Crônicas

Não Tem Nem o Que Dizer

Publicado em

[Cortando o cabelo. Na TV, alguém comenta sobre a namorada atual do Belo. O cabelereiro me informa sobre o estado conjugal do cantor e depois expõe uma teoria] Toda montada, cheia de silicone. Vão pra academia e colocam silicone. [Pára o serviço, se afasta um passo e disserta com os braços abertos; vejo seu rosto compenetrado pelo espelho. Tem alguma tristeza nele] É que nem você comer uma fruta com agrotóxico e uma fruta normal: uma é pequena e tem sabor, a outra fica desse tamanho [Mostra a envergadura com as mãos] e não é boa. Muito diferente: você pegar uma mulher que é mulher mesmo e uma dessas. Vai dizer que é boa de cama, é nada. É a mesma coisa você comprar uma boneca, tem boceta, é quente. Vai dizer o que? Não tem nem o que dizer. [Adiciona então o seguinte argumento, talvez para que se pense que não fala por machismo] As mulheres falam a mesma coisa dos caras bombados. É, fica bombado, mas não conseguem fazer o sexo corretamente. [Retorna então à qualidade das mulheres por uma outra via] É a mesma coisa você pegar uma mulher de 22 anos e pegar uma de 37 anos. A de 22 é bom porque é tudo durinho, mas não aguenta foder nem vinte minutos. A de 37 você fode a noite inteira. Isso se o cara também. [Termina o corte, mostra como ficou atrás etc.]

Crônicas

Pra que agressão?

Publicado em

O pessoal capturou um ladrão hoje na estação Santana. Eu tinha acabado de passar pela catraca do metrô, estava no corredor das várias escadas que levam ao terminal de ônibus e vieram correndo um ou dois gritos de “ladrão!”; cerca de cinco pessoas perseguiam um homem de uns 30 anos, branco, cabelo curto com gel, camisa de botão branca com linhas verticais pretas, calça e sapatos sociais. Conseguiram segurá-lo na plataforma, os curiosos ou olhavam de longe esticando o pescoço como suricates ou subiam às pressas para ver de perto. Dois homens o prendiam: um, as pernas; outro, no mata-leão. Uma mulher tentava pegar algo nas calças dele enquanto ele se debatia; ela ordenou, “chão!”, ao mesmo tempo em que os outros dois já faziam isso. Foi imobilizado contra o piso: aquele segundo homem pressionava seu pescoço, os olhos estavam estatelados, o rosto vermelho, afogado — achei significativo que as mãos escaparam do pescoço para a face, mas não ficaram nela, não a atacaram: é o sinal do mínimo de civilidade mesmo em um caso assim. Simultaneamente a mulher lhe dava dois chutes. Acharam a faca com que ele tinha assaltado um menino; me pareceu uma arma profissional, a lâmina dentada, de um prateado limpo, com algo menos que quinze centímetros; o rapaz roubado parecia gay pelo jeito de falar, o que levou o homem do mata-leão a apontar o que seria a covardia do seu prisioneiro: “Gosta de bater em viado, é?”. Mesmo rendido, o delinquente ameaçava, “vou apagar todos vocês”, porém lhe respondiam ainda bélicos mas também serenos, “fica na moral”. Chegou uma senhorinha atrasada, cabelo em coque: “Pra que agressão? Pra que agressão?”. Um cara de meia idade, a três metros de distância do conflito e em segurança, comentou: “Não tem de chamar a polícia não, tem de bater”. Liguei três vezes para o 190 e só fui atendido pela secretária eletrônica; contudo a PM chegou logo depois.

Crônicas

É o que acaba: a bebida!

Publicado em

São cinco bancos, ela está na janela, eu na outra ponta, uma mulher no banco do meio, ela abre a bolsa e percebe que em vez do celular pegou o controle remoto. Seu modo de falar tem a sonoridade nordestina típica, sua pele é escura (não sei se por origem negra ou indígena). Ou sente vergonha ou acha engraçado, fica com um sorriso besta olhando em torno, eu reparo, não entendo o que ela fala ou se fala comigo, volto ao livro, ela começa a explicar para a que estava no meio. “Foi na carreira, na carreira. Agora como a menina vai fazer? Que ela dorme na sala, naquela cama que puxa. Ninguém vai acreditar: Mãe, você ficou doida?”. Disto passa a comentar que os filhos reclamam que ela não ficava muito em casa quando eram pequenos. “Eu estava trabalhando! Eu chegava às… não, eu chegava às quatro porque era o horário da creche. Perdi muito emprego bom porque tinha de sair cedo”. Fala-se alguma coisa sobre trabalhar como doméstica ou governanta, sobre períodos mais flexíveis, a outra mulher diz, “a patroa entende a gente, né?”. Nessa altura essa outra mulher se resigna ou se contenta e muda de banco, para ficar ao lado da primeira. “No domingo meus filhos não vão pra balada, essas coisas, porque eu nunca acostumei. Nunca botei cigarro dentro de casa, nunca botei bebida dentro de casa. Nenhum dos meus filhos nem bebe nem fuma, por isso toda noite eu rezo e choro: Obrigado, meu senhor, porque mesmo com a pobreza — eu sou pobre — nenhum dos meus filhos bebe ou fuma”. Conta depois, com alguma hesitação: “Eu fiquei… sem marido”. E por quê? “ Por causa da bebida. Da BE-BI-DA. Quando casou era bonzinho, depois veio colega, colega de bar, colega de bar, pronto. Eu sofri muito com ele, a família botou ele naqueles lugar, pra curar, não adiantou. É o que acaba, a bebida, o cigarro, essas coisas”.

Crônicas

Bem-te-vi que come carne

Publicado em

“Aqui é bom, né?”, diz este senhor parecido com o cientista do De Volta para o Futuro, se referindo ao banco de praça ao lado do ponto de ônibus e em frente às árvores e o gramado extenso. “Caralho”, exclama, do nada. Senta meio de lado, olha a distância. “Você está aqui há muito tempo?” — “Dez minutos.” — Então não vai demorar muito”. Senta reto, observa. “Plantaram tanta árvore aqui, não plantaram uma pitangueira pros passarinho comer as frutas. Lá em casa tem uma, enche de passarinho. Sabiá, bem-te-vi. Até aquele preto e vermelho, como é o nome? Como é o nome? Tiê. Tem quarenta anos aquela árvore. Eu tô casado há [não escuto o número, então vamos supor: muitos] anos, ela já estava lá, então tem quarenta anos. Um dia vou arrancar uma dessas aí e plantar uma pitangueira. Foda-se. Eu sou policial aposentado, eu moro nessa rua”, joga o braço pra frente, apontando. Pára um instante. Ele usa camisa de campanha de solidariedade, tem a expressão raivosa. “Tinha um filho da puta de um velho aí, já morreu, a filha já vendeu a casa, ficava com as gaiolas, pegando passarinho, um tal de Rocha, tenente, não sei se você conheceu. Cara morrendo, filha da puta ficava armando a gaiola aí, pra prender passarinho. Um dia ele foi fazer não sei o que, pegou fogo no barraco dele, matou não sei quantos passarinhos. E ele era bombeiro hein? Trabalhava no corpo de bombeiros. Tá no bico do urubu, tá com 80 anos, fica caçando passarinho pra quê, caralho? Tenente Rocha. Deixa o passarinho na árvore! Aqui. Beleza. Cantando. Uma empregada minha picava pedacinho de carne, pedaço que sua mãe, sua esposa joga fora, botava em cima da mureta, vinha o passarinho, bem-te-vi, comer. Quando ela não punha, ficavam os dois em cima do telhado chamando ela: Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!”. Dá uma risada pontual. “Eles vinham. Pô, nunca vi bem-te-vi comer carne, caralho”. Faço um comentário pertinente qualquer. Ignora. “Eu vou… agora… tô arrumando minha casa, eu tenho uma área de 700, 800 metros, aqui nessa rua. Aí queriam comprar pra fazer prédio. Não querem pagar, caralho, eu vou ficar com dinheiro? Dinheiro… a pessoa só vende imóvel em caso de extrema doença ou então pra comprar um melhor. Agora eu resolvi ficar aí até morrer, já tenho quase 75 anos, em dezembro faço 50 anos de casado. Meu sogro é um dos fundadores aqui do bairro, veio em quarenta, minha mulher tem 71 anos, faz 70 que mora aí. Então eu já não vou mudar, tô dando uma ajeitadinha na casa. Tá uma imundície lá, eu tenho mais de 400 vasos de orquídea. Cada flor, rapaz. Eu tenho lá um monte de taça, medalha, tudo que eu ganhei nas exposições de orquídea por aí, do japonês. Parque do Estado lá, onde tem o zoológico encostado. Jardim Botânico. E exposição boa, viu, filho? Tem cara lá que concorre com cinco mil planta, ainda mais o japonês, japonês é especializado em planta. Eu tenho uma área boa lá no fundo, sabe? Mas não dá pra ter planta lá, porque tem que… fazer um monte de coisa… mas eu vou fazer. Caralho, como demora esse ônibus. Se soubesse tinha pegado o carro, cê vai pra Santana com o carro, não tem onde parar. Eu tenho quatro carro em casa lá, eu sou pobre, não sou rico não. É que eu tinha dois carro velho, trabalhava com bordado, pra entrar no Brás, um dia entrava com um, outro dia com outro, por causa da chapa, né. Tô vendendo um gol, não consigo vender. O carro tá… esfumaçando, não consigo passar na vistoria, eu não andei 4 mil quilômetro com o carro, o carro tá esfumaçando. O cara morreu, o mecânico, os dois mecânico morreu. O carro tá lá na casa do meu filho. Esse eu levei lá pra Arujá, entendeu, tá lá, só pra não passar na vistoria — mas se o PT ganhar pra governador, eles vão botar no Estado todo essa merda aí, aí fodeu-se”. Chega o ônibus.

“Qual o nome do senhor?”; “Celso”. Cara de contrariado, subindo a escada. “Eu vou ficar aqui na frente mesmo, que eu não posso passar da roleta”; “Tá. Até”.

Crônicas

Por que você não é feliz?

Publicado em

Falava sozinha, encostada à porta do metrô. Encarnava um personagem autoritário, antipático e prepotente, um psicólogo que “estudou muito antes de abrir a boquinha”, que tagarelava sobre eficiência, “missão”, “honraria”, “servir à nação”. O psicólogo disse: “A minha aula foi ruim? Ou foi perfeita?”. O psicólogo disse: “A minha aula foi errada ou foi certíssima?”. O psicólogo se opunha a uma mulher menor, “suja”, que “não pensa no que diz”. A mulher menor escrevera poesia dizendo que era infeliz. “Por que você não é feliz?”, gritara o médico. A louca desceu na Vergueiro. “Por que você não é feliz!”.

Crônicas

Juraci, e o seu?

Publicado em

“O que é esse livro aí, antropologia, psicologia?”, diz o senhor que senta ao meu lado no ônibus; eu respondo: “Filosofia”. Ele: “Ah! Filosofia. Eu tenho mais de cem livros de filosofia. Sabe qual foi o maior filósofo? Não foi Sócrates, nem Platão, nem Aristóteles, nem Diógenes” — e me mostra uma edição de “Ecce Homo”, do Nietzsche — “Esse é o maior filósofo. Né? Porque com esse não tem véu nenhum”. E tira algo da bolsa, “esse livro aqui, ele custa oitenta reais, mas eu achei na Sé, em um sebo, por dois reais” — trata-se de “O Instinto Geométrico”, de Horst Ochmann, aparentemente uma dissertação em torno de Kepler, com umas seiscentas páginas. “Sabe quem é o Kepler?” — o livro aparentemente propõe uma geometria presente não só no universo como em todos os aspectos da vida, uma cosmologia em sentido próprio, portanto — “Esse livro explica porque as mulheres têm nove meses de gestação, é porque são nove planetas” (não confio que de fato o livro o diga); “Esse livro aqui, se você quer saber de filosofia, psicologia, ele tem”. Então ele retorna à bolsa, retira de lá uma caderneta preta, repleta de anotações (uma ideia por folha), se atrapalha com os papeis. “Você me desculpa que eu sou atrapalhado, é que eu tenho PVC” — “PVC?” — “Porra de velhice do caralho! E, além do mais, tenho SPA: Síndrome do Pensamento Acelerado!”. Ele fala de Freud; ele fala de Lacan (“Muito mais trabalhado que o Freud”), me mostra uma anotação sobre Maud Manony, psicóloga autora de “O Saber do Não-Saber” (não encontrei no Google…). “Eu tenho mais de 1200 livros. Você pode passar na minha casa que eu te empresto algum, eu não ligo pra isso não, eu moro atrás do Precito (supermercado daqui), logo atrás do Itaú, na rua tal, número tal, pega meu celular (mas senhor, você é muito confiado, eu posso ser um assassinoestupradorladrãopsicótico, ô meu deus!)”. Ele está vendendo a casa dele, até pensou em fazer um sebo, mas não rolou, algum problema com o trabalho, ele vende próteses, e, você sabe, “tudo que começa com P não presta: prótese, puta, padre e polícia”. Prossegue a doutrina: “Deus (ou ele disse universo?) é macro e nós somos micro, o corpo é submetido à mente, mas a mente é submetida à alma, nós somos dualistas”.

Chega o ponto.

“Qual o nome do senhor?”; “Juraci! E o seu?”; “Prazer em conhecer”.

Fico contente que ele está sorrindo. Ele diz: “A gente se vê por ai”.

Crônicas

É Preciso Dizer: me Orgulho

Publicado em

3475985107_1464938cb6_z

Publiquei no Digestivo Cultural a crônica Margarida e Antônio, Sueli e Israel, um texto sobre memória, trabalho, política e origens, histórias do meu avô Antônio, minha avó Margarida, meu pai Israel e minha mãe Sueli (a foto que ilustra este post é um quadro da minha avó). Eu escrevi:

Eu acho, pelo contrário, que é preciso saber dizer: me orgulho. É justamente pela sua habilidade política que as pessoas de origem “ilustre” dão à sua origem esse adjetivo. Não que seja o caso de dizer que toda origem é ilustre, a questão é que a suposta ilustração é a parte menos importante – origem, a mais. A originalidade de cada percurso até o meu percurso particular são relações com (e apesar de) a cultura, a economia, a sociedade. É preciso dizer: me orgulho.

Crônicas

Fins de Ano

Publicado em

whatever-works

Publiquei no Digestivo Cultural a crítica/crônica/artigo Texto Otimista de Fim de Ano, sobre Marcel Proust, Jim Carrey, Woody Allen, jornalismo — e fins de ano. Eu escrevi:

Em alguns momentos, o jornalismo atinge o nível do arquétipo: nas notícias que não são notícias, que apenas confirmam o mundo. Cumprimos o ano e lá estão as pessoas (as mesmas pessoas?) comprando de última hora presentes de Natal (é o mesmo Natal?), se engarrafando para ir à praia no Ano Novo (o velho ano novo?). Se as redações fechassem e vídeos antigos fossem exibidos, ninguém notaria. É um tempo parado. Nada acontece, só o que já aconteceu. A retrospectiva por fim comprime 52 semanas em 60 minutos. Estamos em dia. 2014 está já esquartejado: logo Carnaval, logo Páscoa, logo Copa. Abre-se dessa forma o espaço para textos otimistas de fim de ano.

Este é um texto otimista de fim de ano. Diz: tudo é possível. Mas tudo, tudo mesmo.

Crônicas

Julinho, o Rato

Publicado em

veneno-de-rato-pacote-com-24-saches-frete-gratis_MLB-F-3951790793_032013

Publiquei no Digestivo Cultural a crônica Diário de Rato, Chocolate em Pó e Cal Virgem. Eu escrevi:

Erguemos as barricadas: é preciso isolá-lo. Uma placa de madeira serve de bloqueio para a saída da cozinha à sala. Um tijolo tampa o buraco no canto direito inferior da porta fechada do banheiro. Onde ele pode estar? No fogão. No balcão da pia. Debaixo da geladeira. Levo uma luminária arrastando a extensão até lá. Ilumino cada canto como o holofote das prisões de filme americano, mas a mancha de luz não o denuncia. Não está em lugar nenhum. Você tem certeza de que viu? O rato põe o cotidiano entre parenteses (…)