Episódio 4 – Falência do Mundo

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O horizonte estava anuviado e nevoento; o céu, porém, fora algumas nuvens gordas, era todo azul. Sobrevoei uma planície em que se alternavam tons mais claro ou mais escuros de verde e em que despontavam formações rochosas que eventualmente erigiam-se à nobreza de montanhas. Um rio serpenteava cortando a paisagem ao meio. Néfela deixava atrás de nós um rastro dourado, como que uma neve levíssima feita de ouro. Até me senti alegre: a liberdade lava.

Contudo, o idílico da paisagem foi rompido pela visão do movimento de tropas no solo. Descuidado, me aproximei — não tanto, mas, logo seria evidente, demais. Os soldados escoltavam prisioneiros: ligados por uma corrente de plástico pintada de cinza, vinham bonecos com vida, um cowboy, um astronauta, um assassino de broca na cabeça; coberto de fita isolante, andava com dificuldade um roedor amarelo capaz de emanar descargas elétricas; debaixo de pancadas que lhe eram dadas com seu próprio chicote, conseguia manter o orgulho um professor de antropologia afeito à aventura. O grupo estava sendo levado para um caminhão militar nas proximidades. Os uniformes dos militares eram cor de musgo, com detalhes bordô. Tinham todos o mesmo rosto. Um exclamou ao celular:

— Procuravam se isolar nas matas, capitão. Mas nós conseguimos salvá-los.

E no instante seguinte me avistou. “Um momento, capitão, temos uma situação…”, explicou ele, ao passo que afastava o celular da orelha e o colocava no bolso. Sem que tivesse feito qualquer gesto, os seus companheiros já se mostravam conscientes da minha presença e me vigiavam, sisudos. Por instinto, fiz com que Néfela elevasse sua altitude. Não pareceram notar. Aquele que agia como líder acoplou à têmpora um dispositivo metálico que posicionava sobre o seu olho direito uma lente rubra — números passaram por ela conforme ele me observava. Então, ele gritou: “Não temos seu registro e a sua assinatura energética é incomum. Demandamos que se identifique e se entregue”. E ainda:

— Este é um mundo moribundo. Você pode ser preservado. Nós somos a redenção.

Aquilo não soou reconfortante. Ante dezenas de olhos, que denunciavam indiferença e embaraço na mesma medida, disparei pelos ares, abaixando-me o máximo possível no interior de Néfela. Ouvi as metralhadoras datilografando o ambiente; encolhi-me mais ainda, ordenei em minha mente que a Nuvem subisse o quanto pudesse. A estratégia pareceu funcionar por pouco tempo: logo vieram os aviões de guerra, cilíndricos, com hélices de três pás. Sobrevoávamos uma floresta. Num rasante, embrenhei-me nela. Driblava os troncos de sopetão, enroscando-se em cipós, atropelando galhos. De repente, uma onda de impacto me atirou no ar: deixaram cair uma bomba. Cai na terra preta e, atordoado, tentei me arrastar. Outra bomba tombou próxima. Fui engolido por calor e fumaça. Sob a luminosidade filtrada pelo verde, me senti tonto: o dióxido, a tosse. Desmaiei.

***

Abri os olhos e vi os dela. Hikari me encontrara na inconsciência e me estendia a mão. O seu rosto somava Clarice Lispector e Janis Joplin; na sua vista, queimava Iansã. Vermelhos-claros eram os seus cabelos, rubra a saia, preta a bata. Tinha na mão esquerda um bastão de cerca de um metro (depois aprendi que se chamava hanbo), enfeitado na ponta por uma estrela. Amarrada à cintura, portava uma pandeireta. Devo ter parecido assustado, pois se apressou a explanar: “Estamos em segurança, estamos bem escondidos. E de todo jeito eles não insistem muito nas perseguições, eles acham que é o nosso destino se deixar levar. Bom, isso não vai ser nosso destino agora”.

Constatei que nada estava quebrado ou doendo muito e me levantei. Afirmei: eu não vim para lutar, não sei quem são esses. Eu estou aqui para reunir as esferas do Dragão e ressuscitar o meu avô. “É, uma coisa é certa: não lutar contra eles não é uma opção. Eu tenho uma preocupação muito maior — bem, duas, mas uma é mais urgente — e estou tendo de lidar com eles. Melhor se preparar”. Eu saberia lutar? Que recursos a luta encontraria em mim? “Herói”, afinal, o deus me chamara…

— Qual o seu nome? – perguntou ela.

Hesitei. Não por desconfiar dela, mas porque essa informação não veio imediata como sempre; nem mesmo com esforço conseguia me lembrar. Era como se eu procurasse algo tateando em uma névoa espessa. Ela testemunhava a minha confusão, surpresa. Súbita, decidiu batizar-me:

— Kurokun? Que tal? Vou chamá-lo Kurokun.

O alívio de ter nome tomou-me. Sorri, admirado do som: pode tanto uma única palavra. Não deixei de registrar também uma habilidade de Hikari que eu entenderia mais precisamente com o tempo: ela sabia perceber e atender às carências e vontades de alguém, o que lhe capacitava a satisfazer e a guardar certa distância, a um passo. Não chegava a compreender os objetivos e motivações de um projeto, mas sacava a empolgação que lhe alimentava: empolgava-se com ela; sorria gentil ao sonho de uma realização, prescindindo do conhecimento sobre a importância ou descalabro do a realizar. Hikari correspondia — o que, usualmente, é bastante: alimenta — frivolamente, mas alimenta — e esse banquete de condimentos proporciona a alegria necessária ao desenvolvimento. Se você está no ringue, ela é aquela que grita e aplaude: é possível ganhar o gosto de vencer apenas com isso.

Essa lasca do comportamento de Hikari deixaria em mim sua marca: pois alvitro que em nosso peito abrigamos inumeráveis bússolas, e de uma delas se definiam agora os pontos cardeais, articulavam-se norte, condescendência, e sul, leste e oeste, individualismo, independência, carinho. Eu divergiria mais ou menos do giro dessa agulha; construiria sob a sua força, à força, outras direções.

 


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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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