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A História Não se Completa

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No artigo “‘Revolução’“, o filósofo Vladimir Safatle destaca um elemento significativo na nossa relação com a história:

Os embates históricos têm a característica de nunca terminarem completamente, de ressoarem como matriz de compreensão das lutas presentes. Por isso, quando levarmos hoje nossas crianças para desfiles, seria bom nos perguntarmos o seguinte: o que estamos mesmo comemorando?

O que ocorreu é reinterpretado nos termos do presente, e usado para objetivos do presente. Sendo assim, recuperar um dado histórico nunca se trata só de relatar um fato — significa reenquadrá-lo em certo ponto de vista e colori-lo com novos propósitos.

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Foucault e o Pensamento Sobre Si

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Na História da Sexualidade — O Uso dos Prazeres, p. 14, Michel Foucault diz:

Mas o que é filosofar hoje em dia — quero dizer, a atividade filosófica — senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” — que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação — é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma “ascese” um exercício de si, no pensamento.

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O Erotismo de Nuno Ramos

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No conto/ensaio “Epifania, provas, erotismo, corpo-sim, corpo-não”, parte de Ó, livro do Nuno Ramos, se manifesta em relação ao erotismo um dos simbolismos que o filósofo Gaston Bachelard identifica em A Psicanálise do Fogo. Em ambos, o nosso conhecimento sobre esse elemental tem um precedente no saber sobre o nosso físico. No primeiro, lemos:

O encaixe lubrificado dos órgãos sexuais parece ser o centro de um labirinto em que nada é alheio a nada, em que a toda curva corresponde uma outra, em que uma regência minuciosa e universal de cada detalhe nos surpreende enquanto gememos. Gememos porque experimentamos em nossa própria pele o mecanismo sutil que dá forma ao fogo, costurando sua crista ao líquido e ao gelo, que esfarela a pétala para cobri-la de escamas, que faz do pé uma sandália, dos olhos uma pálpebra, como se estojos poliédricos agasalhassem cristais incongruentes (nossas lágrimas, por exemplo).  [p. 116]

Nuno Ramos se refere ao “mecanismo sutil que dá forma ao fogo”, presente “na nossa própria pele”. E é nessa identificação entre corpo e comburente que Bachelard encontra nosso entendimento ancestral do que é o fogo:

In the first place it must be recognized that rubbing is a highly sexualized experience. Merely by glancing through the psychological documents amassed by classical psychoanalysis one will have no difficulty in convincing oneself of this fact. Secondly, one need only make a systematic study of the items of information gained by a special psychoanalysis of the impressions pertaining to heat, to be convinced that the objective attempt to produce fire by rubbing is suggested by entirely intimate experiences. In any case, it is in this direction that the circuit between the phenomenon of fire and its reproduction is the shortest. The love act is the first scientific hypothesis about the objective reproduction of fire. Prometheus is a vigorous lover rather than an intelligent philosopher, and the vengeance of the gods is the vengeance of the jealous husband. [p. 13-14]

Nesse momento de A Psicanálise do Fogo, Bachelard investiga qual a relação de um homem primitivo ideal em relação ao fogo, desde os desencadeados pelo acaso até os criados por esses humanos. Como lhes teria ocorrido a ideia de produzir o que lhes pareceria tão transcendente e irregular? A ideia, para o filósofo, surgiria dessa relação que temos com nossa carne: com a fricção, com o gesto repetido, geramos calor em nós mesmos. É assim que “o ato de amor é a primeira hipótese científica no que se refere à reprodução do fogo”, é assim que Prometeu, em vez de ladrão astuto, é um “amante vigoroso” — pois se transfere isso que aprendemos no prazer à manipulação da natureza.

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Discussões Online: Modo de Usar

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Publiquei no Digestivo Cultural a crítica Discutir, debater, dialogar, com quatro pontos que considero muito úteis para que os debates na internet não sejam infrutíferos. Eu escrevi:

(…) a crença em um debate público do qual fazemos parte querendo ou não, participando através do nosso silêncio ou da nossa fala. Trata-se de uma malha de interconexões infinitas, e, se sou um ponto no circuito, posso qualificar o fluxo, interrompê-lo, encorpá-lo, modificá-lo.

Este texto ele próprio é um gesto nesse sentido, pulso elétrico que percorrerá tal malha de muitas maneiras e alcances, perceptíveis ou não. É difícil que você não compartilhe, portanto, da minha crença: as 131 palavras anteriores te atingiram, você provavelmente já se posicionou mesmo que só emocionalmente em relação às ideias essenciais que te passaram (o que seja minha personalidade, a visão de mundo que expus, a tese sobre o status desta coluna). Suas conclusões atuais e as posteriores são movimentos que tiveram ensejo por conta daquele pulso. Mudar, encorpar, interromper são escolhas suas. E assim por diante, de você aos outros.