Crítica Cultural

A Vida é Imensa, o Homem é Pequeno

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Publiquei no Digestivo Cultural uma crítica sobre o filme As Aventuras de Pi. Eu escrevi:

A vida é imensa, deslumbrante e indiferente – e o homem é pequeno; eis o núcleo do filme de Ang Lee As Aventuras de Pi, adaptação do livro homônimo do escritor canadense Yann Martel, ganhador do Booker Prize de 2002. Essa ideia essencial transparece tanto no visual exuberante com que é retratada a natureza – em sua violência e sutileza – quanto no enredo, que conta a odisseia do rapaz indiano Pi, à deriva no meio do Pacífico, tendo como único companheiro um tigre branco. A história é narrada por Pi a Yann, com um adicional que estipula uma moldura religiosa a toda a narrativa: a sobrevivência ao longo de 227 dias, sob sol e solidão, contra a ameaça constante da fera, com um quase nada de recursos, é uma história que deve fazer com que Yann (e, por analogia, nós) acreditemos em deus.

Crítica Cultural

Coisas da Vida

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica A Vida Acontece; ou: A Primeira Vista, sobre a peça com direção de Enrique Diaz e atuação de Adriana Lima e Drica Moraes. Eu escrevi:

A Primeira Vista é uma peça que trata das – como se diz? – coisas da vida. É engraçada, tocante, superficial, com um diálogo divertido e ágil bem tocado (…) Desconhecidas que se encontram por acaso e se aproximam por mal-entendidos, amantes de uma noite, amigas de longa época, desafetos pelas circunstâncias mas só fragilmente, porque alguma coisa permanece… acompanhamos essa aventura cotidiana e comum, e nós identificamos às vezes, pois há muito de nós no que é comum e cotidiano. Além da sensibilidade e da empatia, a montagem se lança também ao simbólico e à interpretação de como tocamos essa odisseia prosaica: do jeito que dá, com tanta incerteza, com alegria, com tristeza, com alegria e tristeza misturadas…

Crítica Cultural

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Analisando Sara: Pós-hardcore atmosférico, sobre o EP 6567826968738469 da banda do litoral paulista. Eu escrevi:

A sonoridade instrumental me lembra Circa Survive, Alexisonfire (sem a fúria), Envydust. Mas não é exatamente nada disso (…) O EP anterior a esse, Repetição Imediata: Co-Evolução e Consequência, foi premiado pelo Zona Punk como melhor demo nacional de 2010. Está já em gravação o próximo, que deve aparecer em 2013. A formação atual reúne os guitarristas Daniela Gumiero e Diego ‘Munk’ Oliveira, o baixista Henrique Santana, o baterista Bruno ‘Skero’ Martins e o vocalista Gilberto Junior – único desde o início do grupo. Mesmo no cenário alternativo esse tipo de som é raro no Brasil (…)

Crítica Cultural

O Que Não Queremos Sentir

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Corpo é matéria, corpo é sociedade, corpo é ideia, crítica da exposição Metrô de Superfície – Mostra I Eu escrevi:

(…) a exposição Metrô de Superfície – Mostra I reuniu 13 jovens artistas nordestinos, em um recorte sobre o corpo – desde a acepção mais simples, material mesmo, até o referencial humano, nas relações que o sujeito mantém consigo e com a sociedade. Vou me concentrar em três deles, que me atingiram de maneira particular: Marina de Botas e a mulher que se maquia com uma cega; Carlos Mêlo e arte moderna tateante e exibicionista; Rodrigo Braga, cabeça de cachorro morto grudada na cara. São esses os que mais me desestabilizaram conceitos de beleza, representação, afeto, autoconhecimento, fantasia – como se  tocassem em algum tipo de limite.

Crítica Cultural

A Ideologia do Batman de Nolan

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Batman - O Cavaleiro das Trevas RessurgePubliquei no Digestivo Cultural a crítica Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge, sobre o último filme da trilogia realizada pelo diretor Christopher Nolan sobre o personagem dos quadrinhos. A série de Nolan redefiniu o gênero de adaptações de HQ. Eu escrevi:

A obra tem qualidades. A preocupação de Nolan com o realismo é a maior delas (…). Há  problemas: lacunas de verossimilhança, ingenuidade do enredo e, principalmente, um teor ideológico intenso, que prejudicou meu envolvimento com a narrativa. Essa ideologia será criticada abaixo – não por suas teses, mas pelo modo insidioso com que é introduzida: ela faz o filme funcionar como uma longa “falácia do espantalho”, distorcendo a posição de seus oponentes até o ponto em que sejam simples de negar: o que trago, em suma, é uma leitura cultural-política de “terrorismo”, “revolução” e “liberalismo”.

Nos comentários, a coluna suscitou uma discussão interessante com leitores. Em resposta à Rafael Minari, abordei uma série de temas que ou sustentam a visão que apresentei ou o expandem.
Crítica Cultural

Vivência de Guerra

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Beleza e barbárie, ou: Flores do Oriente, sobre o filme dirigido por Zhang Yimou. Eu escrevi:

Essa obra de Yimou foi lançada em 2011 no exterior e chegou ao Brasil há pouco. O diretor produziu, entre outros, A Maldição da Flor Dourada (2006), O Clã das Adagas Voadoras (2004) e Herói (2002). O aspecto plástico das suas produções é marcante, pelo uso das cores e apuro quanto a figurino e cenário. Embora pese a mão no melodrama em alguns trechos, o filme em geral lida bem com seu ritmo, variando entre tenso, contemplativo e brusco – as múltiplas dimensões do que seja a vivência de guerra, de uma maneira semelhante a que lemos, por exemplo, no livro Inverno da Guerra, de Joel Silveira. Esse é o filme mais caro da história do cinema chinês e traz Christian Bale (de Batman) como o agente funerário.

Crítica Cultural

Joe, o Bárbaro, de Grant Morrison

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica O Menino que Morre, ou: Joe, o Bárbaro, sobre a HQ com roteiro de Grant Morrison e arte de Sean Murphy. Eu escrevi:

Joe é o menino que morre. É o que diz a profecia. Na etapa final de sua jornada, o veremos frente a frente com a representação da morte, um soldado cabeça-de-caveira sentado em um trono, atrás dele uma bandeira dos Estados Unidos alterada, de cores sombrias: o vermelho e branco das listras trocados por azul e preto, as estrelas pretas em fundo vermelho. O local do encontro é um campo de batalha: ali e além se confrontam os exércitos da escuridão e da luz. Centenas de portas flutuam acima da batalha final entre as partes; portas talvez a outro mundo, ao mundo real de Joe, em que sofre uma crise de hipoglicemia e se arrasta pela sua própria casa em semiconsciência, vivendo uma alucinação e se aproximando de uma morte apenas trivial. Joe é um adolescente banal, com problemas na saúde, na família, na escola.

Crítica Cultural

Frente à Mudança

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O-Artista

Publiquei no Digestivo Cultural a crítica O Artista, sobre o vencedor do Oscar de melhor filme, diretor e ator em 2012. Eu escrevi:

O Artista, filme do francês Michel Hazanavicius, possui personagens cativantes, beleza visual e uma história leve e divertida. Não só, chama de imediato a atenção pelo uso de uma forma antiga, a do cinema do início do século XX e antes. Em preto e branco, mudo (ou quase), com falas escritas na tela e trilha orquestrada, essa produção retoma esses recursos não por fetiche, mas como modo de reforçar a narração. O diretor brinca com o que esperaria um espectador de hoje, põe nossa percepção para funcionar de outra maneira e nos dá a chance de nos identificarmos com seu tema central, isto é, tempo e identidade – ou, mais precisamente, como lidamos com a mudança.

Crítica Cultural

Corpo e Modo de Ser

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Alias_Sideways

Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Sideways Rain: Pausa, Choque, Fluxo e Corpo, sobre o espetáculo de dança encenado pelo grupo suíço Alias. Eu escrevi:

Braços e pernas tesos e alongados, surge no canto o primeiro bailarino, similar a um animal pesado e vagaroso, quiçá ancestral. O fluxo irrompe insuspeito e não terá fim: os dançarinos sucessivamente atravessarão o palco de um lado a outro, como que em “corredores” diferentes, divisões abstratas do espaço cênico. A coreografia Sideways Rain, do grupo suíço de dança contemporânea Alias, tem um caráter hipnótico e só é interpretada de modo oblíquo, isto é, não diretamente, mas sentindo o sentido aos poucos. De que é que se trata? Do aleatório histórico que nos levou de bicho à gente? Da escassez de contato humano no cotidiano? Do choque como oportunidade de vida?