Ciência da Informação

O Ponto de Vista Cognitivo sobre a Informação

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[adaptado da seção 1.4 da dissertação de mestrado A Criatividade do Excesso: Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga da Informaçãodisponível aqui]

As abordagens do conceito de informação discutidas nos posts anteriores são posicionadas por Peter IngwersenJärvelin Kalervo, no livro The Turn: Integration of Information Seeking and Retrieval in Context (2005, p. 25-26), em diversos estágios do processamento de informação. Extraído das pesquisas de Marc de Mey, esse pensamento postula os níveis monádico (em que unidades de informação são consideradas individualmente, como autônomas); estrutural (em que aquelas unidades são organizadas em entidades mais complexas); contextual (em que as estruturas são elementos dentro de um contexto, e, para que se possa extrair significados delas com precisão e sem ambiguidade, é necessário extrair informação desse contexto); cognitivo ou epistêmico (em que a informação complementa um sistema conceitual de conhecimento do mundo, seja de um indivíduo ou de uma máquina). Ingwersen diz que “os estágios 1-3 correspondem aos níveis morfo-léxico, sintático e semântico do entendimento da linguagem”. É apenas no quarto nível, “correspondente, em linguística, ao processamento pragmático”, que se encontra propriamente a informação, derivada ou da visão de mundo do indivíduo ou da mensagem.

A partir do que estabelece o autor, podemos fazer outras relações com o que vimos discutindo. O âmbito monádico recobre tanto o objeto da Teoria Matemática da Informação e a “informação de sinal” definida por Lyons, cuja “informação semântica” é abrangida pelo contextual (ambas tratadas em “Aspectos Semânticos da Informação“).

O quarto nível, cognitivo ou epistêmico, é o objeto do ponto de vista cognitivo. A perspectiva se caracteriza, como está dado na definição desse nível, por entender o processo informacional como a interação mediada por “sistemas conceituais de conhecimento de mundo”, ou estruturas de conhecimento, ou estados de conhecimento. Vejamos o modelo de Ingwersen e Kalervo:

Fonte: Produzido pelo autor com base em INGWERSEN; KALERVO, 2005, p. 33

De acordo com a figura, o indivíduo A, a partir de um “modelo de mundo”, gera um conteúdo informacional. Nesse processo de criação, esse conteúdo perde contexto ( “cognitive free fall”, traduzido como “queda livre cognitiva”) e foge, em alguma medida, do controle do emissor. Transmitido por meio da linguagem, chega ao indivíduo B, pelo qual é interpretado dentro de outro contexto, o que pode acarretar leituras não previstas no momento da emissão. O conteúdo linguístico é interpretado e modifica o estado de conhecimento do receptor. Perceba-se como até esse último momento o intercâmbio esteve no âmbito dos níveis monádico, estrutural e contextual; a partir daí, trata-se do nível cognitivo ou epistêmico. Tendo alterado as estruturas cognitivas do receptor, a mensagem pode ser causa de dúvida ou confusão, produzindo um estado de incerteza e um espaço-problema, que implica na necessidade de informação e em uma nova troca comunicativa.

Vejamos com mais atenção algumas ideias representadas na figura. Ingwersen, em Information Retrieval Interaction, (1992, p. 16) define “modelo de mundo”,

[…] também chamado de ‘conhecimento de mundo’, ‘schemata’ ou ‘imagem’, consiste em estruturas de pensamento, ou estruturas cognitivas, que são ‘determinadas pelo indivíduo e por suas experiências sociais e coletivas, educação etc’. As conexões e influências entre o conhecimento individual, social e organizacional, seus objetivos e propósitos, preferências assim como expectativas e experiências são assim refletidas neste ponto de vista cognitivista da ciência da informação e da recuperação da informação.

Assim, o estado de conhecimento que medeia o contato do indivíduo com os dados externos e é, por sua vez, resultado de relações anteriores do mesmo tipo. Vale ressaltar novamente que, em tal contexto, ainda segundo Ingwersen (1992, p. 31-32), informação é aquilo que transforma as estruturas cognitivas. Nesse texto também, o autor expõe outra representação da situação desse indivíduo em processo de absorção de informação — a “equação fundamental para ciência da informação”, criada por Bertram C. Brookes: K(S) + δI = K(S + δS), isto é, estado de conhecimento K(S) sofre a adição da informação δI e resulta em novo estado de conhecimento K(S + δS).  Ingwersen amplia o modelo, propondo pI → δI + K(S) → K(S + δS) → pI’: o sujeito percebe o potencial de informação pI que, mediado pelo seu estado de conhecimento implica em um novo estado de conhecimento que, enfim, pode produzir nova informação potencial pI’.

O quadro teórico do ponto de vista cognitivo permite também definir o desejo por informação. Ingwersen (1992, p. 28) diz: “Com Wersig e Machlup nós temos um profundo entendimento das razões do desejo por informação, os eventuais efeitos sobre o estado de conhecimento do recipiente”. Em outras palavras, por essa via podemos analisar o que move os indivíduos na busca por informação, isto é, temos para pensar a necessidade de informação.

Como visto na explicação da figura, essa necessidade está vinculada à incerteza. Uma origem desse elemento no modelo de Ingwersen é o conceito de estado anômalo de conhecimento, que foi desenvolvido por Nicholas Belkin. Trata-se de um estado de percepção da anomalia — isto é, da dúvida, da incerteza, da suspeita da inadequação. Em “Anomalous states of knowledge as a basis for Information Retrieval” (1980, p. 136), Belkin destaca que o seu conceito sintetiza preceitos anteriores: os quatro “níveis de questão” de Taylor, dos quais Belkin cita os dois primeiros, por serem análogos ao conceito de estado anômalo de conhecimento: necessidade visceral de informação, não-expressa ou inexprimível; e necessidade de informação consciente, subjetiva, parcamente definida e ambígua; as ideias de problema e necessidade em Kochen, segundo ele equivalentes aos dois estágios apresentados de Taylor; e o vínculo que Wersig estabelece entre necessidade de informação e uma situação problemática, uma insuficiência no modelo que o indivíduo faz do mundo. Como se percebe, em todos esses conceitos que seriam retrabalhados no estado anômalo de conhecimento, existe uma ligação forte entre o reconhecimento da ignorância e a necessidade de informação. O estado anômalo de conhecimento é, assim, um estado tenso que estimula a própria dissolução.

Em torno desta conceituação, Belkin propõe este modelo:

Fonte: Produzido pelo autor com base em BELKIN, 1980, p. 43

No lado direito do quadro, o usuário possui uma imagem de mundo que forma o seu estado de conhecimento. A percepção da necessidade de informação o coloca em um estado anômalo de conhecimento, que leva ao requerimento feito ao sistema de recuperação de informação. O requerimento é entregue ao sistema através de mediações linguísticas e pragmáticas. No lado esquerdo, o criador do documento também carrega uma imagem de mundo, que também forma um estado de conhecimento. Este por sua vez é emitido como informação e consolidado em um texto, que é disseminado também através de mediações linguísticas e pragmáticas. A partir dos resultados recuperados, o usuário avalia o sistema e reavalia a sua condição.

O ponto de vista cognitivo, nos primeiros momentos do seu desenvolvimento, não dava ênfase aos condicionantes sociais e culturais dos processos informacionais. Porém, movimentando-se rumo ao que se denomina sociocognitivismo, essa “deficiência” foi reparada. A importância de lidar com os aspectos socioculturais já foi abordada, quando nos referimos ao Teoría General de la Información (1997), de Gonzalo Abril, e à problemática da semântica no campo da informação. Na próxima seção, aprofundamos outras conceituações que deem atenção a esses âmbitos da cultura e da sociedade.

Referências Bibliográficas

ABRIL, Gonzalo. Teoría general de la información: Datos, Relatos y Ritos. Madrid, Cátedra, 1997.

BELKIN, Nicholas. Anomalous states of knowledge as a basis for Information Retrieval. Canadian Journal of Information and Library Sciences, n. 5, 133-143. University of Toronto Press, 1980.

INGWERSEN, Peter. Information Retrieval Interaction. Los Angeles: Taylor Graham Publishing, 1992.

INGWERSEN, Peter; KALERVO, Järvelin. The Turn: Integration of Information Seeking and Retrieval in Context. Springer, 2005.

Metajornalismo

O Grande Desafio para o Jornalismo nas Eleições 2018

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Em sua coluna “Como Resistir em Tempos Brutos“, Eliane Brum apresentou alguns problemas com que o jornalismo terá de lidar no futuro breve:

Como se comportará a parcela da imprensa que apostou numa saída de centro (e não levou) deverá ser observado de muito perto neste segundo turno. Este também será o grande desafio para o jornalismo ou se fortalecer, mostrando o quanto é insubstituível numa democracia, ou então descer pelo ralo da irrelevância como nunca antes. Se a pauta jornalística servir para rearranjar os projetos de poder das empresas de mídia, acabou. Ainda falta uma autocrítica profunda de parte da imprensa sobre o seu papel no impeachment e já vem outro desafio muito mais intrincado. Vamos torcer para que a maior parte da imprensa se mostre à altura, porque o Brasil precisa muito de jornalismo sério.

Metajornalismo

Greve de Correspondentes e Freelancers na RFI

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O jornal Orange noticiou nesta segunda uma greve de correspondentes e freelances da Rádio França Internacional (RFI). Vários programas sofreram interrupções por efeito do protesto (veja também no Jornal do Brasil).

Chamando a si mesmos de Radio Spartacus, os grevistas denunciaram a perda de seguridade social causada pela empresa, que deixou de contribuir, no que se refere a esses trabalhadores, com sistemas de proteção social.

Após uma declaração da empresa tendo em vista negociações, considerada positiva, os jornalistas declararam:

Numerosas incertezas permanecem. Quais garantias concretas para a seguridade social e a aposentadoria dos correspondentes? Na declaração de decisões da direção, nenhum montante preciso é indicado. (…)

Devemos cobrir eventos em zonas de conflito sem ter nossa saúde assegurada?

Segundo o Orange, a RFI tem 800 correspondentes nos cinco continentes. A direção da rádio deve se reunir com os grevistas outra vez nesta semana.

Filosofia

A História Não se Completa

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No artigo “‘Revolução’“, o filósofo Vladimir Safatle destaca um elemento significativo na nossa relação com a história:

Os embates históricos têm a característica de nunca terminarem completamente, de ressoarem como matriz de compreensão das lutas presentes. Por isso, quando levarmos hoje nossas crianças para desfiles, seria bom nos perguntarmos o seguinte: o que estamos mesmo comemorando?

O que ocorreu é reinterpretado nos termos do presente, e usado para objetivos do presente. Sendo assim, recuperar um dado histórico nunca se trata só de relatar um fato — significa reenquadrá-lo em certo ponto de vista e colori-lo com novos propósitos.

Estudos

Foucault e o Pensamento Sobre Si

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Na História da Sexualidade — O Uso dos Prazeres, p. 14, Michel Foucault diz:

Mas o que é filosofar hoje em dia — quero dizer, a atividade filosófica — senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” — que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação — é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma “ascese” um exercício de si, no pensamento.

Filosofia

O Erotismo de Nuno Ramos

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No conto/ensaio “Epifania, provas, erotismo, corpo-sim, corpo-não”, parte de Ó, livro do Nuno Ramos, se manifesta em relação ao erotismo um dos simbolismos que o filósofo Gaston Bachelard identifica em A Psicanálise do Fogo. Em ambos, o nosso conhecimento sobre esse elemental tem um precedente no saber sobre o nosso físico. No primeiro, lemos:

O encaixe lubrificado dos órgãos sexuais parece ser o centro de um labirinto em que nada é alheio a nada, em que a toda curva corresponde uma outra, em que uma regência minuciosa e universal de cada detalhe nos surpreende enquanto gememos. Gememos porque experimentamos em nossa própria pele o mecanismo sutil que dá forma ao fogo, costurando sua crista ao líquido e ao gelo, que esfarela a pétala para cobri-la de escamas, que faz do pé uma sandália, dos olhos uma pálpebra, como se estojos poliédricos agasalhassem cristais incongruentes (nossas lágrimas, por exemplo).  [p. 116]

Nuno Ramos se refere ao “mecanismo sutil que dá forma ao fogo”, presente “na nossa própria pele”. E é nessa identificação entre corpo e comburente que Bachelard encontra nosso entendimento ancestral do que é o fogo:

In the first place it must be recognized that rubbing is a highly sexualized experience. Merely by glancing through the psychological documents amassed by classical psychoanalysis one will have no difficulty in convincing oneself of this fact. Secondly, one need only make a systematic study of the items of information gained by a special psychoanalysis of the impressions pertaining to heat, to be convinced that the objective attempt to produce fire by rubbing is suggested by entirely intimate experiences. In any case, it is in this direction that the circuit between the phenomenon of fire and its reproduction is the shortest. The love act is the first scientific hypothesis about the objective reproduction of fire. Prometheus is a vigorous lover rather than an intelligent philosopher, and the vengeance of the gods is the vengeance of the jealous husband. [p. 13-14]

Nesse momento de A Psicanálise do Fogo, Bachelard investiga qual a relação de um homem primitivo ideal em relação ao fogo, desde os desencadeados pelo acaso até os criados por esses humanos. Como lhes teria ocorrido a ideia de produzir o que lhes pareceria tão transcendente e irregular? A ideia, para o filósofo, surgiria dessa relação que temos com nossa carne: com a fricção, com o gesto repetido, geramos calor em nós mesmos. É assim que “o ato de amor é a primeira hipótese científica no que se refere à reprodução do fogo”, é assim que Prometeu, em vez de ladrão astuto, é um “amante vigoroso” — pois se transfere isso que aprendemos no prazer à manipulação da natureza.

Ciência da Informação

Aspectos Semânticos da Informação

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[adaptado da seção 1.3 da dissertação de mestrado A Criatividade do Excesso: Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga da Informaçãodisponível aqui]

As ampliações do modelo de Claude Shannon feitas pelos linguistas partem da compreensão, por parte dos autores dessa área, de que a Teoria da Informação era insuficiente quando aplicada a outros domínios. Diana Luz Pessoa de Barros, em “A Comunicação Humana“, diz que o modelo simplifica excessivamente a comunicação verbal e dispõe uma caracterização linear, que só recobre o envio de uma sequência de sinais. Ainda mais, denuncia-se a incompetência da teoria no que se refere a aspectos socioculturais e semânticos das trocas informacionais (tais aspectos, como vimos, não eram do seu interesse). Essas limitações são delineadas com precisão também por Gonzalo Abril, no seu Teoría General de la Información (1997):

Ao se apoiar na confortável evidência de dois atores comunicativos, o emissor e o receptor, com uma repartição de papéis perfeitamente simétricos, as metodologias empiristas contornam as múltiplas instâncias de mediação que intervêm nos processos comunicativos da sociedade humana. Deixar de lado essas instâncias pode ser supérfluo para a engenharia, mas não o é para as ciências sociais: a dimensão simbólica da interação, as instituições, e, entre elas, a própria linguagem (espaço em que as relações sociais se autoconstituem e se expressam), a heterogeneidade interna dos sujeitos e da cultura… são problemas que põem em dúvida a possibilidade objetivar de forma válida a comunicação social em termos de uma sequência E->M->R.

Comparemos as declarações de Abril nesse trecho com as afirmações de outro autor, Kevin McGarry. Para Abril, como vimos, a linguagem é o “espaço em que as relações sociais se autoconstituem e se expressam” — a sociedade se constitui e se expressa dentro da linguagem. Na mesma direção, McGarry, em O Contexto Dinâmico da Informação (1999), afirma: “Pode-se argumentar que as civilizações são feitas de palavras, que mesmo o universo não-verbal — montanhas, pontes, rios — só existe por causa do que podemos afirmar a seu respeito”. Ainda mais, para Mcgarry, “a linguagem é o veículo fundamental da comunicação humana”. Os limites da Teoria da Informação de Shannon são encontrados, ressaltamos, na incapacidade de lidar com o que próprio da linguagem.

Abril se refere à “heterogeneidade interna dos sujeitos e da cultura”. Com McGarry, podemos entender que a linguagem absorve, fundamenta e articula essas heterogeneidades. Segundo ele, a linguagem é caracterizada por refletir as personalidades individuais e os valores culturais, por possibilitar a criação e a continuidade das sociedades humanas e suas culturas, por determinar a percepção da realidade e ordenar a memória. Constitui-se como “rede de relações” como um “sistema de signos e símbolos” usados para “evocar significado”. Frente a essa complexidade, é notório como a proposta E->M->R pode ser “simplista”. O esquema foi ampliado por vários autores, notadamente Roman Jakobson (1896-1982):

Fonte: Elaborado pelo autor

Como se vê, o que é emitido pelo remetente passa por uma série de mediações: a mensagem é ligada a um contexto, esse envio é codificado e se transmite por meio de um canal. A qualidade de cada um desses condicionantes constitui o processo comunicativo (poderíamos partir disso e chegar, por exemplo, aos estudos de Marshall McLuhan (1911-1980), que entende no meio já a mensagem, no sentido de que a forma implica conteúdo. Esse autor também diz que “o meio é a massagem”, denotando que a mídia conforma a recepção e condiciona o receptor).

Outras transformações do esquema E->M->R — as de Bertil Malmberg (1889-1958) e Ignácio Assis Silva — podem ser vistas em Barros (2002, p. 28-30). Não trataremos aqui da evolução do estudo comunicacional; vamos nos ater no que se refere ao conceito de informação.

Nesse sentido, John Lyons, em Semântica (1977), distingue entre informação de sinal e informação semântica: “A distinção entre estes dois sentidos de ‘informação’ […] tem a ver com a diferença entre identificar um sinal (como si em vez de sj) e interpretá-lo em termos da mensagem (pi ou pj) que ele codifica”. Expliquemos com uma paráfrase dos exemplos do autor: as palavras “bolo” e “lobo”, distinguimos pela percepção dos sinais L e B, seja de forma acústica ou escrita. Outra coisa é nos referirmos ao lado semântico dessas palavras, ao seu significado no interior de uma cultura — aspecto que Shannon deliberadamente não aborda. A teoria da informação lida com a informação de sinal, não com a informação semântica.

Nos enunciados linguísticos, esses dois tipos de informação interagem de modo complexo. Os sujeitos interpretam os sinais sonoros e as mensagens de forma contextual e baseados nas suas experiências anteriores. No exemplo anterior, usamos a palavra “lobo” — lembremos, então, da fábula “Pedro e o lobo”, em que a mesma palavra, o mesmo grito de perigo, incorpora duas mensagens diferentes pela mudança de circunstância (no primeiro caso, é vista como alerta real, embora falsa; no segundo, embora real, como embuste). Ainda mais, as mesmas formulações se entendem de formas variadas de acordo com o referente — “lobo” pode tanto se referir ao animal quanto a partes do corpo (lobo da orelha, do cérebro); “bolo” pode ser tanto o alimento quanto ter sido deixado esperando (“me deu um bolo”). O que se transmite na comunicação humana não se reduz ao mero deslocamento de sinais no espaço.

Uma teoria da informação semântica foi desenvolvida por Yehoshua Bar-Hillel (1915-1975) e Rudolf Carnap (1891-1970). Lyons (1977, p. 46-49) a expõe. De acordo com ele, Carnap e Bar-Hillel mobilizam dois elementos básicos: “uma descrição de estado […] um conjunto completo de proposições que descrevem um estado de coisas possível” e “o conteúdo semântico de uma proposição […] o conjunto de descrições de estado que ela elimina”. Destarte, temos de um lado um conjunto de enunciados a respeito da realidade que interage com proposições singulares que o confirmam, que o negam, que o alteram. Por exemplo, à questão “está chovendo?” (indicativa de um estado de conhecimentos mínimo sobre o clima), pode se responder com as proposições “está chovendo” ou “não está chovendo”, alterando aquela descrição de estado. Supondo que a mensagem tenha sido “está chovendo”, se novamente essa mensagem é passada, ela possui uma carga informacional menor, não altera o conhecimento dado, pois essa proposição em particular já faz parte do repertório do interlocutor. A quantidade de informação veiculada, afirma Lyons com base em Bar-Hillel e Carnap, é dada pela probabilidade da mensagem:

A ideia básica é que a informação semântica, tal como a informação de sinal, é equivalente à eliminação da incerteza. A diferença entre os dois tipos de informação pode ser expressa afirmando que uma elimina a incerteza quanto ao que o sinal é, e a outra a incerteza quanto ao que a mensagem é. Em ambos os casos, contudo, haverá o mesmo tipo de relação inversa entre probabilidade e conteúdo de informação; quando maior for a probabilidade estatística de um determinado sinal, tanto mais pequeno será o seu conteúdo de informação de sinal; quanto maior for a probabilidade lógica de uma proposição (transmitida ou não como uma mensagem), tanto mais pequeno será o seu conteúdo de informação semântica.

Lyons fala ainda sobre a informação semântica se dividir em três tipos, de acordo com a função exercida pela linguagem: descritiva (factual, o sentido mais prosaico de “informação”), social (ligada à construção de relações sociais, por exemplo, com o uso da função fática da linguagem) e expressiva (ditada pelas emoções e personalidade de quem fala). É à primeira que se referem as discussões anteriores dessa série de postagens, é ela que pode ser quantificada.

Referências Bibliográficas

ABRIL, Gonzalo. Teoría general de la información: Datos, Relatos y Ritos. Madrid, Cátedra, 1997.

BARROS, Diana Luz Pessoa de. A comunicação humana. In: Introdução à linguística: I. Objetos teóricos. Org. José Luiz Fiorin. São Paulo: Contexto, 2002.

MCGARRY, Kevin. O Contexto Dinâmico da Informação. Brasília, DF: Briquet de Livros, 1999.

LYONS, John. Comunicação e Informação. In: Semântica, vol. 1. São Paulo: Editorial Presença/Martins Fontes, 1977.

 

Estudos

Curso Narrativas Descolonizadas, com Djamila Ribeiro, no Masp

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Em março e abril, cursei “Narrativas Descolonizadas”, no Masp, com a filósofa Djamila Ribeiro. Com referência a autores do pensamento decolonial e antirrascista, o curso fez um percurso pelos conceitos de lugar de fala, interseccionalidade e empoderamento, os quais pautam alguns dos ativismos e contra-ativismos mais frequentes na internet e fora dela hoje. Seguem alguns resumos/comentários com base nas minhas notas de aula:

Quem foi construído para poder falar e quem foi construído para que se fale de si em seu lugar? Isto é, quem está em posição de descrever, definir, representar indivíduos ou grupos e quais indivíduos ou grupos são determinados a ser menos sujeito do que objeto da razão e da experiência. Os negros, os povos ameríndios, as populações que sofreram colonizações ao redor do mundo – todos esses menos falam e mais são falados. É contra essa situação que age quem luta por representatividade e ressalta a irredutibilidade dos lugares de fala (condições de história de vida que possibilitam perspectivas, assim como sensos de urgência e consequência, únicos). Djamila ressaltou, não obstante, “lugar de fala não é uma postura essencialista. Trata de local social. É perfeitamente possível que uma pessoa branca reflita sobre racismo”, com o aviso que “a empatia é uma construção intelectual: demanda um trabalho, um processo”.

Matar a cultura é matar um povo. Djamila lembra que, em Abdias Nascimento, há a percepção de que “a destruição da cultura de um povo é também genocídio”. Veja mais sobre Abdias na publicação que editei sobre esse ativista, escritor, pintor, dramaturgo:

Não existem outras geografias da razão? Na esteira do diagnóstico anterior, se coloca a necessidade de trazer à tona não só as histórias de vida dos subalternos, mas também o seu trabalho intelectual. Ações nesse sentido são feitos por exemplo pela página Preta e Acadêmica ou por um livro como o Pensar Nagô, de Muniz Sodré, que contra-ataca o eurocentrismo da história da filosofia e ressalta a especificidade da experiência africana – ética, religiosa e filosófica também. No mesmo sentido está o trabalho de uma Grada Kilomba, que permite reler Simone de Beauvoir – na medida em que Beauvoir traz que a mulher não é vista de forma substancial, mas é o outro do homem, Kilomba exibe que “a mulher negra é o outro do outro”, duplamente despojada de ser.

Interseccionalidade: conceito, ferramenta heurística ou teoria, ou seja, tal termo pode ser visto pela sua operacionalidade, o que permite realizar; pelo seu potencial inovador, o que por meio dele se descortina; ou pelos seus recursos explicativos, aquilo que, na realidade, se faz mais claro quando se recorre a ele. Djamila mostra que essa ideia está presente em falas que precedem a invenção da palavra: já em Sojouner Truth, no século XIX, quando ela questiona “E não sou uma mulher?”, expondo como a pele negra marca sua distância do feminino branco; e aparece em autoras como Audre Lorde e bell hooks. De todo modo, foi a advogada Kimberlé Crenshaw que o cunhou. O fundamental que se extrai dele é que devemos pensar como raça, gênero e classe interagem para produzir situações específicas de opressão. Referência, esta palestra de Crenshaw:

 

Opressão. Usei no parágrafo anterior. Sobre o conceito, uma distinção: “O sofrimento é uma característica humana; a opressão é um dado social”.

Esquerda identitária versus esquerda materialista. Djamila notou que, seguindo Achille Mbembe, Rodney Williams fala da “percepção econômica da questão racial”, denotando que os escravos eram considerados mercadoria. Penso que tal análise transtorna a visão de que essa esquerda é de pauta estritamente identitária, sem consideração econômica; pelo contrário, o negro sente no corpo o processo descrito no início de O Capital.

Com a invenção do negro, você tem a invenção do branco. Se a empatia precisa de um aprendizado, não se dá naturalmente, e se hoje a tarefa é fazer com que vozes que antes não puderem falar falem, qual será o papel de quem participa de situações de privilégio nesse campo? Uma necessidade é explorar os sentidos das suas condições únicas, o seu lugar de fala. O que significa ser branco? (nessa via, obras como as de Lia Schumann ou de Lourenço Cardoso). Esse tipo de pergunta, que abala a definição de si como universal, pode ser discutido também quanto ao que significa ser homem, por exemplo.

Empoderamento. Interessante que o conceito foi remontado ao pedagogo Paulo Freire, à sua teoria da conscientização (terei de pesquisar sobre ela; fora isso, parece que existe, paralela, uma origem empresarial para o termo, mas isso não foi referido). Djamila fala que empoderar não significa uma evangelização, algo que seria transmitido de alguém superior a alguém inferior, mas a criação de condições para que os sujeitos possam agir de forma mais livre e mais autônoma. É provisão de recursos, estabelecimento de uma situação em que uma pessoa se emancipa por ela mesma. (Uma discussão paralela foi a de como atuar em espaços opressivos – nesses casos, é preciso criar ou buscar espaços de apoio, ainda mais, levar em conta quem lutou antes, os legados).

Mais Paulo Freire. Também achei digno de nota que Audre Lorde tenha dito “é preciso matar o opressor em nós”, tão próxima do “o oprimido engendra o opressor”, de Freire.

Algumas coisas que salvei para ver depois:

Recusando-se a ser uma vítima”, bell hooks
Os usos da raiva: mulheres respondendo ao racismo”, Audre Lorde
O site Ideias Negras — uma das autoras, Cris Fernandes, divulgou o site no curso.

Ciência da Informação

A Teoria Matemática da Informação

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[adaptado da seção 1.2 da dissertação de mestrado A Criatividade do Excesso: Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga da Informaçãodisponível aqui]

Segundo Robert K. Logan, em Que é informação? (2012), “a noção de informação como algo que pode ser armazenado em, transferido ou comunicado a um objeto inanimado e a noção de informação como uma quantidade definida matematicamente não surgem antes do século XX”. O autor aponta que o Oxford English Dictionary registra em 1937 e 1944 utilizações de “informação” como algo que se transporta ou transmite. Já “a primeira instância de matematicização da informação” data de 1925, em um artigo “Theory of Statistical Estimation”, do estatístico e biólogo Ronald Fischer.

Um segundo caso dessa acepção é de 1928: “Transmission of Information”, do pesquisador em eletrônica Ralph Hartley. Para Logan, tais trabalhos “prenunciam o conceito de informação” de Shannon, que foi apresentado no artigo “A Mathematical Theory of Communication”, de 1948.

No que segue, exporemos essa última teoria, com base em Teoria General de la Informacíon, de Gonzalo Abril (1997). O trabalho de Shannon se inscreve na engenharia da comunicação — tem em vista problemas técnicos da transmissão e do recebimento de mensagens. É com esse intuito que desenvolve a noção de informação. Dessa forma, não interessa à sua teoria o âmbito dos significados das mensagens — enfoca-se só os processos comunicacionais. Em um sistema, interagem um emissor e um receptor; o emissor seleciona, a partir de um repertório, o conteúdo a percorrer o canal de comunicação e chegar ao receptor. Nesse contexto, informação é medida da probabilidade da mensagem, do seu grau de surpresa ou novidade para o receptor. O receptor pode basear suas expectativas em uma memória do diálogo atual e em comunicações anteriores. Essa troca esquematizada por Shannon segundo a figura a seguir:

Fonte: Elaborado pelo autor

A fonte de informação passa a mensagem ao transmissor, que a codifica e envia; do outro lado do canal de comunicação, a mensagem é decodificada e chega ao seu destino. Esse intercâmbio é suscetível a ruído, isto é, a interferências que prejudiquem a qualidade da mensagem. Por esse potencial de distorção, se destaca outro conceito, o de redundância, definida por Abril como “uma repetição que tende a tornar inteligível, ou mais facilmente inteligível, uma mensagem”. Uma fonte de informação possui uma capacidade máxima de transmissão, em que todos os sinais enviados são informativos, ou seja, igualmente prováveis, igualmente potentes no que se refere à surpresa, à novidade; a ocorrência de distorções durante a transmissão, porém, seria irreparável nessas condições, já que todo sinal perdido significaria a perda de informação. A redundância, pela reafirmação dos dados, contrapõe-se aos problemas decorrentes do ruído.

Outro conceito importante da teoria matemática da informação é o de entropia, segundo Abril,

[…] uma noção que provém da mecânica estatística, mais concretamente, das teorias da termodinâmica de Carnot, Clausius e Boltzman. Refere-se a uma medida do grau de desordem que se dá na combinação de elementos díspares dentro de um sistema fechado. Segundo o teorema de Carnot, a entropia é uma função sempre crescente na natureza. O aumento de entropia de um sistema supõe a passagem de um estado menos provável a um mais provável. […]

Como é medida da desordem, a entropia é medida da improbabilidade de uma configuração: quanto mais desordenado é um sistema, tanto menos previsível será.

Esses raciocínios desenvolvidos na física foram transpostos à teoria matemática da informação de Shannon. A entropia mede a improbabilidade de uma combinação assim como, a informação, a probabilidade de uma mensagem; assim, entende-se informação como entropia negativa ou neguentropia. Dito de outra forma, a entropia designa uma tendência à desorganização ao passo que a informação é a cifra de um processo de organização.

A teoria da informação de Shannon teve grande alcance, tendo sido adaptada para diversas áreas além daquela de sua utilização inicial. Abril adverte que

A representação feita pela TI do processo comunicativo foi extrapolada rapidamente como modelo teórico da comunicação universalmente válido. A indefectível polissemia da própria noção de “comunicação” colaborou para a sua extensão a domínios múltiplos e heterogêneos. Este êxito teórico-científico entre as humanidades e as disciplinas sociológicas excedia em muito o propósito para o qual havia sido concebida a TI. Também é certo que o modelo comunicativo ‘E->M->R’ atribuído a Shannon e as definições conceituais implicadas nele (emissor, mensagem, receptor, canal, código, etc.) perderam, ao se popularizarem, seus perfis físicos-matemáticos originais e se converteram às vezes em caricaturas mais ou menos intuitivas ou em noções-coringas [clichês, termos de significado diluído].

O autor reconhece, todavia, desenvolvimentos significativos na linguística, na sociologia e nos estudos das comunicações de massa.

Referências Bibliográficas

ABRIL, Gonzalo. Teoría general de la información: Datos, Relatos y Ritos. Madrid, Cátedra, 1997.

LOGAN, Robert K. Que é informação? A propagação da organização na biosfera, na simbolosfera, na tecnosfera e na econosfera. Trad. Adriana Braga. Rio de Janeiro: Contraponto: PUC-Rio, 2012.

 

Ciência da Informação

A Informação da Antiguidade à Idade Moderna

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[adaptado da seção 1.1 da dissertação de mestrado A Criatividade do Excesso: Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga da Informação, disponível aqui]

O filósofo Rafael Capurro, em “The Concept of Information“, remonta as origens da palavra “informação” à Antiguidade: desde antes da Era Comum, encontramos vestígios seus — o poeta romano Virgílio, por exemplo, usava os termos informatio e informo. Tendo tido uma primeira aplicação no contexto da cerâmica, as palavras estão no campo semântico de “dar forma” a algo. Ganhariam a partir desse contexto inicial uma série de usos mais abstratos: entendimentos biológicos (dizia-se que o feto era “informado” por cabeça e tronco); pedagógicos e morais (Moisés foi descrito como populi informator, pois educava e moldava o povo); epistemológicos (a impressão dos sentidos sobre a nossa cognição e a recuperação mental de representações); e ontológicos (a matéria em estado de potência vinha à atualidade pela aplicação a si de uma forma). Essas abordagens desse conceito atravessam um grande número de autores, entre os citados no texto em pauta estão Cícero, Agostinho e Tomás de Aquino, que trabalham com os materiais herdados dos filósofos Platão e Aristóteles. Ou seja, percorrem um debate que vai dos gregos clássicos à escolástica.

Os sentidos epistemológicos e pedagógicos, ainda segundo Capurro, prevalecem a partir de então, notadamente nas línguas alemã e inglesa. As correntes filosóficas da Idade Moderna que despontava abandonaram os pressupostos metafísicos das instituições medievais. Descartes é um dos sinais dessa transformação, como se lê neste trecho:

Essa transição da Idade Média para a Modernidade no uso do conceito de informação — de “dar uma forma (substancial) à matéria” para “comunicar algo a alguém” — pode ser detectada na filosofia natural de René Descartes (1596-1650), que chama ideias de “formas de pensamento” não no sentido de que são “figuradas” (“depictae”) em alguma parte do cérebro, mas “na medida em que informam o espírito que se direciona a essa parte do cérebro”.

De acordo com o historiador da mídia John Durham Peters, citado por Capurro, uma transição similar vê-se no empirismo, âmbito no qual a palavra

Informação foi prontamente mobilizada pela filosofia empirista (embora tenha tido um papel menos importante que outras palavras como impressão e ideia) porque parecia descrever as mecânicas da sensação: objetos no mundo in-formam os sentidos. […] a problemática empirista era como a mente é informada pelas sensações do mundo. A princípio, informado significava formado por; depois passou a significar receber relatos de. Conforme a sua área de ação mudou do cosmos para a consciência, o sentido do termo mudou, se deslocou das unicidades (as formas aristotélicas) para as unidades (da sensação). Informação passou a se referir menos e menos a uma ordenação ou formação interna, na medida em que o empirismo não aceitava formas intelectuais pré-existentes, para além da sensação em si. Em vez disso, informação passou a se referir ao material fragmentário, flutuante, desordenado dos sentidos.

Vemos na citação acima que “impressão” e “ideia” se tornam conceitos de maior relevância ao pensamento teórico da época; Capurro ressalta que “informação” perde nesse processo o seu caráter de alto nível, posição que só reencontraria no século XX. Essa retomada de status se dá com o desenvolvimento da teoria da informação de Claude Shannon (1940-2001).

Referências Bibliográficas

CAPURRO, Rafael. The Concept of Information. Annual Review of Information Science and Technology, v. 37, cap. 8, p. 343-411, 2003. Disponível em: http://www.capurro.de/infoconcept.html.

PETERS, J. D. (1988). Information: Notes toward a critical history. Journal of Communication Inquiry, 12, 10-24.