Episódio 7 – Da Derrota dos Pontos Finais

[Este é um capítulo de As Esferas do Dragão. Saiba mais sobre o livro]

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A cartomante consultou o I-Ching e recebeu: 50 — Ding, Instituir o Novo. “Também é chamado de ‘caldeirão’ ou ‘vaso para sacrifícios’. É pena que eu não tenha ingredientes de oferenda agora: tudo talvez se torne mais complicado por conta disso”, comentou ela; o seu cenho figurou pensamentos e ela passou a sussurrar é favorável ser perseverante e reto, é favorável ser perseverante e reto, até que chegou a algo como uma conclusão: “Vamos. Temos de cumprir a vontade do Céu”.

Descemos então a rua da Consolação — a via estava em polvorosa porque um menino trancara sua babá para fora do apartamento e um bombeiro subia pela escada retrátil do carro até a janela —, e avançamos através das paisagens de Camboriú, Gramado, Florianópolis. No Rio de Janeiro, capital, o Rock in Rio ocupava todas as televisões enquanto eu aguardava Hikari voltar com comida para nós dois. Em Curitiba, visitamos uma amiga sua e eu vi pela primeira vez uma menstruação. Ao largo do caminho a Ponte Pênsil era visível: estávamos na Ilha Porchat. Engraçado que tenhamos ido distante dela para depois retornar à mesma São Vicente, e só depois ir a Santos.

***

Percorremos um longo território. Com alegria, sim, mas a tempos era flagrante que Hikari não estava bem. Ela cantava, frequentemente, para si mesma, quase sem som:

How they dance in the courtyard, sweet summer sweat:
some dance to remember, some dance to forget

Acabou por confessar o que lhe afligia: desde a experiência gerada pela esfera de quatro estrelas a imagem da outra, ou seja, dela mesma duplicada, lhe assombrava. À distância, escondida na neblina da serra da Baixada, refletida nas águas do mar à beira da areia batida. Hikari acarinhava o objetivo de ir procurá-la, de estar face a face. “Creio que terei de abandoná-lo a meio caminho: você encontra Hinagiku e transmite meu recado a ela, diz que de todo jeito eu estarei no torneio para finalizarmos o que começamos”. Também nessa ocasião ela revelou um pouco do que planejavam: tinham, tanto ela e Hinagiku quanto um terceiro, chamado Shukun, um inimigo em comum. Não esclareceu bem o motivo do conflito, mas precisavam derrotá-lo e, sabendo que estaria em um campeonato de artes marciais que ocorreria em breve, pensaram que podiam pegá-lo algo desprevenido.

— Pois ele não é alguém que se pegue desprevenido propriamente dito.

Enquanto ela falava, aconteceu algo maravilhoso, que soou até como confirmação de que o destino apoiava a nossa separação temporária: Néfela me reencontrou. Como se abraça uma Nuvem? Fiz o que pude para festejá-la e demonstrar que tinha sentido sua falta. Como Hikari não podia montá-la — o vapor condensado não se fazia consistente para ela —, pedi à Dádiva que nos seguisse do alto até a hora da despedida; e lá ela foi, desenhando uma faixa cor de gema no azul impoluto.

***

Antes de nos deixarmos, ela me contou mais uma coisa sobre si.

Já disse que ouvia suas histórias com reverência; igualmente reverente recebi a informação de que era escritora. O título evolava magia: espremer do nada um tudo, acessar em si um saber generoso e produtivo, mas cioso da sua insciência; compor esses objetos que cortam séculos, os livros — dir-se-ia que vencem até mesmo a morte, por escarnecê-la, por ignorar que mate os corpos e as almas e manter intactas as vidas vividas. Escritor: logo eu quereria esse título para mim. Logo seria natural para mim que aterrado por um problema inesperado e insolúvel eu tomasse na mão a caneta.

“Você tem essa nuvem bonita”, Hikari disse, “vai gostar desse poema”. Passou a declamá-lo: “Hoje eu queria voar bem alto, me perder dessa vida, vivida, comprida, sentida… hoje eu queria que você me ouvisse, me visse, seguisse e sentisse que aquilo que alguém te disse era apenas amor, cor, dor…”. Comentei que gostara, mas nem sei se havia gostado: me impressionava simples o fato que alguém pudesse escrever. Ela sorriu, despediu-se e partiu. Ainda pude ouvi-la cantar baixinho:

And in the master’s chambers,
They gathered for the feast
They stab it with their steely knives
But they just can’t kill the beast

 


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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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