Episódio 8 – Passarinho Avoa o Abismo

[Este é um capítulo de As Esferas do Dragão. Saiba mais sobre o livro]

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Quando a encontrei, Hinagiku pintava. Em um quarto pequeno, entulhado de revistas Faça Fácil e volumes encadernados de Mãos de Ouro e Bom Apetite, seus dedos volumosos manejavam os pincéis. A tinta a óleo manchava sua pele áspera, sapecava carnavais desencontrados no seu rosto, multiplicava paisagens nas superfícies das telas. Árvore seca de tronco duplo antepõe-se ao rio de tons azuis-claros e verdes-escuros. Guirlanda de folhas acima da mulher de saia e cesto debaixo do braço; ao lado da moça, uma bica que despeja água nos tijolinhos. Conhecer uma pessoa é imergir em mitologia, pensei vendo tudo aquilo — ali, era óbvio, pois materializado, mas em toda ocasião caminhamos pelas memórias, espaços, expectativas; o outro funda em nós uma realidade: olhar nos olhos é sempre um convite a que nos invada uma nova teofania.

No vitral espelhado, cigano de camisa alva aberta no peito e colete vermelho com arabescos lilases brilhantes de purpurina; no pescoço um colar com cinco moedas. Hinagiku tinha já mais de oitenta anos, seus cabelos castanhos e brancos como a pelugem de um cervo; usava óculos com armação cor-de-rosa. Casinha à beira da queda d´água, porta entreaberta; ao fundo, geleiras de vale. Cavalo marrom, detalhes da carne feitos em preto, a pata esbranquiçada cisca. Dançava atrás dela uma cauda de macaco que, eu saberia depois, era o seu descontrole encarnado, resíduo do pavor de ver-se, do desespero de estima, do nojo do corpo. Seu treinamento me daria qualidades que eu me acostumaria a chamar de “força”. Que transmitiria aos outros como “força”.

— Busco as esferas do dragão para ressuscitar meu avô.

Hinagiku me olhou com atenção. “As pessoas que morrem ficam aqui com a gente, pagando o que fizeram. Não vão pra lugar nenhum não”. Eu não acho que seja assim, respondi. “Mas é. Pra onde é que as pessoas iam ir depois que morre? Ficam aqui”. Ela permaneceu em silêncio por algum tempo, pensando, e depois exclamou: “Bom, essas bolinhas parecem estar no centro de tudo. O inimigo vai estar no torneio por conta de uma delas. E a raiva dele de mim é que eu peguei uma outra dele”. A guerreira, tinha, portanto, uma das esferas. Eu fizera bem em vir para cá. “Vamos fazer o seguinte”, continuou ela, “eu te treino. Se você for bem, lhe dou a bolinha que eu tenho. Para pegar uma outra, você vem com a gente e luta no torneio. Pode ser bom ter um a mais”. Concordei.

***

A manhã era uma conversa com os passarinhos: comiam alpiste das mãos dela como se encarnasse um verso de Manoel de Barros. Céu nublado cor-de-chifre e a voz de José Paulo de Andrade no rádio. Tínhamos de nos alimentar bem, tomar um “café reforçado”; se a vontade faltasse, era mister “forçar a natureza” — subjugar o corpo: cabia à consciência decidir critérios. O princípio transparecia em uma série de outras frases, como “não deixar a doença tomar conta da gente” — o que supõe que é por leniência nossa, também, que adoecemos. Depois de comer, os exercícios começavam. Imitávamos os movimentos de Tai Chi Chuang pela TV Cultura; no segundo, jogávamos Final Fight (zeramos o dois e o três). Observá-la era já estudar diligência e resistência.

Sua atividade dizia que apesar de tudo as coisas tinham de ser feitas. Tinham de ser terminadas.  O desconforto se mata com o desconforto (o amargo do boldo contra aflições da barriga, o nojento do café com manteiga contra catarro na garganta, o insosso espesso e clorofilado do mentruz com leite contra a gripe), a dor se mata com a dor (com um corte profundo no braço, queimou folhas de jornal sobre a hemorragia, cauterizou-se de imediato; restou a pele pintalgada de borralho e sangue seco). Um “não quer curar?” contrapunha-se a qualquer resistência: claro, uma falácia, pois o que ela recomendava não era automaticamente certo, mas, ainda assim, ali se colocava a noção de que a nossa fraqueza alimenta a nossa fraqueza.

Quer continuar fraco? Era isso o subliminar. Até quando quero continuar fraco? Quando, no futuro, eu estivesse em Menwotsukeru e Kyua me discursasse sobre o “sacrifício humano” — a ameaça de morte a que o protagonista de Clube da Luta submetia outros caso não se realizassem integralmente — seria talvez por reencontrar Hinagiku nesse ponto que me fascinaria essa noção. Sua imposição de urgência, de clareza de desejo, de convicção: não quer viver? Hinagiku seria o lastro de verdade que eu sentiria de pronto nos versos do Arcade Fire “if you want something, don’t ask for nothing; if you want nothing, don’t ask for something”. No primeiro “livro” que escrevi, hoje perdido, uma história de fantasia, eu usei como epígrafe o “não aprendi a me render, que caía o inimigo então”, da Legião Urbana. A mesma ideia, transmutando-se, crescendo por agregação. E o motor era ela.

A noite era um toque que atravessa o abismo: minha cama à parede, a dela no centro do quarto, eu estendia minha mão para pegar a sua e nos ouvíamos inventar fantasias; ela, sabedora da gramática de Gianni Rodari sem sabê-lo. Era uma vez uma coruja que morava dentro de um tronco de árvore, com tapete e escrivaninha, um círculo cortado na madeira à guisa de porta. Tac Tac lá fora tac tac tac renitente sem fim lá fora. Mas o que ocorre, se enfezou a coruja, que distúrbio é esse? Tac tac ela põe a cara pra fora e tac tac tac descobre um pica-pau tac tac como no desenho! ostenta a penugem vermelha tac tac tac porém é todo preto tac tac tac tac e me destrói a casa. Ei! Ei! Chama a coruja, e ameaça chamar a polícia, o Psiu, o diabo. O pássaro lhe retruca cagando-lhe na cabeça. Tac tac aquela bosta toda seca encrosta sobre a vista tac tac tac a coruja está cega como a justiça tac tac e agora? Depois a Via Crúcis da sabedoria procurando alguém pra lhe limpar a cara.

***

A criação imediata — histórias ricocheteando como bolas de gude — a diversão da escatologia, os folguedos de protelar o sono, a magia de ir ao sonho por uma estrada de sonho: tudo isso me proveu um dom, que eu usaria mais e mais para me entreter, para me muralhar, para me subverter. O que eu vislumbrara era a faísca, o explosivo, a incineração a cada vez que os dedos interrompessem a digitação, detidos ante um pensamento criança — titeriteiro marionetando o mundo ou borboleta que deliberada se enrosca na rede caçadora. Sabia lá tudo isso? Não. Escrevi meu primeiro conto:

Era uma vez um gato tremendamente habilidoso na arte de saltar, o que lhe garantiu salvar-se seguidamente de ser devorado pela onça ardilosa. Derrotada, faz-se a onça humilde, diz: gato, fui má, desamiga; por favor, perdoe-me, conceda-me a honra de ser tua aluna. O gato, magnânimo, aceita. A onça doravante estuda toda variedade de salto, Tsukahara, Tkatchev, Jaeger, Comaneci, Yurchenko, todos. Semanas e meses sucedem-se, a aluna deixa de sentir as dores do aprendizado, o tédio torna-se companheiro cada vez mais frequente. Aprendi, ela conclui. Está findo o ensinamento, indaga ela afoita, está findo o ensinamento? Está. Ela não espera mais nada; rosna, ataca, veloz, feroz, com a habilidade que havia desenvolvido. Mas a sua pata vara o ar, a sua mandíbula morde o vento. Vixe! Que o gato dera um duplo twist carpado uma tripla pirueta um flic flac mortal esticado caindo numa sambadinha. E a onça sente um ardor no pescoço, efeito das garras que nem viu. Não havia lecionado tudo, o gato. Ele ri lá do alto da árvore. Você achou que ensinei tudo, é? Mas esse pulo é meu.

 


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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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