Episódio 6 – Tesouro Ornado de Baratas

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Na manhã bonita e tênue eu decidi segui-la: queria também conhecer e aprender com a sua mestra. If I am to battle, I must not be weak — não me dissera isso a canção? Eu concordo.

Antes de partir, deixei que Hikari visse a esfera — já confiava nela o suficiente. Ao fitá-la, a expressão de Hikari foi paralisada. Nos olhos arregalados, pupilas epilépticas; a boca se moveu muda como se soletrasse uma língua recém-aprendida. Logo, passou a murmurar: “Eu peço e ele me ajuda, sei que continua comigo, a qualquer instante”, sentia-se nela a vontade de crer em cada sílaba, o repouso de crer, “eu digo, me ajuda a arrumar isso, e ele me ajuda, você não acredita, mas eu sinto”. Então, cessou. Hikari! Hikari! Me assustei. Está se sentindo bem?

— A esfera… fez alguma coisa comigo… com a minha cabeça…

***

Um surto de imagens, uma harmonia de lembranças, um gosto de quebra-cabeça mapeado. Viu-se sobre areias amarelas, os pés andavam, andavam, sem que parecesse que ela tivesse algo a ver com aquilo. O sol ardia branquíssimo nos grãos; os passos afundavam em luz fofa e ardilosa. Hikari tinha consciência do cansaço, não se sentia cansada — o cansaço era mais e mais pesado, mas de alguma maneira alheio, não nela, mas sobreposto. Assim também as razões de caminhar, paixão ou êxtase.  Assim a necessidade de saber aonde caminhava. Ao redor dela flutuavam circunstâncias, entretanto ela em si era esse movimento puro. Peregrinava desde a pré-história das coisas. A jornada encerrou de súbito, porém. Havia encontrado o escrínio encrustado de baratas. Dentro dele…

— Eu mesma. Me olhando. Não era eu mesma, podia ser?

Ela reconhecia que as imagens evocadas pelo sonho apenas reelaboravam um livro que lera. Porém, acrescentavam detalhes tão devastadores, alteravam elementos tão estruturais que era como olhar com cada olho um mundo distinto. O delírio diluía-se, ela sentia aquele mundo fenecendo (viriam também a ele os belicosos do Jade?), urgia conversar, “fala comigo”, disse. O baú dissipou-se, a mulher transpareceu cá e lá, próxima agora, distante então. Hikari foi inútil de uma visagem a outra, fala comigo, permaneça, fala comigo, permaneça. Quando enfim pareceu que tocaria o rosto alheio ou próprio, a ilusão cessou, e ela despertou com os dedos eletrificados pela possibilidade do toque.

***

Também ouvi você falando outras coisas que não essas, tais e tais frases sobre o alguém que apesar de tudo estava lá. “Disso não me lembro”, Hikari me respondeu. “Vagamente recordo o começo do que vislumbrei, aparentemente um pesadelo puxou um sonho que puxou uma profecia”.

Estranho que a esfera não tenha causado em mim nada semelhante. As outras teriam tal impacto? Pesadelo, sonho, profecia, em todas elas, surgindo como soco? Overdose. Escapei de uma; haveria, me convenço a sustentar a ideia, seis sobrecargas — até a leveza do desejo realizado.

 


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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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