Contos

Somos Todo Lula

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“Somos todos Lula”, anunciara no discurso Lula, mas não esperávamos de fato nos tornarmos Lula. Já naquele momento mesmo creio que sentimos um leve transtorno, um arrepio nos braços. Uma secura na garganta que não passava bebendo água e que se desenvolveu no minutos seguintes em uma rouquidão progressivamente forte. As pessoas tossiam com força, buscando expelir o que quer que fosse que estivesse preso nas vias internas. Homens com voz mais fina, mulheres, crianças, tossindo, sem que pudessem evitar que suas vozes baixassem ao grave, ao áspero. Abalados por essa primeira transformação coletiva, sofríamos ao mesmo tempo a segunda: de início uns poucos fios, mas logo a barba grossa tomou os rostos, em alguns estilo sindicalista, preta; em outros, branca, paz e amor. “Somos todos Lula”, percebemos aos poucos, “deus do céu, somos todos Lula”.

As ruas cheias à frente do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, cheias de lulas. Mas também nas casas são-bernardenses a além; pipocando um Lula aqui e um Lula ali nas residências da Grande São Paulo e da capital, nas salas de estar assim de repente avôs olhando álbuns velhos de fotografia viravam o Lula, nas cozinhas pais e mães preparando refeições tradicionais para suas famílias viravam o Lula, crianças e cães e peixes de aquário viravam o Lula; a epidemia se alastrou com velocidade cada vez maior a todos os pontos do país. Tentávamos, em desafio, dizer “amigo”, “parceiro”, “colega”, até mesmo “mano”, “brother”, “truta”, qualquer coisa, em desespero, mas dizíamos “companheiro!”, não podíamos impedir, surgia inevitável e justo, “companheiro, companheiro!”.

Para alguns, talvez pela força moral, pela resistência mental ou pelas necessidades narrativas de algum deus escuso, o processo foi mais lento. No Congresso Nacional, o aparecimento dos lulas inaugurais foi respondido pragmaticamente; resolveu-se atentar a desvios antes ignorados do parlamentar transformado (“Não é porque ele agora se tornou Lula que agimos, mas pelo reestabelecimento da ética!”), se sustava o seu mandato e o jogavam aos leões, isto é, ao Supremo Tribunal Federal, que fazia a degola pinçando as juriprudências e artigos da Constituição mais convenientes. A estratégia não só se exibiu insustentável — pois mais e mais deputados e senadores se tornavam Lula — como um dado sugeriu que a tentativa de resistir estava fadada à derrota: a presidente do STF, Carmen Lucia, tornou-se Lula. Carminha, como ficou conhecida carinhosamente na internet, ainda de rosto magro, ainda de cabelos com curvas bem arqueadas, grisalhos, ganhou uma barba e uma voz forjada na greve.

Temer-Lula, é claro, sofreu muito sem poder enunciar mesóclises ou recitar frases em latim (sua mente travava, expressões simples inundavam sua mente, um “verba volant” se transtornava numa metáfora futebolística tipo “quem não faz, leva”). Pelo contrário, Sergio Moro se manteve estoico, embora indeciso entre se estava em uma variação de “O Alienista”, de Machado de Assis, ou num filme de zumbis. Homem reto, laborioso, passou a emitir com uma rapidez de piranha inúmeras ordens de prisão, baseadas em apartamentos não só no Guarujá, mas também em São Vicente, Santos, Praia Grande, Itanhaém, Cubatão. As penitenciárias não se encheram de lulas: já estavam cheias de lulas. A polícia não cumpriu sua função de prender lulas: eram todos os oficiais Lula, o japonês da Federal mantendo a tornozoleira eletrônica de condenado a quatro anos de prisão, olhos puxados sob os óculos escuros sobre a barba espessa.

De Trump e Obama a Putin e Merkel: Lula. Na CBN e na rádio Bandeirantes todos os colunistas transmutados em Lula falavam mal de si mesmos e se culpavam por tudo. Moro teve de aprofundar o paladino em si; invadiu supermercados e armazenou tudo o que pode em local seguro; invadiu delegacias e roubou armas. “Eu sou a lenda”, gritava ele enquanto abatia lulas e as ruas enchiam de sangue, “eu sou a lenda, desgraçados”, levado ao combate sem fim, até que enfim cercado, de pé sobre um carro, ilha cercada de lulas, brandindo sua metralhadora, “eu sou a lenda”, “eu sou a lenda, filhos da puta, eu sou a lenda, filhos d–” — então travou, não pode repetir, teve de dizer:

“Eu sou a lenda, companheiros!”