Pra que ler jornal de papel?

[texto publicado originalmente no Digestivo Cultural]

As pessoas em geral parecem pensar uma só coisa a respeito dos jornais de papel (penso em O Estado de S.PauloFolha de S.Paulo e semelhantes): eles seriam excessivos. Isso se traduz de muitas formas: ou o jornal é parcialmente ou totalmente desnecessário (porque o leitor se informa por outros meios) ou ele é pesado demais ― à ideia de ler um Estadão completo ocorre ao leitor o mesmo cansaço que lhe viria se de súbito tivesse de subir a pé uma ladeira íngreme e interminável. Esse último leitor sente o que sente porque pensa que necessita ler o jornal da primeira à última folha, por alguma espécie de obrigação. Eu acredito que todas essas opiniões são verdadeiras. As notícias, é evidente para todos, estão em quaisquer outros lugares. E, de fato, só ver a pilha de papel já cansa. Mas há pelo menos duas utilidades que só se terá levando a cabo alguns jornalões.

Antes de falar disso, vamos ver essa ideia de excessividade de perto. O Estado e a Folha tentam abranger todos os assuntos de modo a vender para todos os públicos, mas boa parte das pessoas é absorvida pelas mídias especializadas e não sente necessidade desses jornais. O cotidiano (cidades, polícia, Brasil, política) é distribuído regularmente por rádios e televisões, e a maior parcela do público não entende que haja qualquer coisa de específico no produto impresso, e, mesmo quando sente precisão de análises e discussão, pode ser tomado pelas revistas semanais ou por programas de discussão e talk shows. Outra imensa parte se informa pela internet, prefere descobrir o que lhe interesse por redes sociais, interagindo; ou quer uma informação mais individualizada, pessoal, próxima: os blogs. É possível desconstruir qualquer jornalão e chegar à conclusão de que ele não precisa existir.

Quando aparelhos como o Kindle se popularizarem, isso será uma evidência ainda maior. Adicione uma conexão à internet e não será necessário nem a compilação em uma “edição”, só o site. Desse tipo de conclusão é que se extraem os prognósticos de “fim dos jornais” (sobre isso leia este artigo e mais este). Também me parece que é por isso que a mais recente reforma do Estadão tentou torná-lo mais interativo e decretou que cada editoria é um lugar de sociabilização, uma rede que uniria os interessados em torno de cada tema. Assim como um dos motivos para Guardian contratar blogueiros de todo o mundo, sem necessidade de curso de jornalismo. Por outro lado, a eventual conveniência, a fidelidade e o respeito ao nome de algumas publicações ainda garantem a venda de muito papel. Principalmente, é preciso “não confundir o fim dos jornais com o fim do jornalismo“.

Sempre haverá a necessidade de informação e de quem informe. E existe também uma certa crença de que precisamos ou (em alguns casos) temos a obrigação de nos informar. Isso é mais comum do que parece à primeira vista: posso apostar que qualquer conhecido seu dirá que é correto assistir ao Jornal Nacional, justificando com alguma variante de “precisamos saber o que está acontecendo”, mesmo que se termine o programa sabendo apenas de tragédias, mortes e falcatruas repetidas. Ou, em outro contexto, como em um relato de Julio Daio Borges: “quanto mais eu me aproximo da informação que realmente me interessa, menos tranquilidade eu alcanço, mais inquietação esse exercício me proporciona” (esse texto tem um interesse particular porque amplia este artigo: relembra o excessivo na internet). Qual é o sentimento que leva a isso? Uma espécie de senso de dever? A constatação de que se está perdendo muito, “há tanto, tanto a descobrir!”…?

Para mim, e especificamente quanto aos jornais de papel, me senti, digamos, obrigado a ler a Folha ou o Estado quando estudante de jornalismo, por obviedade da condição e por conselho contínuo dos professores. É minha experiência como assinante dos dois que me sugere aquelas duas utilidades para o jornal de papel lá do primeiro parágrafo. Desde o começo, minha proposta para mim mesmo era a tortura voluntária: leria todas as editorias e quase todo o jornal, retirando-se as notícias burocráticas, pouco interessantes ou sem muita novidade no curso de um assunto. Havia uma tentativa de abranger o máximo possível, de modo que mesmo que as pilhas se acumulassem, não eram jogadas fora de pronto, e sim lidas de uma só vez na ocasião propícia. Aprendi muito com isso. Passei a não incorrer mais nas opiniões imediatas que as pessoas têm logo depois de uma matéria de TV, e, com o tempo, subir aquela ladeira feroz não me era mais doloroso. Uma das dificuldades dos jornais é que há uma série de acontecimentos em curso, e quem tenta entrar é meio que repelido. Com a leitura, acabamos sabendo precedentes e perspectivas, e tudo flui de forma mais natural, de política aos esportes.

Há certo prazer em encher a cabeça de informação. E com esse prazer e aquela rotina de leitura, percebi duas características do jornal de papel que a internet não podia me proporcionar a priori, pela sua própria constituição. Em primeiro lugar, o jornal me sugere um percurso. Realiza uma seleção, dispõe discussões relativas ao tema, agrupa as matérias de forma que eu as visualize todas com o virar das páginas. Navegando na Folha Online, eu teria de passar de link relacionado a link anunciado, mas nada ali me diz que aquilo faz parte de um todo, só me diz que foi acumulado no mesmo lugar. A internet não é um percurso. É o mar aberto. Essa é uma das utilidades que vi nos jornalões: me manter em um rumo ― e isso não quer dizer que eu confie totalmente na informação ou não vá ler de outras fontes; mas é um rumo. Nessa sugestão de caminho, encontramos a segunda utilidade: ao longo das editorias, sou apresentado a assuntos que eu não procuraria virtualmente, e, por isso, nunca saberia deles. Esportes, temas femininos, construção, design ― não procuraria nada no Google sobre eles; mas ali no jornal estava uma matéria e por acaso eu aprendi. A internet é como o mar de certo conto de Poe: te drena em uma espiral e te afunda. No fim das contas, ela te dá mais e mais de você mesmo, seguidamente.

Talvez tudo isso seja só uma justificativa que encontrei para me ater aos jornais, uma argumentação corporativa ― afinal, eu estava me formando em jornalismo e era onde eu queria trabalhar. De qualquer modo, me parecem bem verdadeiras, essas duas utilidades. Talvez, além de sociabilizar editorias, um dos caminhos para as mídias que querem abranger todos os assuntos seja criar seleções de matérias, percursos possíveis além dos vínculos relacionados. Como os dossiês da Cult, mas onipresentes. E também, quem sabe, uma função como a do Stumble Upon, que nos envia aleatoriamente a coisas interessantes. Ou outras ideias. Que acham?

Duanne Ribeiro é jornalista, escritor e pesquisador em ciência da informação e filosofia. Em jornalismo, formou-se pela Universidade Santa Cecília (Unisanta). É mestre em Ciência da Informação — com a dissertação “A Criatividade do Excesso – Historicidade, Conceito e Produtividade da Sobrecarga de Informação” —, bacharel em Filosofia pela Universidade de São Paulo e especializado em Gestão de Projetos Culturais pelo Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação (Celacc), ligado à USP. Publicou, pela editora Patuá, o romance As Esferas do Dragão (2019). É analista de comunicação para o Itaú Cultural e editor da revista Úrsula.
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