Metajornalismo

#tuiteumfilme na Bravo!

João Gabriel de Lima, diretor de redação de Bravo!, escreveu um artigo sobre Pedro Almodóvar, tratando de seu filme mais recente — A Pele que Habito — e das características mais marcantes da obra do diretor. Esqueça o lead tradicional: o jornalista começa o texto com um jogo de adivinha inspirado nas frases curtas do Twitter.

Se você é fã do diretor espanhol Pedro Almodóvar, tente adivinhar quais são os filmes abaixo – reduzidos aos 140 caracteres da linguagem nervosa do Twitter:

(a) Enfermeiro estupra bailarina em coma e, antes de se matar, procura melhor amigo – escritor cuja mulher também havia entrado em coma.

(b) Mulher abandonada por amante casado perde o eixo, coloca fogo na cama e faz polícia e amigos dormirem com sopa soporífera.

(c) Mãe vê filho morrer atropelado enquanto ele pede autógrafo para diva do teatro – e, durante o luto, decide se tornar secretária da atriz.

(d) Policial fica paraplégico enquanto salva mulher ameaçada por traficante de drogas. Eles se casam, mas não são felizes para sempre.

(e) Cirurgião sequestra homem e o transforma em objeto de experiências médicas – dermatológicas, psiquiátricas e ginecológicas.

As descrições lembram a hashtag #tuiteumfilme, que se espalhou pelo Twitter há algum tempo atrás. Há alguns deles aqui e aqui. A partir das respostas, João Gabriel toca o que seria o primeiro parágrafo em um texto mais comum — dá algum contexto e apresenta os desenvolvimentos que fará. Depois, volta ao jogo:

Dizer que Almodóvar é um cineasta autoral pode ser lugar-comum. Bem mais interessante é tentar descobrir de quem ele é herdeiro na liga dos autores de filmes considerados “de arte”. Novamente, vale o teste do Twitter. Tente adivinhar quais os autores dos clássicos abaixo – e qual deles é o verdadeiro inspirador de Almodóvar:

(a) Jornalista em crise existencial perambula pelas ruas de Roma e perde as ilusões depois que seu mentor comete um crime.

(b) Cineasta em crise existencial separa-se da mulher, tenta se matar para recuperar a amada e fracassa na morte e no amor.

(c) Atriz em crise existencial fica muda. É internada numa clínica e acaba se envolvendo emocionalmente com a enfermeira.

(d) Adolescente em crise briga na escola, entra em conflito com a família, foge de casa e se torna flâneur em Paris.

(e) Fotógrafo fica obcecado por um crime que presenciou. Cura-se da obsessão assistindo a um jogo de tênis sem bolinha.

O recurso se torna ainda mais significativo no trecho seguinte: a forma lúdica e inspirada no microblog não se esgota em um atrativo estético, mas é usada para expor a especificidade de Almodóvar como autor, que é a tese do autor da matéria:

O contraste entre os resumos tuitados é significativo. De um lado, como já se disse, sentenças no gênero “espreme-sai-sangue”. De outro, jornadas mentais de personagens atormentados. Filmes como os listados acima ajudaram a estabelecer o clichê do cinema autoral europeu como algo centrado no percurso interior do protagonista, que ao longo da trama vive situações que aparentemente não se conectam – mas que, no conjunto, ajudam o personagem a aprender algo sobre si próprio. Como todo clichê, é reducionista e dá conta apenas de parte do fenômeno. Mas, como todo clichê, tem um fundo de verdade. Estabelece o que se tornou a tradição do cinema europeu. E essa tradição nada tem a ver com Almodóvar.

Tentei achar os artigos da New Yorker que João Gabriel de Lima cita, mas não consegui. Encontrei alguns outros dos mesmos autores. 
O primeiro citado, David Denby (“chegou a dizer que as famosas cores que aparecem em seus filmes lembram as usadas em (…) liquidações”), escreveu também sobre A Pele que Habito. Sua opinião é muito diferente da exposta na Bravo!. Na revista brasileira, diz-se que o filme tem um “exagero de criatividade e talento” que seria comum no diretor. Denby afirma: “It is the least enjoyable of Almodóvar’s films, a movie that is serious without being intelligent“; e “the most spontaneous of all movie artists has succumbed to “art,” and the results are a bummer“.
O segundo, Richard Brody (“escreveu [que] no teatro o ator traz o personagem para que o autor o lapide, enquanto no cinema o diretor arranca o personagem pela goela do ator”), tratou do mesmo tema em pelo menos dois posts: Pedro Almodóvar vs. Antonio Banderas e Sean Penn vs. Terrence Malick.

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