Contos

Normatizar, Representar, Aceitar

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Escrevi esses textos para o trabalho de conclusão de curso do meu irmão Murilo Ribeiro, que se formou no Istituto Europeo di Design (IED/São Paulo). Trabalhando a homossexualidade na infância, ele criou um livro infantil ilustrado — pesquisa, projeto gráfico, ilustrações — e eu colaborei com essas historinhas.

Elas foram pensadas para um diálogo com as imagens, mas acredito que funcionam assim também, ficam com uma cara de poesia narrativa. Exagerando um pouco, diria que são poeminhas de formação: em cada um deles o protagonista se descobre um pouco mais, atravessando as relações com a família, tensões com a sociedade, reconhecendo os seus afetos, achando espaços de paz.

Normatizar

Escolher um brinquedo não devia ser tão difícil.
Devia ser assim uma coisa que a gente quer e pronto.
Brincar é ser livre! Não é?
Parece que não é…
Levo meu brinquedo para a escola,
parece que estou levando uma bomba.
Que explosão, que escândalo!
Ser livre é mesmo coisa muita séria, já dizia o poeta.
E brincar, digo eu mesmo, é muito potente.
A gente inventa uma história.
Vira cavaleiro que salva a princesa.
Vira princesa que salva o cavaleiro.
Escolher um brinquedo
também é um jeito da gente virar o que quiser.
A gente se lança num sonho e se descobre.
O brinquedo é um pedacinho de liberdade.
Que tal?
Vem brincar de liberdade comigo?

Representar

Até que eu podia me identificar com o futebol.
Esse pessoal trancado em um retângulo.
Com regra de que mesmo tendo mão só pode usar o pé.
Posição definida no campo. Manter-se atento.
Monitorado pelo juiz, pelo técnico, pelos companheiros.
Julgado pela torcida.
E por você mesmo.
Até que temos muito em comum, eu e o futebol.
Mas sabe?
Eu preferia mesmo era outro jogo.
Não quem marcou mais gols.
Mas quem experimentou mais beleza.
Em vez dos ataques e contra-ataques,
um desfile.

Aceitar

A raiva é uma mágica que sempre dá errado.
A minha raiva por exemplo criou um monstro.
Veio com meu pai.
Ele era uma pessoa. Fechei os olhos pra isso. Fiz um monstro.
E detestei meu pai por ter trazido o monstro.
Mas aí aconteceu uma mágica mais forte.
A alegria do meu pai começou a desmentir a minha raiva.
Ele estava bem, e eu com quatro pedras na mão.
A raiva era uma roupa apertada demais.
Deixei-a de lado e a fantasia do monstro ruiu.
Rasgou aqui, rasgou ali, afrouxou, acabou caindo.
E o que eu descobri debaixo dela?
Uma pessoa! Inteirinha!
Única, tão complicada quanto eu.
Muito maior que qualquer monstro.

Contos

CloroquinaMan

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Uma HQ chamada CloroquinaMan™:

Pelo seu histórico de atleta, o CloroquinaMan™ possui força, rapidez e resistência só calculáveis por Paulo Guedes.

E ao erguer uma caixa de hidroxicloroquina ao alto com as duas mãos e gritar “Olavo!”, o CloroquinaMan™ se torna quase invencível.

Nas noites de Brasília, o CloroquinaMan™ enfrenta criminosos (das classes mais pobres e que não sejam amigos da família). Sua vigilância é mais onipresente que a do Centrão sobre os cargos do governo!

Os bandidos vêm no soco POW POW o herói barra as porradas com a caixa de cloroquina e contra-ataca cuspindo covid.

Os bandidos vêm de pistola PZIU PZIU o herói move as mãos na velocidade em que volta atrás e bloqueia todas as balas.

Estão ao lado do CloroquinaMan™ guerreiros como o Queiroz Invisível™, o Capitão Antiplaneta™ e o WhatsApp Humano™.

Mas grandes vilões também o ameaçam: SquidMan™! Punho de Imprensa™! Dois-Moros™! Átila Macabro™! Senhor Impicha™!

E, claro, COMEMA®, a Incrível Ema Comunista, monstruosidade criada nas universidades federais com dinheiro da Lei Rouanet, alimentada apenas com maconha e com Pepsi feita de fetos!

Nesse momento mesmo o CloroquinaMan™ encara COMEMA® nas proximidades do Palácio da Alvorada. A tensão se eleva.

COMEMA® cisca: esse tá no bico, até porque já esteve. O CloroquinaMan™ levanta em desafio a caixa de hidroxicloroquina.

Quem vencerá dessa vez? Não perca a PRÓXIMA EDIÇÃO

Contos

Você sabia?

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Você sabia que as calamidades registradas na Bíblia também tiveram seus negacionistas?

O governo da Anatolia mesmo com os pedidos insistentes de Noé não lhe concedeu recursos para compra de madeira, tendo direcionado o orçamento de emergências para a aquisição de boias feitas com rins de égua, apelidadas com a contração de boia + equina: boiaquina.

Quando a chuva começou a cair, uma multidão se reuniu ao pé do monte Judi, ao lado da arca (da qual Noé olhava com satisfação má). Foi a dilúviofest. O duduk, o saz, o tar, o oud tocaram a noite toda, o pessoal tomou banho de toró, se despiram, morreram pelados de manhãzinha.

No Egito, a devastação dos gafanhotos foi dita ser uma “oportunidade para ter uma dieta mais proteica”. Depois da água virar sangue, o faraó ironizou: “Nunca lambeu um sanguinho depois de cortar o dedo?”. O aviso para dispor marcas vermelhas na porta foi considerado um ataque à liberdade: “Que? Vou estragar minha porta?”

Após a morte dos primogênitos, os sábios do governo aconselharam a resignação: afinal, a maldição só atingia crianças, apenas uma por família e sempre se podia ter mais. Mas, como se sabe, morreu o filho do faraó e se os ricos têm uma tragédia isso tem efeitos muito fortes na criatividade da teoria e prática políticas.

Enfim, quando no céu do mundo surgir a besta com sete cabeças e dez chifres, com aspectos de leopardo, urso e leão, trocando ideias com as amigas bestas dela lá em cima, isso será chamado de “apocalipse da China”, que “esse pessoal sempre fez esses filmes de monstro”.

Talvez a mais impressionante prova de que os convictos da inteligência estúpida estiveram sempre por aí é a história de Jó. Quando Deus disse a ele: “Onde você estava quando lancei os alicerces da Terra? Quando fixei os limites do mar? Quando dei ordens à alvorada, comida aos corvos e leoas?” Jó só desqualificou:

— Fake news.

Contos

Bolsonaro 0x1 Gafanhotos

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É julho de 2020. Bolsonaro está em reunião com os filhos e uns ministros no Palácio da Alvorada. Ouve uma batida na janela. Lá fora é uma manhã nublada e de mormaço, um desses dias que soam mais silenciosos que os outros — e TUMBF. Batida no vidro. Bolsonaro olha: uma gosma marrom-esverdeada no vidro e um corpo de inseto escorre. Antes que consiga pensar em qualquer coisa — TUMBF — mais um. E logo vem outro, mais outro, os gafanhotos chocam-se com violência, na vidraça os trincos pipocam aqui e ali. Ninguém parece ter percebido nada, Bolsonaro já está de pé. Quando o primeiro estoura a barreira, ele já está na porta. A nuvem força, a janela se despedaça, os fragmentos de vidro voam sobre mesa, político, carpete, aos gritos Damares reage, é do Diabo!, é do Diabo!, até perceber que se é gafanhoto não pode ser, não pode ser, será que eu… Salles está tremendo que nem vara verde, não consegue se situar, só vê manchas vibrantes e velozes, só ouve o zumbido cada vez mais intenso, ele se esconde debaixo da mesa, em pouco tempo aquilo entra na sua mente, ele alucina, no fundo do zum zum zum, vamos passar a boiada, sai daí e vem ver a boiada passar, Ricardinho… enquanto isso Eduardo faz cosplay de Al Pacino em Scarface, uma arma em cada mão, atirando nos bichos e berrando, de repente um lhe entra na boca, mais outro, mais outro, a boca de Eduardo é um funil, a nuvem vira um pequeno tornado, Eduardo incha, Eduardo explode, seus restos mortais mancham a sala toda, atingem especialmente Paulo Guedes, o Posto Ipiranga todo encharcado de sangue, coberto de tripas, a economia decolando!, ele reclama, e aí acontece isso!, os gafanhotos estão comendo o Chicago Boy bocadinho por bocadinho, os fluídos vitais vazam, ele pensa, bem, agora só pulmões e coração podem ter recursos, não tem pra todo mundo, não tem, racional até o último minuto, que no caso foi esse mesmo, porque não sei se os gafanhotos sabem de economia mas não fizeram desperdício nenhum… nisso o líder da República já está, puta que pariu, puta que pariu, pelo gramado tropeçando, vê uns apoiadores seus lá na frente, corre em direção deles, grita, o STF, porra!, o que foi, meu presidente?, a Globo, a OMS, vêm vindo, como assim, meu presidente?, querem a nossa hemorróida, porra!, vamos te defender, meu presidente, isso mesmo!, eles vão, ele fica; sentado no chão, suado como um porco, ele os vê andando marchandinhos dizendo mito, mito, mito, até que entram no palácio e só resta o silêncio. Bolsonaro acredita que escapou, que mais uma vez funcionou — aliás, funcionou uma vez, não tem porque não funcionar outra, tinha usado partido e aliado e ministro e o país de boi de piranha e tinha dado certo, agora deu também. Bolsonaro tão inexplicavelmente vivo como foi inexplicavelmente eleito presidente. O mormaço está forte e o céu é branco. Ele se deixa descansar um momento. Então, cai a noite. A noite? Mas são onze da manhã.

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Coringa

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Arthur está caído, sabe só que tem de cobrir o rosto, leva chute no estômago, no peito, nas costas, são quatro moleques, um grita: “Pega as coisas dele!”, hahaha, por essa eles não esperavam: eu não tenho nada.

Ele trabalha como palhaço-homem-placa nas proximidades da Praça da República, em São Paulo, a poucas esquinas dessa viela. O nariz lateja porque lhe quebraram a placa na cara. Mas acima da dor ele não consegue deixar de pensar na piada: estão espancando o palhaço. Hahaha. Estão espancando o palhaço.

Os moleques se cansam e se vão. A bochecha de Arthur sente o asfalto como se fosse uma calma. A rua está tão limpa. A Prefeitura está trabalhando, né?, que bom, tudo está bem. O palhaço-homem-placa (com ficha corrida de Teletubbie rosa-sujo e Pikachu gigante) se ergue dolorido, checa a placa despedaçada, manca para longe dali.

***

Arthur banha sua mãe idosa e inválida sem ser capaz de afastar a consciência de que isso lhe põe em uma armação ética confortável: aquela do Filho Dedicado ou algo assim. As armações éticas são largas como roupas de palhaço. Dá pra viver dentro dessa aqui, ele considera. Se viessem me ver, diriam: que bela fantasia, Arthur, tudo bem que viva nela.

O palhaço-homem-placa-filho-dedicado desce de elevador e quando a porta se abre lá estão a mãe e a filha pequena que moram no andar de baixo. O enunciado “me adota!” surge em sua mente e fica por lá suspenso; isso é uma coisa que se diz, não é? Não é que eu queira ser filho dela. É um jogo com o contexto. Eu te namoraria, diz, brincando. Hahaha.

Três notas débeis anunciam melodicamente que o elevador voltou ao térreo. Uma família sai e passa por Arthur, que ainda está parado no mesmo lugar do corredor. Preciso informá-la. Do que? Dessa aposta na boca do estômago. Informá-la de que as palavras estão indecisas. Ela saberá o que fazer. Informá-la de que a resposta é sim. E brusco em sua mente como um vômito: informá-la de que a ordem é sim. Não. Sem ordens. Sem força. Eu quero ser levado pela mão.

***

O chefe diz que sente muito pelo que Arthur tinha passado, o assalto, a surra e tudo. “Não, não, que isso?”, não está nervoso por ele ter deixado o posto, mesmo sem ter avisado. Era compreensivo. “Depois, você só combina com o RH como a gente vê de pagar essas horas.”

“A gente”, ele disse. Arthur se sente bem, sim, com essa expressão, ele poderia ter dito “você tem de pagar essas horas”, mas falou “a gente”, a gente consegue caber inteiro nesse “a gente”. Ok, não chega a ser um palácio.

Mais ou menos enquanto pensa nisso tem a ideia de uma gag: o sujeito todo dia tendo de ir bem cedo ao departamento temporal para comprar as horas que usaria naquela jornada. Ele vê outros saindo com os bolsos cheios de vinte e quatro horas, mas só pode comprar oito ou seis ou três. Hahaha. “Fazer o que”, ele se lamenta, pode ser o bordão dele. Hahaha.

A inspiração trava nesse ponto. Comprar horas, comprar horas. Como acaba?

***

Segui-la? Ele sente a subjetividade vibrar com a repreensão próxima. Mas ela nem saberia. Que diferença? E que mal? Por exemplo, minha vida seria boa se observada. Escola da filha, trabalho, escola da filha, prédio, escola da filha, trabalho, prédio, escola da filha, prédio, escola da filha, trabalho, escola da filha, prédio, nada de mais. Não roubo nada.

Mas e se ela me visse? O palhaço-homem-placa-filho-dedicado-aspirante-a-stalker imagina as cenas em que é denunciado ou se denuncia ou em que é descoberto por acaso. Modula os olhares dela que conhece para aquele que, sabe, ela teria: sagaz, concluindo. Arthur se retrai como se lhe tivessem pego o coração na mão fechada. E então a expressão dela tensionada pelo temor, e agora esse breve calor agradável no peito. Não. Não seguir por aí, porque não quero viver odiado. Não dá pra viver odiado. Se bem que tem gente… se bem que ser odiado seria possuir algo.

***

Sua mãe dorme no quarto, limpa, alimentada. A televisão ilumina a sala com tons azulados de intensidades variadas. Agora o jornal e depois os palcos de variedades. A imagem do sonho.

Arthur sempre quis estar lá. Sabia que, sendo pobre, estava qualificado como material para o entretenimento televisivo. Teria no entanto de oferecer algo a mais. Se soubesse cantar, teria chance de aparecer no Geraldo Luís. Acertaria muitas perguntas no Luciano Huck? Precisaria mostrar seu valor: quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral; o time com mais títulos nacionais é o Palmeiras. Parar na hora certa.

Dá pra viver dentro desse “inteligente”. Dá pra viver em “honesto” ou “boa índole”. Dá pra viver em “musculoso”.

Dá pra viver em “suicida”?

***

O noticiário se agita com uma transmissão de emergência: os protestos que acontecem hoje em todas as capitais do país e noutras cidades se tornaram violentos. Arthur nem sabia que estavam ocorrendo manifestações. A câmera exibe barricadas sendo armadas, um grupo de policiais acuados, o Congresso Nacional sob pedras e molotov. Meu Deus. “Isso é errado” e “isso é o certo” boiam na sua consciência. Está feliz por estar seguro. Queria estar lá.

Sem se mover do sofá percebe os músculos prontos para uma ação desconhecida. Quer se sentir convocado. Mas e se fosse ferido, mas e se acabasse matando alguém? Seria como ter tido um destino. Ele só tem de se pôr de pé e se pôr a caminho. Eu só tenho de me pôr de pé e me pôr a caminho. Agora. Agora. Agora. Vamos! Agora. Agora!

Cada “agora” um passo dentro de “Arthur”. Longo e amplo: “Arthur”. Não dá pra viver aqui pra sempre. Dá sim.

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Aplicativos de Idade

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Primeiro todo mundo usou o aplicativo para gerar o seu eu rejuvenescido. Tinha só que furar o dedo e pingar uma gota de sangue no sensor de digitais: em até quarenta minutos chegava o motoqueiro com a criança na caixa.

Não parecia tanto assim com a gente, se fosse lá olhar nas fotos de época dava pra notar marcantes discrepâncias; mas a semelhança era suficiente. Nas primeiras versões do aplicativo, podia-se configurar o clone com idade de poucos meses a quatro anos. Pedi um eu de três. Uma fofura que só. Fiquei comigo no colo um bom tempo, meio bobo, como se eu fosse um filho meu.

Mesmo consciente de que os clones lúdicos têm vida curta, me peguei pensando se eu me tornaria o que me tornei. Se o rapazinho que brincava com as peças de montar não fosse se desfazer em um nuvem de carne gaseificada e nanorrobôs higienizantes em poucas semanas, ele cresceria para ser o que sou? Não, né? São muitos fatores que condicionam essas coisas.

Montei vários desses, maiorzinhos também, quando o aplicativo ganhou mais recursos. Eu de seis, eu de nove, eu de doze. Jogamos bola e videogame. Até os levei pra “escola”: umas encenações de colégio que grupos de usuários do programa organizam para poder observar seus eus estudandinhos. Eu parecia aplicado; não lembro de ser assim. Estava pensando ali caladão em tudo o que eu pensava na época? Ou esse eu é vazio? Por mais que a tecnologia avance, sentir dentro é diferente de por fora.

Mandei fotos dos meninos para a minha mãe, ela ficou enternecida no começo: “Olha, você, que gracinha!”. Mas ela não gosta mais nem de saber que faço isso, fica muito triste quando eles se desfazem. A vida na época dos mais velhos era algo muito excepcional, então eles não conseguem se adaptar às coisas de hoje.

***

Com a mais recente atualização, a moda virou produzir os velhos que seríamos. Não vinham na caixa nem de moto; a empresa emitia o espécime e o punha para “trabalhar” em alguma locação. A gente ia lá e podia olhar, conversar com eles. Se fossem fabricados bem idosos, podíamos levá-los para morar conosco, tipo parentes de que eles se esqueceram ou algo assim. A questão é que diferente das crianças os mais crescidos funcionam com alguma ilusão.

Encomendei um eu de sessenta e três anos. Supostamente o algoritmo escolhe a locação com base nos seus dados: vasculha as suas atividades, faz prognósticos e decide. De algum modo, então, devo chegar a essa idade como vendedor em uma banca de frutas no centro da cidade. Empreendimento que seguia aberto à noite, até tarde, por algum motivo. Foi lá que eu fui me encontrar, a rua iluminada por um amarelo-âmbar. Eu trabalhava. Aplicado.

“Boa noite, senhor. Tem fruta boa aí?”, disse, sorrindo. O rosto dele parecia uma profecia realizada. Eu avaliava cada traço me dizendo “mas como?” e concluindo “sim, sim, é claro”. As minhas olheiras, os vincos na testa, eram como sementes: nele, era como se as linhas tivessem enfim sido preenchidas de escrita. “A goiaba tá madurinha”, eu respondi. Estava satisfeito com o ponto onde tinha chegado? Mudaria alguma coisa? Ele me instigava.

Fui todos os dias à barraca, aproveitando ao máximo a validade do clone. Eu me dizia: “Lá vem o rapaz saudável! Que vai levar hoje?”. Eu me tornei um bom conhecido, quem sabe até um bom amigo de mim mesmo. Comecei até a lamentar que tivesse de desaparecer. Eu teria tanta afinidade com outros eus envelhecidos que ordenasse à loja? Um eu de oitenta e sete me diria tanto? Naquele que — ele não sabia, é óbvio — seria seu último dia, combinei de irmos a um bar próximo, beber algumas.

Lá ficamos até a madrugada. Eu estava dando a mim uma boa dose de juventude, eu disse. Eu virei um outro gole e retruquei que estava era recebendo lições de maturidade. Eu sorri com falsa modéstia: “Que maturidade o que… os jovens é que sabem de tudo. Se não sabem, de qualquer jeito tem a faca e o queijo na mão”. E, rindo alto na avenida desabitada, “os velhos não tem queijo nenhum e a faca que têm está no seu pescoço!”. “O senhor tem muito tempo ainda”, menti. “Que nada. Queria ter o montão que você tem”, rebati, formando desse modo, inadvertidamente, uma cena da pior autoajuda. Senti uma calma raiva de mim.

“Sabe o que eu queria?”, abri, retórico, “queria usar um desses aplicativos de idade e fazer um eu novo. Trinta e dois anos, por exemplo. Só pra olhar, lembrar como era”. “Aconselhar?”, questionei. “Ah, isso não. Pra que? Somem tão rápido”. Concordei, calado. Então me ouvi dizer: “A única coisa que eu podia falar de todo jeito era que eu teria feito tudo diferente”. “Como assim?”. “Ah. Diferente.” Convenientemente, melodramaticamente, foi aí que desligou.

De repente, parou de piscar. O olhar estralado lhe dava uma expressão assustada. A pele descorou grau a grau, até a transparência, e se desagregou em milhares de partículas baças, um enxame que foi por sua vez implodindo, criaturazinha por criaturazinha, sem som. No ar, evanesceu como o vilão definitivo de um videogame. Fiquei só comigo e com meu copo.

Contos

Um Mundo Velho Todo Novo

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Presente retroalimentar: ideia esquisita que meu pai botava em prática a cada ano. Consistia em inverter o tradicional “receber presentes no aniversário” para atingir um alvo mais difícil — ele dava coisas pelas quais era apaixonado, na aposta de que essas coisas apaixonariam os demais também. Lançava seus gostos às subjetividades alheias como conquistadores dóceis. Se cumprissem a missão, sorria, satisfeito, completo, justificado. Se não cumprissem, resignava-se a tentar de novo em outra oportunidade. Ou, como ele dizia, “na rotação seguinte”. “Planeta pra frente, segue o jogo!”

O maior número de presentes retroalimentares pela culatra aconteceu comigo. Eu nunca tive pudores nem sutilezas quando, ano a ano, meu pai me dava um presente no seu aniversário e eu lhe dizia que não havia gostado. Eu não era uma criança malvada ou birrenta, é que não gostava de ler e — talvez tenha sido esse um erro de estratégia de meu pai — ele insistira em me presentear com histórias em quadrinhos. Fanzaço das HQs, acordava cedo, ia à sua biblioteca (tão emagrecida depois que nasci e demandei, só por estar presente, mais espaço) e escolhia algum queridinho.

Quando eu completei seis anos, foi um livro do dinossaurinho Gon. Perguntei: “Não tem desenho?”, ou seja, versão animada? Procurei no Youtube sozinha, achei, gostei bem mais e deixei de lado para sempre a HQ. Aos sete, foi uma série de livros infantis com ilustrações do Glauco. Achei sem graça. Aos oito, foi um daqueles almanaques da Turma da Mônica, acompanhado da história de que ele, criança, passava horas e horas fazendo os passatempos do volume. Dei uma olhada, preferi o meu videogame. Aos nove, porém, tudo fez uma curva inesperada: meu pai me revelou os quadrões.

No dia em que me contou o segredo dos quadrões, meu pai assumia ares conspiratórios desde o café . Era um domingo de sol e ele comia um pão de manteiga. Mastigava sem perder o sorriso no canto da boca. Pela janela os passarinhos cantavam e, quando um deles pousou no peitoril, meu pai fez a sua piada tradicional — “É o Super-Homem? Ah, não, é um pássaro” — uma tirada a que ele também recorria em outras ocasiões (“É o Super-Homem? Ah, não, é um avião”). Minha mãe e eu já estávamos mais que acostumadas com a verve dele. Meu pai era a vanguarda da piada de tiozão.

Mas mesmo essa piada tradicional soou diferente, como se dessa vez ele tivesse se perguntado “é o Super-Homem?” e “ah, sim, é o Super-Homem”. Ele esperou minha mãe sair para a sala e me disse, sussurrante: “Você quer saber qual vai ser o presente que eu vou me dar via você?”. “Pai, eu não aguento mais quadrinhos.” “Ah, mas dessa vez é diferente: são uns quadrões. Dá até para passar no meio deles. Na verdade a coisa toda consiste em passar no meio deles.”

Com todo o esnobismo que nove anos podem conter, eu desci ao porão com meu pai para ver o que afinal ele queria dizer com isso. Lá embaixo, parou à frente de algo que estava coberto com uma lona. “Lembre-se: grandes quadros implicam grandes responsabilidades.” Ri com os ha has bem espaçados para expressar minha avaliação do que eu achava que era outra piada. Ele não pareceu se perturbar. Puxou a lona e atrás dela estava uma moldura de madeira, dois de altura por cinco de largura, segura de pé por uns suportes, envelhecida mas gritando durabilidade.

“Aqui está um belo portal”, exclamou meu pai, ao que eu só pude contra-argumentar: “Portal? Que portal?”. “Esse negócio de madeira.” “Tô vendo. E daí?” “E daí que a gente agora é Alice indo pro outro lado do… quadrão. Mas primeiro você tem que contar uma coisa pra ele.” Eu estava cheia de vergonha alheia. “Ai, pai, tá bom, vou jogar videogame, tchau.” Ele deu uma risada e segurou na minha mão. “Tá, dessa vez eu dou alguma coisa por você, mas depois você vai ter que fazer isso sozinha, tá? Os quadrões só entregam algo de volta se a gente dá alguma coisa pra eles.”

Ele olhou concentrado para a moldura vazia, soltou um “ok” decidido e me levou a passos vigorosos, como uma marcha. Através das quatro linhas via-se, distante um ou dois metros, a parede caiada do porão. “Olha o degrau!”, avisou ele quanto à parte debaixo da moldura. Fechei os olhos. Coloquei o pé do outro lado, o sentimento de chão foi o mesmo, então antes de abrir as pálpebras eu já comecei a dizer um “Viu? Nada aconteceu, eu não sou mais criança pra acreditar em…”, e aí meus olhos começaram a ver e eu vi.

Estávamos no topo de um prédio e o horizonte era uma variedade de mundos. Os campos, cidades, praias e montanhas daquele panorama existiam como se produzidos por mil artistas — o traço, as texturas, as cores, as resoluções, os graus de realismo ou de caricatura, tudo se sobrepunha e se sucedia lado a lado como se a criatividade, para o deus daquele mundo, fosse um ato de vontade. Meu queixo estava no chão. Virei o pescoço para trás em um gesto brusco: meu porão continuava lá. Idêntico, cinza, monótono, atulhado de silêncio. Voltei-me. Era um deslumbre.

“Ah! Essa sua cara de boba é um belo presente retroalimentar. Dessa vez, eu ganhei!”. Depois dessas palavras, meu pai me levou até a cidade lá embaixo. Carros de tecnicolor congestionavam a avenida, entoando uma sinfonia modernista de buzinas, roncos e impropérios. Dei um grito agudo: “Ali! Ali é o Pateta? O Pateta!” Era mesmo, enfurecido, dirigindo o seu carro ao trabalho. Algumas fileiras atrás, uma dragoa rosa e vermelha esperava sua vez no trânsito e cuspia fogo para cima de vez em quando. Seu marido, um burro, repetidamente questionava: “A gente já chegou?”

Meu pai ia andando e eu era arrastada embasbacada com o rosto virado. “Ê, Piadista Mortífero! Finalmente voltou!”, várias vozes gritaram em uníssono, e eu me virei na direção do som. Era uma pastelaria na esquina. Nela, um garoto louro de roupas verdes e colete marrom, um homem peludo com roupa amarela colada — e, meu Deus — o Super-Homem! Meu pai se aproximou: “É um pássaro?” É um avião?”, e o Super-Homem deu um risinho protocolar. “Trouxe sua filha, hein?”, ele perguntou, “depois me deixa dar uma volta com ela lá em cima”. Gelei dos pés à cabeça.

(Foi maravilhoso voar nas costas do Super-Homem nas outras vezes que eu atravessei o quadrão. Os quarteirões-maquetes lá embaixo, as pessoinhas, o vento no rosto, a barriga das nuvens…)

Para o fortão de amarelo, meu pai chegou cantando “chove lá fora, faz tanto frio”, o sorrisão aberto. “Não me vem com esse porra desse reaça”, o outro respondeu. “Que isso, vocês são da mesma espécie, pô!”, retrucou meu pai, e só recebeu um rosnado de volta. Meu pai nem ligou. Passou ao menino de verde: “E aí, passando muito calor?”. Esse riu. “He heh, é, o inferno tá daquele jeito, mas melhora depois que você não fica tentando sair de lá e faz alguma coisa pelo lugar.” Meu pai pediu pasteis e caldo de cana para mim e para ele, e então me deixou com os colegas e foi ao banheiro.

Os amigos dele passaram a tomar conta de mim por default, entre sorridentes, indiferentes e complacentes. Eu estava atordoada. Arranjei algo o que perguntar: “Por que vocês chamaram meu pai de Piadista Mortífero?”. Foi o Super-Homem que respondeu, tonitruante: “Porque as piadas dele são mortais”. O Super-Homem, você descobriria logo, é assim mesmo, certinho e meio tapado, pensa que explica coisas atestando o óbvio. O cara de amarelo completou: “Quando o Thanos tava dando um cacete em todo mundo, seu pai contou uma piada e acabou com o assunto”.

Dei uma risadinha. Não era uma piada. “O Thanos tinha juntado as cinco joias do poder infinito. Todo mundo levando um pau. Enfiei as garras no peito dele e o filho da puta não morreu. Seu pai contou uma piada e ele está lá até hoje ‘otorrinoceronte! otorrinoceronte! HAHAHA’. A vitória mais imbecil, mas vitória do mesmo jeito.” Eu não tive o que responder. O Super-Homem comentou baixinho: “Onde já se viu essa quantidade de palavrão na frente da menina?”. O rapaz de verde virou pra mim: “Seu pai é foda. Sabia que ele que me apresentou o Dante? O escritor?”

Quando atravessamos o quadrão de volta, eu estava tão em choque que nem comi direito e não pude dormir. Sonhei de novo com as coisas que tinha visto, já com saudade, como se nunca as pudesse ter de novo. Mas eu e meu pai viajamos àquele lugar fantástico, reunião de todos os lugares fantásticos, muitas e muitas vezes depois. Hobbits e Jedis, cavaleiros da Távola Redonda e do Zodíaco, mechas e transformers. Vimos Speedy Racer correr a Corrida Maluca (e perder, depois de uma trapaça). Vimos Jonas dissertar sobre qual barriga era melhor para viver, a da Moby Dick ou a da Free Willy. Vimos Crash Bandicoot e Taz apostarem quem girava no lugar por mais tempo.

Era como se nada pudesse se esgotar. Tão exuberante que, na adolescência, principiei a me entediar. Fui me afastando, até que, então na universidade, morando em outra cidade, não mais retornei. Meu pai de vez em quando me convidava, eu lhe dizia: “Quem sabe outro dia…” Durante o mestrado e o doutorado morei noutro país. Por dez anos só vinha à casa eventualmente. Mesmo assim não me decidi a pular para o outro lado da realidade. Meu pai já não me falava mais disso. Estava, aliás, bem mais velho, bem mais cansado. Eu tinha dito “quem sabe outro dia”. Outro dia nunca chega.

Tive, porém, a mesma sensação de atravessar um portal para outro mundo quando passei pela soleira do quarto de hospital e, três anos sem ver a casa, reencontrei meu pai à beira da morte. Um outro mundo, sombrio, definitivo e desesperador. Ele ainda falava um pouco, mas os médicos não lhe davam esperança. Minha mãe estava desolada. Alojei-me no meu antigo quarto, ainda bastante parecido com o que era (apesar de alguns primos e netos terem passado por lá), decidida a esperar que o momento final viesse. Ou a encontrar um milagre. Pois não tinha eu milagres à disposição?

Pensava eu, pelo menos. Descendo ao porão, foi-me jogado na cara que não. Pulei entre as hastes da moldura repetidas vezes, sem que nada de fantástico ocorresse. Confusa, atribui à alucinação infantil tudo o que eu estava convicta de ter vivido. Chorei a tarde toda.

Semanas se passaram, chegou meu aniversário, eu lhe fazia uma visita. Meu pai pediu para que eu me aproximasse e, com todo ar conspiratório que os seus noventa anos combalidos podiam ter, me segredou: “Hoje é o dia”. Eu soube exatamente do que ele estava falando. O momento final…”E eu sei que é seu aniversário e quero que você me dê um presente.” Tentou rir, acabou tossindo dolorosamente. Conseguiu enfim me orientar a trazer ao hospital o quadrão. Precisava tê-lo consigo antes de que tudo acabasse.

Fiz o diabo para colocar aquele quadrão ali dentro. Me escondi nos corredores esperando enfermeiros e médicos passarem, menti para zeladores dizendo que eu estava de mudança e não tinha para onde levar, todo tipo de coisa. Contra todas as probabilidades eu estava no quarto fechado, segurando em pé a moldura de madeira, dois de altura, cinco de largura. Meu pai sorriu. “Encosta ela na parede”, disse ele, “e me ajuda a andar até aí.” Eu fui até a cama, coloquei um braço direito abaixo da sua axila e o levei, devagarzinho. À frente do quadrão, chorei de novo.

“Pai, eu iria com você, mas não funciona mais comigo, não funciona!”, as lágrimas escorriam. Ele me olhou com carinho. “Mas você deu alguma coisa? Você tem que entregar alguma coisa para que ele te entregue alguma coisa.” Suspirou. “Dessa vez só tenho força pra me levar. Você vai ter de achar um jeito de se entregar sozinha.” Eu consenti, rindo, nervosa: “Grandes quadros, grandes responsabilidades, né?” Fiquei feliz por tê-lo feito rir. Ele pôs um pé pela moldura e a carne se fez invisível. Dissemos um ao outro que nos amávamos. “Pai, o que mais eu faço aqui sem você?”

“Tudo, ué”, disse ele, já avançando, sumindo aos poucos como o gato da Alice. Quando restou apenas a cabeça, flutuando contra o vazio, meu pai completou: “É um mundo velho todo novo, Haroldo. Explore!” E me deixou: idêntica, cinza, monótona, atulhada de silêncio — mas, no fundo do peito triste, com uma raizinha de cor e estrondo.

***

Esse conto foi um presente para o jornalista Ricardo Tayra e foi publicado no livrinho Me Dá uma História: 42.

Contos

Plot Twist

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“Plot twist” me parece nome de refrigerante. Provavelmente ou obviamente porque me lembra Pepsi Twist. Este último, uma Coca-Cola com outra marca e além disso um pouco de suco de limão. Já aquela expressão denota um momento de virada em uma narrativa. Um cavalo de pau. A hora e a vez de Macabéa e a hora da estrela de Augusto Matraga. Oportunidade em que, por exemplo, um sujeito qualquer bebe um refrigerante de cola com limão; acabando o seu almoço, se apercebe com o mesmo desalento diário e curto que é preciso em poucos minutos retornar ao trabalho, e à simples menção da palavra “trabalho” lhe é evocada no cérebro a agenda imediata de tarefas; com um gesto mental ele sacode as atividades futuras, se recusa a trabalhar antecipadamente, se apega a esses momentos breves dedicados à digestão e a uma contemplação com a graça de deus bovina; ele retoma o copo com um suspiro, bebe enfim mais um gole do seu Plot Twist, e nesse instante começa a perceber que desde há muito um burburinho tenso se avoluma às suas costas, nota vozes enraivecidas que se intensificam e – exatamente quando desce o gole ebuliente do refrigerante na faringe – se joga para o lado, no susto, pois que um corpo fora atirado contra o balcão. No chão, sacode a cabeça, vê o homem atacado, sua boca sangra, ouve os berros do homem que o atacou, na ponta do seu braço estendido há um revólver, “você vai me entregar meu dinheiro, seu filho da puta, já teve bastante tempo”, o nosso protagonista observa a arma com terror, o som do copo caindo e se estilhaçando – a quebra do vidro sempre aguda e trágica –, ainda vibra no seu ouvido. “Bento, eu não tenho como te pagar, não tenho”, se desculpa o outro, se escora no balcão, avança com as mãos suplicantes na direção daquele que o cobra. “Ninguém vai sair dessa merda agora, fecha a porta do restaurante, caralho!”, alguém obedece, alguém pede “calma, gente, por favor, calma”, o nosso protagonista não pode esconder de si uma excitação, lá no fundo está animado de verdade, algo aconteceu, conjetura tão compenetrado que até se distancia da situação de crise, fica de pé, pega a lata e dá mais um gole no seu Plot Twist, apenas um pouco antes da nave alienígena estacionar violentamente na avenida lá fora, as ondas de impacto rompendo num átimo vitrines, vitrais, portas transparentes, janelas – ruídos cristalinos e multifocais fazendo contraponto ao longo urro de baleia branca do veículo invasor fazendo a baliza. Ah, meu Deus do céu, ah, meu Deus do céu, a população do restaurante se divide entre quem tenta se proteger nos fundos ou se esconder na cozinha e quem se aproxima da saída para testemunhar o evento; o nosso protagonista preserva consigo por osmose a lata, dá passos relutantes até a rua e olha: exércitos ocupam o asfalto; de um lado, soldados de pele verde, tentáculos pequeninos brotando dos pescoços, antenas peludas saindo dos narizes; do outro, compatriotas humanos (engraçado, pondera, que tenha lhe vindo esse termo, “compatriotas”). O frenesi das metralhadoras no solo se soma aos disparos de lança-foguetes a partir dos helicópteros. A nave anuncia em som altíssimo, cheio de graves, em inúmeras línguas terrenas: “Este planeta pertence agora à Valconas, herdeiro de Velonis, devorador de éticas, patrono do fulcro”. Parece tanto com um filme que o herói desta história sente falta de uma pipoca, pelo menos tenho um refrizinho, dá outro gole no seu Plot Twist, o refresco e o açúcar lambem a língua conforme as nuvens se abrem num buraco negro de luz e o próprio Cristo surge, a mão direita com o indicador e o médio tesos, sabe? Em volta o séquito de músicos e guerreiros angélicos. Os recém-chegados assistem ao conflito e parecem tão surpresos quanto nós – a reedição da Bíblia no futuro registrará que não podia ter sido eleito dia pior para realizar a escatologia, o ato de salvação e de condenação final da humanidade. Perante tal, Cristo conclui que a humanidade não pode ser salva ou condenada por ninguém que não fosse Ele, pelo menos não sem que tivesse algum papel, afinal Ele não tinha vindo até aqui por nada. Cristo ordena portanto que a sua tropa forneça apoio. Os anjos musicistas fazem dançar suas espadas de vidro, emitindo o atrito com o ar sons como os daqueles conjuntos de garrafas desigualmente preenchidas de água, os militares alados batem com as harpas na cuca dos alienígenas, os enforcam com as cordas extraídas dos instrumentos. “Pode ter o furdúncio que for que a gente vai até o banco e você vai sacar o caralho que estiver lá”, Bento prende a mão do devedor nas costas, conserva a pistola na sua nuca, só falta um pouquinho, eu devia ter comprado uma garrafa de 600, o nosso protagonista leva o alumínio até a boca e, sim, sim! Bebe mais um gole do seu Plot Twist, “este planeta pertence agora à Valconas, herdeiro de Velonis, o corruptor dos símbolos, o aliciador dos arquétipos”, o último gole do seu Plot Twist, “é agora e é você, homem, que deve escolher, que deve escolher o destino do mundo”, quem é que fala dentro da sua cabeça essas palavras potentes o suficiente para liquidificar no espaço mafiosos e alienígenas e anjos, a realidade à frente dos seus olhos torna-se um caldeirão de imagens, borbulham hitleres e variados aristóteles e souvenires feitos em massa para serem vendidos como vivências únicas de cidades turísticas e medalhas olímpicas e fatos há tanto esquecidos mas por sorte anotados em materiais infelizmente muito perecíveis, “escolhe, homem, deve o mundo persistir ou deve ele perecer?”, o nosso protagonista flutua na escuridão. Iluminado por fora sem foco iluminador visível? Iluminado por dentro? Boia no bojo do bruxuleio: deve selecionar uma dentre todas essas possibilidades? Deve acoplar o ferro preto, batido e antigo à boca e entornar a torrente grossa do tudo? “O que você escolhe, homem? Você deve escolher…”.

Contos

Somos Todo Lula

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“Somos todos Lula”, anunciara no discurso Lula, mas não esperávamos de fato nos tornarmos Lula. Já naquele momento mesmo creio que sentimos um leve transtorno, um arrepio nos braços. Uma secura na garganta que não passava bebendo água e que se desenvolveu no minutos seguintes em uma rouquidão progressivamente forte. As pessoas tossiam com força, buscando expelir o que quer que fosse que estivesse preso nas vias internas. Homens com voz mais fina, mulheres, crianças, tossindo, sem que pudessem evitar que suas vozes baixassem ao grave, ao áspero. Abalados por essa primeira transformação coletiva, sofríamos ao mesmo tempo a segunda: de início uns poucos fios, mas logo a barba grossa tomou os rostos, em alguns estilo sindicalista, preta; em outros, branca, paz e amor. “Somos todos Lula”, percebemos aos poucos, “deus do céu, somos todos Lula”.

As ruas cheias à frente do Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo, cheias de lulas. Mas também nas casas são-bernardenses a além; pipocando um Lula aqui e um Lula ali nas residências da Grande São Paulo e da capital, nas salas de estar assim de repente avôs olhando álbuns velhos de fotografia viravam o Lula, nas cozinhas pais e mães preparando refeições tradicionais para suas famílias viravam o Lula, crianças e cães e peixes de aquário viravam o Lula; a epidemia se alastrou com velocidade cada vez maior a todos os pontos do país. Tentávamos, em desafio, dizer “amigo”, “parceiro”, “colega”, até mesmo “mano”, “brother”, “truta”, qualquer coisa, em desespero, mas dizíamos “companheiro!”, não podíamos impedir, surgia inevitável e justo, “companheiro, companheiro!”.

Para alguns, talvez pela força moral, pela resistência mental ou pelas necessidades narrativas de algum deus escuso, o processo foi mais lento. No Congresso Nacional, o aparecimento dos lulas inaugurais foi respondido pragmaticamente; resolveu-se atentar a desvios antes ignorados do parlamentar transformado (“Não é porque ele agora se tornou Lula que agimos, mas pelo reestabelecimento da ética!”), se sustava o seu mandato e o jogavam aos leões, isto é, ao Supremo Tribunal Federal, que fazia a degola pinçando as juriprudências e artigos da Constituição mais convenientes. A estratégia não só se exibiu insustentável — pois mais e mais deputados e senadores se tornavam Lula — como um dado sugeriu que a tentativa de resistir estava fadada à derrota: a presidente do STF, Carmen Lucia, tornou-se Lula. Carminha, como ficou conhecida carinhosamente na internet, ainda de rosto magro, ainda de cabelos com curvas bem arqueadas, grisalhos, ganhou uma barba e uma voz forjada na greve.

Temer-Lula, é claro, sofreu muito sem poder enunciar mesóclises ou recitar frases em latim (sua mente travava, expressões simples inundavam sua mente, um “verba volant” se transtornava numa metáfora futebolística tipo “quem não faz, leva”). Pelo contrário, Sergio Moro se manteve estoico, embora indeciso entre se estava em uma variação de “O Alienista”, de Machado de Assis, ou num filme de zumbis. Homem reto, laborioso, passou a emitir com uma rapidez de piranha inúmeras ordens de prisão, baseadas em apartamentos não só no Guarujá, mas também em São Vicente, Santos, Praia Grande, Itanhaém, Cubatão. As penitenciárias não se encheram de lulas: já estavam cheias de lulas. A polícia não cumpriu sua função de prender lulas: eram todos os oficiais Lula, o japonês da Federal mantendo a tornozoleira eletrônica de condenado a quatro anos de prisão, olhos puxados sob os óculos escuros sobre a barba espessa.

De Trump e Obama a Putin e Merkel: Lula. Na CBN e na rádio Bandeirantes todos os colunistas transmutados em Lula falavam mal de si mesmos e se culpavam por tudo. Moro teve de aprofundar o paladino em si; invadiu supermercados e armazenou tudo o que pode em local seguro; invadiu delegacias e roubou armas. “Eu sou a lenda”, gritava ele enquanto abatia lulas e as ruas enchiam de sangue, “eu sou a lenda, desgraçados”, levado ao combate sem fim, até que enfim cercado, de pé sobre um carro, ilha cercada de lulas, brandindo sua metralhadora, “eu sou a lenda”, “eu sou a lenda, filhos da puta, eu sou a lenda, filhos d–” — então travou, não pode repetir, teve de dizer:

“Eu sou a lenda, companheiros!”

Contos

Os Pré-Socráticos

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A ágora estava agitadíssima.

Voavam ânforas cheias d’água e dali a pouco começaria o incêndio.

Ouvia-se a turba longe. Nos campos, os trabalhadores não se questionavam sobre o que discutiam, hoje, os filósofos: sua ladainha exaltada apenas compunha com o sol quente e o vento seco o cenário no qual executavam a repetição da vida. Pelo contrário, de pé nas arquibancadas a plateia sentia-se partícipe de algo imprescindível e urgente.

De fato, quem visse a expressão no rosto dos filósofos teria de se esforçar para resistir à sensação de que uma questão de vida ou morte se decidia ali. Aliás, por um lado, era, inegavelmente: tratava-se de como passou da morte à vida (para destarte prosseguir da vida à morte) tudo o que existia: tratava-se de como as coisas vieram à ser.

Até uns vinte minutos atrás a discussão tinha transcorrido sem excessos de beligerância. Tudo se transtornou com a chegada de Tales e dos seus ultimatos em forma de ânfora.

— Água! Eu tô falando pra vocês que tudo veio da água!

Tinha trazido cerca de dez desses pequenos vasos em uma plataforma de madeira sobre rodas. Assim que lançava um deles, rapidamente tomava a alça de outro, fechava o olho para mirar, e atirava. A terracota se espatifava, cenas da vida grega pintadas em âmbar, ocre e preto ricocheteavam fracionadas em pedaços pontudos, os nobres pensadores e seus acólitos, além do público normal, corriam de um lado a outro em busca de abrigo, as mãos sobre as cabeças, tropeçando nas poças e dando encontrões.

— Por Zeus, Tales! – gritou Anaximandro – não é assim que prova nada!

A próxima ânfora bateu bem na testa de Anaximandro, que ainda deu três passos vagos para trás antes de cair de costas desacordado.

— Cadê o apéiron, Anaximandro?! Cadê? Não bloqueou a minha ÁGUA?

Dizia isso já se agachando para puxar outra ânfora. A mão não achou vaso nenhum. Mas ouviu o riso de Anaxímenes — rasgado, asmático, interrompido pela tosse — ali perto.

— O que? Ofegante, Tales? – disse, puxando fôlego com dificuldade – Quem sabe seja porque é o AR que dá origem a tudo!

Tales bufou.

— Que porra de ar!

— Então para de respirar, filho da puta!

A exasperação não os deixou perceber que sutil a princípio e então cada vez mais intenso um cheiro de queimado ocupava a arena. O calor se intensificou. Os filósofos suavam.

— Tá suando ar, Anaxímenes? Não tá suando ar não, né? Quer água, seu bosta?

— Eu quero – respondeu, sufocado – eu quero é uma brisa!

Porém o ambiente cada vez mais turvo, escurecido pela fumaça, finalmente chamou sua atenção. Assim que notaram o que acontecia — as galerias em todo o entorno da ágora estavam repletas de flamas, que queimavam de montes de palha obviamente dispostos para esse efeito — não tiveram dúvida, a culpa do ato não era um problema filosófico.

— Heráclito!

O piromaníaco ouviu seu nome e começou a bater palmas, lentamente, com escárnio.

— Mas que sagazes. Então quer dizer que são filósofos mesmo?

Anaxímenes começou a atirar as ânforas contra o fogo, inutilmente. Tales passou a avançar contra Heráclito. Os olhos irritados, vermelhos, acrescidos à raiva, lhe proporcionavam uma aparência aterrorizante. Cuspia no chão, bufando.

— Ora, ora. Mas então eis o fogo, que come o ar. E eis que a água precisa de bem se esforçar para lhe causar qualquer coisa. Quem é que pode mais?

O tabefe que estalou no rosto de Heráclito respondeu: quem pode mais é a minha mão na sua cara. O incendiário se recuperou rápido do choque e logo ambos se atracavam. Nas galerias, trabalhadores chamados às pressas atuavam para conter as labaredas. Uns se chateavam por ter de lidar com as chamas iniciadas pelos filósofos. Outros, divertidos pelo caos, tinham gosto de quem botava fogo nas coisas. Ainda alguns, tomavam notas de como por a ágora abaixo, bastaria fechar aqui, bastaria entufar palha acolá.

Levando socos na têmpora, subindo o almoço à garganta, mesmo assim Heráclito notou isso, essa alegoria tão simplória e insidiosa. A vista chorando de ardido, contudo surgindo ali o brilho da descoberta no olho sedento de espanto. As posturas sobre o fogo… é isso a filosofia, as filosofias… Conforme a atmosfera desanuviava, Anaxímenes chegou a uma ideia semelhante, mas, claro, focada no seu elemento predileto. Estatelado na terra, os olhos mirando o céu claro na tentativa de controlar a imensidão esfumaçada, a filosofia são as qualidades do ar, a variação das substâncias suspensas… Sentando-se sobre, imobilizando o seu adversário mais recente, músculos dos ombros e das costas puídos, nós dos dedos sangrando, Tales assistia à água derrotar o incêndio, e considerava a batalha incoerente e recidiva entre o saber e o não-saber, as quantidades e as intensidades de um e outro sendo decisivas da vitória eventual, não as essências. Nem sempre o fulcro vence…

Anaximandro, no entanto, sonhava com o apéiron, princípio coringa, um faz-tudo ou um tanto faz. Todos os deuses, pequenos e alados como mariposas, rodeavam o apéiron — Atenas e Hades, Hefestos e Afrodite, Hermes e Apolo, submetidos, seduzidos. No fundo, como um zumbido, podia ouvir gritos de gente, expressões de raiva e despeito. Sons de um mundo esmaecido pelo real de que se lembrava agora por concessão onírica.

Não soube dizer quando acordou, a cabeça muito dolorida, se a filosofia era um fascínio em relação ao desdobramento da origem concentradíssima ou a mente embasbacada pela insignificância daquilo que concentra todo significado ou — foi a opção que o apaixonou — se a filosofia era um sonho que sufoca os sons da fúria, que funciona à revelia da luta que o sustenta e destrói, arrancando do nada uma pequena palavra sobre o tudo.