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Bolsonaro 0x1 Gafanhotos

É julho de 2020. Bolsonaro está em reunião com os filhos e uns ministros no Palácio da Alvorada. Ouve uma batida na janela. Lá fora é uma manhã nublada e de mormaço, um desses dias que soam mais silenciosos que os outros — e TUMBF. Batida no vidro. Bolsonaro olha: uma gosma marrom-esverdeada no vidro e um corpo de inseto escorre. Antes que consiga pensar em qualquer coisa — TUMBF — mais um. E logo vem outro, mais outro, os gafanhotos chocam-se com violência, na vidraça os trincos pipocam aqui e ali. Ninguém parece ter percebido nada, Bolsonaro já está de pé. Quando o primeiro estoura a barreira, ele já está na porta. A nuvem força, a janela se despedaça, os fragmentos de vidro voam sobre mesa, político, carpete, aos gritos Damares reage, é do Diabo!, é do Diabo!, até perceber que se é gafanhoto não pode ser, não pode ser, será que eu… Salles está tremendo que nem vara verde, não consegue se situar, só vê manchas vibrantes e velozes, só ouve o zumbido cada vez mais intenso, ele se esconde debaixo da mesa, em pouco tempo aquilo entra na sua mente, ele alucina, no fundo do zum zum zum, vamos passar a boiada, sai daí e vem ver a boiada passar, Ricardinho… enquanto isso Eduardo faz cosplay de Al Pacino em Scarface, uma arma em cada mão, atirando nos bichos e berrando, de repente um lhe entra na boca, mais outro, mais outro, a boca de Eduardo é um funil, a nuvem vira um pequeno tornado, Eduardo incha, Eduardo explode, seus restos mortais mancham a sala toda, atingem especialmente Paulo Guedes, o Posto Ipiranga todo encharcado de sangue, coberto de tripas, a economia decolando!, ele reclama, e aí acontece isso!, os gafanhotos estão comendo o Chicago Boy bocadinho por bocadinho, os fluídos vitais vazam, ele pensa, bem, agora só pulmões e coração podem ter recursos, não tem pra todo mundo, não tem, racional até o último minuto, que no caso foi esse mesmo, porque não sei se os gafanhotos sabem de economia mas não fizeram desperdício nenhum… nisso o líder da República já está, puta que pariu, puta que pariu, pelo gramado tropeçando, vê uns apoiadores seus lá na frente, corre em direção deles, grita, o STF, porra!, o que foi, meu presidente?, a Globo, a OMS, vêm vindo, como assim, meu presidente?, querem a nossa hemorróida, porra!, vamos te defender, meu presidente, isso mesmo!, eles vão, ele fica; sentado no chão, suado como um porco, ele os vê andando marchandinhos dizendo mito, mito, mito, até que entram no palácio e só resta o silêncio. Bolsonaro acredita que escapou, que mais uma vez funcionou — aliás, funcionou uma vez, não tem porque não funcionar outra, tinha usado partido e aliado e ministro e o país de boi de piranha e tinha dado certo, agora deu também. Bolsonaro tão inexplicavelmente vivo como foi inexplicavelmente eleito presidente. O mormaço está forte e o céu é branco. Ele se deixa descansar um momento. Então, cai a noite. A noite? Mas são onze da manhã.

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