Jesus não vota

[texto originalmente publicado no Digestivo Cultural]

Desde o início da eleição um extenso grupo de eleitores se convenceu de que era persuasivo encher o maior número possível de caixas de e-mails com boatos, distorções e mentiras. Resta disso a impressão de uma direita brasileira degradada, nada mais do que virulenta e, dessa forma, imprestável como sustentação para o Brasil. Não acredito de forma alguma que esse diagnóstico se aplique ao candidato tucano, José Serra. Da mesma forma, não escrevo este texto para defender Dilma Rousseff ― alvo dos embustes citados ― de denúncias verdadeiras que eventualmente ocorram. Meu propósito é demonstrar que o tipo de democracia que essa postura da direita extremista fomenta é por demais perniciosa.

Essa politicagem extremista usa das ferramentas demagógicas mais primitivas. A autoria falsa de textos, como forma de emprestar legitimidade a todo tipo de opinião do autor oculto, é a tática mais simplória. Há, por exemplo, um artigo de Arnaldo Jabor que, em 2006 teve de ser suprimido por ordem judicial. Amplamente divulgado, sempre fora de contexto, o texto traz trechos diferentes dependendo de onde você o encontra. Há ataques fora do estilo de Jabor ― calúnia pura e sem prova, muito além da contundência que ele continua demonstrando em seu site. Em outro caso, Marília Gabriela teve de desmentir que uma crítica à Dilma fosse sua.

E, mesmo quando o autor é de fato o autor, as informações são propositalmente difusas. Um caso é o “artigo da imprensa canadense“, que, na verdade, é de um opinador individual que, em outros posts, defende também que um culto satânico controla o mundo e que o sionismo quer destruir os judeus.

Outra arma é a religiosidade terrorista. Neste vídeo, o padre Paschoal Piragine Jr. nos leva a crer que o PT defende leis a favor da pedofilia e da violência familiar. Segundo ele, o partido é também causa do aumento dos divórcios, do reconhecimento criminoso da homossexualidade e de toda uma série de iniquidades que, se não forem contidas, “Deus não vai ter outra coisa a fazer do que julgar nossa terra”. Claro, o vídeo também segue a ideia perspicaz de tornar essa eleição uma disputa entre as pessoas de bem “a favor da vida” e os comunistas “contra a vida”. Dilma teve que afirmar o óbvio e dizer que não é favorável à morte, Serra resolveu lembrar o quão cristão ele é. É uma espécie de flashback vergonhoso. Em 1985, Boris Casoy decidiu ser relevante e perguntar se Fernando Henrique Cardoso acreditava em Deus. O psdbista concorria então à prefeitura de São Paulo. Engasgou e Jânio Quadros usou o “ateísmo” a seu favor.

Hoje em dia, o mesmo PSDB não criticou os adesivos “Sou Cristão e Voto Serra”. A questão de importância real não chega a ser colocada: isso não importa. Se o PT pretende sufocar a mídia e os partidos opositores até que nos faça uma Venezuela, o que a direita, ou o PSDB, quer é que nos tornemos qualquer coisa similar a uma república islâmica? Maomé se absteve sobre o assunto. Jesus não vota. A decisão entre os futuros governos deve partir de propostas. De comparação de competências e capacidade de projetar um desenvolvimento consequente.

Que projeto de desenvolvimento consequente tem pessoas que pretendem desqualificar todo o trabalho de Dilma por ela, supostamente, ter sido “terrorista, assassina e sequestradora”? Que visão de país? Sem a menor e mais leve intenção de checar os fatos, esse eleitor não se esforça por ser consciente de nada, ele só ataca. A revista piauí fez uma descrição robusta da participação da presidenciável petista na esquerda extremista. O livro de Fernando Gabeira, O Que é Isso, Companheiro?, narra a situação política da ditadura e o sequestro de que Dilma é acusada, o do embaixador americano. Não ocorre a ninguém ter fundamentos. Não ocorre a ninguém dar atenção ao passado. Como se espera que tenham percepção do futuro?

Possibilidade de Democracia
Não estou dizendo: “portanto, vote Dilma”. É certo que, dando meu voto a José Serra, estarei dando valor a esse tipo de argumentação. Também é verdadeiro que é essa espécie de eleitor que é evocada no novo slogan psdbista, o do “homem de bem”. Porém, quando me oponho a essas atitudes não miro no PSDB; quero atingir é esse empobrecimento das possibilidades de uma democracia real. Esse movimento deve ser combatido onde quer que se manifeste. Alimentar uma cultura política em que uma eleição é disputada nesses termos é algo que queremos? O que está em jogo aqui é descobrir como enriquecer as ideias sobre o Brasil, como aprimorar a discussão, para assim fundamentar nosso desenvolvimento.

Dias atrás recebi mais um daqueles e-mails. O panfletário acordou sem imaginação e partiu simplesmente para a mentira. Sustentava que a candidatura de Dilma seria cassada. O Tribunal Superior Eleitoral teria aplicado a lei ficha limpa à presidenciável. Desnecessário dizer que não há sombra de tal notícia no TSE. O que acontece aqui? Ou esse sujeito me crê tão estúpido que eu poderia ser convencido por um truque barato, ou é ele tão criminoso que percebe no eleitorado apenas uma massa de infelizes manipuláveis, assim como só vê na democracia um joguete de quintal.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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