“Só porque tem uns trocadinhos, pensa que é alguma coisa. Só porque tem umas moedas, pensa que é melhor que a gente. Mandando eu me lascar. Mas eu não me lasco não, que meu Deus me cuida.” A senhorinha vem manquejando na direção do ponto de ônibus, apoiando-se em uma bengala de quatro pontas, uma das pernas enfaixada. Usa uma camiseta amarela desbotada e saia até os tornozelos; carrega duas sacolas, pára sob o abrigo e se põe a procurar algo em uma delas. “Só porque tem uns trocadinhos no Bradesco pensa que é alguma coisa.” Puxa um resma de folhetos retangulares com citações da Bíblia. “Quer a palavra do Senhor?”, ela me diz, eu aceito por educação; ela passa ao próximo expectante, uma moça sentada no banco de madeira. “Quando o diabo manda dos seus é difícil, né? Ela mandou eu me lascar. Só porque tem uns trocadinhos, acha que é melhor que a gente.” Entrega o folheto e segue a um idoso também na fila. “Quer a palavra do Senhor?” Devagar, continua falando, “eu trabalhei 35 anos. Agora a perna inflamou”, purgando e pregando, “todo mundo é igual, a Dilma é igual, a Dilma teve na cadeia, teve na presidência.” Há nessa frase uma profunda compreensão ética: a igualdade é que nada está garantido e que todos somos frágeis. Cristã verdadeira.

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