Amar a Cidade

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A urbe como objeto de amor.

why won’t we come over here?
we’ve got a city to love

Talvez possamos definir o que significa ter uma cidade a amar no contexto dessa canção de forma negativa. Parece ser uma condição de visibilidade (“everybody sees me”; “standing in the light fields”) e/ou de invisibilidade (“nobody can see me”). Ser visto, com tudo o que isso traz; não ser visto, com tudo o que isso abre. Também parece ser um estado de espera (por esse alguém que não parece saber ter uma cidade a amar) ou de prontidão (“waiting for some action”). Ter uma cidade a amar é estar carregado de possibilidades? Tensão da potência.

Interessante notar que a próxima música do álbum, “Heart in a Cage“, canta: “I’m stuck in a city, but I belong to the fields”. A princípio, uma oposição: na primeira, amor; na segunda, repulsa. Mas é possível conciliar ambas na medida em que esse amor seja impositivo e que escapar dele seja libertação. Essa hipótese ganha força quando lembramos que, em “Juicebox”, há a liberação quanto ao destinatário da música: “And I said set free //  You never chose me // For a while it was nice // But it’s time to say goodbye”. Temos uma cidade a amar; seria melhor não ter.

I have decided
I’m throwing my arms around, around Paris
because only stone and steel accept my love

Não ser amado é um tema comum em Morrissey (lembremos de “Last night I dreamt that somebody loved me” ou “Never had no one ever“); nesses versos em particular, o assunto ganha figuras interessantes: poder abraçar uma cidade, abrangê-la com o corpo; e a aceitação do amor pela pedra e pelo aço (mas pode o cantor amar a pedra e o aço? Ou aceitar, se houver, o amor próprio da pedra e do aço?). Também é preciso destacar, claro, que não se trata aqui de qualquer local, mas de Paris, símbolo do romantismo; e a referência a uma cidade específica coloca esse trecho na série de cidades que inspiraram poesia ao cantor (“London“, desde o título; em outras, está no corpo da letra).

Canções que fiz, foram para ti

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O eu lírico anuncia que, se compõe músicas, se canta, compõe e canta com um destinatário específico.

Esse álbum é melodramático, às vezes romântico em um sentido ruim e sem a sofisticação das letras da banda que será visível nos discos posteriores.  É o caso dessa música, que contém o verso:

todas as canções que eu fiz eu fiz pra ti, princesa

A frase se soma às outras, quase a música inteira, que afirmam uma dedicação total do poeta ao amado ou amada. Ele teria dado criações da cultura, objetos materiais, elementos da natureza — é interessante, em primeiro lugar, que tudo isso esteja assimilado às canções, que são citadas no penúltimo verso, ou seja, tem um tom de culminância (“te dei o universo, e além disso te deu minhas canções!”). Por outro lado, há como que um aposto depois do verso em foco: “Tudo de mais belo que encontrei na natureza”, o que pode indicar que as canções estão entre essas coisas achadas no meio natural. O que se diria, então, é que aquilo que o sujeito deu é todo o seu contato com o mundo (mas não a si?).

manche singen von Ihm
ich sange die ganze Zeit vor dir

“Eu cantei o tempo todo para você”, diz o título e fecha algumas estrofes. O destinatário parece estar em má situação, e o cantor se define como ponto de apoio, declara a importância que o outro tem para ele, lhe dedica toda a sua obra. Há ainda outro traço, que é a oposição do trecho destacado: “Muitos cantam sobre ele, eu cantei o tempo todo para você”. Não sei se é possível identificar na letra quem é esse outro, mas o movimento é claro: o autor se coloca como aquele que dá uma atenção não existente nos demais (tradução em inglês aqui e, em português, aqui).

Por Dinheiro ou Pelo Que?

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Uma listagem dos motivos pelos quais buscar a realização de algo, em que o dinheiro aparece em local decisivo. Os significados dessa posição são variados de acordo com a ordem e a repetição. Ressalte-se que há sempre um caráter mínimo de audácia nesse tipo de enunciado: é simplório dizer que se trabalha por dinheiro (embora nas ideologias do empreendedorismo e do coaching isso possa ser negativado), mas quanto à relação com a sociedade, quanto a próprio corpo ou quanto a ideais — entre outras possibilidades — é mais difícil afirmar-se nem que seja um pouco “mercenário” (talvez isso se efetive por valores cristãos difundidos historicamente na sociedade brasileira).

Pode-se discutir toda uma filosofia em torno do dinheiro, entendido como veneno/remédio, nas músicas dos Racionais. Na letra de que falamos, isso está presente em vários momentos: enriquecer é desejo de distinção (“vem pra ver como é bom poder chegar na alta cúpula”), sobrevivência (“eu vou sair pra descolar um qualquer // meu pivete já conta pá amanhã no café”), oportunidade de ser generoso (“se o dinheiro constar eu não gasto sozinho”), pragmatismo (“minha cota eu quero em dólar”), valor pessoal (“atrás do cifrão só vai quem tem o dom”) que consiste em assumir o risco (“jogue a moeda pra ver no que vai dar”). Na ordem dos motivos tudo isso tem uma versão sintética:

1 por amor
2 por dinheiro
3 pela África
4 pros parceiro

Em outras palavras, vontade pessoal, necessidade (concreta ou do luxo), ancestralidade e comunidade. O dinheiro é precedido de uma potência individual, que se espraia para valorizar o lugar de onde se vem e quem está consigo. Mas o dinheiro antecede esses dois — tudo indica porque é condicionante da possibilidade de dar atenção a eles. Depois, há uma mudança nessa ordenação, seguida de uma análise da sociedade (postura pragmática, outra vez):

1 por amor, 2 por dinheiro
Na selva é assim:
Você vale o que tem
Vale o que tem na mão

Aqui fica bem claro como sem esses passos não se chega a lembrar das raízes africanas nem a atentar aos seus — quando se vive “na selva” (a truculenta cidade), o valor é o do dinheiro. A vontade pessoal se realiza por via dele.

Ao longo de um turbilhão de referências que acumula críticas sociais e políticas — descrevendo uma “selva” bem mais definida, com inimigos e problemas mais claros — essa música reelabora os versos acima:

1 por rancor
2 por dinheiro
3 por dinheiro
4 por dinheiro
5 por ódio
6 por desespero
7 pra quebrar a tua cabeça num bueiro

Claro — “não existe amor em SP” —, então, por que avançar? Pela fúria. A repetição do dinheiro nos três graus seguintes martela no fundo que é tudo pela moeda (“a ganância vibra…“). A referência ao passado agora é o rancor; o sentimento sólido agora é o ódio. O item 7 parece ir por um caminho do sadismo ou da violência gratuita, com essa referência à sujeira. Diferente da anterior, não há saída, ascensão, redenção, justiça, nada — só essa roda de brutalidade girando contínua, esse lobo correndo atrás da própria cauda.

Não tenho como ler bem a parte dessa música, quase o todo, que está em japonês, mas por essa tradução, é uma música cantada por uma espécie de Lolita, que seduz o pai com fofura (“papai está prestes a ser enganado pelo meu sorriso angelical”) e, aparentemente, sexo (“eu descobri o segredo da mamãe”). Já neste trecho em inglês:

One for the money
Two for the money
Three for the money
Money! Money! Money! Money!

Não há outro valor — só o dinheiro, repetido com insistência ainda maior que a da canção anterior. Não há o social, tão marcante nos exemplos anteriores: a personagem é individualmente egocêntrica, manipulativa, demoníaca — como se descreve (“rosto de anjo, sorriso do diabo”; “eu sou uma ótima diabinha”).

Canção que Escuta Canções

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Algumas canções fazem referência à audição de algum artista. De pronto podemos nos identificar: tanto o letrista quanto nós, o público, somos fãs de música, e adequamos certos artistas a certos momentos. Além disso, o gosto, a influência, a relação entre um e outro são indicados, o que dá a chance de entrever a origem da peça atual e das criações do grupo.

O músico narra a sua inadaptação a uma noitada com amigos, e uma volta solitária à casa, tudo sob a perspectiva de um relacionamento terminado. O que o momento pede, sugere-se? A banda citada no título.

essa tarde eu vou sentar e ouvir Stiff Little Fingers

Vemos como a referência à banda se soma a uma série de alusões a uma época da vida do eu lírico (“lembra que a gente passava horas aqui falando de ex-namoradas?”). A música retoma esse tempo também. É, por outro lado, uma resposta a como ele se sente (“tenho andado tão inquieto que até beijo de seriado me arranca um suspiro”).

let’s dance to Joy Division and celebrate the irony everything is going wrong but we are so happy let’s dance to Joy Division and raise our glasses to the ceiling ’cause this could all go so wrong but we are so happy yeah, we’re so happy

É toda uma série de paradoxos: a situação de alegria, apesar dos problemas; a mistura de festa e banda triste. “Celebração da ironia mesmo”, e, também, a música como purgação, forma e expressão da superação.