Dossiê de Traços e Tropos

Canções que fiz, foram para ti

O eu lírico anuncia que, se compõe músicas, se canta, compõe e canta com um destinatário específico.

Esse álbum é melodramático, às vezes romântico em um sentido ruim e sem a sofisticação das letras da banda que será visível nos discos posteriores.  É o caso dessa música, que contém o verso:

todas as canções que eu fiz eu fiz pra ti, princesa

A frase se soma às outras, quase a música inteira, que afirmam uma dedicação total do poeta ao amado ou amada. Ele teria dado criações da cultura, objetos materiais, elementos da natureza — é interessante, em primeiro lugar, que tudo isso esteja assimilado às canções, que são citadas no penúltimo verso, ou seja, tem um tom de culminância (“te dei o universo, e além disso te deu minhas canções!”). Por outro lado, há como que um aposto depois do verso em foco: “Tudo de mais belo que encontrei na natureza”, o que pode indicar que as canções estão entre essas coisas achadas no meio natural. O que se diria, então, é que aquilo que o sujeito deu é todo o seu contato com o mundo (mas não a si?).

manche singen von Ihm
ich sange die ganze Zeit vor dir

“Eu cantei o tempo todo para você”, diz o título e fecha algumas estrofes. O destinatário parece estar em má situação, e o cantor se define como ponto de apoio, declara a importância que o outro tem para ele, lhe dedica toda a sua obra. Há ainda outro traço, que é a oposição do trecho destacado: “Muitos cantam sobre ele, eu cantei o tempo todo para você”. Não sei se é possível identificar na letra quem é esse outro, mas o movimento é claro: o autor se coloca como aquele que dá uma atenção não existente nos demais (tradução em inglês aqui e, em português, aqui).

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