Lúcia Guimarães e o jornalismo que ajuda o fascismo

A jornalista Lúcia Guimarães fez na Folha uma resenha do livro I’ll Take Your Questions Now: What I Saw at the Trump White House, de Stephanie Grisham, que foi assessora de imprensa do ex-presidente americano Donald Trump. Depois de expor o livro — que revela bastidores do governo republicano derrotado em 2020 –, ela comenta sobre “o papel da imprensa política em facilitar a ascensão e o desgoverno de Trump”:

Sim, o jornalismo americano demorou, mas passou a classificar de “mentira” do presidente o que antes descrevia com eufemismos. Mas figuras grotescas como Trump ou Jair Bolsonaro não são simples exceções extremistas. Chegam ao poder, provocam caos e morte em massa a bordo de um sistema que boa parte da imprensa ainda cobre como um território de equivalentes.

Um ex-editor de dois outrora influentes jornais americanos admitiu com singeleza seu papel de cúmplice não intencional na emergência do “fascismo que ameaça a nossa democracia”. Mark Jacob é autor de livros de história e trabalhou nos jornais Chicago Tribune e Chicago Sunday Times.

Numa série de postagens no Twitter [a thread a que ela se refere é essa], ele lembra que, quando editava reportagens políticas, contava o número de citações de republicanos e democratas, para manter a suposta objetividade. Mas ele conclui que, se antes a corrupção era distribuída entre os dois partidos, nas últimas décadas a decadência ética do Partido Republicano provocou fadiga na mídia, o que ajudou a normalizar o inaceitável.

Afinal, argumenta Jacob, Hillary Clinton usar servidor privado para emails não é o mesmo que George W. Bush mentir para iniciar uma guerra catastrófica no Iraque.

Bolsonaro foi eleito com apoio de jornalistas que vomitam asneiras como “bolsopetismo”, um chocalho ideológico, não um fato. Pouco importa se hoje é criticado por arrependidos. A mídia deve ao público a defesa da democracia, não a neutralidade diante de fascistas.

Há vários pontos importantes aí. Do ponto de vista da prática jornalística mais cotidiana, destaquemos que o procedimento automático, contábil, de equilibrar número de citações, não equivale à objetividade. É preciso pesar as declarações — o que aponta a necessidade de discutir valores para se fazer jornalismo.

Já de uma perspectiva, digamos, mais sociológica, são importantes essas duas noções: fadiga da mídia e normalização do inaceitável. São duas formas de estafa intelectual, duas posturas de apatia diante das notícias. No primeiro caso, indica que o jornalismo está incluído numa circulação dos afetos (para lembrar o filósofo Vladimir Safatle); no segundo, que é possível modular negativamente o quadro moral de toda uma população — isso retoma aquele debate ética por outra ponta.

Um último conceito importante, o de chocalho ideológico, que remete ao de dog whistle — os discursos que são feitos com traços que ecoam de maneira particular para determinado grupo, sendo anódino para outros. O chocalho ideológico me parece também só instrumento de retórica, sem lastro de pensamento.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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