Episódio 2 – Três de Julho

[Este é um capítulo de As Esferas do Dragão. Saiba mais sobre o livro]

*

A fala prevarica. Por exemplo:

— Ele não resistiu.

***

Em um três de julho que é sempre ontem, uma das suas crises outra vez quebrou a tarde. Na cama hospitalar que de uns tempos para cá ocupava o lado direito do móvel em que dormira metade da sua vida, ele parecia sofrer o mesmo sofrimento regular o suficiente para ser acolhido com tédio. O crucifixo de madeira na parede, os espelhos arqueados no dossel, o interruptor estendido para que não fosse preciso levantar para ligar/desligar a luz — sua decrepitude já era tão comum quanto tais objetos com que povoara o seu conforto. Os recursos anestésicos da vida são inúmeros e potentes.

Mas não era a angústia de sempre — como gostávamos da angústia de sempre!

***

O desespero da minha avó: ineficiente. A diligência dos vizinhos: de um funesto oblíquo. O rosto do enfermeiro: um veredicto. A ambulância desperdiçou a sua pressa na avenida. Ele havia olhado para mim, a boca aberta, o rosto magro e mau barbeado, acho que tinha medo. Agora no veículo olhava eu para ele, sua face à deriva, atormentada. Mas ainda parecia ser a angústia de sempre.

No Hospital Municipal Vereador José Storopolli, eu me distraí por horas com a minha confiança na normalidade, com os planos do dia seguinte, com a luneta mágica de Joaquim Manuel de Macedo. Enfim, disse o médico, tinha o olho esquerdo feito de vidro, ele não resistiu, algoz, ele não resistiu.

***

Como não houvesse algo dentro de mim que pudesse reagir a isso, eu não senti nada. Foi tímida e canhestra a dor que tomou impulso e se adensou; primeiro, a dormência. Entristecer-se é também um atuar de acordo, para tal causa apresento tal efeito. Antônio de Oliveira morreu, e me faltava a formação para perder um pai (mesmo assim me culpo: não o amava o bastante?). Na sala fechada do doutor, alguns minutos mais tarde, ele me forçava a compreender as burocracias do luto. Uma necropsia era necessária, mas se houver um médico que possa dar um laudo não precisa, fixamente me olhava, eu assentia com a cabeça, tenho de falar com a minha mãe, enquanto isso minhas pernas se enchiam de fraqueza (considerei: “Não é que isso acontece? Ou será que estou fingindo?”) e eu tive de me escorar na mesa. Atenção completa nas pontas dos dedos, na madeira. As lembranças a despontar como estrelas, delineando o irrecuperável; narrativas construindo um buraco negro.

***

A fala implode. Por exemplo:

Atravessei o hospital até a saída, constatando que, contudo, o mundo continuava. Lá fora, na rua ao lado, sem iluminação, disquei uma responsabilidade.

— Mãe.

Onde outra palavra? Eu quero falar: é preciso falar: é meu dever falar. Fale.

— Mãe.

Mas ela já entende. Despedaça-se. Seu choro agudo. Meu soluço torturado.

— Duanne…

No fim de tudo estamos tão próximos quanto no início de tudo.

***

De madrugada, tivemos de ir ao necrotério para vestir o cadáver do meu avô. Minha mãe não quis ir, não estava pronta (eu a culpei por isso, por crer que era uma obrigação dos filhos), então fomos eu e meu tio. Recordo as débeis luzes dianteiras revelando as ruas vazias; não lembro de nenhuma das muitas palavras ditas por ele. Chegamos e nos levaram ao corpo na plataforma de metal. Frio e retorcido como a vida o havia deixado por fim; o caduceu tatuado no peito, em um verde esmaecido; lavado (tê-lo-iam lavado com cuidado ou a jatos de mangueira, feito um bicho?); o nariz entupido de algodão, para evitar o fedor putrefato. É uma honra estar aqui e fazer isso por ti, vô. Colocamos suas calças sociais escuras, sua camisa de botão, seus sapatos. Em dado momento, meu tio, desde sempre a imagem da dureza, começou a chorar (pensei: conteria a si mesmo se se lembrasse de que posso vê-lo? Eu nunca o tinha visto assim e abaixei a cabeça por pudor e respeito); com voz infantil, disse suas últimas palavras, pesadas de ternura e acompanhadas de uma carícia na bochecha do pai.

***

Foi então que avistei o babuíno pela primeira vez. O símbolo na carne, liberado agora pela morte, o convocara. Pois embora viesse como Toth, guardava a afeição de Hermes pelas cobras gêmeas que adornavam seu bastão alado. Vestia uma espécie de sotaina de camurça verde cujo peitoral e gola alta eram feitos de couro marrom-escuro e liso; por baixo, usava uma grossa blusa de lã, da qual se podiam ver as mangas desfiadas indo até os pulsos. Os pêlos estufavam os tecidos. Seu chapéu em formato de lua cheia sobre lua crescente brilhava com a luz da lua minguante lá em cima. “De mim vêm os prodígios de que te orgulhas, escriba. De mim a condição de possibilidade dos esconderijos a céu aberto e das penicilinas do imaginário. Prestidigitador, plagiário, te ofereço uma resposta. Um caminho a caminhar. Porque faz tanto tempo que não me refresca um herói indo-se pelos percursos! — e eu sinto fome. Toma este presente antecipado e considera a viagem”.

Dissuadido do calor da minha solidão, eu o observara fixamente, e foi com algum grau de medo que aceitei o que me entregava — a esfera de quatro estrelas. Algo nela me atraía demais, uma fundura, não o que informa, soluciona, segreda, mas a expectativa tensa de uma mensagem. A possibilidade vibrava na palma da minha mão direita, assim como na mente comichava a palavra “herói”.

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Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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