Metajornalismo

Ideia de Si

Na Bravo! de maio, saiu um perfil do fotógrafo Bob Wolfenson, feito por Armando Antenore. Wolfenson trata da sua arte, mas ao falar dela evidencia uma tensão que é própria do jornalismo como um todo, e talvez do documentarismo e de algumas estirpes da produção artística. Acredito com a mesma facilidade que quando ele fala da arte de captar superfícies ele poderia aplicar tudo o que diz à vida, ao próprio cotidiano, que seria também essa batalha cordial entre incorrigíveis trapaceiros.

Mas estou divagando.

O perfil não é bem um perfil. Saiu na seção Confessionário, que já contou com Angeli, Contardo Calligaris, Marília Gabriela, Erasmo Carlos, José Mojica MartinsMatheus Nachtergaele, e mais. A Confessionário é bem escrita e diferente do convencional. Primeiro, não procura abranger o personagem, como a maioria dos perfis, mas iluminar algumas latitudes dele. Não tem uma estrutura linear, as partes do texto poderiam ser lidas individualmente, poderiam estar em conjunto com outras, poderiam ser outras. Talvez seja essa a ideia.
Abaixo um trecho. Quando puserem online, vinculo o artigo completo:

(…) A fotografia é somente a arte de captar superfícies. — Assim que se defrontam com uma câmera, os modelos, quaisquer modelos, buscam principalmente iludir os fotógrafos. Concordam em se mostrar, ainda que não se mostrem de fato. Escondem-se fingindo não se esconder. E tudo porque desejam transmitir para a objetiva a imagem que gostariam de ter em vez da que pensam ter. Do mesmo jeito, assim que se colocam atrás de uma câmera, os fotógrafos, quaisquer fotógrafos, buscam principalmente iludir os modelos. Sedutores, tentam passar a ideia de que irão espelhá-los. Ou melhor: de que irão espelhar aquilo que os modelos sonham ver no espelho. Mas o que os fotógrafos pretendem de verdade é se apropriar das desavisadas criaturas para expressar um pouco de si próprios. Retratos derivam justamente daí, da batalha cordial e silenciosa entre incorrigíveis trapaceiros (…)

Tensão entre o que se é e o que se quer ser e o que se quer mostrar; me lembrou Álvaro de Campos, em Passagem das Horas: “uso monóculo para não parecer igual à idéia real que faço de mim“…

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