Episódio 5 – Do I-Ching às Soalhas

[Este é um capítulo de As Esferas do Dragão. Saiba mais sobre o livro]

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“Chamam-se Jade”, disse Hikari, “eles apareceram não faz muito tempo, com essa ladainha: de que esta dimensão está para morrer ou até já morreu, sei lá, e eles são o nosso último recurso”. Os seus alvos preferenciais eram aqueles “como nós” — as expressões são dela — que têm “características especiais”, isto é, que exibem alguma forma de poder. (No meu caso, devem ter sido ouriçados pela minha montaria, por Néfela, ainda desaparecida — mas depois viram em mim algo que os interessou ainda mais, que será? O brilho pressentido da esfera? O toque de Hermes no meu destino?) Quanto a esses desviantes, portanto: “Eles caçam a gente e depois prendem nuns ‘hospitais’ deles, eu acho que são mais é presídios mesmo, fazem não sei que coisas lá dentro, ‘preservam’, eles dizem. Falam de si o tempo todo como se fossem grandes heróis. Sorte ter escapado deles vindo até aqui”.

Estávamos em uma gruta, os arredores bem escondidos por uma mata espessa. Hikari viajara até ali porque se encaminhava à morada de sua mestra, Hinagiku. Tinham assuntos importantíssimos para tratar; o Jade já a havia atrasado muito. “Logo o torneio começará e podemos perder nossa chance”, explicou ela, imediatamente depois se encolhendo um pouco, sabendo que falou demais.

***

Havia chegado até ali em segurança, defendeu ela, porque estava sob resguardo do seu I-Ching, jogo e obra de filosofia, declinação das 64 facetas dos atos e das realidades. Tirando das varetas e moedas as coordenadas dos conselhos guardados no texto, harmonizava-se com as mais benignas intenções que o destino dirigia a ela. (Honra ou demérito um livro ser reduzido à oráculo? Pode este responder aleatório às preocupações alheias inumeráveis? Eu não posso.) Hikari parecia empolgada com essas manifestações de mistério como quem tem uma fofoca a contar: sabor do conhecimento privativo, de não ser comum porque se presenciou o incomum. Claro, não só de empáfia se fazia a sua fé.

“Vamos ver o que o livro diz da sua busca?”, perguntou; se referia à busca pelas esferas. Com pernas ostensivamente abertas e cobertas pela saia vermelha, afetou uma sexualidade agressiva, de acordo com a entidade que procurava introjetar. Distribuiu seus instrumentos na mesa e extraiu dos futuros o seguinte número e conceito: 25 — Wu Wang, Sem Falsidade, definido “Quando o ponto de virada retornar, não haverá falsidade nem insinceridade. Assim, depois do Retorno vem Sem Falsidade”. A mensagem, Hikari lia as interpretações registradas, era positiva: indicava uma situação positiva, em que o engano se tornava passado, a perseverança adentraria uma veracidade. Guardei, porém, um trecho que parecia aludir a desdobramentos mais espraiados:

Quando a verdade acaba, para onde se pode ir?

Por um lado, tratava do já dito: é só no âmbito da verdade que se encontram caminhos e paradeiros. Contudo, não se poderia ler a frase no sentido da conclusão de uma performance da verdade? Isto é, quando a verdade faz o que tem que fazer, estabelece o que consegue estabelecer, sobra alguma vereda ou interessam ainda as vias variadas? Mas sinto que interpreto mal e exagero a carta.

***

nada a temer, senão o correr da luta
nada a fazer, senão esquecer o medo

As pandeiretas bailavam nas mãos de Hikari, somavam-se os choques metálicos das soalhas aos sons ruminantes da fogueira. Eu me encantava. Dizia, vez depois de vez, toque uma música para mim, eu não estou com sono e agora não posso ir a lugar algum. E ela cantava.

abrir o peito à força, numa procura
fugir às armadilhas da noite escura

Eu reconhecia outra vez como se fosse pela primeira vez que a música pode dar esquadro ao mundo, se há não muito tempo eu procurava encerrar meu luto nas palavras dos cantores, agora eu via nos versos da bruxa aberturas e rumos, estradas e vielas apropriadas ao sonho.

longe se vai sonhando demais
mas onde se chega assim?
vou descobrir o que me faz sentir
eu, caçador de mim…

Que fúrias me convocam quando me identifico com essa designação “caçador de mim”? Em torno de qual sol me fariam rir, dançar, endoidar? Minha fala não é minha, mas é tão minha.

 

***

Ainda mais, de madrugada, próximos ao calor, o fogo articulando-se em teatro de sombras na terra, nos troncos das árvores, no teto de um apartamento, formas abstratas, desfigurações dos carros na avenida, tão insignificantes e recriados em fantástico nessa clausura pela luz que invade a veneziana. Hikari, então, me contou histórias, e me encantei outra vez — pois o seu tom, a sua postura, as suas escolhas de entonação, tensionamento e tema, tudo atraía como um acontecimento. Talvez tenha sido ali a primeira vez em que me mordeu a literatura. Toth sabe bem à voz de mãe.

 


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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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