Crônicas

Não se fazem mais nomes de doença como antigamente

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Além das quarentenas, do pânico, da queda das bolsas, tem outro problema nessas doenças novas: perdeu-se uma poética da doença, um lirismo. Antes, o batismo da patologia roçava o contágio, a linguagem era potente de sinestesia. Hoje, nada.

Você veja: Covid-19. Isso não funciona. Isso parece letreiro de ônibus: “Peguei o Covid-19, desci na pracinha”; “O Covid-19 é foda, sempre lotado”. Vai me dizer que isso tem a força, por exemplo, de: caxumba?

Olha a sonoridade. Um narrador de Nabokov diz que, quando se enuncia “Lo-li-ta”, vem “a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes”. Agora repara:

ca
xum
ba

Dá pra ouvir soarem bumbos. Mais uns metais graves vira uma sinfonia. Beethoven podia ter escrito, além da Pastoral e da Heróica, a Caxumba.

Covid-19 ou H1N1 não conseguem transmitir o terror de um cancro mole, que você nem sabe onde que isso pega mas já está com medo. Nem de uma gonorreia, que a gente diz a palavra e já se sente meio mal.

Cadê a visualidade de uma barriga d’água? Cadê o fantástico de um bicho-geográfico, que tipo tem um mestrado ou tipo parasita a própria ciência? E o mistério policial de uma moléstia causada por um barbeiro?

Arnaldo Antunes não teria conseguido fazer uma letra com esses nomes de cabeça de planilha de hoje. Imagine:

“SARS, MERS, H5N1, Covid 19
O pulso ainda pulsa”

Não dá, não dá. Pelo menos ainda temos uma dengue, cuja assonância com “dengo” carrega um sarcasmo ferino. Pelo menos ainda temos a chikungunya — estrangeira, gutural, metálica.

E pelo menos ainda temos a zika, palavra que merecia uma arqueologia — denota estar azarado ou meio amaldiçoado (aos velhos) ou algo classudo, alguém estiloso (aos jovens), e ainda por cima define febre, dores nas juntas, manchas vermelhas. Insidiosa, polissêmica.

A zika é zika. Cheguei com isso a um poema concreto ou a um trocadilho de tiozão? Essa é a beleza da coisa.

Crônicas

O Brasileiro Não Tem Uma Cultura

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“Minha fruta favorita é morango, mas eu estou comendo muita manga e eu AMO lichia”. Logo que o assunto muda, ela usa a mesma técnica de gradação para comentar a política do país: “Eu não gosto do Bolsonaro e não sou muito adepta do PT”. Essas posições, anuncia, exibem o seguinte: “Eu tenho um pensamento totalmente diferente sobre política”. E isso “porque eu estudei política. Um ano”. O gosto sofisticado dela quanto à dicotomia política de predileção dos brasileiros atualmente não é sua única análise social. Ela também acha que “as pessoas falam dos políticos, mas tem problemas que começam com as próprias pessoas. As pessoas não têm a cultura…”. Ela suspende a frase, pensando. O colega que está com ela tenta completar: “De empatia?”. “É…”, começa ela, “cultura empática…”, contudo não está segura, “empatia não é bem a palavra. O brasileiro não tem uma cultura… sabe?”.

 

Crônicas

Pagode Estraga Tudo

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Menina canta na fila do ônibus. Tem o olhar perdido enquanto entoa o verso (só um verbo, algo como “espera… espera…”). Talvez por se perceber observada, diz às amigas em torno:

— Tô sofrendo.

Como quem apenas se surpreende com um acaso, sem dor nenhuma. As colegas riem. Talvez para deixar claro que não há fraqueza envolvida, ela acrescenta logo depois:

— Sofrendo por ninguém.

Uma amiga comenta:

— É o pior tipo de sofrência, sofrer por ninguém.

A outra também:

— Pagode estraga tudo.

 

Crônicas

Jesus te AMA!

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Eu já o tinha visto em frente às catracas; ele emitia a um segurança um discurso exaltado, com onomatopeias e gesticulações, a que o guarda, postura rígida, atenção formal, só assentia com a cabeça às vezes. Como o segurança, era um homem negro. Tinha o cabelo cacheado, não era muito alto, tinha braços fortes até. Quando entrou no metrô, se dirigiu a um passageiro que tinha fones no ouvido, um homem grande, meio gordo, negro também: “Posso falar uma coisa para você?”. O sentado apontou para as orelhas. O de pé insistiu e foi rebatido por um “tô estudando!”, seguido de um gesto de quem fecha questão. O primeiro então resolveu passar pelo menos uma mensagem: “Olha, Jesus te ama, tá!”, ostensivamente, “Jesus te AMA”, agressivo, agitando o indicador, mas não violento.

Sentou um pouco, olhando para a janela, depois parou na nossa frente: “Posso falar uma coisa pra vocês? Desculpa incomodar”. Disse: “Eu não sou nada. Sou morador de rua – vivo aí, nas calçadas – mas acho que Deus me colocou aqui hoje pra falar uma coisa pra vocês: Jesus te ama”. Se eu falasse que sou ateu ele ficaria muito irritado? “Jesus disse para amar o próximo. O próximo”, explicou, mostrando as pessoas no trem com a mão, “é esse aqui do lado, é ele ali. Amar o próximo como você mesmo. Você não se ama? Não ama ela? Então”. Eu fico um tanto triste por quanto a religião o está iludindo, justificando a sua situação talvez. Por outro lado, dá uma anestesia necessária, não dá? E a potência de reclamar de qualquer um irmandade.

“Não tô falando de dar dinheiro”, prossegue, fazendo que não com o dedo em riste, balançando bastante a mão nessa negativa, por um momento olhou para ela como se ela o fizesse sozinha, “mas uma pessoa que tá com fome você não vai dar um prato de comida? Eu dou. Não tô falando de dar dinheiro pra malandro aí. Se uma pessoa tá passando mal, você não ajuda?”. Tinha de dizer algo assim: há certo protocolo da caridade que impõe só dar dinheiro a quem demonstrar não querer dinheiro ou a quem peça irrelevâncias (não é porque cinco centavos servem pra alguma coisa que os pedintes dizem que o aceitam; é para exibir essa disponibilidade sem desejo). Creio que ele queria me induzir a dar alguma moeda. Não ando com dinheiro. Ele não pediu.

Só reforçou sua teologia: “Dízimo não é dar dinheiro. Me diz onde tá na Bíblia que dízimo é dar dinheiro! Fala, pastor!”, intensificando o tom conforme questionava, cabeça baixa, o punho no ar como quem bate um martelo, escandindo a frase seguinte: “Onde que tá na Bíblia que dízimo é dar dinheiro?”. Então ficou em silêncio, inquieto. Dali a pouco, voltou a me chamar (já tinha ido para outro canto): “Ei, irmão. Irmão!”. Olhei. “Eu já dormi em cemitério. Você não sabe o que eu já passei”.

Desceu na estação Tiradentes. Em frente à plataforma vazia do lado oposto, ele me viu observando e se despediu com um joinha e com a mão espalmada. Retribui.

 

Crônicas

Por Causa de R$4,30?

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“Por causa de quatro e trinta deram um mata-leão na mulher, humilharam a mulher?”, era retórica a pergunta, o homem só enfatizava a revolta. Tinha uns cinquenta anos, branco, a pele do rosto bem esburacada. Estava junto do filho e ambos estavam vestidos no estilo hip hop. “Eu falei: vai pegar a mulher, pega eu, eu quebro vocês três”. Desde a República antes de vir o trem ele já contava essa história; repetiu várias vezes dali até o Belém, onde desceu, para uns quatro sujeitos diferentes. Ele tinha gravado tudo. “O governo rouba pra caralho e ninguém é preso. Agora, por causa de quatro e trinta…”. O filho teve uma hora que quis se enturmar, fez também o desafio aos seguranças imaginários: “Vem pra cima de mim, quebrada”. O pai riu, talvez só com um pouco de descrença que o rapaz desse conta mesmo: “É o meu filhote: tô treinando ele”, explicou, divertido. Não muito depois voltava ao seu leitmotiv: “A amiga dela pagou, aí ela pulou. Os caras foram em cima dela direto. Dois homens numa mulher. Falei: vou pra delegacia, mas dois de vocês eu levo pro hospital”. Em alguma festa de igreja, ele teria derrubado três sozinho; agora seria igual. Demonstrou na sequência que além do mais eram dois pesos e duas medidas: “E quando é a torcida do Palmeiras, do Corinthians, que os caras pulam catraca e eles não fazem nada?”. Um sujeito do meu lado comenta: “É verdade, vêm cem caras na muvuca e pulam a catraca”, ainda mais, “cantam de pé na cadeira, os caras são louco”. O outro continuava: “Os skatistas pulam catraca, ninguém faz nada. Podia ir pra delegacia, mas dois eu levava pro hospital”. E com algum cansaço: “Por isso que eu preferia morar nos Estados Unidos”, meu amigo, que diferença faria isso? Ele dá o veredicto: “O Brasil é um lixo. A gente fica indignado”.

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Fusca Verde

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No shopping Boulevard Tatuapé, um homem magro, cabelos grisalhos aos lados, calvo no topo da cabeça, uns cinquenta anos, pára ao lado do banco entre duas lojas, põe sobre a lixeira uma bolsa preta donde vazam latas de Coca-Cola amassadas, tira lá de dentro uma garrafa e passa a oferecer a tipo todo mundo: “Quer uísque?”. E vira um gole. Fala alto, aponta para funcionários nos quiosques e dentro dos estabelecimentos: “Quer uísque?”. Um rapaz uniformizado vê que é com ele e faz que não. “Você bebe uísque?”, o homem pergunta. “Se eu bebo uísque?”, diz, com uma cara de ‘como não?’, e aí responde, “bebo”, aquele toque de orgulho no olhar. “Já entendi”, o homem fala bem alto mesmo, “não bebe no trabalho”, e repreende, “isso aqui não é igreja evangélica não. Isso aqui é MUNDÃO. Nós tamo no MUNDO. Eu tô no MUNDO”. Mas pra além de uísque outra coisa que ele estava informando toda gente era: “Comprei um Fusca verde! Todo personalizado”. A história é meio paradoxal nesse ponto. “Sabe onde eu tava?”, questiona ele ao mesmo rapaz que não tá no mundão, “no shopping Anália Franco. Ganhei um BMW. Branco! E vou comprar um Fusca verde. Personalizado!”. E surpreendentemente: “Vou morar no Anália Franco! Muita treta, muita confusão”. Tenta guardar as coisas dele no quiosque de perfume, as meninas não deixam porque tem o uísque. Então ele vai embora. Sai agitando um hangloose no ar, despedindo-se das massas, a mão bem no alto, ninguém nem olhando. Pára num quiosque lá na frente, faz uma cara de cumplicidade e interpela um menino: “Comprar um Fusca verde pá nois?”.

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O Prefeito Daqui

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“Ó o tamanho do tumor. Ó: a tela inteira”, equilibrando-se no corredor do metrô com as pernas afastadas, o homem — camisa de botão roxa, calça cáqui, cabelo só ao lado das orelhas — estendeu o celular a uma mulher sentada. Então pegou a menina de três anos, loirinha, serelepe, que estava agarrada às suas pernas, a virou de costas e apontou: “Aqui o curativo”, aí apertando a bunda dela pra mostrar que tinha curativo mesmo debaixo da calça, e completando: “Uma injeção mal dada”. Ele fez a baldeação comigo da linha verde à linha azul; no metrô anterior estava contando a um sujeito que passara um produto químico na cabeça que lhe dera câncer (?), “caiu cabelo, caiu sobrancelha, caiu tudo” (quanto ao rapaz, disse, não havia perigo de ficar careca: não tinha entradas). Também explicou que não era daqui, era do interior de Minas, me esqueço a cidade agora; estava deslocado, afirmou, estava “perdido como pinto na granja” (não sei bem se foi “granja” o termo, mas era quase isso, um lugar onde um pinto provavelmente não estaria tão perdido). Depois que viemos ao outro trem ele prosseguiu contrariando a etiqueta do tédio da urbe e interagindo com desconhecidos. Mas no caso daquela mulher sentada havia um motivo especial para isso. Ela lhe fizera “o primeiro gesto de carinho que teve em São Paulo”. Isto é, levantou para que os seus filhos (mais dois, além daquela, sendo que um é “gêmeo com ela”) sentassem, além de dar uma folha de lenço umedecido para que um deles limpasse a mão. “O primeiro gesto de carinho aqui em São Paulo, em dois meses. Parabéns”. Parece que vem para a capital com alguma frequência; traz os filhos à quimioterapia. “O prefeito daqui”, se exaltou, “cortou a ambulância que trazia a gente da nossa cidade pra cá. Muito caro”. Era a segunda vez que eu ouvia falar de João Doria — o anti-Lula, segundo manchete da “Isto É” — hoje; a primeira foi a notícia da sua mais recente performance, estava erguendo bandeiras em alguma avenida para inspirar civilidade. “O prefeito daqui cortou a ambulância, não só da gente como de catorze famílias”. O homem descreveu toda a complicação que têm de fazer para virem ao médico agora, não sou capaz de reproduzir. “Sabe quando essas crianças vão comer?”, disse, a menina agarrada à sua perna, jogando a cabeça para trás, brincante, ele mostra o outro com a cabeça: “Ele está comendo agora porque o moço deu uma bolacha. Eles só vão comer quando a gente chegar no Tietê pra voltar pra casa. Às três e meia da manhã!”. Vai levando a filha a uma cadeira enquanto eu desço na Sé. “Sabe quando essa criança tinha de ter tomado banho? Faz quatro horas!”.

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Chupa a Bala Halls, Pega a Vassoura e Voa

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“Ela levantou a mão e falou ‘Eu sou Maria’? pra vocês saberem? Pra vocês darem nome pra um objeto?”, diz a menina de coque na cabeça ao menino de camisa de botão listrada lilás para dentro da calça. Vê-se que ela narrava uma pendenga entre evangélicos e católicos. O rapaz comenta concordando: “É que se aprende isso de pequeno e continuam com essas superstições”. Talvez ele não tenha dito bem com esses termos. Enfim. Depois desse argumento que não caberia menos a Ateia, ela conta como foi importunada por não comer carne: “Eu falei: tia, você respeita a minha religião e eu respeito a sua. Mas a senhora quer discutir? Vamos pegar a Bíblia e discutir com a Bíblia aberta”. A tia teria retrucado: ah, mas eu tenho tantas décadas de evangelismo. “Então vamos discutir com a Bíblia aberta? Já que a senhora leu a Bíblia tantas vezes, né?” Disse que foi lá e abriu em tal parte e estava escrito que Jesus mandou ninguém comer nada que tivesse sangue. “Sabe o que é o porco? O porco é um lixeiro. A senhora tá comendo um lixeiro. Mesma coisa o camarão. A pessoa tá comendo os dejetos de todo mundo na praia”. Segundo a moça de coque isso tudo foi um arraso, a tia ficou muito atordoada.

Logo a conversa transita para uma discussão teológica intramuros evangélicos. Ela constrói outro personagem que opõe a si: “’Ah, mas vocês não acreditam no Espírito Santo’. Aí eu começo a rir. Falo: má é cada uma! Como eu não acredito no Espírito Santo? Só que é que nem eu falo: quem disse que Deus leva em consideração que você só tem o Espírito Santo se você sai pulando, chupa a bala Halls, pega a vassoura e voa? Quem garante isso? Você só tem algo se for assim, se você ficar gritando e pulando igual um doido, todo mundo com medo de você, sem saber o que é aquilo”. O rapaz nota que certo livro da Bíblia não diz que TODAS as pessoas estavam pulando em certa ocasião que, imagino, sustente essa interpretação negada pela menina. Ela acrescenta que em outro ou no mesmo livro bíblico, pelo que pude entender, fulano até gritava ou pulava, mas “falava de forma que tooodos entendiam. Então eram línguas locais. Era língua daqui da Terra, não era língua do beléleu. Não é um negócio de chupa a bala Halls, pega a vassoura e voa”.

Os desentendimento com outras designações iam além do falar em línguas ou do receber o êxtase divino de formas performáticas demais. Outra questão é que haveria uns crentes muito peguentos. “Às vezes tem um pessoal amigo meu que diz: ‘Posso orar por você?’ Eu digo: ora, mas não põe a mão. Não põe a mão. Não põe. Pode orar, se quiser segurar na minha mão, beleza, mas por a mão na minha cabeça não”. O rapaz acrescenta: “Por a mão na cabeça só o meu cabelereiro ou o pastor”. Ela retruca, reeditando Augusto dos Anjos sem saber talvez, e com menos talento: “E olhe lá, viu! Que eu sou bem assustada. Eu sou meio assustada, porque sabe aquela história, né? A mão que te abençoa é a mesma que te amaldiçoa. Mão na tua cabeça, fio, é algo muuuito sério. É muito sério isso”. O rapaz se repete: “Eu sei. Por isso que eu só tenho essa concepção, ou meu pastor ou meu barbeiro. Só”. Ela continua novamente quase como senão tivesse sido interrompida: “O cara tem de passar meeega credibilidade pra você”.

Ela volta ao que parece ser o cerne da sua ética: aferrar-se à leitura da Bíblia. “Com o tempo, se você for vendo a Bíblia, você vai começar a ver. Que nem, o pessoal fala pra mim assim: ‘Ah, mas você não bebe? Pode beber, Jesus Cristo fez vinho’. Mas fala o teor alcoólico?”. Ela pergunta retoricamente e responde de imediato e em um tom mais sério: “Não. A gente que inventou de tacar álcool dentro das coisas”. O rapaz sempre fático: “A fermentação já tem o álcool natureba, né. Hoje em dia com os esquemas de produção, escala…”. Eles apontaram problemas diferentes, na verdade: ela culpa uma má interpretação do que seria claríssimo no texto bíblico. Ele meio que culpa o capitalismo.

A garota prossegue: “Eu bebo cerveja sem álcool. Porque eu tenho um problema renal e bebo sem álcool. Só que eu não posso fazer disso um vício, porque a gente deve fugir da Aparência do Mal. Que que adianta, o cara vai falar bem assim pra mim, tá com cheiro de cerveja de qualquer forma”. Seria deus ou Jesus esse “cara”? O exemplo que dá lembra a parábola das lanternas. Ainda ela: “Tudo a gente tem que fazer e tem que ter cuidado. Aquela história: eu faço todas as coisas, porém nem tudo me convém”. Então chegou a estação, e eles se foram.

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Cristã Verdadeira

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“Só porque tem uns trocadinhos, pensa que é alguma coisa. Só porque tem umas moedas, pensa que é melhor que a gente. Mandando eu me lascar. Mas eu não me lasco não, que meu Deus me cuida.” A senhorinha vem manquejando na direção do ponto de ônibus, apoiando-se em uma bengala de quatro pontas, uma das pernas enfaixada. Usa uma camiseta amarela desbotada e saia até os tornozelos; carrega duas sacolas, pára sob o abrigo e se põe a procurar algo em uma delas. “Só porque tem uns trocadinhos no Bradesco pensa que é alguma coisa.” Puxa um resma de folhetos retangulares com citações da Bíblia. “Quer a palavra do Senhor?”, ela me diz, eu aceito por educação; ela passa ao próximo expectante, uma moça sentada no banco de madeira. “Quando o diabo manda dos seus é difícil, né? Ela mandou eu me lascar. Só porque tem uns trocadinhos, acha que é melhor que a gente.” Entrega o folheto e segue a um idoso também na fila. “Quer a palavra do Senhor?” Devagar, continua falando, “eu trabalhei 35 anos. Agora a perna inflamou”, purgando e pregando, “todo mundo é igual, a Dilma é igual, a Dilma teve na cadeia, teve na presidência.” Há nessa frase uma profunda compreensão ética: a igualdade é que nada está garantido e que todos somos frágeis. Cristã verdadeira.

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Rabeta Monstro

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[Publicado no Facebook em 26 de outubro de 2016]

Homem de meia idade no metrô, pele acobreada, barriga saliente debaixo da camisa social, uns chumaços grisalhos por topete. Olha para uma mulher de blusinha de alça sentada um metro a frente e comenta ao seu colega — um descendente de oriental também de meia idade, também fantasiado de escritório: “Peitinhos brancos assim, né”. Fala só uns poucos tons mais baixo do que se verá que é o seu normal. Pequena pausa, muda de assunto: “Falei para a Marta que ela vai ficar grávida e tem que tomar cuidado com as estrias e a celulite. Que ela tem uma bunda muito grande e fica grávida estoura. Ela ficou desesperada”. O colega anota: “Vai ser uma grávida chata. Já é chata agora. Imagina grávida”. Pequena pausa, o barrigudo passa a contar umas aventuras sexuais suas: “Eu falo pra ela: manda nudes. Ela manda. Só de calcinha, sutiã. ‘Apaga?’ Apago. Depois de novo. Geralmente domingo assim. ‘Vou tomar banho’, aí manda”. O outro pergunta sobre uma outra moça com quem estava envolvido. Confirma que já não está mais: “Tá namorando agora”. Pequena pausa. “E também ela mandava mal demais”. “Ficava esfregando, você falou.” “É, subia em cima, ficava esfregando.” Ele faz curtos movimentos para trás e para frente. Acrescenta: “Você tava sentado no sofá, ela vinha em cima, aquele peso todo. Ficava de quatro, não fazia aquela curva”, faz a curva no ar com a palma da mão, “sabe? Aquela empinada. Tem vergonha”. Pequena pausa. “Agora eu tô mais a casada. A do policial. Tem uma rabeta monstro. Quadril monstro. Ela fala: ‘Vai logo’. Vai logo nada. Fico uma hora. Uma hora e dez. Foda-se”. Lá fora, passa uma mulher, ele aponta pela janela: “Empresária”. O colega não dá atenção. Abaixa um pouco a cabeça para vê-la ao longe: “De azul”. O colega ainda não lhe dá atenção.