Metajornalismo

Crítica ao Jornalismo

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jorna

Publiquei no Digestivo Cultural o artigo Pesquisando (e lendo) o jornalismo. O texto parte de um incômodo meu sobre certa crítica automática à imprensa. Eu escrevi:

A crítica ao jornalismo e à mídia, em geral, me parece insuficiente, por não lidar com o seu objeto de uma forma completa, isto é, desconsiderando sua prática e tomando como foco de análise apenas a sua aparência final. Há uma distância entre o publicado e a práxis que leva à publicação, distância ou simplesmente ignorada ou exclusivamente abordada via paranoia – como nos discursos sobre Grandes Conspirações Midiáticas, que, se podem apontar para alguma verdade, distorcem e confundem por sua conta outra cota de dados. Como pesquisar de forma íntegra e consequente a imprensa? Eu tinha umas ideias soltas sobre isso, eis aqui um esboço de conclusão. O leitor não-jornalista, nessa era em que somos todos jornalistas, talvez encontre alguma utilidade, meios de pedir mais e melhor das “denúncias” eventuais. 

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Limitações do Jornalismo de Mídia Social

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Publiquei no Observatório de Imprensa uma tradução de The Problem with Tweeting a Revolution, de Jacob Silverman para a The New Republic. Com o título Os problemas em tuitar uma revolução, o texto trata das limitações das coberturas jornalísticas (?) feitas apenas através das mídias sociais. O autor escreve:

Durante os dias mais turbulentos dos protestos na praça Tahrir, Andy Carvin postou mais de mil tweets por dia. Ele se focou nisso em turnos de 18 horas, agregando e distribuindo informação de ativistas, rebeldes e jornalistas (cidadãos). Dormia apenas por necessidade biológica. Por tudo isso, Carvin, que é também estrategista sênior daNPR [National Public Radio], tem sido chamado “o homem que tuíta revoluções”. Carvin lançou recentemente um livro registrando esses dois anos em que – em que o que? Em que lutou nas trincheiras digitais? Em que produziu um Diagrama de Venn do ativismo de laptop e da agregação jornalística? A resposta não está clara porque Carvin é o exemplo mais proeminente de algo que pode mesmo nem ter um nome ainda.

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Retratos Artificiais

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Este trecho de Os Pecados dos Pais, livro de Lawrence Block, descreve o trabalho de investigação como a a produção de uma imagem — aproximada, necessariamente imperfeita. Creio que se aplica ao jornalismo:
Eu disse:
— Sabe o que é um kit de retratos para identificação, Hanniford? Provavelmente você já viu em reportagens de jornal. Quando a polícia tem uma testemunha ocular, usa esse kit de transparências para compor a imagem de um suspeito a partir de seus diferentes componentes: “O nariz era como este? Ou este outro é mais parecido? Maior? Mais largo? E as orelhas? Que par de orelhas chegam mais perto?”. Até que os traços reunidos formem um rosto.
— É, eu sei como funciona.
— Então você também já deve ter visto fotografias reais de suspeitos ao lado dos retratos feitos com esses kits. Eles nunca se parecem entre si, especialmente para olhos não treinados. Mas existe uma semelhança concreta, e um policial treinado pode fazer muito bom uso disso. Percebe aonde eu quero chegar? Você quer fotografias de sua filha e do garoto que a matou. Eu não estou equipado para lhe fornecer isso. Ninguém está. Posso acumular fatos e impressões e elaborar um desses retratos artificiais, mas o resultado talvez não chegue nem perto do que você desejaria. (…)
Bom ter isso em mente quando for fazer um perfil?

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Fact Checking versus Reality Cheking

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Conor Friedersdorf, no Atlantic, tratou dos limites da “checagem dos fatos” para o jornalismo, nesse caso específico mais ligado ao que chamamos por aqui de “ouvir os dois lados”. A questão aí parece ser que ouvir não é o bastante; é necessária uma visão crítica que analise, esclareça e demonstre os buracos no que se ouve. O campo de avaliação é a atual campanha presidencial americana:

The fact-checking ethos suddenly prevalent in American journalism is a necessary but mixed blessing. As one of its intellectual champions, Jay Rosen, has long observed, the press diminishes itself and fails in its commitment to the audience when it uncritically airs all competing claims. It’s inadequate to report, “Candidate A says apples are a fruit, while Candidate B insists that they are a vegetable.” Yet journalists sometimes hide behind the need to remain “objective” in order to avoid doing the hard, potentially controversial work of figuring out the truth.

Leia completo e pense no que isso significa no nosso contexto eleitoral: o que é que deixamos os candidatos falaram sem que sejam contestados, ou sem que seja avaliada a densidade do que dizem?

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Screen Magazine

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Sobre a Screen Magazine, revista desenvolvida por teóricos próximos ao Centro de Estudos da Cultura Contemporânea de Birmingham. O trecho vem do sexto capítulo de Dez Lições Sobre Estudos Culturais, de Maria Elisa Cevasco.

A conjunção da psicanálise lacaniana e do marxismo estruturalista de Louis Althusser animou um outro projeto de estudos culturais em torno da revista de cinema Screen. Financiada em seus primórdios pelo British Film Institute, a revista se dedicou, a partir dos anos 1970, à discussão do cinema de avant-garde e à promulgação das teorias que mais de perto ajudariam a transformar a análise de filmes baseada em gosto pessoal em uma ciência. Seguindo Althusser, pensavam a crítica cinematográfica como um “um processo sem sujeito”. Seu maior interesse era pela forma dos filmes: nesse aspecto seguiam a escola dos formalistas russos, para quem a forma e o estilo eram antes produtores do que meros veículos do sentido. Segundo Dworkin, “Screen considerava a forma nada mais do que a materialidade do significante e os filmes como práticas de significação, processos ativos da produção de significados em relação com seu público. Seu interesse maior era como essas práticas contribuíam para a reprodução da ordem vigente, em especial por meio da noção de interpelação (forma pela qual as práticas de significação constituem o público como sujeitos de um determinado tipo), de inspiração althusseriana e lacaniana. (…)

A ideia de tomar o cinema como um construtores de sentido em relação ao público me parece próxima da linha que usei na minha crítica de Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Não posso ter certeza, no entanto, porque não achei os arquivos da publicação na internet, e isso vai me demandar mais pesquisa — e ademais é distante pelo menos quanto aos referenciais psicanalíticos, de que não disponho.

Quem no Brasil ou no exterior, hoje, faz esse tipo de crítica? 
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CandiBook

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O jornal Gazeta do Povo, do Paraná, criou para as eleições municipais um sistema online de avaliação dos candidatos, o CandiBook, aplicável para 14 cidades do estado. O sistema utiliza o Diagrama de Nolan, que por si é fruto de uma corrente política específica, para determinar a posição política de cada um dos candidatos. A escala tem dois extremos — liberdade individual e liberdade econômica — e distribui os elegíveis entre eles, de acordo com dez perguntas.
Segundo tais critérios, dentre os candidatos a prefeito em Curitiba, Avanilson, do PSTU, por exemplo é definido como 70% LI e 30% LE, campo da esquerda. Bruno Meirinho, do PSOL, 50% LI, 10% LE, estatista. É notável que em uma escolha mais senso comum colocaríamos os dois mais próximos. Já o candidato do PDT (de cuja coligação faz parte o PT), Gustavo Fruet, 50% LI, 20% LE, centrista. Um último exemplo: Rafael Greca, do PMDB, repete os resultados de Fruet (todos aqui). O jornal explica o sistema nesta página.
O sistema é interessante porque foge das simplificações do esquema binário esquerda e direita. Mas por outro lado não esclarece as dinâmicas próprias da política, sobrepondo a elas um caráter supostamente científico. Um dos tipos de questão que pode ser colocada é o seguinte: Greca e Fruet, de acordo com a aferição, tem a mesma posição política, não obstante, estão em lados contrários. Quais as gradações de “centrista”, que impediram uma coalisão? Quais os fatores que, independentes de afinidade com o “centro” ou não, implicaram em candidaturas próprias?
Há um outro porém: como sugerido antes, o teste não revela sua origem política, seus fundamentos ideológicos se recobrem de um caráter simplesmente neutro. Uma pesquisa curta no entanto nos leva a outras conclusões. David Nolan, o criador desse diagrama, se inscrevia no âmbito do libertarianismo (“filosofia política que tem como fundamento a defesa da liberdade individual, da não-agressão, da propriedade privada e da supremacia do indivíduo“). Sua posição libertária é a posição de equilíbrio entre os extremos citados no primeiro parágrafo: altas liberdades pessoal e econômica…
A versão brasileira, que serviu de base ao Gazeta do Povo, foi feita pelo Estudantes pela Liberdade — parte daquele campo ideológico. Ela está disponível aqui, e você pode averiguar onde você está no gráfico libertário. Outra opção é o World’s Smallest Political Quiz.
Para uma crítica inicial aos conceitos que fundamentam o Diagrama de Nolan, leia este texto, que critica suas oposições básicas e se pergunta pela ausência de “totalitário”.
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Imprensa, Antissemitismo e Clarice Lispector

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Trecho de Clarice,, biografia de Clarice Lispector escrita por Benjamin Moser, em que se narra a demissão da escritora pelo Jornal do Brasil, assim como de outros funcionários de origem judaica, incluindo Alberto Dines. O motivo era a pretensão do dono da publicação de cair nas graças do mais novo presidente “eleito” pela Ditadura: Ernesto Geisel. Interessante porque aponta as tensões identitárias na imprensa brasileira e também porque indica as relações de poder por trás de outros diários que não os criticados sempre, como a Folha e o Estado — e até mesmo põe O Globo como incômodo ao ditador da vez. Segue:

(…) Na época da derrubada de Allende, o Brasil estava tenso pela expectativa das “eleições” que se aproximavam. Sob o regime, os presidentes eram escolhidos pelo Congresso, controlado pelos militares. O dono do Jornal do Brasil, Manuel Francisco do Nascimento Brito, opunha-se a Ernesto Geisel, general que estava entre os candidatos, e sua opinião era conhecida nas altas-rodas. Nos conchavos políticos que levaram à indicação de Geisel, Nascimento apostou no cavalo errado.

Geisel, do Rio Grande do Sul, era filho de um imigrante alemão, e o alemão tinha sido a língua de sua casa na infância. Geisel não era abertamente antissemita e não tinha integralista, mas havia alguns elementos na sua biografia que deixavam os judeus de cenho franzido, tais como seu alinhamento de juventude com o general Álcio Souto, ativo simpatizante nazista. Segundo registros, ele descreveu o professor Eugênio Gudin (que não era judeu) como “este patife do Gudin, que é um salafra, é um judeu sem-vergonha”. Diferentemente do que ocorria com muitos elementos das Forças Armadas brasileiras, que reverenciavam a bravura marcial de Israel, não há nenhum indício de que ele tivesse disposição favorável aos judeus.

A Guerra de Yom Kipur, em outubro de 1973, influenciou o pensamento de Geisel, como fez com tantos outros. (…) A guerra e o novo governo ensejaram uma revolução na política externa brasileira; o país cujo embaixador presidira a votação das Nações Unidas pela criação do Estado de Israel agora lançava seu apoio diplomático às nações árabes.

O Jornal do Brasil, refletindo a orientação tradicional de política externa do Brasil, sempre fora pró-judaico e sionista. Nascimento Brito, seu rico e influente proprietário, era um admirador de Israel; chegara a mandar seu filho para um kibutz em sua primeira viagem para o exterior. Mas negócios eram negócios, e sua  indiscreta oposição a Geisel criou a necessidade de um gesto de aproximação ao novo grupo dirigente. Como Samuel Wainer, entre outros, tinha aprendido, o regime militar poderia tornar muito difícil a vida para um magnata da imprensa não cooperativo.

A solução que ele via pela frente era bastante clara: demitir os judeus. Que esse gesto fosse capaz de ter efeito sobre Geisel é sugerido pelo restante do comentário deste sobre o “patife” Eugênio Gudin: “O Globo abre suas páginas todos os dias para Gudin escrever seus disparates”. O Globo era o principal concorrente do Jornal do Brasil no Rio, e um indício do desagrado de Geisel pelo “judeu sem-vergonha” em suas páginas talvez tenha chegado aos ouvidos de Nascimento Brito, sugerindo-lhe uma oportunidade.

Em dezembro Clarice ouviu um rumor de que seria dispensada pelo jornal no final do ano. Em pânico, telefonou para Alberto Dines e Álvaro Pacheco, que ficaram no apartamento dela a maior parte da noite, garantindo que não havia nada a temer, pois se tratava de um mal-entendido. Na manhã seguinte, Alberto Dines, ao acordar, leu a notícia de sua demissão na primeira página de seu próprio jornal.

A razão alegada foi “falta de disciplina”, embora Dines tivesse dirigido o jornal durante anos e nunca tivesse ouvido queixa semelhante. Não foi tudo de uma vez; a “gente dele” foi dispensada uma a uma. “Eu tinha tido o cuidado de não chamar judeus demais, para não ser acusado de favoritismo. E os que contratei eram da mais alta qualidade. Ninguém poderia dizer que Clarice Lispector não merecia estar ali”, disse Dines. “O jornal terminou Judenrein (limpo de judeus, no vocabulário do Holocausto. [N.T.]). Mas eles fizeram a coisa de modo cauteloso o bastante para não dar imediatamente na vista. Nunca disseram isso, mas o resultado era bastante claro. Tipicamente brasileiro.” Nenhum dos góis que ele havia contratado foi despedido.

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Editoriais de João Gabriel de Lima, da Bravo!

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Publiquei no Digestivo Cultural uma coletânea de trechos dos editoriais de João Gabriel de Lima, que deixou neste janeiro a direção de redação de Bravo!. Neles, o jornalista discute a cobertura feita pela revista e aponta quais os princípios que o guiam: a clareza e a compreensibilidade como valores máximos de um texto; a imersão em um assunto ou pessoa; a ideia do repórter como autor, no sentido forte do termo; a abrangência crítica que deve possuir o jornalismo cultural.
 
Algumas citações ficaram de fora na edição final; esse conteúdo extra segue abaixo. Leia também a minha análise de “Os Exageros de Almodóvar”, matéria de João Gabriel que troca o lead tradicional por um estilo de texto meio Twitter, meio gincana.


Prêmios Culturais
 
Existem duas maneiras de encarar um prêmio cultural. Uma, duvidosa, é a esportiva. Como se na arte houvesse vencedores e derrotados, ou como se estatuetas do tipo Oscar, Urso de Ouro ou Jabuti equivalessem a uma Copa do Mundo. A outra, mais adequada, é levar em consideração o significado cultural de um prêmio. O que ele aponta em termos de tendências e o que a soma de seus indicados e vencedores tem a dizer sobre o espírito de uma época. (Novembro/2010)
 
Revolução na Música e Reality Check

Se a internet foi uma revolução em si, o que ela fez no mundo da música foi a revolução dentro da revolução. (…) Trata-se de uma mudança ao mesmo tempo econômica e cultural. A possibilidade de baixar música pela internet fez com que a indústria fonográfica entrasse em crise e deixou várias perguntas no ar. O CD vai acabar? Os compositores deixarão de pensar seus trabalhos em álbuns, preocupando-se em criar canções individualmente? De que eles viverão? O iPod transformará a audição de música numa experiência solitária? Numa época em que o acesso à obra de diferentes artistas é ilimitado, deixarão de existir os cantores e compositores de massa, aqueles que se tornam símbolos de uma geração?

 
Em momentos assim, surgem profetas de todos os lados, com as mais mirabolantes previsões. Neste cenário, cabe às revistas de cultura fazer aquilo que os ingleses chamam de reality check, expressão quee pode ser traduzida como “teste de realidade” ou “choque de realidade”. Ou seja, confrontar as previsões surgidas de diversas fontes — economistas, consultores, estudiosos do fenômeno cultural — com os fatos, puros e simples em sua concretude. (Março/2009)
 
Inteligível e Instigante
 
O desafio de elaborar um bom texto jornalístico duplica quando ele é elaborado a partir de fontes cadêmicas. Como ensinam os grandes editores americanos, como o lendário William Shawn, da revista The New Yorker, toda grande obra jornalística tem que ser ao mesmo tempo profunda e clara, inteligível para o leigo e instigante para o especialista. (Setembro/2008)
 
Vida Cultural
A vida cultural só existe de fato quando as obras e seus autores começam a fazer parte das conversas das pessoas e, eventualmente, gerar polêmica. (Maio/2008)
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Telégrafo

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“O advento da internet trouxe consigo inumeráveis alegações de que vivemos uma revolução sem precedentes na comunicação, revolução tal que aniquilou nossa concepção da distância. No entanto, a revolução real veio com a chegada do telégrafo no século 19”, diz Susan Schulten, no New York Times, no início de um artigo que analisa as consequências dessa invenção para a sociedade (governo, negócios) como um todo.
Destaco o trecho em que ela fala sobre o jornalismo:
Perhaps the most consequential adoption of the telegraph was in journalism. (…) By 1860 the Associated Press was distributing its news not just in New York but around the country, and this practice began to transform the very meaning of news. Local papers now had the capacity to report national events to their readers in a timely manner, so that “the news” gradually came to connote not just events, but events happening at almost that very moment. Prior to the telegraph, the distribution of news was regulated by the speed of the mail, but now news was potentially both instantaneous and simultaneous.
Completo aqui.