O pecado foi assumir que deus mente

Deus proibiu que se comesse o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal; Eva, convencida pela Serpente, comeu e convidou Adão, que comeu também. Esses atos causaram a expulsão da humanidade do Éden. Todos nós conhecemos a história contada no início da Bíblia. Em um episódio de Six Feet Under (“Familia”, 1ª temporada, episódio 4), há outra interpretação:

O pecado original não foi comer a maçã. Não foi questionar a autoridade. O pecado foi não dar a Deus a chance de dizer o seu lado da história. O pecado foi tomar a palavra da Serpente como a do Evangelho. O pecado foi não ir ao encontro de Deus e perguntar: “Ei, qual é? Ela diz que você está mentindo pra gente”. O pecado foi assumir que deus mente.

Quem fala é uma pastora que realiza um culto. A elaboração é curiosa: não se trata da desobediência o problema, da ilegalidade da prática, mas sim de um desrespeito em um nível – se é possível usar essa expressão quanto a esse que seria o criador do mundo – mais pessoal. Adão e Eva não deram a deus o benefício da dúvida; sustentaram que ele fosse alguém capaz de enganar. Essa desconsideração – essa falta de empatia? – seria o verdadeiro pecado original.

Lembra um trecho de Ilusões, do Richard Bach, que diz:

O pecado original é limitar o Ser. Não o faça.

O argumento tem sua sutileza, pois redefine autoridade: deus não seria aquele a quem não se pode questionar, mas aquele que merece ao menos ser questionado se a dúvida sobrevier. O problema não foi aceitar a possibilidade de que Deus possa ou não mentir, mas firmar a certeza em um dos pólos dessa questão sem se abrir ao contraditório. Se antes esse mito podia se reduzir à prescrição de que é preciso obedecer ao decreto divino sem se deixar desviar, agora podemos tratar de várias questões: a necessidade da crítica, o papel da “suspensão da razão”, o valor da multiplicidade dos pontos de vista.

É uma versão duvidosa, claro. Não parece haver nada no Genesis que a permita. E em histórias como a de Jó, Deus muito claramente é alguém que não acata qualquer questionamento (“onde você estava quando criei o céu e a terra?”). E como é que alguém sem conhecimento do bem e do mal poderia supor mentira na fala da Serpente? Recém-nascidos, só poderiam Adão e Eva acreditar em tudo o que lhes dissessem, impelidos sem atrito para qualquer direção em que os jogassem.

Quero dizer, se “verdade” e “mentira” são categorias de “bem” e “mal”, seria necessário comer a maçã, cometer o pecado original, para ser capaz de não cometer o pecado original.

***

Texto original: “The original sin wasn’t eating the apple. It wasn’t questioning authority. It was not giving God the chance to give his side of the argument. It was just taking the serpent’s word as Gospel. It was not going back to God and saying: ‘Hey, what gives? He said you’re lying to us.’ It was just assuming that God lies”.

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