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Um Mundo Velho Todo Novo

Presente retroalimentar: ideia esquisita que meu pai botava em prática a cada ano. Consistia em inverter o tradicional “receber presentes no aniversário” para atingir um alvo mais difícil — ele dava coisas pelas quais era apaixonado, na aposta de que essas coisas apaixonariam os demais também. Lançava seus gostos às subjetividades alheias como conquistadores dóceis. Se cumprissem a missão, sorria, satisfeito, completo, justificado. Se não cumprissem, resignava-se a tentar de novo em outra oportunidade. Ou, como ele dizia, “na rotação seguinte”. “Planeta pra frente, segue o jogo!”

O maior número de presentes retroalimentares pela culatra aconteceu comigo. Eu nunca tive pudores nem sutilezas quando, ano a ano, meu pai me dava um presente no seu aniversário e eu lhe dizia que não havia gostado. Eu não era uma criança malvada ou birrenta, é que não gostava de ler e — talvez tenha sido esse um erro de estratégia de meu pai — ele insistira em me presentear com histórias em quadrinhos. Fanzaço das HQs, acordava cedo, ia à sua biblioteca (tão emagrecida depois que nasci e demandei, só por estar presente, mais espaço) e escolhia algum queridinho.

Quando eu completei seis anos, foi um livro do dinossaurinho Gon. Perguntei: “Não tem desenho?”, ou seja, versão animada? Procurei no Youtube sozinha, achei, gostei bem mais e deixei de lado para sempre a HQ. Aos sete, foi uma série de livros infantis com ilustrações do Glauco. Achei sem graça. Aos oito, foi um daqueles almanaques da Turma da Mônica, acompanhado da história de que ele, criança, passava horas e horas fazendo os passatempos do volume. Dei uma olhada, preferi o meu videogame. Aos nove, porém, tudo fez uma curva inesperada: meu pai me revelou os quadrões.

No dia em que me contou o segredo dos quadrões, meu pai assumia ares conspiratórios desde o café . Era um domingo de sol e ele comia um pão de manteiga. Mastigava sem perder o sorriso no canto da boca. Pela janela os passarinhos cantavam e, quando um deles pousou no peitoril, meu pai fez a sua piada tradicional — “É o Super-Homem? Ah, não, é um pássaro” — uma tirada a que ele também recorria em outras ocasiões (“É o Super-Homem? Ah, não, é um avião”). Minha mãe e eu já estávamos mais que acostumadas com a verve dele. Meu pai era a vanguarda da piada de tiozão.

Mas mesmo essa piada tradicional soou diferente, como se dessa vez ele tivesse se perguntado “é o Super-Homem?” e “ah, sim, é o Super-Homem”. Ele esperou minha mãe sair para a sala e me disse, sussurrante: “Você quer saber qual vai ser o presente que eu vou me dar via você?”. “Pai, eu não aguento mais quadrinhos.” “Ah, mas dessa vez é diferente: são uns quadrões. Dá até para passar no meio deles. Na verdade a coisa toda consiste em passar no meio deles.”

Com todo o esnobismo que nove anos podem conter, eu desci ao porão com meu pai para ver o que afinal ele queria dizer com isso. Lá embaixo, parou à frente de algo que estava coberto com uma lona. “Lembre-se: grandes quadros implicam grandes responsabilidades.” Ri com os ha has bem espaçados para expressar minha avaliação do que eu achava que era outra piada. Ele não pareceu se perturbar. Puxou a lona e atrás dela estava uma moldura de madeira, dois de altura por cinco de largura, segura de pé por uns suportes, envelhecida mas gritando durabilidade.

“Aqui está um belo portal”, exclamou meu pai, ao que eu só pude contra-argumentar: “Portal? Que portal?”. “Esse negócio de madeira.” “Tô vendo. E daí?” “E daí que a gente agora é Alice indo pro outro lado do… quadrão. Mas primeiro você tem que contar uma coisa pra ele.” Eu estava cheia de vergonha alheia. “Ai, pai, tá bom, vou jogar videogame, tchau.” Ele deu uma risada e segurou na minha mão. “Tá, dessa vez eu dou alguma coisa por você, mas depois você vai ter que fazer isso sozinha, tá? Os quadrões só entregam algo de volta se a gente dá alguma coisa pra eles.”

Ele olhou concentrado para a moldura vazia, soltou um “ok” decidido e me levou a passos vigorosos, como uma marcha. Através das quatro linhas via-se, distante um ou dois metros, a parede caiada do porão. “Olha o degrau!”, avisou ele quanto à parte debaixo da moldura. Fechei os olhos. Coloquei o pé do outro lado, o sentimento de chão foi o mesmo, então antes de abrir as pálpebras eu já comecei a dizer um “Viu? Nada aconteceu, eu não sou mais criança pra acreditar em…”, e aí meus olhos começaram a ver e eu vi.

Estávamos no topo de um prédio e o horizonte era uma variedade de mundos. Os campos, cidades, praias e montanhas daquele panorama existiam como se produzidos por mil artistas — o traço, as texturas, as cores, as resoluções, os graus de realismo ou de caricatura, tudo se sobrepunha e se sucedia lado a lado como se a criatividade, para o deus daquele mundo, fosse um ato de vontade. Meu queixo estava no chão. Virei o pescoço para trás em um gesto brusco: meu porão continuava lá. Idêntico, cinza, monótono, atulhado de silêncio. Voltei-me. Era um deslumbre.

“Ah! Essa sua cara de boba é um belo presente retroalimentar. Dessa vez, eu ganhei!”. Depois dessas palavras, meu pai me levou até a cidade lá embaixo. Carros de tecnicolor congestionavam a avenida, entoando uma sinfonia modernista de buzinas, roncos e impropérios. Dei um grito agudo: “Ali! Ali é o Pateta? O Pateta!” Era mesmo, enfurecido, dirigindo o seu carro ao trabalho. Algumas fileiras atrás, uma dragoa rosa e vermelha esperava sua vez no trânsito e cuspia fogo para cima de vez em quando. Seu marido, um burro, repetidamente questionava: “A gente já chegou?”

Meu pai ia andando e eu era arrastada embasbacada com o rosto virado. “Ê, Piadista Mortífero! Finalmente voltou!”, várias vozes gritaram em uníssono, e eu me virei na direção do som. Era uma pastelaria na esquina. Nela, um garoto louro de roupas verdes e colete marrom, um homem peludo com roupa amarela colada — e, meu Deus — o Super-Homem! Meu pai se aproximou: “É um pássaro?” É um avião?”, e o Super-Homem deu um risinho protocolar. “Trouxe sua filha, hein?”, ele perguntou, “depois me deixa dar uma volta com ela lá em cima”. Gelei dos pés à cabeça.

(Foi maravilhoso voar nas costas do Super-Homem nas outras vezes que eu atravessei o quadrão. Os quarteirões-maquetes lá embaixo, as pessoinhas, o vento no rosto, a barriga das nuvens…)

Para o fortão de amarelo, meu pai chegou cantando “chove lá fora, faz tanto frio”, o sorrisão aberto. “Não me vem com esse porra desse reaça”, o outro respondeu. “Que isso, vocês são da mesma espécie, pô!”, retrucou meu pai, e só recebeu um rosnado de volta. Meu pai nem ligou. Passou ao menino de verde: “E aí, passando muito calor?”. Esse riu. “He heh, é, o inferno tá daquele jeito, mas melhora depois que você não fica tentando sair de lá e faz alguma coisa pelo lugar.” Meu pai pediu pasteis e caldo de cana para mim e para ele, e então me deixou com os colegas e foi ao banheiro.

Os amigos dele passaram a tomar conta de mim por default, entre sorridentes, indiferentes e complacentes. Eu estava atordoada. Arranjei algo o que perguntar: “Por que vocês chamaram meu pai de Piadista Mortífero?”. Foi o Super-Homem que respondeu, tonitruante: “Porque as piadas dele são mortais”. O Super-Homem, você descobriria logo, é assim mesmo, certinho e meio tapado, pensa que explica coisas atestando o óbvio. O cara de amarelo completou: “Quando o Thanos tava dando um cacete em todo mundo, seu pai contou uma piada e acabou com o assunto”.

Dei uma risadinha. Não era uma piada. “O Thanos tinha juntado as cinco joias do poder infinito. Todo mundo levando um pau. Enfiei as garras no peito dele e o filho da puta não morreu. Seu pai contou uma piada e ele está lá até hoje ‘otorrinoceronte! otorrinoceronte! HAHAHA’. A vitória mais imbecil, mas vitória do mesmo jeito.” Eu não tive o que responder. O Super-Homem comentou baixinho: “Onde já se viu essa quantidade de palavrão na frente da menina?”. O rapaz de verde virou pra mim: “Seu pai é foda. Sabia que ele que me apresentou o Dante? O escritor?”

Quando atravessamos o quadrão de volta, eu estava tão em choque que nem comi direito e não pude dormir. Sonhei de novo com as coisas que tinha visto, já com saudade, como se nunca as pudesse ter de novo. Mas eu e meu pai viajamos àquele lugar fantástico, reunião de todos os lugares fantásticos, muitas e muitas vezes depois. Hobbits e Jedis, cavaleiros da Távola Redonda e do Zodíaco, mechas e transformers. Vimos Speedy Racer correr a Corrida Maluca (e perder, depois de uma trapaça). Vimos Jonas dissertar sobre qual barriga era melhor para viver, a da Moby Dick ou a da Free Willy. Vimos Crash Bandicoot e Taz apostarem quem girava no lugar por mais tempo.

Era como se nada pudesse se esgotar. Tão exuberante que, na adolescência, principiei a me entediar. Fui me afastando, até que, então na universidade, morando em outra cidade, não mais retornei. Meu pai de vez em quando me convidava, eu lhe dizia: “Quem sabe outro dia…” Durante o mestrado e o doutorado morei noutro país. Por dez anos só vinha à casa eventualmente. Mesmo assim não me decidi a pular para o outro lado da realidade. Meu pai já não me falava mais disso. Estava, aliás, bem mais velho, bem mais cansado. Eu tinha dito “quem sabe outro dia”. Outro dia nunca chega.

Tive, porém, a mesma sensação de atravessar um portal para outro mundo quando passei pela soleira do quarto de hospital e, três anos sem ver a casa, reencontrei meu pai à beira da morte. Um outro mundo, sombrio, definitivo e desesperador. Ele ainda falava um pouco, mas os médicos não lhe davam esperança. Minha mãe estava desolada. Alojei-me no meu antigo quarto, ainda bastante parecido com o que era (apesar de alguns primos e netos terem passado por lá), decidida a esperar que o momento final viesse. Ou a encontrar um milagre. Pois não tinha eu milagres à disposição?

Pensava eu, pelo menos. Descendo ao porão, foi-me jogado na cara que não. Pulei entre as hastes da moldura repetidas vezes, sem que nada de fantástico ocorresse. Confusa, atribui à alucinação infantil tudo o que eu estava convicta de ter vivido. Chorei a tarde toda.

Semanas se passaram, chegou meu aniversário, eu lhe fazia uma visita. Meu pai pediu para que eu me aproximasse e, com todo ar conspiratório que os seus noventa anos combalidos podiam ter, me segredou: “Hoje é o dia”. Eu soube exatamente do que ele estava falando. O momento final…”E eu sei que é seu aniversário e quero que você me dê um presente.” Tentou rir, acabou tossindo dolorosamente. Conseguiu enfim me orientar a trazer ao hospital o quadrão. Precisava tê-lo consigo antes de que tudo acabasse.

Fiz o diabo para colocar aquele quadrão ali dentro. Me escondi nos corredores esperando enfermeiros e médicos passarem, menti para zeladores dizendo que eu estava de mudança e não tinha para onde levar, todo tipo de coisa. Contra todas as probabilidades eu estava no quarto fechado, segurando em pé a moldura de madeira, dois de altura, cinco de largura. Meu pai sorriu. “Encosta ela na parede”, disse ele, “e me ajuda a andar até aí.” Eu fui até a cama, coloquei um braço direito abaixo da sua axila e o levei, devagarzinho. À frente do quadrão, chorei de novo.

“Pai, eu iria com você, mas não funciona mais comigo, não funciona!”, as lágrimas escorriam. Ele me olhou com carinho. “Mas você deu alguma coisa? Você tem que entregar alguma coisa para que ele te entregue alguma coisa.” Suspirou. “Dessa vez só tenho força pra me levar. Você vai ter de achar um jeito de se entregar sozinha.” Eu consenti, rindo, nervosa: “Grandes quadros, grandes responsabilidades, né?” Fiquei feliz por tê-lo feito rir. Ele pôs um pé pela moldura e a carne se fez invisível. Dissemos um ao outro que nos amávamos. “Pai, o que mais eu faço aqui sem você?”

“Tudo, ué”, disse ele, já avançando, sumindo aos poucos como o gato da Alice. Quando restou apenas a cabeça, flutuando contra o vazio, meu pai completou: “É um mundo velho todo novo, Haroldo. Explore!” E me deixou: idêntica, cinza, monótona, atulhada de silêncio — mas, no fundo do peito triste, com uma raizinha de cor e estrondo.

***

Esse conto foi um presente para o jornalista Ricardo Tayra e foi publicado no livrinho Me Dá uma História: 42.

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