Jornalismo

Em meio à argumentação

Às vezes, um comentário paralelo em meio à argumentação a favor de uma tese prejudica toda a tentativa. O episódio do termo “ditabranda” em um artigo da Folha de S.Paulo ano passado é prova disso — a alusão ao regime nem era mesmo necessária ao propósito geral do texto, mas eclipsou qualquer que fosse a ideia central dele e acarretou vários protestos contra o jornal. Creio que o editorial de 12/02 do Estadão erra pelo mesmo motivo.

É um artigo sobre a exoneração do general Maynard Marques de Santa Rosa do exército, por ter cometido uma indisciplina segundo as regras militares. Lá pelas tantas, o editorial comenta que o incidente é um “mais um subproduto do 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos”, e, no que lista as propostas do PNDH, diz:
“(…) o decreto postula a proibição da exibição de símbolos religiosos nos espaços públicos, a exigência de “audiência coletiva” prévia às concessões de liminares de reintegração de posse, o controle da imprensa por uma comissão governamental encarregada de colocar os veículos de comunicação num “ranking”- de obediência aos “direitos humanos”, a descriminalização do aborto, o casamento de homossexuais, a exigência de aprovação de comissões sindicais para as licenças ambientais – e outras extravagâncias. Essas ideias estapafúrdias foram geradas em um dos “fóruns sociais” com os quais certos setores do petismo radical pretendem implantar uma forma de democracia direta no País (…)” [grifo nosso]

Então, temos, em um estado laico, alguém dizendo que a proibição de símbolos religiosos em lugares públicos é uma “extravagância”. E que a descriminalização do aborto e o casamento de homossexuais (igualdade de todos perante a lei, onde?) são “ideias estapafúrdias”. 

Todo o parágrafo em que essas coisas são ditas é um tipo de digressão, não necessário para argumentar a favor da tese, que parece ser resumida nas últimas linhas: “a atual geração de militares está plenamente consciente do papel que as Forças Armadas exercem numa democracia. Atitudes como a do general Santa Rosa são pessoais e excepcionais”. O que foi isso? Um ataque do governo que caiu no exagero? Uso impensado das palavras?

E, depois, por que esse editorial não gerou qualquer protesto na blogosfera?

One thought on “Em meio à argumentação

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