Metajornalismo

Sensacionalismo em Ciência

A Folha publicou hoje a matéria “Dormir com a TV ligada pode causar depressão, dizem neurocientistas“. O único problema é que não é exatamente isso que os pesquisadores descobriram, e os dados aferidos no estudo nem mesmo permitiriam afirmar o que o jornal afirma. O lead também não é preciso, ele diz:
“Dormir com a televisão ligada pode causar mudanças físicas no cérebro que são associadas à depressão, segundo estudo realizado com hamsters por neurocientistas americanos.”
Esse lead é na verdade uma dedução do jornalista a partir das implicações do estudo. O que de fato foi descoberto está no segundo parágrafo, que poderia muito bem ser o parágrafo inicial, a notícia na chamada:
“Pela primeira vez fica demonstrado que a luz durante a noite, por mais fraca que seja, produz alterações no hipocampo, uma das principais estruturas do cérebro, que desempenha um papel fundamental nos transtornos depressivos.”
A história da televisão vem de que essa luz fraca, a qual foram expostos os hamsters, é “equivalente” à iluminação causada por uma televisão em um quarto escuro. Fora a analogia apressada, a própria matéria reconhece suas limitações:
“Tracy explicou à Agência Efe que, embora não seja possível garantir que ocorra o mesmo efeito em um ser humano, o impacto da luz não varia em função do tamanho.”
E também:
“No entanto, não foram encontradas diferenças entre os grupos [de estudo; sob influência da luz e sem influência] quanto aos níveis de cortisol, hormônio do estresse que normalmente é associado às alterações no hipocampo.”
A matéria também resolve se apoiar sobre especulações a respeito do estado de espírito dos ratos:

“Normalmente os roedores gostam de beber água, mas os que têm sintomas de depressão não bebem tanto porque, aparentemente, não têm o mesmo prazer nas atividades.”

“Aparentemente”, eles não têm o mesmo prazer? Pareciam chateados, faziam menos piadas? Nem passou pela cabeça de ninguém questionar como os cientistas sabiam da felicidade das cobaias?

A matéria peca pela pressa em deduzir consequências de resultados ainda pobres e por ser sensacionalista: é um título para gerar visitação. Do ponto de vista jornalístico e social, no entanto, é problemático: o que pode produzir é desinformação e, principalmente, preconceito.

Um comentário sobre “Sensacionalismo em Ciência

  1. É impressionante como esse jornal está cada dia pior. Pra falar a verdade, toda essa "grande imprensa", (diga-se grande empresa) está mesmo
    uma grande porcaria! Foi-se o tempo em que nos acrescentava alguma coisa, já nem lembro mais…Por isso, não perco tempo nem dinheiro lendo esses hebdomedários(ou serão …dromedários? rrrsss)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *