Metajornalismo

Como se faz: manipulação

É uma afirmação meio pesada, mas não sei se há exemplo melhor de manipulação midiática do que a cobertura em causa própria que fez a Rede Globo a respeito do confronto de Dunga com um de seus jornalistas. A emissora fez um texto em tom de editorial que transmitiu não só pelo Fantástico, no canal televisivo central do grupo, como na SporTV e na Globo News. Como o UOL Esportes noticiou:

Schmidt falou: “O técnico Dunga não apresenta nas entrevistas comportamento compatível de alguém tão vitorioso no esporte. Com frequência, usa frases grosseiras e irônicas”. O jornalista da Globo não mencionou, no entanto, o motivo do atrito, ou seja, a recusa do técnico em aceitar um acordo feito entre o presidente da CBF e a emissora“. [leia completo]

Nos bastidores, jamais mencionado pela Globo, uma briga por maior acesso à seleção. No dia seguinte, o site do Globo Esporte já publicava que Dunga poderia ser punido pela Fifa pelas ofensas. A matéria não parte, no entanto, de uma manifestação da entidade, mas da averiguação do regulamento — tem mesmo um porta-voz que diz desconhecer os incidentes. É de se pensar: se o conflito fosse com um jornalista argentino de passagem, o portal teria se preocupado em investigar as possíveis punições? Quem quiser um comparativo, na Folha, o mesmo fato saiu diferente.
Há outros exemplos de tendência escusa na cobertura. Para falar do técnico Vladimir Weiss, da Eslováquia, que teve um imbróglio muito diferente com a imprensa, a Globo o aproxima do seu conflito particular: “‘Dunga da Eslováquia’ não aparece em coletiva e revolta imprensa“. Weiss “encerrou uma entrevista coletiva 40 segundos após se irritar com uma pergunta e ameaçou um repórter de agressão”, o que não é exatamente o caso do técnico brasileiro. Mais um: em “Luiz Felipe Scolari critica a relação de Dunga com a imprensa“, esse título dá determinada ideia, que não é a que quis passar o Felipão. Ele disse:

Eu não sei qual é o conflito que existe. Eu também já tive os meus tempos de conflitos. Mas acho que todo mundo poderia ter um pouco mais de aceitação. Quando digo todo mundo é todo mundo: comissão técnica e imprensa“. [leia completo]

O título também podia ser: “Scolari critica a relação da imprensa com Dunga”… a escolha de um teor e não outro explicita a tendência. Creio que a manipulação se construa assim: com o balizamento da compreensão de um acontecimento. Esse é um exemplo pequeno, mal-sucedido e simplório de algo que pode ocorrer em escala muito maior e com efeitos muito mais negativos. Nunca se afirma: sejam contra o técnico. Mas se coloca uma notícia aqui, uma outra ali, e um quadro cognitivo é determinado. Se esse fosse o único meio de comunicação disponível, essa logo seria a verdade. Seria fácil compor rápido e suavemente o Dunga vilão.
O evento suscita ainda outra discussão. O jornalista Luis Mendes, frente às reações violentas de Dunga, conclamou os repórteres à greve, ao boicote: para ele, a imprensa deveria deixar de comparecer às coletivas.  Tudo bem que ele pensa ser inaceitáveis as atitudes do técnico, mas o que é que ele perde se os jornalistas não vierem para lhe importunar com perguntas? Existe aqui uma pretensão muito grande: nós somos a imprensa, você nos deve sua informação, ideia que é pelo menos parcialmente falsa, afinal, a realidade é mais: nós somos a imprensa, por favor, nos dê a sua informação.
Qual é a relação de obrigação entre as partes? A fonte tem qualquer obrigação de responder a perguntas? O jornalista pode contra-atacar o fato de não ter respostas? 

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