Metajornalismo

Descartes e o Jornalismo

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Estive lendo o Discurso do Método, de René Descartes, filósofo francês do século 17, para a graduação em Filosofia, e acabei por garimpar uma série de passagens que podem ser aplicadas ao jornalismo. Seus textos são regras “para a direção do espírito”, “para bem conduzir a própria razão”, e, como disse Claudio Abramo: “o jornalismo é o exercício diário da inteligência”. São trechos que falam de objetividade, isençãodistanciamento. Não proponho que se diga que o filósofo tratou desses assuntos, nem fazer exegese filosófica aqui, mas apenas que se parta dele e se chegue às próprias conclusões, usando as próprias referências.
Logo no início do livro lemos:
O bom senso é a coisa do mundo melhor partilhada, pois cada qual pensa estar tão bem provido dele, que mesmo os que são mais difíceis de contentar em qualquer coisa não costumam desejar tê-lo mais do que o têm. E não é verossímil que todos se enganem a tal respeito; mas isso antes testemunha que (…) a diversidade de nossas opiniões não provém do fato de serem uns mais racionais que os outros, mas somente de conduzirmos nossos pensamentos por vias diversas e não considerarmos as mesmas coisas.
Parece haver ironia nessa primeira passagem, mas se percebe que Descartes crê mesmo no que diz. Podemos entender que cada opinião ou cada modo de agir tem um fundamento e um precedente: um motivo. Acredito que, na relação de longo prazo com uma fonte, em uma entrevista aprofundada ou em um perfil, esse pensamento deva ser algo a ter em mente. As entrevistas da Paris Review se notabilizaram por adentrar o cotidiano, o método de produção e as crenças dos escritores que entrevistavam. Em À Sangue Frio, Truman Capote remontou os antecedentes de um crime, as razões que levaram os assassinos a chacinarem uma família. Como diz a música: “todos têm suas razões…“.
E talvez esse raciocínio também tenha alguma serventia para a publicidade; tentando entender porque o público quer o que quer talvez se descubra mais sobre ele e mais sobre como atingi-lo.
Outro trecho:
Empreguei o resto da minha mocidade em viajar, em ver cortes e exércitos, em  frequentar gente de diversos humores e condições, em recolher diversas experiências (…) pois afigurava-se-me poder encontrar muito mais verdade nos raciocínios que cada qual efetua no respeitante aos negócios que lhe importam, e cujo desfecho, se julgou mal, deve puni-lo logo em seguida, do que naqueles que um homem de letras faz sem seu gabinete, sobre especulações que não produzem efeito algum (…)
Descartes entendeu como parte fundamental de sua formação o contato com lugares e pessoas diferentes. Não que desprezasse a educação formal: já havia estudado e se formado em um dos melhores colégios da Europa. Mas é como se, no contato com a variedade, esse conhecimento se depurasse. Ele diz: “aprendi a não crer demasiado firmemente em nada do que me fora inculcado só pelo exemplo e pelo costume“. Por outro lado, é esse tipo de contato que podemos oferecer ao leitor com os perfis: mostramos outras vidas, outras escolhas, outras certezas tão certas quanto qualquer uma pode ser.
Por fim: o francês, nesse Discurso do Método, pretende demonstrar as regras que se propôs para reavaliar os preconceitos e os prejuízos que os ensinamentos podiam ter passado a ele, sem que tivesse pensado sobre isso. Então, para começar, ele se propõe quatro preceitos, em que se vê a necessidade de checagemdetalhamento:
O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; (…) o segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las; 
O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos; (…) e o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir.
Quem ler esse livro e também as Meditações talvez encontre outros trechos para citar. E é certo que os que usei não funcionem só para jornalistas, mas também para blogueiros, escritores, empresários. Basta ter a visão de como aplicá-los. Se você pensar em uma aplicação diferente (lembrando que Descartes nunca se propôs a isso e que isso não é entender sua obra), participe nos comentários.
E, só pra terminar:
(…) O meu desígnio aqui não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira me esforcei por conduzir a minha. (…) entre alguns exemplos que se podem imitar, se encontrarão talvez também muitos outros que se terá razão de não seguir. Espero que ele seja útil a alguns, sem ser nocivo a ninguém.
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Reis por Reais

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Comentando uma matéria da New Yorker sobre traficantes no Rio de Janeiro, a jornalista Ana Estela notou um erro no texto: em vez de chamar nossa moeda de ‘reais’, a revista americana a chamou de ‘reis’. A jornalista, então, pergunta: “não é nada que mude a vida de ninguém, claro. Mas imediatamente o leitor pensa: se erraram algo tão básico, como confiar no resto?”. Imprecisões, mesmo pequenas, mesmo paralelas, corroem a matéria jornalística. E esse é o caso do artigo “Chico Buarque não gosta de Roda Viva“, publicado na Bravo! deste março. Ao falar de seu tema principal, a autora, Mariana Delfini, é levada a tratar das relações esquerda/direita no período pré e pós-ditadura — e, no que faz isso, induz o leitor a uma visão histórica errada.
Delfini escreve, sem citar fontes:

Roda Viva foi vítima de um espírito de época. Uma época estranha, em que direita e esquerda ainda não haviam conquistado o civilizado espaço da democracia para esgrimir suas teses – algo que felizmente acontece hoje – e se digladiavam de maneira tosca, apelando para o recurso dos pouco inteligentes: a violência. De um lado, o Partido Comunista do Brasil e outras forças autoritárias de esquerda pregavam e praticavam a luta armada — a qual não foi uma reação contra a ditadura, pois começou a ser preparada antes de 1964, ainda em tempos de democracia. De outro, uma ditadura que, como todo regime autoritário, perseguia os opositores com violência – e indiretamente encorajava grupelhos como o CCC, que barbarizavam por conta própria. Foi um tempo que não deixou saudade, em que guerreávamos uns contra os outros, como se fôssemos talibãs. (…)” [grifo nosso]

Primeiramente, chamar de “tempos de democracia” o período que antecedeu 1964 não encontra respaldo histórico. Caio Navarro de Toledo elucida alguns pontos:

Em toda nossa história republicana, o golpe contra as frágeis instituições políticas do país se constituiu em ameaça permanente. Seu fantasma rondou, em especial, os governos democráticos no pós-46; com maior intensidade, a partir dos anos 60. Assim, pode-se dizer que o governo Goulart nasceu, conviveu e morreu sob o espectro do golpe de Estado. (…)”

No pré-64, outras reivindicações políticas visavam o alargamento da democracia liberal vigente no país: entre elas, (…) a legalidade do Partido Comunista Brasileiro, posto fora da lei desde 1947. Embora alguns de seus membros conseguissem ser eleitos por outros partidos, embora tivesse lideranças em sindicatos, editasse revistas e semanários, o PCB não podia realizar seus encontros e reuniões senão de forma clandestina e sob permanente repressão policial. A inexistência do pluralismo ideológico-partidário no pré-64 se constituía, assim, numa séria deformação da democracia política no país. (…)”

Então, o que se caracteriza como “força autoritária de esquerda” nem sequer tinha espaço naquela chamada democracia. Aqui também acontece uma falta de critério ao não distinguir o Partido Comunista Brasileiro (PCB) do Partido Comunista do Brasil (PC do B). Antes a mesma agremiação, as duas partes divergiram em questões de doutrina e se separaram — sendo a segunda que daria origem a ações de guerrilha. A primeira, ao contrário do que sugere o texto quando diz que a luta armada era “pregada e praticada” antes de 1964, sustentava a transição pacífica do capitalismo ao socialismo: conceito que deu origem à divergência referida acima. Dos outros grupos de esquerda da época, só a Polop (que depois daria origem a vários grupos dissidentes) falava de luta armada, enquanto a Ação Popular (AP), embora mais oposicionista, ainda fazia parte do diálogo com o governo. 
Todas as informações do parágrafo acima se baseiam em dados das primeiras partes da dissertação O Partido Comunista do Brasil e o Movimento de Luta Armada nos Anos 60de Antonio Carlos Galdino. Outra referência é o artigo As Divergências da Esquerda Brasileira no Pré-1964, de Taiara Souto Alves.

Um expoente da extrema direita, Reinaldo Azevedo, em um esforço para, como ele diz, “apontar as mãos sujas de sangue” da esquerda, listou 119 vítimas desses movimentos extremistas, em quatro posts (1; 2; 3; 4). E, mesmo ele, só trouxe nomes depois de 1964, o que contraria mais uma vez a tese exposta no parágrafo da Bravo!. Em outro post, tratarei de por quê é particularmente importante citar Azevedo nesse caso. Mas, agora, vamos ao último grifo: “como se fossemos talibãs”.
De imediato, a comparação parece desnecessária e imprópria. Desnecessária porque não acrescenta nada ao texto. Imprópria porque coloca juntos dois contextos irreconciliáveis. Como informa a Nova Escola, as motivações do Taliban para tomar pela primeira vez o poder eram mais religiosas que políticas e seus objetivos atualmente são contra a influência de outros países e não contra um poder usurpador interno. Por outro lado, isso implica em afirmar que os dissidentes brasileiros eram terroristas de mesmo tipo. Tese não naturalmente aceita, como argumenta, neste textoCelso Lungaretti: “o direito de resistência à tirania [impede], tanto no caso de quem pegou em armas contra o nazifascismo na Europa como no caso de quem travou a luta armada contra o regime de exceção brasileiro de 1964/85, o enquadramento legal como terrorista”. Lungaretti também cita o jurista Monnerat Baptista, que diz:

Não se devem caracterizar os atos praticados contra a ditadura militar como crimes políticos ou de terrorismo. Até porque, de acordo com a definição do art. 2º da Lei 7.170/83, foram os golpistas de 1964, e não os insurgentes de esquerda, que subverteram a ordem constitucional vigente, estabelecendo, sob a égide da violência, do terror e do medo, uma nova ‘ordem’ político-institucional, sem qualquer salvaguarda dos princípios básicos atinentes à fundamentação da soberania democrática do Estado.

Não discuto quem está certo ou quem está errado, se são terroristas ou não. Só atento ao fato de que esse trecho de Delfini acaba por sustentar uma opinião a respeito dos movimentos de esquerda — e opinião pura (que é diferente de interpretação) é algo de que o jornalismo deve se afastar. Se há, por um lado, erro histórico, e, por outro, opinião, “como confiar no resto”?
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Cobertura Eleitoral e Tendência

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Publiquei no Observatório de Imprensa o artigo Edições em Campanha Política, um texto que compara a cobertura do Estado de S.Paulo das atividades dos presidenciáveis em 2010 Dilma Rousseff e José Serra. Pela enfoque diferenciado nas fotografias de um e outra, o resultado é uma clara preferência pelo candidato do PSDB. Eu escrevi:

O governador de São Paulo José Serra e o jornal O Estado de S.Paulo têm uma coisa em comum: ambos parecem estar em campanha, ambos pela Presidência, o segundo em defesa do primeiro. Na surdina. Contrapondo o modo pelo qual o Estadão representa Serra ao que usa para figurar Dilma Rousseff, podemos supor uma predileção pelo primeiro. A tendência se enxerga, neste artigo, pelo uso das fotos que ilustram as matérias e pela edição do todo. Poderá haver outras formas de argumentar o mesmo (ou o contrário), mas esse será o nosso meio de interpretação.

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Em meio à argumentação

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Às vezes, um comentário paralelo em meio à argumentação a favor de uma tese prejudica toda a tentativa. O episódio do termo “ditabranda” em um artigo da Folha de S.Paulo ano passado é prova disso — a alusão ao regime nem era mesmo necessária ao propósito geral do texto, mas eclipsou qualquer que fosse a ideia central dele e acarretou vários protestos contra o jornal. Creio que o editorial de 12/02 do Estadão erra pelo mesmo motivo.

É um artigo sobre a exoneração do general Maynard Marques de Santa Rosa do exército, por ter cometido uma indisciplina segundo as regras militares. Lá pelas tantas, o editorial comenta que o incidente é um “mais um subproduto do 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos”, e, no que lista as propostas do PNDH, diz:
“(…) o decreto postula a proibição da exibição de símbolos religiosos nos espaços públicos, a exigência de “audiência coletiva” prévia às concessões de liminares de reintegração de posse, o controle da imprensa por uma comissão governamental encarregada de colocar os veículos de comunicação num “ranking”- de obediência aos “direitos humanos”, a descriminalização do aborto, o casamento de homossexuais, a exigência de aprovação de comissões sindicais para as licenças ambientais – e outras extravagâncias. Essas ideias estapafúrdias foram geradas em um dos “fóruns sociais” com os quais certos setores do petismo radical pretendem implantar uma forma de democracia direta no País (…)” [grifo nosso]

Então, temos, em um estado laico, alguém dizendo que a proibição de símbolos religiosos em lugares públicos é uma “extravagância”. E que a descriminalização do aborto e o casamento de homossexuais (igualdade de todos perante a lei, onde?) são “ideias estapafúrdias”. 

Todo o parágrafo em que essas coisas são ditas é um tipo de digressão, não necessário para argumentar a favor da tese, que parece ser resumida nas últimas linhas: “a atual geração de militares está plenamente consciente do papel que as Forças Armadas exercem numa democracia. Atitudes como a do general Santa Rosa são pessoais e excepcionais”. O que foi isso? Um ataque do governo que caiu no exagero? Uso impensado das palavras?

E, depois, por que esse editorial não gerou qualquer protesto na blogosfera?