A Fantasia Verossímil, ou: Thor

[texto publicado originalmente no Digestivo Cultural]

Uma árvore se estende imensa pelo espaço vazio. Tronco prenhe de galáxias, ramos cintilando de estrelas, copa de nebulosas – seus contornos somente adivinhados, árvore imensa que é a própria estrutura do universo. A origem de uma imagem tão mística e poética é surpreendente: essa interpretação renovadora de um mito nórdico é apresentada durante os créditos de Thor. Trata-se de Yggdrasil, relida pelo que hoje sabemos do nosso mundo. A fantasia renasce quase aceitável, sedutora, novamente possível. Isto é, o poder da imagem está em que o irreal retoma sua familiaridade com o real. Em que eles se sobrepõem.

Quero acreditar que aí se enxerga como o fantástico é criado. Sempre como esse desnível em relação ao que já conhecemos, mas de tal forma que ambos não estejam muito distantes; que se harmonizem. Uma prova pode ser a seguinte: esse trecho, o mais significativo de Thor, tem pouquíssimo destaque. Não reforça a narrativa ou parece ter qualquer funcionalidade específica: é apenas uma ilustração paralela. Por outro lado, talvez sua elaboração tenha sido exigida pelo processo criativo. Os criadores partiriam da pergunta: como é que isso poderia ser real? Como se adequa ao que a ciência diz? A fantasia, não como arte do impossível, mas da resiliência, tratando, aqui e sempre, só de impossíveis aceitáveis.

Esse parece ser o elemento de maior força no primeiro Matrix, por exemplo: não é absurdo que todas as nossas percepções sejam enganosas; a filosofia, de Descartes a Husserl, lidou com o problema de formas variadas. Também é o núcleo de Arquivo X – o desacordo entre todas as evidências do mundo real e a existência de vida sobrenatural ou extraterrestre é desfeito com a criação de uma conspiração governamental imensa. O mesmo argumento funciona para gerar a crença em sociedades secretas e poderosíssimas, como seriam os Iluminatti ou o Clube de Bilderberg. Uma terceira possibilidade se vê nos livros de Anne Rice ou J.K. Rowling: vampiros, magos e outros seres existem; mas se esmeraram em permanecer anônimos.

A ficção de Thor também se justifica por esses dois últimos elementos. A ação subterrânea do governo acontece por meio da S.H.I.E.L.D., que prepara o lançamento de Os Vingadores (é curioso que o mesmo expediente tenha sido usado no teaser de Transformers 3). E os deuses nórdicos são destacados da fábula para caberem na nosso folclore contemporâneo.

Guilherme Montana percebe que, em Thor, os personagens parecem menos divindades do que alienígenas. Isso funciona no mesmo sentido: é pouco aceitável que existam deuses nórdicos (sabemos que só existe um deus, o cristão), mas é razoável que visitantes de outros planetas tenham sido pensados como divinos pelos selvagens que os conheceram. É o que afirma, por exemplo, a teoria dos astronautas antigos. Além da frase de um personagem (“basta jogar um raio nos humanos para que nos tratem como deuses”), também confirma essa interpretação as viagens interplanetárias do filme, idênticas às de Star Gate: um meio avançado de transporte, que faz uso de portais, túneis universais entre um ponto e outro. Plausível, claro.

Um último recurso para que o filme seja perfeitamente possível foi resumido por André Azenha, no Cinecartógrafo: “O contraste entre Asgard e a Terra não ofende a inteligência do público. Na verdade, a explicação é bem simples: lá, ciência e magia são a mesma coisa”. O argumento é: não se pode crer que existam poderes mágicos inexplicáveis, mas sim que se desenvolva uma capacidade do tipo como uma tecnologia. A magia é um ponto futuro em uma evolução técnica, assim como, em Harry Potterjá se disse que ela é o mero fruto de uma evolução genética.

Expectativas
Há um trecho curioso no texto de Montana, com um argumento muitas vezes formulado quando Thor involuntariamente esteve em um imbróglio racial. O artigo faz a seguinte distinção: “Este filme é sobre Thor, o herói escandinavo da Marvel, e não Tór, o deus da mitologia escandinava”. Como se realiza essa divisão? Onde a fronteira entre essas duas irrealidades?

O texto também afirma: “A mitologia nórdica usada no filme não é um retrato fiel, mas apenas inspirativo”. Essa mitologia, portanto, só pode ser recontada, se é para usarmos seus símbolos com propriedade. A exigência de fidelidade permite que toda variação seja descartada e que só o mito puro seja considerado como ligado à cultura original. Transpostos a cenários estranhos, os símbolos então se multiplicam, gerando versões semelhantes, mas que não se comunicam.

Assim sendo, o Odin de Deuses Americanos, de Neil Gaiman, não é o próprio – é só o Odin de Gaiman. As deidades de O Crepúsculo dos Deuses, de Wagner, são outras também. Em O Auto da CompadecidaJesus Superstar e A Paixão de Cristo, três Cristos distintos. É estranho que o texto afirme que “seria correto se houvesse manifestações contra um Oxóssi interpretado por Brad Pitt”. Ora, por que não se poderia dizer: esse é meu Oxóssi, não o do Candomblé? A decisão fica na proposta do autor? Na seriedade assumida pelo filme? No que?

São dois círculos fechados de sentido os propostos por Montana: num deles, está a mitologia; noutro, está o herói da Marvel. No primeiro dos círculos, é razoável que na origem do universo haja uma vaca primordial que cria rios de leite com suas tetas, mas não que Thor fale inglês – como o artigo argumenta. A fixação de fronteiras parece acontecer em um só lugar: no âmbito das expectativas do público. Thor jamais merecerá fé e crença, como seu sósia recebeu. Essa distinção nasce diretamente do que se pode esperar de um personagem, de um símbolo – de que partes do real ele se alimenta, em que dimensões ele pode ser tratado.

O que se vê é uma sofisticação de toda a proposição inicial: a condição de possibilidade para o fantástico, além de um diálogo entre real e irreal, é uma adequação ao espectador. A fantasia é algo que funciona apenas como um sistema restrito de coerências, dependente de um público. Se Stan Lee viu nos superheróis a mitologia contemporânea, ele não percebeu o tipo de limites a que suas criações estão submetidas: a experiência mitológica simplesmente não é possível.

Em A História sem Fim, um garoto lê um livro, se identifica mais e mais com o protagonista e de repente se vê dentro da história, sendo o único capaz de dar à princesa daquele mundo a cura do mal que a destruiria junto com seu universo: um nome. E ele será também responsável por recriar, como um deus no vazio da existência desfeita, tudo novamente. A fantasia atrai para que o leitor crie a fantasia. Pelo que somos atraídos, levando em conta Thor? Por um divino que seja menos transcendente; por uma visão de governo e ciência como insondáveis. Há de se ver ecos disso em diferentes âmbitos da sociedade.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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