Entrevistas

Eliane Brum: Escutar o Outro Integralmente

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Publiquei no blog Fale com Arte, do Itaú Cultural, a entrevista “Eliane Brum: Reportagem é Reflexão em Movimento“, com Eliane Brum. A escritora e jornalista fala sobre a importância da reportagem para o cotidiano e a memória das sociedades, e ressalta a importância de manter o registro do trabalho dos grandes repórteres. Ela disse:

Nós somos seres históricos, com os dois pés enfiados, inscritos na cultura, e por isso a gente precisa se precaver para chegar o mais perto não de uma verdade – porque uma verdade única não existe –, mas o mais próximo das verdades todas. Por isso, o principal instrumento do repórter é a escuta, essa escuta que se faz com todos os sentidos e que te obriga a te despir de todos os teus preconceitos, das tuas visões de mundo, dos teus julgamentos, para escutar o outro na integridade do que ele é: isso é reportagem.

Reportagem

Ocupação Laerte

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Site para a exposição Ocupação Laerte, no Itaú Cultural, em São Paulo, de setembro a novembro de 2014. Reportagem (pesquisa, entrevistas, redação) e edição são minhas. A produção das entrevistas é de Paula Bertola. Os vídeos foram gravados por André Seiti e Karina Bonini Fogaça (com exceção da gravação com André Dahmer, feita por Rafael Rolim e José Amarílio Jr.), que também editou o material. A captação de áudio é de Ana Paula Fiorotto (no caso do Dahmer, Lucas Imbiriba). Visite.

Metajornalismo

Um Perfil e uma Piscina de Sangue

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[Piauí, nº 95, agosto/2014] Consuelo Dieguez perfilou Paulo Skaf, presidente licenciado da Fiesp e candidato ao governo de São Paulo, para a Piauí. No texto, lemos: "Luiz Antônio Fleury Filho — que logo depois se tornaria o coordenador da campanha de Skaf — também se referiu à inequívoca vitória. Principal consultor da candidatura em matéria de segurança pública, Fleury Filho governava o estado quando a polícia assassinou 111 presos, no massacre do Carandiru". O nome me lembra imediatamente “Diário de um Detento”, dos Racionais. “Avisa o IML, chegou o grande dia. Depende do sim ou não de um só homem, que prefere ser neutro pelo telefone. Ratatatá, caviar e champanhe: Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe”. E também: “Rátátátá, Fleury e sua gangue vão nadar numa piscina de sangue”.

(Neste post, eu citei Alexandre Padilha e o referendo de Lula à sua posição como candidato; quem lesse os perfis nos links veria que esse referendo era bem menos convicto do que o dado à Fernando Haddad. Segundo a reportagem sobre Skaf, o apoio à Padilha já ruiu no campo interno, mesmo aquela confiança inicial não existe mais.)

Literatura

Linchamentos Segundo a Sociologia

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Publiquei no Observatório de Imprensa o artigo Para compreender os linchamentos, um texto que apresenta as análises do sociólogo José se Souza Martins a respeito dos linchamentos, com base em uma pesquisa que abrange séculos da história brasileira. Eu escrevi:

Martins interpreta os linchamentos como “a ponta visível de processos sociais e da estrutura social”, sintomas de mudanças das hierarquias cultural e econômica, da corrosão da imagem do Estado e de um ideário político específico. Neste texto, resumimos as ideias de dois artigos do sociólogo: “As condições do estudo sociológico dos linchamentos no Brasil“ (1995) e “Linchamento: o lado sombrio da mente conservadora“ (1996), tentando sugerir pautas para futuras reportagens.

Metajornalismo

Protestos estudantis e Tendência

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Publiquei no Observatório de Imprensa o artigo Cobertura enviesada dos protestos estudantis na USP, uma análise do noticiário da Folha de S.Paulo sobre a greve e ocupação dos estudantes da USP em 2013. Eu escrevi:

Folha de S.Paulo tem realizado uma cobertura parcial das atuais manifestações estudantis na USP, que se declaram por alterações no modelo de eleição do reitor e pela instauração de uma estatuinte (com poder para, por exemplo, extrair das estruturas da universidade ordenações herdadas da ditadura). A parcialidade da cobertura deve se tornar evidente com a interpretação seguinte.

Metajornalismo

Crítica ao Jornalismo

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jorna

Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Pesquisando (e lendo) o jornalismo. O texto parte de um incômodo meu sobre certa crítica automática à imprensa. Eu escrevi:

A crítica ao jornalismo e à mídia, em geral, me parece insuficiente, por não lidar com o seu objeto de uma forma completa, isto é, desconsiderando sua prática e tomando como foco de análise apenas a sua aparência final. Há uma distância entre o publicado e a práxis que leva à publicação, distância ou simplesmente ignorada ou exclusivamente abordada via paranoia – como nos discursos sobre Grandes Conspirações Midiáticas, que, se podem apontar para alguma verdade, distorcem e confundem por sua conta outra cota de dados. Como pesquisar de forma íntegra e consequente a imprensa? Eu tinha umas ideias soltas sobre isso, eis aqui um esboço de conclusão. O leitor não-jornalista, nessa era em que somos todos jornalistas, talvez encontre alguma utilidade, meios de pedir mais e melhor das “denúncias” eventuais. 

Metajornalismo

Limitações do Jornalismo de Mídia Social

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Publiquei no Observatório de Imprensa uma tradução de The Problem with Tweeting a Revolution, de Jacob Silverman para a The New Republic. Com o título Os problemas em tuitar uma revolução, o texto trata das limitações das coberturas jornalísticas (?) feitas apenas através das mídias sociais. O autor escreve:

Durante os dias mais turbulentos dos protestos na praça Tahrir, Andy Carvin postou mais de mil tweets por dia. Ele se focou nisso em turnos de 18 horas, agregando e distribuindo informação de ativistas, rebeldes e jornalistas (cidadãos). Dormia apenas por necessidade biológica. Por tudo isso, Carvin, que é também estrategista sênior daNPR [National Public Radio], tem sido chamado “o homem que tuíta revoluções”. Carvin lançou recentemente um livro registrando esses dois anos em que – em que o que? Em que lutou nas trincheiras digitais? Em que produziu um Diagrama de Venn do ativismo de laptop e da agregação jornalística? A resposta não está clara porque Carvin é o exemplo mais proeminente de algo que pode mesmo nem ter um nome ainda.

Filosofia

Edições em campanha política

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[publicado no Observatório de Imprensa. Veja o original e acesse outros textos meus no OI]

O governador de São Paulo José Serra e o jornal O Estado de S.Paulo têm uma coisa em comum: ambos parecem estar em campanha, ambos pela Presidência, o segundo em defesa do primeiro. Na surdina. Contrapondo o modo pelo qual o Estadão representa Serra ao que usa para figurar Dilma Rousseff, podemos supor uma predileção pelo primeiro. A tendência se enxerga, neste artigo, pelo uso das fotos que ilustram as matérias e pela edição do todo. Poderá haver outras formas de argumentar o mesmo (ou o contrário), mas esse será o nosso meio de interpretação.

Assino o Estadão há mais de um ano, recebendo os jornais às sextas, sábados e domingos. Não posso afirmar nada a respeito da cobertura dos outros quatro dias da semana, portanto. A argumentação a ser desenvolvida também se ressente de algum rigor acadêmico: não tenho uma data precisa de início ou término; as fotos e matérias foram recolhidas durante a leitura cotidiana. Ainda assim, o material acumulado sugere de fato a tese apresentada acima e, sendo assim, é útil termos em mente a possibilidade desse viés tendencioso enquanto lemos o jornal.

As matérias foram recortadas do jornal do 1º de novembro de 2009 até o dia em que escrevo este artigo, sábado de carnaval, 13 de fevereiro. Todas elas estão disponíveis para leitura na internet, porém só algumas trazem as fotos da versão impressa.

De um modo geral, o governador aparece sorridente ou compenetrado, contracenando com objetos vinculados à ideia de atividade ou trabalho. A chefe da Casa Civil surge sempre desatenta, brincalhona, ridícula. Nas fotos aparentemente mais inocentes, também podemos ver certo tipo de ideologia quando atentamos a quem é retratado daquela forma.

Serra-trabalhador, Serra-em-ação, essa imagem é recorrente. Considere todos os objetos em interação. Em 15/01, na matéria ‘Candidato não é chefe da oposição’, o governador encara o leitor, com uma mão retira os óculos, folha de papel na outra, mangas arregaçadas. Já em 24/01, em ‘Oposição descarta propor invenções’, os mesmos elementos se repetem: papel, mangas arregaçadas, agora com um olhar convicto, ‘pra frente’.

Em 30/01, em ‘Serra reage com ironia à cobrança de Bernardo’, temos Serra sorrindo, olho no olho do leitor novamente; atrás dele, no que deve ser uma propaganda institucional, uma garota negra sorri também. A matéria afirma – com aparente opinião direta da repórter, sem justificativa ou histórico – que a referida cobrança do ministro Paulo Bernardo ‘foi mais uma tentativa do PT de trazer Serra para o centro [da disputa eleitoral]’. Porém, Serra está muito acima disso, me diz a repórter: ‘Na contramão dos desejos petistas, Serra tentava ontem mostrar que não distingue os prefeitos pelo partido, levando ao palanque um prefeito do PT. E ouviu um discurso repleto de elogios à sua gestão.’

O citado prefeito, segundo a repórter, parecia mesmo estar fascinado com Serra: ‘[Sérgio Ribeiro] Silva fez questão de esperar o governador, que saíra para atender um telefonema, para começar seu discurso.’ Ainda: ‘Silva listou os investimentos do governo estadual no município e agradeceu a Serra por ajudar a `salvar a cidade´.’ A matéria encerra de maneira simpática, com Serra afirmando que ‘a única cor de camisa que às vezes presto atenção é a do futebol’. Também ficamos informados que ele fez uma enquete sobre que time as pessoas presentes torciam e ‘o Palmeiras, seu clube de coração, ficou em terceiro lugar’.

Em 02/01, a foto complementa ‘Auxiliares de Serra preparam saída do governo’ com um governador de mão no queixo, pensativo. Atrás dele, um painel multicolorido. Para pessoas em complicação, o fotojornalismo costuma usar fundo negro, rosto em sombras. Foi o caso do ministro Fernando Haddad após a fraude no Enem: em ‘Vamos ter a Fuvest do MEC’, de 1º/11, só temos a silhueta do rosto, só iluminado nos contornos. Outro exemplo: em 23/08, na matéria ‘Reforma vira pesadelo de Obama’, o presidente americano, de braços cruzados, está contra um fundo preto onde se vêem alguns vultos. Se as cores têm esse significado, isso tudo parece dizer subliminarmente: Serra não está em complicações.

E em 6 e 18/12, respectivamente nas matérias ‘Mudança climática deixou de ser assunto de ambientalista’ e ‘Decisivo, Aécio pode ser vice com mais poder’, Serra é retratado tendo como fundo a bandeira de São Paulo. Não encontrei nenhuma matéria em que o presidente, por exemplo, ou o prefeito Kassab, estivessem à frente de bandeiras. Só em 9/01 encontra-se Marina Silva na mesma mise-en-scène.

Já com Dilma é outra história. A corroborar o ideário que se criou de que a chefe da Casa Civil seria autoritária e repressiva, temos, em 27/12, ‘Dilma defenderá Estado forte para embalar `novo desenvolvimentismo´’. A ministra, com expressão raivosa, encara o leitor de dedo em riste. Pesquisando quais outros indivíduos eram retratados de ‘dedo em riste’ (um gesto com um significado claro socialmente, de ‘por o dedo na cara’, ou similar), descobre-se que Hugo Chávez, em duas ocasiões (‘Chávez incita atrito entre estudantes’, 30/01; e ‘Holanda desmente acusações de Chávez e exige explicações’, 19/12), é representado assim. O senador Valdir Raupp, suspeito de desvio de verbas em Rondônia, está da mesma forma, em ‘Raupp perde no julgamento, mas STF adia decisão’ (19/12).

Em 23/01, temos a Dilma desatenta e tola. A matéria ‘Gracejos de Serra, Dilma e Lula contrastam com semana de conflito’ é ilustrada por uma foto em que Serra está sentado no canto direito, Lula se curva a ele dizendo alguma coisa, enquanto a ministra segura o óculos com a boca, mordendo uma das pontas, olhando para o outro lado. Em outras matérias, ela é brincalhona: ‘Comparar `incomoda´ tucanos, diz Dilma’. Ela parece se divertir com um leque que lhe cobre um dos olhos. A legenda registra que Dilma disse: ‘Nunca o Brasil, quando eles governaram, cresceu e distribuiu renda’ – mas que peso a foto deixa atribuir à declaração? Em 01/11, ela tem os olhos no direção da chamada e parece bater palmas; ‘PT molda Dilma pela cartilha de Lula’, diz o título.

E, em 30/01, em ‘Dilma faz campanha mesmo sem presidente’ (fora a opinião explícita logo no título: ela só faz campanha política com Lula), a foto mostra a ministra com fones de ouvido, interagindo com um boneco do personagem do jogo God of War. O jogo trata de um guerreiro mercenário contratado por alguns deuses. Seria exagero pensar que a escolha justamente dessa foto não faça referência a outro ideário em torno de Dilma, da sua atuação com grupos terroristas no período da ditadura militar?

A ordem das matérias nas páginas pode indicar o mesmo tipo de argumentação. No dia 19/01, o primeiro caderno abre a seção ‘Nacional’ com uma entrevista de Fernando Henrique Cardoso: ‘Chapa puro-sangue do PSDB reflete `sentimento nacional´, defende FHC’. Isso, na página A4. Como a contrariar quaisquer dúvidas que surgissem das afirmações do nosso ex-presidente, a A6 abre com ‘Dilma vai à TV, mas não sobe indica Vox Populi’ e, no olho, destaca: ‘Presidente do instituto avalia que candidatura do PT `tem problemas´’. Mas, para uma análise mais exata disso, seriam necessários outros exemplos de que não disponho.

No domingo, depois que terminei o artigo, o Estadão publicou uma matéria sobre ambos os candidatos no carnaval. ‘Candidatos pegam carona na folia’ colocava a foto dos dois lado a lado – e eu posso estar vendo significado demais, mas quem é fotografado no ato de por a coroa (da fantasia carnavalesca) é Serra, enquanto Dilma, como sempre, só sorri. No site, a única foto que aparece é a primeira.

Os exemplos citados são suficientes para afirmar, senão que existe tendência deliberada de defender o governador de São Paulo, que O Estado de S. Paulo tratou em muitos momentos os dois presidenciáveis de maneira consideravelmente diferente.