Episódio 9 – Quebra de Samba de Breque

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“Não pode se entregar”, ainda outra variação do mesmo princípio reativo. (Entregar-se a quem? À falta de força, ao desespero, à degradação.) Não obstante o defendesse, Hinagiku entregava-se, às vezes. “Sou um pobre velho, ó Senhor. Estou abandonado, ó Senhor”, cantava, como se a tristeza fosse uma coisa que a gente respira, as moléculas de sofrimento acumulando âncoras nos pulmões para depois se transferir em fogueiras de célula a célula. Se antes eu aprendera com o espetáculo do seu trabalho, o que me ensinava o espetáculo do seu fardo?

Inspira: em momentos lhe sobrevinha o cansaço, pétalas exangues, após esfregar roupas, quintal, cozinha, banheiro, margarida descorada, informava ao mundo, pararia “um pouco só”. Mesmo se não se permitia parar, a debilidade gotejava nos resultados, se mostrava na sujeira restante em um talher, quando antes tais detalhes não passariam desapercebidos. Estranho vê-la em fraqueza, vê-la abaixo de si mesma. Pelo fato de que se obrigava a continuar, para além da necessidade de manter o dia a dia ou de fruir sua habilidade, notava-se que, talvez mais agudamente do que para tantos outros, o trabalho era sobre ela uma condenação; seu encaixe na sociedade era dado pelo cumprimento destas funções — dona de casa: esposa: mulher.

Quando, então, vestia sua velhice, o seu cotidiano comportava mais períodos de descanso frente à televisão. Acompanhava as novenas do Santuário do Pai Eterno, cantarolava, como se a fé fosse uma tristeza diluída, “somos povo de Deus caminhando para a luz da Trindade sem véu”. Noutros momentos, encontrava em Rodrigo Faro a mesma aparência de bom moço, a mesma performance de caridade e o mesmo carisma hábil do padre Robson de Oliveira. Sua solidão se traduzia caricata pela crença de que as pessoas através da tela a podiam ver e lhe falavam diretamente. Quando o programa terminava, sorria e acenava com verdadeira simpatia (ao ponto de que desmentir esse contato mútuo parecia perigoso como extrair o “defeito que sustenta o edifício inteiro”, conforme alerta Clarice Lispector). É digna ou obscena a alegria que sobrevive às custas da ingenuidade?

***

Eu fui a um baile
Na Estação da Piedade
Trouxe muitas novidades
Coisas de admirar —
te aguenta aí que eu vou contar!

Da televisão, ressoava Jorge Veiga. A canção fluía por janelinhas retangulares que davam para o quintal. Do outro lado dos vidros emoldurados de um metal cinza e encardido, via-se Hinagiku, que acompanhava, com certo atraso, a letra da música. Lá fora, eu prosseguia meu treinamento.

Desenhava no espaço repetidamente o símbolo do infinito, com um cabo de vassoura descascado. O ar zumbia com os cortes sucessivos da madeira. Justeza do gesto, agilidade na troca de mãos. E então um golpe vertical que esmagasse a cabeça do oponente. Pedalava a bicicleta ergométrica na varanda, com velocidade bastante para que sua lataria tremesse sobre os pés roídos de ferrugem. Encarava o sol porque me disseram que não devia, e depois o embalava mancha no escuro do olho fechado. Meditava ao lado do jardim — supriam-se da terra negra as azaleias, o coentro, a arruda, a cebolinha e as rosas — eu me percorria o devir de todas as coisas. Devagarinho, o mundo dá a si mesmo uma alma; sente um cansaço de não-ser e passa a ser, brota matéria e acalanta no interior de tudo sua força primária: o Qi. Deixe-se levar, os braços erguidos para cima como Atlas. Formiga à superfície da pele a alegria da potência. Transparente e permeável, me atravessa o sendo global.

É possível controlar essa energia (é possível deixar que ela o coaja a querer controlá-la). Muito se passou até que eu conseguisse forçá-la a um foco (submeter-me a ser artéria). Pálpebras cerradas, eu colocava minhas mãos à direita, uma palma acima da outra, os dedos levemente dobrados, de modo a esboçar um globo vazio entre elas. O suor frio e as pernas trêmulas antecediam o calor nas pontas dos dedos, sutil, intensificando-se. Visualize. Canalize. No centro do globo, surgia um fiapo de energia, inconstante, e sumia; mais adiante, logrei algo do tamanho de uma semente de feijão, supernova microscópica. A tentativa de engordá-la parecia esvaziar-me de sangue. Eu tombava.

Me deu a mão e saímos passeando
E ela me conversando
E eu com toda atenção

***

“Cala a boca, vagabunda! Puta não tem vez! Vocês são piores que as cachorras. As cachorras têm vergonha. Que, puta? Vocês são lixo. Essas malditas destroem a vida da gente. Tinha que fazer que nem fizeram no Norte: botar pimenta na bicha delas”. Hinagiku tinha sua hora orwelliana do ódio: a novela das seis. Expira: ela chapinhava na ruela da raiva até alcançar o alívio. Ruminava traumas até esgotar-se. Era apaixonada por essa potência ou afetação de potência sempre disponível.

Pobre, era classista; desprezada por sua origem, era racista; mulher, era misógina. Sua consciência sofria de uma doença autoimune. O que me ensinava o espetáculo da sua contradição? Apontava, por um lado, que Hinagiku sabia os golpes a que estava exposta; e talvez nem tanto humilhava-se implorando cumplicidade aos seus opressores quanto deixava claro, a um tempo, que era superior àqueles a quem humilhavam e feita, consequentemente, de uma matéria muito menos vulnerável. Com todos eles, com qualquer um deles: sim. Comigo, não. Convicta de sua “inferioridade”, nunca conformada a essa “inferioridade”: quando a filha de um fazendeiro riu dela, deixou a lata de água que levava na cabeça e lhe atirou uma pedra na perna; quando lhe pareceu que seu marido andava derrisoriamente na rua com uma suposta amante, agarrou-se nas grades do portão com tamanha força e adrenalina que o arrancou do concreto. “Ninguém vai pisar em mim.” Comigo, não.

Entrincheirada até o último fôlego do seu vigor. Às vésperas de um ano novo, furtivo, encostado à porta do quarto, pude ouvi-la rememorar uma a uma suas mágoas e suas vontades natimortas. Se a vida se pode representar como um território pelo qual se marcha ou passeia, se peregrina ou se explora, Hinagiku palmilhava sem trégua os mesmos cômodos da mesma casa sob a qual pesavam os mesmos dias. Não obstante, naquele dia, orelha à madeira, escutei-a declarar um manifesto: “Não vou chorar. Todo ano novo eu choro. Esse ano, eu não vou chorar”.

Meto a mão no bolso
Pra puxar o meu cartão
Foi uma decepção:
caiu um ás do meu baralho
Ela manjou meu velho galho

“Caiu um ás do meu baralho”, ela repetiu, imitando a entonação dos sambistas de breque. Parecia contente em se lembrar da música, porém sua expressão se anuviou quando voltou o olhar à TV. O homem na tela, o cantor, tinha um bigode ralo sob olhos inteligentes. Vestia uma camisa de botão, calça e sapatos sociais; no bolso da camisa trazia um pacote de cigarros Derby azul e mantinha ao seu lado uma maleta executiva. “Kachiaru”, Hinagiku sussurrou. Seus olhos estiveram fixos em um ponto indefinido por alguns momentos, então me afirmou, com somente um pouco de apreensão: “Nós vamos enfrentar este homem no 23º Torneio de Artes Marciais”. Logo depois, pôs a mão na boca, como que pensando em algo, e acrescentou: “Mas, primeiro, temos de resgatar alguém”.

 


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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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