As Esferas do Dragão

Dissuadido do calor da minha solidão, eu o observara fixamente, e foi com algum grau de medo que aceitei o que me entregava — a esfera de quatro estrelas. Algo nela me atraía demais, uma fundura, não o que informa, soluciona, segreda, mas a expectativa tensa de uma mensagem. A possibilidade vibrava na palma da minha mão direita, assim como na mente comichava a palavra “herói”.

O romance As Esferas do Dragão mescla autobiografia e fantasia, depoimento pessoal e referências da cultura pop – entre as quais se sobressai Dragon Ball, animação japonesa que estrutura a narrativa. O tema de fundo da história é a morte: é um livro em que me faço protagonista de uma epopeia, na qual busco orbes mágicos — as sete esferas do desenho animado — para ressuscitar o meu avô.

Meu avô, Antonio de Oliveira, faleceu em 2009. As Esferas do Dragão parte desse acontecimento e se desdobra em uma epopeia que recupera uma série de relações afetivas, mergulhando na tessitura própria dos universos de familiares, amigos e conhecidos do autor. Isso no quadro de um mundo fantástico que costura imagéticas de várias origens e que é pontuado por dissertações sobre o que significam as pessoas, sobre como nos constituem as narrativas, e sobre quais as experiências ao redor da morte.

Pode ser que a infância de antigamente — quando não havia televisão nem histórias em quadrinhos — fosse mais contemplativa e simples, deixando na memória de quem a tenha vivido algumas poucas cenas intensas e paisagens fixas. Para quem nasceu no século 20, a infância foi certamente mais frenética: desenhos, filmes e seriados romperam os limites entre cotidiano próprio e imaginação alheia, deixando em cada um de nós um zoológico de monstros, super-heróis e jingles que seria incorreto considerar como pertencentes “ao passado”. Interferem, não como lembrança, mas como linguagem, em nossas vivências do presente. Num verdadeiro tour de force de escrita, Duanne Ribeiro convoca o mundo fictício da sua infância para transfigurar as suas memórias reais, num romance ao mesmo tempo alucinatório e ancorado em dor verdadeira.

Marcelo Coelho
Jornalista, membro do conselho editorial da Folha de S.Paulo
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