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Da Pesquisa Brasileira: Matheus Arcaro, Nietzsche e o ponto de encontro entre filosofia e arte, a vida

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Este artigo compõe Da Pesquisa Brasileira, série sobre quem cria conhecimento no Brasil, publicada neste blog e na revista Úrsula.

Com a dissertação de mestrado Nietzsche: Verdade como Metáfora e Linguagem como Dissimulação, defendida no fim de junho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Matheus Arcaro realizou, ele conta, não só um projeto acadêmico, mas seguiu as linhas de uma “questão existencial”: “Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões”. Assim — como talvez não possa deixar de ser para um pesquisador que se dedica ao trabalho de Friedrich Nietzsche (1844-1900) —, sua pesquisa se efetiva como realização de si. Diz ele, “há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Em seu trabalho, Matheus estuda como, em Nietzsche, não há espaço para a separação entre verdade e mentira, na medida em que a ideia de conhecer algo como verdadeiro ou falso dependeria de termos uma relação direta com esse algo, com o objeto a que queremos atribuir esses valores. Pelo contrário, para o filósofo alemão, o que acessamos de fato é algo de nossa própria lavra: a metáfora — talvez se possa dizer, essa produção do corpo e da mente sobre aquilo que nos entregam os sentidos. Disso, toda uma problemática emerge: “Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas? Que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das suas consequências úteis e agradáveis? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo?”.

O pesquisador fala também sobre dificuldades e aprendizados na feitura do mestrado, tratando de controle de tempo e necessidade de ter consciência sobre o próprio processo. Comenta também da série de problemas pessoais que foram superados por meio da citada paixão pelo estudo e pela criação: “Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir”. Além disso, indica caminhos de pesquisa.

Veja também:
>> Onde o Coringa encontra um serial killer brasileiro, entrevista com Matheus Arcaro na Úrsula

De que modo sua pesquisa é importante para a área principal em que se inclui? A que outras áreas, mais ou menos distantes, interessa?

É uma pesquisa em filosofia contemporânea, não serve para nada (risos).

O cerne da minha dissertação é a relação entre verdade e linguagem na perspectiva do jovem Nietzsche, em seus textos entre 1869 e 1874. Nietzsche perscruta os meandros da linguagem para dizer que sua formação repousa no inconsciente e em processos fisiológicos. A percepção do sujeito em relação às coisas do mundo nunca é plena e total, ao contrário: só acontece por um processo estético. A este processo, Nietzsche chamou de metáfora. Ora, se o processo cognitivo é metafórico, não há qualquer cabimento falar em verdade e mentira. Se a raiz de todo conhecimento é um processo metafórico, a única possibilidade de conhecimento é estética.

Uma passagem do próprio Nietzsche, para ficar mais claro:

“O que é uma palavra? Um estímulo nervoso, primeiramente transporto em uma imagem! Primeira metáfora. A imagem, por sua vez, modelada em som! Segunda metáfora.”

A noção correspondentista de verdade define que verdadeiro é a adequação do intelecto (ou do discurso) ao objeto no mundo. Acontece que não há possibilidade dessas duas esferas tão distintas (sujeito e objeto) se interseccionarem plenamente. O que faz essa “ponte” é o que Nietzsche chamou de metáfora. Ou seja, o que se chama de conhecimento é, na verdade, o reconhecimento de algo que o próprio humano cunhou na natureza. Em última instância conhecer é antropomorfizar o mundo, e a dicotomia verdade/mentira se sustenta numa necessidade moral e não epistemológica.

Neste sentido minha pesquisa estabelece um diálogo direto com a arte. Aliás, Nietzsche afirma literalmente que, tanto a filosofia quanto a arte têm a mesma raiz artística. A diferença é que a primeira se esquece que é criadora e petrifica as metáforas originárias com os conceitos. O papel do filósofo-artista, de acordo com Nietzsche, então, é resgatar essa raiz artística de todo conceito, usando unicamente a vida como critério. A vida que só se justifica como fenômeno estético.

A partir da estética, faço o diálogo entre obras publicadas e inéditas. Creio que esse âmbito pode ainda ser muito explorado, sobretudo porque concentrei minha pesquisa nos anos da primeira produção nietzscheana. Na conclusão, joguei as sementes para futuras pesquisas, a partir da presença dessa questão nas obras maduras do autor. Está aí um campo vasto a ser cultivado.

No que ela poderia ser atraente para o público em geral – seja pelo todo, seja por partes, seja pelo impacto em um assunto?

É sempre interessante, sobretudo para quem não tem familiaridade com termos filosóficos, desconstruir alguns dogmas. Como ficaria quem descobrisse que verdade e mentira não são mais do que construções humanas alicerçadas pelo uso de expressões aceitas socialmente? Quem descobrisse que o ser humano não gosta propriamente da verdade, mas das consequências úteis e agradáveis que ela proporciona? Que o mentiroso nada mais é do que a pessoa pouco apta em repetir o que foi canonizado linguisticamente? Qual seria a reação do homem que se depara com a afirmação de que o conhecimento é uma projeção antropomórfica sobre as coisas do mundo? Que o intelecto e a racionalidade não têm uma finalidade elevada perante o todo da natureza? Como ficaria o homem se chegasse à conclusão de que a verdade nada mais é do que uma metáfora cristalizada? Todas essas perguntas, a meu ver, são muito instigantes para qualquer pessoa e, em certa medida, são respondidas ao longo da minha pesquisa.

Para você, em particular, por que importa? Como ela se envolve com os seus interesses profissionais, pessoais, políticos?

Minha vontade de potência, para usar uma expressão do Nietzsche, se multiplica justamente no encontro entre filosofia e arte, mais especificamente literatura. Além de pesquisador e professor em filosofia, sou escritor e, com esta pesquisa, consegui unir duas das minhas grandes paixões. Essa intersecção não é apenas um projeto acadêmico, mas uma questão existencial para mim. Lembrei de uma frase que cunhei tempos atrás: “Há um ponto em que filosofia e arte se encontram. Este ponto eu chamei de vida”.

Como foi o processo de desenvolvimento da pesquisa? Quais os entraves e quais as descobertas ao longo dele?

Foi doloroso, como todo processo criativo. Foram três anos de muitos acontecimentos: mudança de cidade, perda de emprego e dificuldades financeiras (estava sem bolsa de incentivo), divórcio, publicação de dois livros (um de contos e um de poesia) e o maior e mais maravilhoso deles, o nascimento da minha filha. Uma das descobertas ao longo desta caminhada é que, apesar dos percalços, é possível conseguir. E eu consegui, sobremaneira, movido pela paixão que explicitei na resposta anterior.

Você consegue extrair desse processo dicas para outros pesquisadores? Práticas a levar adiante, problemas que se pode prever.

O processo de produção textual não é fácil. Então, é preciso disciplina, algo que não tenho muito. Tive que me cobrar muito quanto a horários, por exemplo. Um segundo ponto é o silencio, tanto real quanto virtual. Minha atenção se dissipa facilmente. Eu vi como uma espécie de mandamento desligar celular e internet enquanto escrevia. Em relação propriamente ao método, cada pesquisador/escritor tem um que percebe mais produtivo. Eu prefiro escrever um esqueleto, um esboço e “preencher” aos poucos. É um processo lento. Depois, deixo o texto descansar uns dias e releio tudo. Reescrever, às vezes, é muito mais importante do que propriamente escrever.

O que você pretende fazer agora? Quais seus próximos passos como pesquisador?

Me fiz um autoconvite para o doutorado, ao vivo, que foi prontamente aceito pelo meu orientador Oswaldo Giacoia. Gostaria de deixar registrada aqui minha gratidão a ele, por sua generosidade ao longo de todo o processo. Giacoia está entre os maiores pesquisadores de Nietzsche no mundo e, mesmo assim, prestou-me uma atenção lapidar. Pretendo, em breve, retomar minhas aulas de alemão para, agora, pesquisar Nietzsche em sua língua materna. Talvez, eu desenhe minha tese sobre um possível diálogo entre Nietzsche e Marx.

Trecho da pesquisa

Nietzsche defende que o homem, a partir de suas disposições fisiológicas, é genuinamente um criador de metáforas. Os conceitos e a ideia de verdade nascem porque os homens se esquecem desse caráter criador da linguagem e tal esquecimento ocorre, por um lado, pela necessidade de sobrevivência e, por outro, por questões morais.

(…)

Quanto tempo o universo não passou sem a inteligência humana, sem o que hoje se nomeia de racionalidade? Se o homem é um animal racional, como afirmara Aristóteles, esse atributo não o destaca, não o eleva diante dos demais animais, pois, para o intelecto, não há “nenhuma missão ulterior que conduz para além da vida humana”. A audácia deste animal chamado homem está em medir o universo com a própria régua sem, no entanto, o discernimento de que possui uma régua. Ou, para usarmos outra metáfora, o homem olha para o espelho crendo que está olhando para o mundo.

Nietzsche afirma o caráter fugaz do conhecimento do homem: o intelecto não faz do homem um ser especial, muito menos um ser com participação na divindade. O intelecto, ao contrário do que, de modo geral, legou-nos a tradição, cumpre uma função semelhante às demais partes do corpo e está circunscrito aos limites da vida humana. Se tomarmos a natureza ou mesmo a “história universal” como parâmetro, o intelecto humano mostra-se frágil e sem finalidade. Neste sentido, novamente Nietzsche discorda de Aristóteles, para quem o anseio de conhecer é inerente ao ser humano, como se fosse um diferencial destacável do homem em relação aos demais animais. Diz o estagirita* em sua Metafísica: “Todos os homens, por natureza, desejam conhecer”. Escreve o jovem professor alemão no fragmento 19 [178]: “Sob o ponto de vista da natureza, o homem não existe para o conhecer”. O conhecimento, de acordo com Nietzsche, tem sua raiz fincada nas necessidades de sobrevivência do homem e a origem da linguagem não está relacionada ao pensamento, mas a questões inconscientes.

* Estagirita se refere à cidade onde nasceu Aristóteles, Estagira.

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Da Crítica Literária: Maya Falks

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Em 1943, Antonio Candido, um dos mais importantes críticos literários da história do país, iniciou a publicação de colunas na Folha de S.Paulo. O primeiro artigo, chamado “Ouverture“, fazia uma reflexão sobre o trabalho da crítica, e estabelecia os critérios para a futura atuação do autor naquele espaço. A partir desse texto — extraindo dele algumas perguntas —, desenvolvi uma série de entrevistas aqui no blog com críticos literários brasileiros.

Neste post, a fala é de Maya Falks, jornalista e escritora, responsável pelo blog Bibliofilia Cotidiana e autora do romance Histórias de minha morte e da coleção de poesias Poemas para ler no front, entre outros.

Acesse todos os textos publicados na série Da Crítica Literária.

O que é a crítica para você?

É observar os detalhes da obra, interpretar as mensagens para então poder retirar do conteúdo o que ele tem de melhor. De forma geral, a crítica é vista como apontamento de defeitos, mas eu trabalho com as qualidades.

No campo da crítica, qual a sua ética?

Não misturar jamais o pessoal e o profissional. Como pessoa, me sinto no direito de não simpatizar com todos autores ou me ressentir de alguma editora que tenha, porventura, reprovado algum original meu, mas, na hora da resenha, nada disso existe, meu foco é a obra e sua qualidade.

Quais imposições que se faz?

Imposição, por si só, é algo que conceitualmente já não me agrada. Gosto de ser flexível, tenho tato ao lidar com obras, autores e editores, por isso a única coisa que acaba sendo inevitável é pedir aos que me enviam livros que tenham paciência, todos os livros que atendem a linha editorial do blog serão eventualmente resenhados.

Quais os princípios de trabalho com os quais não transige?

Creio que meu maior princípio, na crítica, é não dar voz à opressão. Não trabalho com livros técnicos, porque o foco é literatura; não trabalho com livros religiosos para não abrir precedentes; não trabalho com livros eróticos, porque é um gênero que, pessoalmente, não me sinto confortável lendo; e não trabalho com infantil, porque não me sinto apta a analisar obras que mexem com a formação de leitores. Essa é a base da minha linha editorial, mas dentro da literatura com a qual trabalho, não aceito, não resenho e não divulgo obras que contenham qualquer tipo de discriminação que não seja em forma de denúncia. Livros com conteúdo racista, machista, LGBTfóbicos, entre outros, não têm espaço no meu trabalho. E nunca terão.

Qual a qualidade básica no trabalho do crítico?

Não permitir que seu gosto pessoal interfira no seu trabalho. Não gostar de um determinado gênero não me impede de analisar um livro com cuidado e apuro. Claro, aqui pode parecer um contrassenso já que disse acima que não trabalho com erótico por questão pessoal, mas uma resenha erótica obrigaria até a mudança de faixa etária do blog, então acaba sendo mesmo a exceção. Um bom exemplo que posso dar é que, pessoalmente, não sou leitora de fantasia, mas aceito obras de fantasia para resenha, porque me sinto capaz de dar esse olhar analítico que a resenha exige. Não é a leitora que resenha, é a jornalista.

Quando o crítico sabe que sua missão está cumprida?

Costumo me dar por satisfeita quando consegui abordar pelo menos os aspectos mais centrais da obra. Tem livros que exigiriam resenhas gigantescas se todos os aspectos fossem abordados, então as vezes preciso escolher o que apontar. Da mesma forma, algumas resenhas são publicadas com trechos da obra, outras sem, e isso se deve aos aspectos da obra que pretendo destacar. A satisfação acontece quando percebo que fui fundo o bastante naqueles aspectos sem, no entanto, “entregar o ouro”, afinal, a ideia é que o leitor tenha vontade de ler a obra, e não que sinta que já sabe o suficiente através da resenha. Se nos comentários surge gente dizendo que teve vontade ler o livro depois de ler a resenha, aí temos o suprassumo da missão cumprida.

O que seria um crítico sem doutrina?

Depende da doutrina. Conhecimento é fundamental, mas o “feeling” do crítico lendo a obra é mais ainda. Na minha jornada, percebo que meu histórico de leitora voraz contribuiu muito mais com as minhas análises do que o conhecimento teórico. É importante a doutrina? É. É impossível fazer crítica ou resenha sem ela? Não.

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Da Crítica Literária: Sérgio Tavares

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Em 1943, Antonio Candido, um dos mais importantes críticos literários da história do país, iniciou a publicação de colunas na Folha de S.Paulo. O primeiro artigo, chamado “Ouverture“, fazia uma reflexão sobre o trabalho da crítica, e estabelecia os critérios para a futura atuação do autor naquele espaço. A partir desse texto — extraindo dele algumas perguntas —, desenvolvi uma série de entrevistas aqui no blog com críticos literários brasileiros.

Falamos com Sérgio Tavares, jornalista e escritor, autor dos romances Queda da Própria Altura e Cavala (vencedor do Prêmio Sesc de Literatura). Mantém os blogs A Nova Crítica e Drops, extensão do anterior com abordagens mais curtas.

Acesse todos os textos publicados na série Da Crítica Literária.

O que é a crítica para você?

Gosto de pensar a crítica como um guia para apresentar e aproximar o leitor de um livro.

No campo da crítica, qual a sua ética?

Minha ética é a imparcialidade, a completa liberdade para expressar minhas impressões, independente de como serão recebidas pelo meio.

Quais imposições que se faz?

Ler com o máximo de atenção, fazer os apontamentos mais detalhados e usá-los para dar forma a um texto que seja uma mescla entre experiência subjetiva e conhecimento técnico.

Quais os princípios de trabalho com os quais não transige?

Ser coerente e justo com minhas percepções e, consequentemente, ser coerente e justo com o livro. Não tenho interesse algum em escrever crítica negativa para me autopromover. Acho cafona. Por mais brilhante que seja o texto crítico, ele nunca será maior que o livro, pelo simples fato de que não existiria se não houvesse o livro.

Qual a qualidade básica no trabalho do crítico?

Escrever sobre o livro que existe e não sobre o livro que ele gostaria que existisse.

Quando o crítico sabe que sua missão está cumprida?

Quando alguém lhe confessa que chegou até um livro por conta de seu texto.

O que seria um crítico sem doutrina?

Aquele que tem editora ou autor de estimação.

 

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Da Crítica Literária: Wilberth Salgueiro

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Em 1943, Antonio Candido, um dos mais importantes críticos literários da história do país, iniciou a publicação de colunas na Folha de S.Paulo. O primeiro artigo, chamado “Ouverture“, fazia uma reflexão sobre o trabalho da crítica, e estabelecia os critérios para a futura atuação do autor naquele espaço. A partir desse texto — extraindo dele algumas perguntas —, desenvolvi uma série de entrevistas aqui no blog com críticos literários brasileiros.

A conversa hoje é com Wilberth Salgueiro, poeta, crítico literário, pesquisador e professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Wilberth escreve no Rascunho sobre poesia e é autor de Forças & formas: aspectos da poesia brasileira contemporânea (2002), Lira à brasileira: erótica, poética, política (2014; disponível online), Prosa sobre prosa: Machado de Assis, Guimarães Rosa, Reinaldo Santos Neves e outras ficções (2013) e Poesia brasileira: violência e testemunho, humor e resistência (2018).  Poeta, lançou Anilina (1987), Digitais (1990), Personecontos (2004) e O Jogo, Micha & Outros Sonetos (2019). Além disso, lançou o infantojuvenil O que é que tinha no sótão? (2013).

Acesse todos os textos publicados na série Da Crítica Literária.

O que é a crítica para você? 

Se formos à raiz da palavra, crítica implica julgamento, valoração – que é o que menos se faz, como sabemos.

Penso que, minimamente, a crítica deve, para usar um termo e conceito adorniano, dar “primazia ao objeto”, isto é, tentar entendê-lo em sua forma, pois na forma está a história de onde veio o objeto. Tal gesto, difícil, exige um esforço para que o sujeito não faça do objeto uma mera projeção do que ele mesmo é.

Noutras palavras, a crítica não deve se impor ao objeto, mas ir fundo, compreender os valores não só estéticos, mas éticos, que lhe dão sustentação e existência.

Assim procedendo, o crítico poderá cumprir um desejo de Guimarães Rosa, para quem “a crítica literária, que deveria ser uma parte da literatura, só tem razão de ser quando aspira a complementar, a preencher, em suma, a permitir o acesso à obra”, conforme disse o mineiro na célebre entrevista a Günter Lorenz.

No campo da crítica, qual a sua ética? 

Tentar ser justo com o texto sobre o qual jogo todos os holofotes possíveis.

Tentar ser útil para o leitor que porventura terá contato com aquela minha crítica.

Tentar ser verdadeiro comigo mesmo, de modo a ficar convencido de que aquela elaboração crítica foi o máximo que pude (considerando, claro, as condições e o contexto: o tempo necessário; o formato; o público; se jornal, periódico, livro etc.).

Em síntese: justiça com o texto, utilidade para o leitor, verdade para mim.

Quais imposições que se faz? 

Estudar bastante o texto em pauta. No prefácio do precioso livro Na sala de aula, Antonio Candido diz algo aparentemente óbvio: “Ler infatigavelmente o texto analisado é a regra de ouro do analista. A multiplicação das leituras suscita intuições, que são o combustível neste ofício”. Estudar o texto envolve, naturalmente, estudar sobre o texto. Há muita crítica que descobre a pólvora, mas, sem pesquisar a fortuna existente, vê os fósforos rapidamente se apagarem. E a pólvora perde a validade que nem tinha.

Tenho cada vez mais buscado a clareza. Há muita crítica que se quer complexa, mas é confusa. A crítica pode ser — nada há que impeça — altamente lúdica, e os bons críticos sabem disso, e fazem seus jogos internos, calmos e felizes mesmo com o anonimato de tais jogos. Digo isso porque a clareza do ensaio crítico não entra em conflito com a porção criativa do texto (de que faz parte uma dose controlada de ambivalência).

Ademais, não propriamente como uma imposição, tenho procurado privilegiar textos que tenham algum tom ou teor social, isto é, poemas menos lírico-subjetivos ou prosas com enredos de interesse mais coletivo (como a literatura de testemunho, por exemplo).

Então, estudar incansavelmente (sobre) o texto, buscar incessantemente a clareza, explorar o lúdico da linguagem e privilegiar textos de abrangência mais socialmente ampla são algumas das minhas diretrizes.

Quais os princípios de trabalho com os quais não transige? 

Há um monstro que paira sobre nossas cabeças e que se chama Estereótipo (ou, com nuances, Clichê, Chavão, Senso Comum). Valho-me, claro, da Aula de Roland Barthes: “Em cada signo dorme este monstro: um estereótipo: nunca posso falar senão recolhendo aquilo que se arrasta na língua”. Quero dizer que, entre as tarefas árduas de um crítico, esta deve ser incontornável: não transigir com o estereótipo. A despeito de ser quase invencível, pois se arrasta na língua, estando em tudo, tê-lo no horizonte como adversário e inimigo pode nos fortalecer. O estereótipo (me apropriando livremente do mito) é a pedra de todo crítico, digo, de todo Sísifo.

Qual a qualidade básica no trabalho do crítico? 

Paciência: a pressa de finalizar nos conduz ao muito-imperfeito.

Concisão: a tagarelice entedia e conduz o leitor ao devaneio.

Curiosidade: o desinteresse conduz objeto e sujeito ao nebuloso, obscuro, insosso.

Quando o crítico sabe que sua missão está cumprida? 

Missão é um termo forte, carregado, sobredeterminado.

De todo modo, indo e vindo da teoria à prática e vice-versa, talvez o crítico cumpra seu papel quando faz encontrar seu texto a certo leitor. Pode ser que, deste encontro, o certo leitor saia, como escreveu Ana Cristina Cesar em um de seus mais belíssimos poemas, com “um filete de sangue / nas gengivas”, ou seja, que tenha seu corpo intensamente afetado por aquilo para o qual dedicou um tempo de sua vida.

O que seria um crítico sem doutrina?

Doutrina é outro termo forte, mas se compreende — e aqui não vem ao caso contestar a “profissão de fé” de Candido, sobretudo lembrando que seu texto “Ouverture” é de 1943.

Se, por doutrina, entendermos um conjunto de ideias, e se esse conjunto admite ideias plurais e mesmo oriundas de pensamentos mais ou menos antagônicos, é impossível existir um crítico sem doutrina.

Mas parece que a pergunta pressupõe um conjunto de ideias mais ou menos afins, harmoniosas, coerentes: uma doutrina. Nesse sentido específico, prefiro um crítico sem (uma) doutrina a um crítico com (uma) doutrina. E isso não diz respeito a ecletismo, relativismo ou vale-tudo. Trata-se, antes, de entender que a crítica que busca dar primazia ao objeto deve se valer de todas as “doutrinas” que possam — feito um fogo de artifício — lançar luz e beleza, ainda que efêmeras, ao objeto.

De certa maneira, pois, minha doutrina em sentido lato é esta: tentar dar à crítica um estatuto de arte: uma arte que explica outra arte.

 

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Da Crítica Literária: Rafael Rodrigues

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Em 1943, Antonio Candido, um dos mais importantes críticos literários da história do país, iniciou a publicação de colunas na Folha de S.Paulo. O primeiro artigo, chamado “Ouverture“, fazia uma reflexão sobre o trabalho da crítica, e estabelecia os critérios para a futura atuação do autor naquele espaço. A partir desse texto — extraindo dele algumas perguntas —, desenvolvi uma série de entrevistas aqui no blog com críticos literários brasileiros.

Começo esse ciclo de conversas com o colega Rafael Rodrigues, escritor e resenhista — mais isso do que crítico, ele frisa, explicando os motivos dessa diferenciação. Rafael colaborou com Bravo!BrasileirosConhecimento Prático: LiteraturaSuplemento Literário de Minas GeraisSuplemento Pernambuco e Rascunho, tendo sido também colaborador e editor-assistente do Digestivo Cultural (posto em que o sucedi). Como escritor, publicou O escritor premiado e outros contos (2011) e Mais um para a sua estante (2017). Mantém o blog Paliativos e a revista digital Outros Ares.

Acesse todos os textos publicados na série Da Crítica Literária.

O que é a crítica para você?

A crítica, para mim, é uma espécie de arte. Assim como escrever uma obra literária, fazer crítica demanda tempo e bagagem. Não me considero um crítico literário, muito embora eu já tenha feito — e ainda faça — crítica literária. Meu foco sempre foi a resenha, então me considero mais um resenhista.

Acho necessário fazer uma diferenciação entre a crítica e a resenha, porque me parece que há uma certa confusão em relação as duas atividades. A diferença entre elas, a meu ver, está na profundidade e na intenção. Enquanto o resenhista pode ficar restrito a apenas analisar uma determinada obra e recomendá-la ou não ao seu leitor, o crítico vai muito mais além. O crítico analisa não apenas uma obra, mas tudo o que a cerca: seu contexto histórico, sua linguagem, suas influências, o lugar que essa obra ocupa dentro da trajetória de seu autor… Tenho um profundo respeito pela crítica, e a considero uma das atividades mais nobres. Ela não pode ser confundida com o resenhismo, ou mesmo com o ensaísmo literário — digo isso sem a menor intenção de menosprezar essas vertentes, é bom deixar claro.

No campo da crítica, qual a sua ética?

Sem querer parecer pedante: meu objetivo, minha ética, é ser verdadeiro — tanto ao fazer crítica quanto ao fazer resenhas de livros. É claro que, como se trata de uma análise literária, a verdade passa a ser relativa. Afinal, criticar um livro (ou toda uma obra de um autor) passa por escolhas e experiências muito pessoais, até íntimas, em alguns casos. Por exemplo: um resenhista pode deixar “a emoção falar mais alto”, mas, o crítico, não. Muito embora o crítico possa se dedicar a um autor ou livro por quem ou pelo qual ele tenha uma ligação afetiva, os sentimentos devem ficar de lado, e a razão deve dominar o seu trabalho. Apesar de ser impossível ser imparcial, o crítico precisa ser o menos parcial possível, para que o seu trabalho seja o mais próximo de uma verdade não tão relativa, por assim dizer.

Quais imposições faz a si mesmo?

Acho que a imposição se confunde com a ética. Eu diria que imponho a mim mesmo ser verdadeiro. Aproveito para reforçar que não digo isso no sentido de objetivar impor a minha verdade. O “ser verdadeiro” significa expor a minha opinião mais franca, fruto de um trabalho que envolve bastante leitura e escrita.

Quais os princípios de trabalho com os quais não transige?

Com quaisquer interesses que não estejam ligados a um trabalho isento, correto, verdadeiro.

Qual a qualidade básica no trabalho do crítico?

Difícil citar uma qualidade apenas, mas a curiosidade certamente é uma das mais importantes. O crítico precisa ser curioso, questionador. É preciso, também, ser bastante atento, observador, e estar aberto a diálogos e até mesmo a reavaliações de opinião.

Quando o crítico sabe que sua missão está cumprida?

Acredito que, assim como o ficcionista, o crítico sempre vai considerar que seu trabalho está incompleto, por mais acabado que ele pareça estar. Talvez eu seja romântico, mas vejo a crítica como um organismo vivo, que se comunica com várias e várias vertentes do pensamento, e que evolui o tempo inteiro. É difícil, portanto, falar em “missão cumprida”. Se pudéssemos perguntar aos grandes críticos que já nos deixaram, e aqui é inevitável citar Antonio Candido, se eles consideram ter cumprido suas missões, eles diriam que não, e que deixaram muito ainda por fazer.

O que seria um crítico sem doutrina?

Uma impossibilidade, talvez? Ou então um resenhista — e digo isso sem intenção de menosprezar a categoria, afinal, como disse, me considero mais um resenhista que um crítico. Muito embora o resenhista também tenha a sua doutrina, é claro, ela só é menos rigorosa que a do crítico. Mas, enfim, tergiverso. Um crítico sem doutrina é como uma cadeira sem uma das pernas, que pode até se equilibrar por uns segundos, mas qualquer coisinha a faz cair.

Com isso quero dizer que, sem uma doutrina, o crítico pode ter seu trabalho mais facilmente questionado e até refutado. Sem uma doutrina, o trabalho do crítico não é consistente. Portanto, acredito que é preciso seguir alguns preceitos básicos. Cada crítico tem a liberdade de eleger os seus, mas, como disse anteriormente, tentar ser imparcial e verdadeiro são, para mim, pontos fundamentais.