Redescobrir as palavras, reinventar a vivência

[texto publicado originalmente no Digestivo Cultural]

A alteridade como viagem, a linguagem como descoberta, eis os dois núcleos de Sem Vista Para o Mar, obra de estreia da escritora Carol Rodrigues, considerada o melhor livro de contos do ano tanto pela Biblioteca Nacional quanto pelo prêmio Jabuti – neste último, tendo concorrido com nomes já estabelecidos como Sérgio Sant’anna, João Ubaldo Ribeiro e Humberto Werneck. Aos 30 anos, com formação e carreira na área audiovisual, a autora constrói narrativas curtas, inventivas no trabalho da palavra, atenciosas quanto aos personagens, delicadas na apreensão dos momentos em que a rotina tropeça, em que o cotidiano se renova pela fuga.

Fuga – e outros conceitos que impliquem instabilidade semelhante – é a palavra que permite entrever todos os pequenos percursos do livro. Um menino foge porque seu desejo é um crime; um homem viaja para encontrar um amor que via como seu, mas que era dividido com outro; um velho despede-se por um instante do velhar; uma mulher larga um casamento como quem arruma um carro parado na estrada. O que se captura aqui é a percepção, quem sabe ilusória, de que tudo será diferente, tudo é diferente, pelo menos agora. Um passo em direção ao vazio.

Montado em primeira pessoa ou em discurso indireto livre, o estilo da escritora é sonoro e rítmico, como se vê em “Onde o Mar Acaba”:

O menino no short listrado nem precisa dar de ombros tá escrito no seu ombro a gola furada a camiseta do uniforme pingada a marmita, tá escrito escola pública, tá escrito a blusa é velha, tá escrito tudo isso não precisa nem dizer. O chapeiro assente compreende e manda o menino pra prainha, fim de tarde tem bebida, tem jovem tem menina. Se veio pras loirinhas, do Paraná, melhor descer mais, aqui tem mais é índia feito tu. O menino frusta um gole no café com leite. Que menina já viu, de repente, as meninas já nem quer.

As figuras de linguagem dão a cadência: assonância (“a gola furada a camiseta do uniforme pingada a marmita“); anáfora (“tá escrito escola pública, tá escrito a blusa é velha, tá escrito tudo isso não precisa nem dizer”); aliteração (“prainha” e “compreende”), rima (“assente” e “compreende”). Recursos do tipo são usados ao longo de todo o livro. Além disso, o ritmo é dado pelo dinamismo da composição das cenas. Veja-se um trecho de “Penélope e a Roda”:

Uma gota cai da cara ao colo é a hora. Um clec rec abre a porta. O pé sapatilha pisa a terra cola pó ao verniz. O pé faz ponta bailarina tica tica até o porta malas clec rec mum que se abre. O tampão lasca uma unha o esmalte penélope. O tampão ao banco de trás. O estepe michelin sete quilos doze por cento do seu peso matinal. O estepe ao chão topa uma pedra e cai oculto. O céu suga a terra um espiral brilha néon.

Cada frase compõe-se de dois lances, descreve imagem ou som e conta com pelo menos uma ação. O líquido no rosto, uma constatação; ouve-se um som, abre-se a porta; calçado no solo, close na poeira; o “tica tica” sugere o andar teso; e assim por diante. A velocidade também marca os diálogos. Por exemplo, em “Entre Maio e Junho”:

Estalo a tira fina da calcinha asa delta e entro. Homem é trinta mulher é doze. A senhora de frente pergunta à senhora da porta aceita cheque. Não nem cartão só dinheiro quem ainda usa cheque. Pago a minha entrada pago a dela, coitada e pra terceira pega o troco pra você. Nisso um pulso quente pousa entre o debaixo da minha bunda e o fim da minha saia plissada. O pulso quente é de homem grande posso te pagar uma dose. Não diz qual bebida só assim uma dose. Diz que entrega tevê de plasma setenta e duas polegadas que o caminhão está cheio, logo ali, que se eu quiser, me mostra. Eu digo que depois querido depois.

O que vemos se mistura com o que ouvimos; mais profundamente, o gesto é o mesmo que o discurso.

Oscar Wilde teria dito: “Um escritor que chama uma enxada de enxada devia ser obrigado a usá-la”. Há também um pouco dessa exigência de renovação em Carol Rodrigues. “Sonoplastia da lata abriu caminho”; “O gole tortura uma afta”; “O corpo sem ritmo torce gerúndios” – tais trechos reconduzem a descrição banal à possibilidade de expressão, pelo artesanato da frase. “Sonoplastia”, sem filmes; “tortura”, sem ditaduras; “gerúndios”, sem gramáticas – o deslocamento dos termos do seu campo semântico produz o efeito. Em outros casos, a sobreposição de gesto e sentimento é que marca: “Barrei a náusea no olho fechado”; “Um soco na boca do estômago me dobra pra sempre”. A concisão do recurso maravilha.

Encanto e Política
Em um artigo sobre como foi criar Sem Vista Para o Mar e em uma entrevista sobre o livro, Carol Rodrigues conta que suas histórias surgiram do fascínio pelos nomes de cidades do interior paulista, os mundos que sugeriam. Desde a origem e, como tentamos mostrar acima, através das escolhas de redação há uma busca pelo encanto, ou uma decisão de seguir só pela via do que encanta.

Uma postura assim implica em uma abertura, que, no livro, acaba também sendo política. A autora aborda mulheres independentes, que tomam posse da sua vida (“empoderadas”, se poderia dizer); fala do amor homoafetivo; dá atenção a quem está às margens da sociedade. Sendo as lutas por identidade uma das temáticas públicas de maior força hoje, uma dúvida que pode surgir é se isso se dá de modo espontâneo ou movido por motivações programáticas. Além disso ser, de todo jeito, um falso dilema, em Carol Rodrigues o que acontece é que a diversidade é, como a linguagem, uma porta aberta ao diferente, similar ao que os personagens encontram. Dessa forma, pensar o outro é um passo em direção à abundância.

Outra questão que pode surgir, já de volta aos temas de estilo, é se a maneira como é narrado o livro – o abandono da pontuação em prol do fluxo, por exemplo – é somente um maneirismo (o que, na minha perspectiva, pesaria contra o texto) ou uma escolha e/ou algo que surge das necessidades de expressão do tema. Difícil afirmar sem saber como ela se desenvolverá. Esperemos, então: o próximo livro já está em produção e pode sair ano que vem. Deve se chamar: Os Maus Modos.

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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