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Morre o radialista José Paulo de Andrade

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Morreu nesta sexta o jornalista José Paulo de Andrade, que atuou na rádio Bandeirantes durante 57 anos, tendo sido apresentador do O Pulo do Gato. É por conta desse programa que relembro José Paulo aqui no blog. A vinheta de O Pulo do Gato é para mim uma madeleine jornalística, faz voltar o período antes de ir à escola. É por tudo isso que descrevo em certa parte do As Esferas do Dragão o seguinte:

A manhã era uma conversa com os passarinhos: comiam alpiste das mãos dela como se encarnasse um verso de Manoel de Barros. Céu nublado cor-de-chifre e a voz de José Paulo de Andrade no rádio.

E depois:

Acorda, São Paulo, do seu sono justo: é hora do Pulo do Gato.” O rádio badalava as seis horas da manhã. O sol não havia ainda nascido e o céu era um azul minguante.

Conversando com amigos, essa mesma experiência foi evocada; crianças nessa época, José Paulo era uma espécie de pano de fundo, interesses de adulto. Sobretudo, O Pulo do Gato marcava o tempo — com a institucionalidade, com a precisão dos sinos — inscritos nessa descrição do fim da madrugada.

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Úrsula contribui com podcast sobre permanência estudantil

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Publicamos na revista Úrsula, em 28 de maio, um depoimento da historiadora Karine Arruda tratando das dificuldades dos alunos mais pobres frente à universidade. Transporte e outros custos da vida universitária, conciliar trabalho e estudo, problemas em casa, convívio na faculdade — temas cruciais quando falamos de permanência estudantil.

A repercussão do texto atingiu a doutoranda em Desenvolvimento Econômico Ana Paula Salviatti, que acabou entrevistando Karine para o podcast Kanal Marx. O episódio reúne, além dessa fala, uma série de outros testemunhos a respeito das barreiras de classe no ensino universitário. Ouça abaixo, no Soundcloud, ou pelo Youtube.

Pertinente: entre 2011 e 2014, os alunos de filosofia da USP produzíamos um jornal, o Discurso Sem Método, que também se debruçou sobre o tema da permanência estudantil, com um artigo de Lucas Souza:

 

 

 

 

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Beethoven por Kundera

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Em A Arte do Romance [p. 83-84, Nova Fronteira, 1986], Milan Kundera expõe o Quarteto de Cordas opus 131 de Beethoven:

Primeiro movimento: lento; forma de fuga; 7′21′’
Segundo movimento: rápido; forma inclassificável; 3′26′’
Terceiro movimento: lento; simples exposição de um só tema; 51′’
Quarto movimento: lento e rápido; forma de variações; 13′48′’
Quinto movimento: muito rápido; scherzo; 5′35′’
Sexto movimento: muito lento; simples exposição de um só tema; 1′58′’
Sétimo movimento: rápido; forma-sonata; 6′30′’

Depois, ele comenta:

“O quarteto op.131 é o auge da perfeição arquitetônica. Não quero chamar sua atenção senão a respeito de um só detalhe do qual já falamos: a diversidade das durações. O terceiro movimento é quinze vezes mais curto que o movimento seguinte! E são precisamente os dois movimentos tão estranhamente curtos (o terceiro e o sexto) que reúnem, mantêm juntas essas sete partes tão diversas! Se todas as partes fossem mais ou menos da mesma duração, a unidade desabaria.”

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Oxímoros do Espírito

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[Memorial de Aires, Machado de Assis, pg. 26, Editora Ática, 2011] “Gastei o dia a folhear livros, e reli especialmente alguma coisa de Shelley e também de Thackeray. Um consolou-me do outro, este desenganou-me daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito aprende as línguas do espírito.”

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Patti Smith, Detetives e Escritores

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[“The Theology of Patti Smith”, The New Yorker, 6 de outubro de 2015; link] “Her intense identification with fictional detectives feels of a piece with her broader understanding of the artistic process: much in the way that a detective might obsess over physical evidence, in search of a truth that will reveal itself only to her, Smith celebrates artists who are able to transfigure ordinary objects in the light of their own genius.”

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O Caos é uma Escada

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[Game of Thrones, 3ª temporada, episódio 6, “The Climb”, a partir de 48’] “Chaos isn’t a pit. Chaos is a ladder. Many who try to climb it fail and never get to try again. The fall breaks them. And some are given a chance to climb, but they refuse. They cling to the realm or the gods or love. Illusions. Only the ladder is real. The climb is all there is.”

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Gogol Petroleiro

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[Almas Mortas, Nikolai Gogol, páginas 402-408, Nova Cultural, 2003] A Folha noticiou: “A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, anunciou que a empresa está estudando criar uma nova diretoria, para assegurar o ‘cumprimento de leis e regulamentos internos e externos’”.

A medida me lembrou um trecho de Almas Mortas, de Nikolai Gogol. O protagonista, Tchítchicov, encontra um fazendeiro, Kochkariov, que pretende uma “organização correta e racional da economia rural” e para isso elabora uma estrutura burocrática que acredita infalível. Porém, Tchítchicov descobre, “o Escritório de Recepção de Relatórios e Petições existia só no letreiro, e a porta estava fechada. O seu diretor, Khruliov, tinha sido transferido para a recém-criada Comissão de Construções Rurais. No seu lugar ficara o mordomo Berezóvski; mas também ele tinha sido despachado pela Comissão de Construções. Encaminharam-se então para o Departamento de Assunto Rurais, que encontraram em reforma: acordaram um bêbado que lá se encontrava, mas não conseguiram dele nenhuma informação”. Quer dizer: as coisas tinham degringolado. Kochkariov, então, antecipa Maria das Graças: “Era necessário repreender e sacudir a todos, pois do contrário tudo era capaz de adormecer e as molas da administração podiam enferrujar e enfraquecer; que, em consequência do acontecido, viera-lhe à cabeça uma ideia feliz: criar uma nova comissão, que se chamaria Comissão de Controle da Comissão de Construções, de maneira que dali para diante ninguém mais se atreveria a roubar”.

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Nieztsche Amazônico

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[O Império da Amazônia, Pedro Cavalcanti, página 54, Cia. das Letras, 1995] Uma descrição do anoitecer amazônico que lá pelo terceiro parágrafo encontra Nietzsche:

“Para quem não está acostumado, o cair da tarde no meio da mata fechada, com rio passando perto, é mesmo de arrepiar. As sombras vêm avançando e vai dando aquele aperto no coração que ninguém explica.

Papagaios e araras cruzam os céus numa última berraria de despedida, somem na distância engolidos pelo silêncio das árvores. De longe em longe os últimos cantos de pássaros soam em despedida. Cada vez mais raros… Cada vez mais tristes…

A gente pára o que está fazendo, olha para o escuro da mata e parece que o escuro da mata é que está olhando pra gente.”

Ou quase. De todo modo, a frase do filósofo está aqui.