Metajornalismo

Informação e sedução

Domingo, enquanto eu estava no fechamento do caderno de esportes de A Tribuna, reparei em dois títulos de outros jornais que abriam a mesma notícia. Reparei na falta de atenção que um permitia e no interesse vibrante que o outro causava. O evento de fundo é o jogo Corinthians x Santos, o fato em questão é a declaração pós-partida do jogador santista Marquinhos, a saber, de que os adversários tinham sido favorecidos não só pelo juiz como por uma conspiração de sabe-se lá quem para que os corintianos faturassem uma taça no ano do centenário. Ele disse, nas palavras de O Estado de S.Paulo, que fez a citação mais extensa:

Todo jogo o Corinthians está sendo ajudado. Não sei se é coincidência ou se estão puxando o saco”, disparou, antes de defender sua posição regular no gol anulado pelo juiz. “Eu estava muito atrás do cara. Mas se eles não ganharem nada no ano do centenário, morre alguém. Todos os times que estão no Brasileiro precisam abrir o olho“.

O Estadão abriu assim:

Jogadores do Santos criticam arbitragem do clássico

 A Folha de S.Paulo, desta forma:

“Se o Corinthians não ganhar este ano, morre alguém”, diz Marquinhos

Acredito que está evidente a diferença de força de um título para o outro. De todo modo, creio que um meio de explicitar o que quero dizer é destacar que há um certo marasmo no primeiro, uma carga de “até ai, nada de novo”, ou a falta de uma resposta para o possível “e daí?”. O segundo instiga porque ele pode se referir a muitas matérias, o que o Marquinhos disse seria resumo ideal de vários outros conteúdos: no fim das contas, o título te deixa especulando muito e sabendo pouco, e então você clica. Por outro lado, ele é bastante sensacionalista. Para um meio termo, existe esse do Globoesporte.com:

Marquinhos insinua favorecimento ao Timão no ano do centenário

Esse último me parece o melhor de todos, objetivo, sem oba-oba, direto. Além de tudo, logo na linha fina (que é um recurso que não existe nos sites dos outros veículos citados), se destaca a frase-bomba que a Folha usou. Se você pensa bem, o Globoesporte.com demonstra que o que aconteceu foi que o repórter do Estadão não pegou a notícia, o fato vívido mais importante de então. Acusação de favorecimento é sem sombra de dúvida mais notícia do que jogadores fazem crítica ao juiz. Por fim, é também só no site da Globo que se tem algo à guisa de repercussão: “Após acusações de Marquinhos, Mano revida: ‘Cuidem de suas vidas’“.
Nos outros dois veículos, a matéria com os depoimentos de Mano Menezes nos vestiários destacam outras coisas, o que pode ser uma falha principalmente no caso da Folha, porque com um título como aquele da matéria anterior a pergunta que surge é: “mas, e aí, o que foi que o Corinthians disse disso?”, e essa questão fica sem resposta. Os títulos usados nessas entrevistas do Mano também são contrastáveis:

Folha: “O fundamental foi jogar futebol para vencer o Santos”, diz Mano Menezes

EstadãoMano aponta ofensividade como fundamental em clássico

Novamente o uso de aspas pelo primeiro jornal, mas desta vez penso que o outro fez mais jornalismo. A frase do treinador é forte, mas, no fundo, “o fundamental foi jogar futebol” não diz nada, e diz menos ainda pra quem é pouco ligado no esporte. O segundo título traz uma informação, e a traz de tal forma concisa que você nem precisa ler a matéria inteira. Você tem o fato.
Há uma série de outras matérias na cobertura (como essa, essa e essa), mas não é meu objetivo comentar todas. Retiro de tudo isso dois fatores que podem servir de guia, pelo menos para mim, na hora de escolher um título: a quantidade de informação e o potencial de sedução que a frase possui. 
Para um visão mais ampla sobre títulos, além desses dois qualitativos, há dois posts de Alessandro Martins que avaliam outros critérios, que valem principalmente para modelos mais elásticos do que o da matéria padrão dos jornais informativos diários — “Com estas 10 idéias seu título vai fisgar o leitor e ele vai pedir mais” e “Escreva títulos matadores e seduza… a atenção do leitor“. Se vocês tiverem outros exemplos, outros links e outras ideias, por favor, comentem.

Um comentário sobre “Informação e sedução

  1. Muito boa análise, Duanne!

    O problema encontrado dentro da cobertura em Esporte, principalmente no futebol, é que os jornalistas pensam que estão escrevendo apenas para aqueles que 'conhecem' o assunto.

    Logo, quando alguém escreve um título que não chama a atenção, pensa que o leitor já sabe de tudo que aconteceu. Não é preciso uma declaração forte porque quem gosta de futebol vai ler de qualquer forma.

    É um pensamento errado. Da mesma forma que a cobertura que é realizada atualmente. Em pelo menos 60 anos de coberturas esportivas, quase sempre há o foco no óbvio (o jogo, a partida, a disputa). Falta o diferente, não apenas em títulos. Necessitamos da cobertura do diferencial, não só apenas do fato em si e das apas dadas pelos envolvidos.

    No Esporte, há o sensacionalismo ou a 'preguiça' por criar algo que chame a atenção. Sorte que outras editorias como Comportamento e Política, não há esse marasmo na hora de criar títulos, linha fina, etc.

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