Entrevistas

Da Crítica Literária: Maya Falks

Em 1943, Antonio Candido, um dos mais importantes críticos literários da história do país, iniciou a publicação de colunas na Folha de S.Paulo. O primeiro artigo, chamado “Ouverture“, fazia uma reflexão sobre o trabalho da crítica, e estabelecia os critérios para a futura atuação do autor naquele espaço. A partir desse texto — extraindo dele algumas perguntas —, desenvolvi uma série de entrevistas aqui no blog com críticos literários brasileiros.

Neste post, a fala é de Maya Falks, jornalista e escritora, responsável pelo blog Bibliofilia Cotidiana e autora do romance Histórias de minha morte e da coleção de poesias Poemas para ler no front, entre outros.

Acesse todos os textos publicados na série Da Crítica Literária.

O que é a crítica para você?

É observar os detalhes da obra, interpretar as mensagens para então poder retirar do conteúdo o que ele tem de melhor. De forma geral, a crítica é vista como apontamento de defeitos, mas eu trabalho com as qualidades.

No campo da crítica, qual a sua ética?

Não misturar jamais o pessoal e o profissional. Como pessoa, me sinto no direito de não simpatizar com todos autores ou me ressentir de alguma editora que tenha, porventura, reprovado algum original meu, mas, na hora da resenha, nada disso existe, meu foco é a obra e sua qualidade.

Quais imposições que se faz?

Imposição, por si só, é algo que conceitualmente já não me agrada. Gosto de ser flexível, tenho tato ao lidar com obras, autores e editores, por isso a única coisa que acaba sendo inevitável é pedir aos que me enviam livros que tenham paciência, todos os livros que atendem a linha editorial do blog serão eventualmente resenhados.

Quais os princípios de trabalho com os quais não transige?

Creio que meu maior princípio, na crítica, é não dar voz à opressão. Não trabalho com livros técnicos, porque o foco é literatura; não trabalho com livros religiosos para não abrir precedentes; não trabalho com livros eróticos, porque é um gênero que, pessoalmente, não me sinto confortável lendo; e não trabalho com infantil, porque não me sinto apta a analisar obras que mexem com a formação de leitores. Essa é a base da minha linha editorial, mas dentro da literatura com a qual trabalho, não aceito, não resenho e não divulgo obras que contenham qualquer tipo de discriminação que não seja em forma de denúncia. Livros com conteúdo racista, machista, LGBTfóbicos, entre outros, não têm espaço no meu trabalho. E nunca terão.

Qual a qualidade básica no trabalho do crítico?

Não permitir que seu gosto pessoal interfira no seu trabalho. Não gostar de um determinado gênero não me impede de analisar um livro com cuidado e apuro. Claro, aqui pode parecer um contrassenso já que disse acima que não trabalho com erótico por questão pessoal, mas uma resenha erótica obrigaria até a mudança de faixa etária do blog, então acaba sendo mesmo a exceção. Um bom exemplo que posso dar é que, pessoalmente, não sou leitora de fantasia, mas aceito obras de fantasia para resenha, porque me sinto capaz de dar esse olhar analítico que a resenha exige. Não é a leitora que resenha, é a jornalista.

Quando o crítico sabe que sua missão está cumprida?

Costumo me dar por satisfeita quando consegui abordar pelo menos os aspectos mais centrais da obra. Tem livros que exigiriam resenhas gigantescas se todos os aspectos fossem abordados, então as vezes preciso escolher o que apontar. Da mesma forma, algumas resenhas são publicadas com trechos da obra, outras sem, e isso se deve aos aspectos da obra que pretendo destacar. A satisfação acontece quando percebo que fui fundo o bastante naqueles aspectos sem, no entanto, “entregar o ouro”, afinal, a ideia é que o leitor tenha vontade de ler a obra, e não que sinta que já sabe o suficiente através da resenha. Se nos comentários surge gente dizendo que teve vontade ler o livro depois de ler a resenha, aí temos o suprassumo da missão cumprida.

O que seria um crítico sem doutrina?

Depende da doutrina. Conhecimento é fundamental, mas o “feeling” do crítico lendo a obra é mais ainda. Na minha jornada, percebo que meu histórico de leitora voraz contribuiu muito mais com as minhas análises do que o conhecimento teórico. É importante a doutrina? É. É impossível fazer crítica ou resenha sem ela? Não.

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