As Esferas do Dragão

Episódio 1 – Útero

Publicado em

O deus veio babuíno e astronauta.

Veio anunciar que a tristeza engendra a urgência da aventura. A epopeia deu-se à luz — como ervas daninhas nas frestas do asfalto — nos silêncios do meu choro. A morte do meu avô impunha partir em viagem: era mandatório encontrar as esferas do Dragão e ressuscitá-lo. Sete globos cristalinos e alaranjados, aldebarãs de oito centímetros de diâmetro esconsos em locais aleatórios nas lonjuras, identificados por cifras infantis — uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete estrelas — manifestações fragmentárias da joia Cintamani, provedora de desejos, apanágio de budas e leviatãs, força mística originária. Reunidas, invocarão o deus-réptil gigantesco, a singularidade da qual surgirá vigoroso — oitenta e uma escamas brancas de carpa, olhos vermelhos de coelho, chifres de veado cobertos de veludo, patas alvas de tigre armadas de quatro garras de águia, cabeça de camelo, pescoço de cobra, ventre de vôngole e orelhas de touro moucas. Defronte à sua pujança, minha fé ofidiófila estupefata, demandarei. Horrível e bom, concederá. Na noite estrelada haverá um abraço.

Mas, antes, babuíno e astronauta, veio, negocioso.